Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 51 de 55

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Americanah

Capítulo 51

 

Ifemelu sentiu-se apavorada na primeira vez em que foi ao banco, tendo de passar pelo segurança armado e pela porta giratória que bipava, ficando dentro do espaço fechado, selado e sem ar como um caixão vertical, até a luz mudar para verde. Será que os bancos sempre tiveram aquela segurança ostensiva? Antes de deixar os Estados Unidos, ela havia transferido um pouco de dinheiro para a Nigéria e o Bank of America a fez falar com três pessoas diferentes, cada uma dizendo que a Nigéria era um país de alto risco; se algo acontecesse com seu dinheiro, eles não se responsabilizariam. Ela entendia? A última mulher com quem Ifemelu falou a fez repetir a resposta. Senhora, sinto muito, mas não ouvi. Preciso que a senhora entenda que a Nigéria é um país de alto risco. “Eu entendo!”, disse ela. Eles leram advertência atrás de advertência e Ifemelu começou a temer por seu dinheiro, serpenteando pelo ar até a Nigéria, e preocupou-se ainda mais quando foi ao banco e viu as exageradas marcas da segurança na entrada. Mas o dinheiro estava a salvo em sua conta. Mas, quando entrou no banco, viu Obinze na seção de atendimento ao cliente. Estava de costas para ela, que soube, pela altura e pelo formato da cabeça, que era ele. Ifemelu estacou, sentindo um embrulho no estômago de apreensão e torcendo para que ele não se virasse até ela acalmar os nervos. Então ele se virou, e não era Obinze. Ela ficou com um aperto na garganta. Sua cabeça estava repleta de fantasmas. Ao voltar para o carro, ligou o ar-condicionado e decidiu ligar para ele, para se livrar dos fantasmas. O telefone tocou e tocou. Obinze era um homem importante agora; não ia, é claro, atender um telefonema de um número desconhecido. Ifemelu mandou uma mensagem: Teto, sou eu. Seu telefone tocou quase imediatamente.

“Alô? Ifem?” A voz que ela não ouvia fazia tanto tempo, e que soava tanto diferente quanto igual.

“Teto! Como você está?”

“Você voltou.”

“Sim.” As mãos dela estavam tremendo. Devia ter mandado um e-mail primeiro. Devia tagarelar, perguntar pela esposa e pela filha dele, contar que, na verdade, já tinha voltado havia algum tempo.

“Bom”, disse Obinze, esticando a palavra. “Como você está? Onde está? Quando posso te ver?”

“Que tal agora?”

A ousadia que muitas vezes surgia quando Ifemelu estava nervosa havia empurrado essas palavras para fora, mas talvez fosse melhor vê-lo logo e acabar com aquilo. Ela lamentou não ter se arrumado um pouco mais, talvez colocado seu vestido envelope preferido com o corte que emagrecia, mas sua saia na altura do joelho não era muito feia, o sapato de salto alto sempre a deixava mais confiante e seu afro, graças a Deus, ainda não tinha encolhido muito por causa da umidade.

Obinze fez uma pausa do outro lado da linha — talvez hesitando? — que a fez se arrepender de ter sido tão precipitada.

“Eu na verdade estou um pouco atrasada para uma reunião”, acrescentou Ifemelu depressa. “Mas só queria dizer oi e podemos nos encontrar em breve…”

“Ifem, onde você está?”

Ela disse que estava a caminho da Jazzhole para comprar um livro e que estaria lá em alguns minutos. Meia hora depois, estava parada diante da livraria quando um Range Rover preto estacionou e Obinze saiu do banco de trás.

 

Houve um momento, um ruir do céu azul, uma inércia entorpecente, em que nenhum dos dois soube o que fazer, Obinze caminhando na direção de Ifemelu, ela ali parada com os olhos apertados, e então ele estava diante dela e eles se abraçaram. Ifemelu deu-lhe tapinhas nas costas, um, dois, para fazer daquele um abraço de amigo, um abraço platônico e seguro de amigo, mas ele a puxou só um pouco para perto de seu corpo e a manteve ali por um instante a mais, como quem quisesse dizer que não era apenas um amigo.

“Obinze Maduewesi! Quanto tempo! Olhe só para você, não mudou nada.” Ifemelu estava afogueada e o tom mais agudo de sua voz a irritou. Obinze estava olhando-a, um olhar franco e sem reservas, que ela não conseguiu sustentar. Seus dedos tremiam sem controle, o que já era muito ruim, ela não precisava ainda por cima olhar nos olhos dele, ambos parados ali, no sol forte, expostos à fumaça do trânsito da rua Awolowo.

“É tão bom ver você, Ifem”, disse ele. Estava calmo. Ifemelu tinha esquecido como ele era uma pessoa calma. Ainda havia, em seu comportamento, traços de sua história de adolescência: aquele que não se esforçava demais, aquele que as meninas queriam e os meninos queriam ser.

“Você está careca”, disse ela.

Obinze riu. “Sim. Em grande parte, por escolha.”

Ele tinha ficado mais forte, deixado de ser o menino esguio da época da universidade e se tornado um homem mais carnudo e musculoso. Talvez por isso, parecia mais baixo do que Ifemelu lembrava. De salto alto, ela ficava maior que ele. Ifemelu não havia esquecido, mas lembrou de novo como ele era discreto, com seu jeans escuro simples, seus mocassins de couro, a maneira como entrou na livraria sem necessidade de dominar o lugar.

“Vamos nos sentar”, disse Obinze.

A livraria estava escura e fresca, com um clima soturno e eclético, livros, CDs e revistas dispostos em prateleiras baixas. Um homem parado ao lado da entrada assentiu para eles num gesto de boas-vindas enquanto ajustava seu imenso fone de ouvido. Eles se sentaram um diante do outro no minúsculo café que havia nos fundos e pediram suco. Obinze pôs seus dois celulares sobre a mesa; eles acendiam com frequência, vibrando no silencioso, e ele olhava para as telas e depois desviava o olhar. Obinze malhava, dava para ver pela firmeza de seu peito, sobre o qual estavam esticados os dois bolsos da frente de sua camisa justa.

“Você já voltou há um tempo?”, disse Obinze. Estava observando-a de novo e Ifemelu se lembrou de que, antigamente, muitas vezes sentia que ele podia ler sua mente, que sabia coisas sobre ela que ela própria podia não saber de forma consciente.

“Sim”, disse Ifemelu.

“Então você veio aqui comprar o quê?”

“O quê?”

“Que livro você queria comprar?”

“Na verdade, eu só queria encontrar você aqui. Achei que, se ver você de novo acabasse sendo algo de que eu quisesse me lembrar, então queria me lembrar de ter sido na Jazzhole.”

“Então queria se lembrar de ter sido na Jazzhole”, repetiu ele, sorrindo, como se apenas Ifemelu pudesse ter inventado aquela expressão. “Você continua honesta, Ifem. Graças a Deus.”

“Já acho que vou querer me lembrar disso.” O nervosismo dela estava se dissipando; eles haviam passado depressa pelos momentos de constrangimento necessários.

“Você precisa ir para algum lugar agora?”, perguntou Obinze. “Pode ficar um pouco?”

“Posso.”

Ele desligou os dois celulares. Era uma declaração rara, numa cidade como Lagos, para um homem como ele, dar-lhe sua total atenção. “Como está Dike? Como está tia Uju?”

“Estão ótimos. Ele está bem agora. Na verdade, veio me visitar aqui. Acabou de ir embora.”

A garçonete trouxe dois copos de suco de laranja com manga.

“O que a surpreendeu mais na sua volta?”, perguntou Obinze.

“Tudo, para ser sincera. Comecei a me perguntar se havia algo de errado comigo.”

“Ah, é normal”, disse ele, e ela lembrou como sempre fora rápido para reconfortá-la, fazer com que se sentisse melhor. “Fiquei muito menos tempo fora, obviamente, mas fiquei muito surpreso quando voltei. Ficava pensando que as coisas deviam ter me esperado, mas não tinham.”

“Eu tinha esquecido como Lagos é cara. Não acredito na quantidade de dinheiro que os ricos da Nigéria gastam.”

“A maior parte são ladrões ou mendigos.”

Ifemelu riu. “Ladrões ou mendigos.”

“É verdade. E eles não apenas gastam muito, como esperam gastar muito. Conheci um cara outro dia e ele me contou que tinha aberto uma empresa de antenas-satélite há vinte anos. Isso foi quando elas ainda eram novas neste país, por isso ele estava trazendo algo que a maioria das pessoas não conhecia. Ele fez um plano de negócios e chegou a um preço interessante que lhe daria um bom lucro. Outro amigo dele, que já era um homem de negócios e ia investir na empresa, viu o preço e pediu-lhe que o dobrasse. Se não fizesse isso, disse, os ricos da Nigéria não iam comprar o produto. Ele dobrou e deu certo.”

“Louco”, disse ela. “Talvez sempre tenha sido assim e nós não soubéssemos, porque não tínhamos como saber. É como se estivéssemos olhando para uma Nigéria adulta que não conhecíamos.”

“Sim.” Ele gostou de Ifemelu ter dito “nós”. Ela viu, e gostou que “nós” tivesse lhe saído tão facilmente da boca.

“É uma cidade tão transacional”, disse ela. “Deprimente de tão transacional. Até os relacionamentos, todos são transacionais.”

“Alguns relacionamentos.”

“Sim, alguns”, concordou Ifemelu. Eles estavam dizendo algo um para o outro que nenhum dos dois conseguia articular ainda. Como Ifemelu sentiu o nervosismo lhe subindo pelos dedos de novo, recorreu ao humor. “E há algo de bombástico na maneira como falamos que eu também tinha esquecido. Comecei a me sentir realmente em casa de novo quando comecei a ser bombástica!”

Obinze riu. Ifemelu gostava da risada silenciosa dele. “Quando voltei, fiquei chocado ao ver a rapidez com que meus amigos tinham todos ficado gordos, com enormes barrigas de chope. Pensei: O que está acontecendo? Então me dei conta de que eles são a nova classe média que nossa democracia criou. Tinham emprego e dinheiro para beber bem mais cerveja e comer fora, e você sabe que comer fora aqui é frango com batata frita, então todos ficaram gordos.”

O estômago de Ifemelu se contraiu. “Bom, se você prestar atenção, vai ver que não foram só seus amigos.”

“Ah, não, Ifem, você não está gorda. Está sendo muito americana em relação a isso. O que os americanos consideram gordo pode simplesmente ser normal. Você precisa ver meus amigos para entender do que estou falando. Lembra Uche Okoye? Even Okwudiba? Eles não conseguem nem abotoar a camisa agora.” Obinze fez uma pausa. “Você ganhou um pouco de peso que caiu bem. I maka.”

Ela sentiu-se tímida, de uma timidez agradável, ouvindo-o dizer que era linda.

“Você costumava brincar que eu não tinha bunda”, disse Ifemelu.

“Retiro o que disse. Na porta, esperei você entrar antes para poder olhar.”

Eles riram e então, após o riso morrer, ficaram em silêncio, sorrindo um para o outro na estranheza de sua intimidade. Ela lembrou como, quando levantava nua do colchão em que ele dormia em Nsukka, Obinze erguia os olhos e dizia: “Eu ia mandar você sacudir, mas não tem nada aí para sacudir”, e ela, brincando, dava-lhe um chute na canela. A clareza da lembrança, a pontada súbita de saudade que trouxe, deixou-a abalada.

“Mas por falar em surpresa, Teto”, disse Ifemelu. “Veja só você. Um homem importante de Range Rover. Ter dinheiro deve ter mudado muito as coisas.”

“É, acho que sim.”

“Seja sincero. Mudou como?”

“As pessoas tratam você de um jeito diferente. Não estou falando só dos estranhos. Os amigos também. Até minha prima Nneoma. De repente, todos puxam seu saco porque acham que é isso que você espera, toda essa educação exagerada, elogios exagerados, até respeito exagerado que você não fez por merecer de jeito nenhum, e é tão falso e berrante que parece um quadro feio e colorido demais, mas às vezes você mesmo começa a acreditar um pouco nisso e a se ver de outra maneira. Um dia fui a um casamento na minha aldeia e o mestre de cerimônias estava cantando umas músicas de louvor muito bobas quando entrei, e me dei conta de que estava andando de um jeito diferente. Não queria andar de um jeito diferente, mas estava fazendo isso.”

“Com um gingado?”, brincou ela. “Mostre o seu novo andar!”

“Você vai ter que cantar em meu louvor primeiro.” Obinze deu um gole no suco. “Os nigerianos podem ser tão servis. Somos um povo confiante, mas muito servil. Não é difícil para nós ser falso.

“Temos confiança, mas não dignidade.”

“Sim.” Ele olhou para Ifemelu, com reconhecimento nos olhos. “E se as pessoas não param de puxar seu saco desse jeito excessivo, você fica paranoico. Não sabe mais o que é honesto ou verdadeiro. E aí as pessoas se tornam paranoicas por você, mas de um jeito diferente. Meus parentes estão sempre me dizendo: ‘Cuidado com onde come’. Até aqui em Lagos meus amigos me dizem para tomar cuidado com o que como. Não coma na casa de uma mulher porque ela vai colocar algo em sua comida.”

“E você faz isso?”

“O quê?”

“Toma cuidado com o que come?”

“Não faria isso na sua casa.”

Uma pausa. Ele estava flertando abertamente e ela não soube bem o que dizer.

“Mas não”, continuou Obinze. “Gosto de pensar que, se quiser comer na casa de alguém, vai ser na de uma pessoa que não vai ter vontade de fazer macumba na minha comida.”

“Tudo isso parece muito desesperado.”

“Uma das coisas que aprendi é que todo mundo neste país tem a mentalidade da escassez. Imaginamos que até as coisas que não são escassas são escassas. E isso cria certo desespero em todos. Até nos ricos.”

“Os ricos como você”, brincou ela.

Obinze fez uma pausa. Com frequência, ele fazia uma pausa antes de dizer algo. Ifemelu achava isso encantador; era como se tivesse tal consideração por quem o ouvia que queria que suas palavras fossem combinadas da melhor maneira possível. “Gosto de pensar que não tenho esse desespero. Às vezes, me sinto como se o dinheiro que tenho não fosse realmente meu, como se estivesse guardando-o para outra pessoa durante algum tempo. Depois que comprei minha propriedade em Dubai — foi minha primeira propriedade fora da Nigéria — fiquei quase assustado, e quando disse a Okwudiba como me sentia, ele disse que eu era maluco e que devia parar de me comportar como se a vida fosse um dos romances que leio. Ficou tão impressionado com o que eu possuía e eu apenas senti que minha vida tinha se tornado essa camada de pretensão sobre pretensão, e comecei a pensar no passado de forma sentimental. Lembrava a época em que tinha ficado hospedado no primeiro apartamentinho de Okwudiba em Surulele e em como esquentávamos o ferro no fogão quando faltava luz. E em como o vizinho dele costumava gritar “Louvado seja Deus!” quando a luz voltava, e em como mesmo para mim havia algo de belo na luz voltando, quando aquilo está fora do seu controle, porque você não tem um gerador. Mas é uma visão romântica boba, porque é claro que eu não quero voltar para essa vida.”

Ifemelu desviou o olhar, temendo que a cascata de emoções que sentira enquanto ele estava falando convergisse em seu rosto. “É claro que não. Você gosta da sua vida”, disse.

“Eu vivo minha vida.”

“Ah, como você é misterioso.”

“E você, famosa blogueira, bolsista de Princeton, de que maneiras mudou?”, perguntou Obinze, sorrindo, inclinando-se para perto dela com os cotovelos sobre a mesa.

“Quando eu estava trabalhando de babá na época da faculdade, um dia me peguei dizendo para o menino de quem cuidava: ‘Descansar, soldado!’. Eu não poderia fazer uma brincadeira mais americana que essa.”

Obinze estava rindo.

“Foi então que pensei, sim, pode ser que eu tenha mudado um pouco”, disse ela.

“Você não tem sotaque americano.”

“Eu me esforcei para não ter.”

“Fiquei surpreso ao ler seu blog. Não parecia você falando.”

“Mas não acho que mudei tanto.”

“Ah, mudou”, disse ele, com uma certeza que desagradou a Ifemelu de imediato.

“Como?”

“Não sei. Você está mais acanhada. Talvez mais reservada.”

“Você fala como se fosse um tio decepcionado comigo.”

“Não.” Outra de suas pausas, mas dessa vez Obinze parecia não querer revelar demais. “Seu blog também me deixou orgulhoso. Eu pensei: ela foi, aprendeu e conquistou.”

Mais uma vez, Ifemelu se sentiu tímida. “Conquistar já é demais.”

“Sua estética mudou também”, disse ele.

“Como assim?”

“Você curava sua própria carne nos Estados Unidos?”

“O quê?”

“Li uma matéria sobre esse novo movimento entre as classes privilegiadas dos Estados Unidos. As pessoas querem beber leite direto da vaca, esse tipo de coisa. Achei que você tivesse entrado nisso, agora que usa uma flor no cabelo.”

Ela deu uma gargalhada.

“Mas, falando sério, me diga de que maneiras você mudou.” Ele usou um tom de brincadeira, mas Ifemelu ficou um pouco tensa com a pergunta; parecia estar perto demais de seu âmago vulnerável e reconfortante. Então ela disse, numa voz despreocupada: “Meu gosto, acho. Mal posso acreditar na quantidade de coisas que acho feias agora. Não suporto a maioria das casas desta cidade. Agora, sou uma pessoa que aprendeu a admirar vigas de madeira expostas”. Ifemelu revirou os olhos e ele sorriu por ela estar zombando de si mesma, um sorriso que, para ela, foi como um prêmio que queria sempre ganhar.

“É meio esnobe, na verdade”, acrescentou Ifemelu.

“É totalmente esnobe”, disse ele. “Eu costumava ser assim com os livros. Secretamente sentia que meu gosto era superior.”

“O problema é que eu nem sempre guardo segredo a respeito.”

Obinze riu. “Ah, nós sabemos disso.”

“Você disse que costumava ser assim. O que aconteceu?”

“O que aconteceu foi que eu cresci.”

“Ai”, disse ela.

Obinze não disse nada; ergueu de leve as sobrancelhas de uma maneira sardônica, o que queria dizer que ela teria de crescer também.

“O que você anda lendo?”, perguntou Ifemelu. “Tenho certeza de que leu todos os romances americanos já publicados.”

“Tenho lido muito mais não ficção, história e biografias. Sobre tudo, não só sobre os Estados Unidos.”

“O que houve, sua paixão acabou?”

“Percebi que podia comprar os Estados Unidos e o país perdeu o brilho. Quando tudo o que eu tinha era minha paixão, eles não me deram um visto, mas, com minha nova conta bancária, tirar um visto foi muito fácil. Já fui lá algumas vezes. Estava pensando em comprar uma propriedade em Miami.”

Ifemelu sentiu uma pontada; Obinze tinha visitado os Estados Unidos sem que ela soubesse.

“E o que você achou do país dos seus sonhos?”

“Eu me lembro de quando você foi a Manhattan pela primeira vez e me escreveu dizendo: ‘É maravilhoso, mas não é o paraíso’. Pensei nisso quando andei de táxi em Manhattan pela primeira vez.”

Ela também se lembrava de ter escrito isso, pouco antes de cortar o contato com ele, antes de empurrá-lo para trás de muitos muros. “A melhor coisa dos Estados Unidos é o espaço que o país nos dá. Gosto disso. Gosto do fato de acreditar no sonho. É uma mentira, mas você acredita e é tudo o que importa.”

Obinze olhou para o copo sobre a mesa, sem se interessar por sua filosofia, e Ifemelu se perguntou se o que tinha visto em seus olhos era ressentimento, se ele também estava lembrando como ela se afastara completamente dele. Quando ele perguntou “Você ainda fala com suas antigas amigas?”, Ifemelu achou que aquela era uma pergunta sobre de quem mais ela se afastara durante todos aqueles anos. Pensou se deveria abordar aquele assunto ou esperar que ele o fizesse. Ela deveria fazê-lo, devia isso a Obinze, mas um medo sem palavras a dominou, um medo de quebrar coisas delicadas.

“Com Ranyinudo, sim. E Priye. As outras agora são pessoas que costumavam ser minhas amigas. Mais ou menos como você e Emenike. Sabe, quando eu li seus e-mails, não fiquei surpresa por ele ter acabado daquele jeito. Sempre teve alguma coisa.”

Obinze balançou a cabeça e terminou de beber o suco; colocara o canudo de lado e passara a beber direto do copo.

“Uma vez eu estava com Emenike em Londres e ele estava caçoando de um cara com quem trabalhava, um nigeriano, por não saber como pronunciar o nome F-e-a-t-h-e-r-s-t-o-n-e-h-a-u-g-h. Ele pronunciou como se lê, da maneira como o cara tinha feito, o que obviamente era a maneira errada, e não falou da certa. Eu também não sabia pronunciar o nome, e ele sabia que eu não sabia, e passaram-se alguns minutos horríveis durante os quais ele fingiu que nós dois estávamos rindo do cara. Mas não estávamos, é claro. Emenike estava rindo de mim também. Lembro-me desse como sendo o momento em que me dei conta de que ele nunca tinha sido meu amigo.”

“Ele é um perdedor”, disse Ifemelu.

“Perdedor. Uma palavra muito americana.”

“É?”

Ele ergueu de leve as sobrancelhas, como se não fosse necessário afirmar o óbvio. “Emenike nunca mais entrou em contato comigo depois que fui deportado. Então, no ano passado, alguém deve ter lhe dito que eu tinha virado patrão e ele começou a me ligar.” Obinze disse “tinha virado patrão” numa voz que pingava zombaria. “Não parava de perguntar se podíamos fazer negócio juntos, esse tipo de besteira. Um dia eu lhe disse que gostava mais quando ele me desprezava, e ele não me ligou mais.”

“E Kayode?”

“Ainda nos falamos. Ele tem um filho com uma americana.”

Obinze olhou o relógio e pegou seus celulares. “Detesto isso, mas tenho que ir.”

“É, eu também.” Ela queria prolongar aquele momento, sentada em meio ao aroma dos livros, redescobrindo Obinze. Antes de entrarem cada um em seu carro, eles se abraçaram, ambos murmurando: “Foi tão bom ver você de novo”, e Ifemelu imaginou seu motorista e o dele observando aquilo com curiosidade.

“Eu ligo para você amanhã”, disse Obinze, mas ela mal havia se sentado no carro quando seu celular soltou um bipe mostrando uma nova mensagem de texto dele. Você pode almoçar amanhã? Ifemelu podia. Era um sábado e ela deveria perguntar por que Obinze não estaria com a mulher e a filha e iniciar uma conversa sobre o que exatamente os dois iam fazer, mas eles se conheciam havia muito tempo, tinham um elo muito forte, e aquilo não precisava significar que iam fazer qualquer coisa, ou que qualquer conversa fosse necessária, e assim ela abriu a porta quando ele tocou a campainha e ele entrou e admirou as flores na varanda, os lírios brancos que subiam dos vasos como cisnes.

“Passei a manhã lendo As Pequenas Redenções de Lagos. Devorando, na verdade”, disse Obinze.

Ifemelu ficou feliz. “O que achou?”

“Gostei do post sobre o Clube Nigerpolita. Mas é um pouco moralista.”

“Não sei bem como interpretar isso.”

“Como a verdade”, disse ele, erguendo de leve uma das sobrancelhas daquela maneira que tinha de ser um cacoete novo, pois ela não se lembrava de vê-lo fazendo isso no passado. “Mas é um blog fantástico. Corajoso e inteligente. Adorei o visual.” Ali estava ele de novo, passando-lhe segurança.

Ifemelu apontou para a propriedade ao lado. “Reconheceu?”

“Ah! Reconheci.”

“Achei que seria perfeito para o blog. Uma casa tão bonita que virou essa espécie de ruína magnífica. Além do mais, tem pavões no telhado.”

“Parece um pouco um tribunal. Sempre fico fascinado por casas antigas e as histórias que trazem.” Obinze puxou a grade de metal da varanda, como se quisesse verificar quão durável era, quão segura, e Ifemelu gostou de ele ter feito isso. “Alguém vai comprá-la em breve, demoli-la e construir um prédio cheio de apartamentos de luxo caros demais.”

“Alguém como você.”

“Quando comecei a trabalhar no setor imobiliário, pensei na hipótese de reformar casas velhas em vez de demoli-las, mas não fazia sentido. Os nigerianos não compram casas porque elas são antigas. Como um celeiro de moinho reformado de duzentos anos, sabe, o tipo de coisa da qual os europeus gostam. Isso não funciona aqui de jeito nenhum. Mas é claro que isso faz sentido, porque somos do Terceiro Mundo, e pessoas do Terceiro Mundo olham para a frente, nós gostamos que as coisas sejam novas, porque o que temos de melhor ainda está por vir, enquanto no Ocidente o melhor já passou, então eles têm de transformar esse passado num fetiche.”

“É impressão minha ou você agora está com a mania de fazer pequenos discursos?”, perguntou ela.

“É que é um alívio ter uma pessoa inteligente com quem conversar.”

Ifemelu desviou o olhar, imaginando se era uma referência à esposa de Obinze e desgostou dele por tê-la feito.

“Seu blog já tem muitos leitores”, disse ele.

“Tenho grandes planos para ele. Gostaria de viajar pela Nigéria e postar matérias sobre cada estado, com fotos e histórias de pessoas, mas preciso ir devagar no começo, estabelecê-lo, ganhar algum dinheiro com os anúncios.”

“Precisa de investidores.”

“Não quero seu dinheiro”, disse ela com um pouco de veemência demais, mantendo os olhos fixos no teto desabado da casa abandonada. Estava irritada com o comentário de Obinze sobre uma pessoa inteligente, porque era, tinha de ser, uma referência à esposa dele, e quis perguntar por que estava lhe dizendo aquilo. Por que se casara com uma mulher que não era inteligente se na primeira oportunidade se viraria e afirmaria isso?

“Olhe o pavão, Ifem”, disse Obinze gentilmente, como se sentisse a irritação dela.

Eles observaram o pavão sair de debaixo da sombra de uma árvore e fazer um voo lúgubre até seu poleiro favorito no telhado, onde ficou observando o reino decadente ali embaixo.

“Quantos são?”, perguntou Obinze.

“Um macho e duas fêmeas. Sempre torço para ver o macho fazendo a dança do acasalamento, mas nunca vi. Eles me acordam de manhã com seus gritos. Você já ouviu? Parece uma criança fazendo pirraça.”

O pescoço esguio do pavão se moveu de um lado para o outro e então, como se a tivesse escutado, ele piou, abrindo bem o pico e emitindo os sons da garganta.

“Você tinha razão quanto ao som”, disse Obinze, aproximando-se de Ifemelu. “Parece mesmo uma criança. Essa casa me lembra uma propriedade que tenho em Enugu. Uma casa antiga. Foi construída antes da guerra e comprei para demolir, mas decidi ficar com ela. É uma propriedade elegante e tranquila, com varandas grandes e velhos pés de jasmim-manga nos fundos. Estou redecorando o interior todo, então ela vai ficar bastante moderna por dentro, mas o lado de fora continua com a aparência antiga. Não ria, mas, quando vi a casa, pensei num poema.”

A maneira como disse “Não ria” tinha algo de infantil que fez Ifemelu sorrir para ele, um sorriso meio zombeteiro que também mostrava que ela gostava da ideia de uma casa que o fizera pensar num poema.

“Imagino que, um dia, quando fugir de tudo, vou viver lá”, disse Obinze.

“As pessoas realmente se tornam excêntricas quando ficam ricas.”

“Ou talvez todos nós sejamos excêntricos, só que não temos dinheiro para mostrar. Eu adoraria levar você para ver a casa.”

Ifemelu murmurou algo, uma vaga aquiescência.

O celular de Obinze estava tocando fazia algum tempo, emitindo um zumbido surdo e interminável em seu bolso. Ele finalmente o pegou, olhou-o e disse: “Desculpe, preciso atender”. Ela assentiu e foi para dentro do apartamento, imaginando se seria sua esposa.

Da sala, Ifemelu ouviu fragmentos da voz de Obinze, mais alta, mais baixa e então mais alta de novo, falando igbo. Quando ele entrou, seu maxilar estava um pouco contraído.

“Tudo bem?”, perguntou ela.

“É um menino da minha aldeia. Pago a escola dele, mas agora está com uma ideia louca de que pode me pedir qualquer coisa, e esta manhã me mandou uma mensagem dizendo que precisa de um celular e perguntando se posso mandar até sexta. Um menino de quinze anos. Imagine o desplante. Então começou a me ligar. Por isso, acabei de dar uma bronca nele e de dizer que também não vou mais pagar a escola, só para ver se ele fica com medo e toma juízo.”

“Ele é seu parente?”

“Não.”

Ifemelu aguardou, esperando que ele explicasse melhor.

“Ifem, eu faço o que é esperado dos ricos. Pago a escola de cem alunos da minha aldeia e da aldeia da minha mãe.” Obinze disse isso com uma indiferença constrangida; aquele não era um assunto que gostava de discutir. Ele estava parado diante de sua estante. “Que sala linda.”

“Obrigada.”

“Você mandou todos os seus livros para cá?”

“A maioria.”

“Ah. Derek Walcott.”

“Adoro. Finalmente consigo entender alguns poetas.”

“Estou vendo Graham Greene.”

“Comecei a ler por causa da sua mãe. Adoro O cerne da questão.”

“Comecei a ler esse livro depois de ela morrer. Queria amá-lo. Pensei que se eu puder amá-lo…” Obinze tocou o livro, deixando o resto da frase no ar.

A melancolia dele a comoveu. “É literatura da boa, o tipo de história que as pessoas ainda vão ler daqui a duzentos anos”, disse ela.

“Você fala igual à minha mãe.”

Obinze era familiar e não familiar ao mesmo tempo. Pela cortina aberta entrava um raio de luz em forma de lua crescente que atravessava a sala. Eles estavam diante da estante, e ela contando sobre a primeira vez em que finalmente lera O cerne da questão, ele escutando daquela sua maneira intensa, como se bebesse suas palavras. Estavam diante da estante, rindo ao se lembrar de quantas vezes a mãe dele tentara convencê-lo a ler aquele livro. E de repente estavam diante da estante se beijando. Um beijo doce no início, lábios contra lábios, e então suas línguas começaram a se tocar e Ifemelu sentiu-se amolecer nos braços dele. Obinze se afastou primeiro.

“Não tenho camisinha”, disse Ifemelu despudorada, deliberadamente despudorada.

“Não sabia que precisávamos de camisinha para almoçar.”

Ela deu-lhe um tapa de brincadeira. Seu corpo inteiro foi invadido por milhões de incertezas. Não quis encará-lo. “Uma menina limpa e cozinha pra mim, então tem cozido no freezer e arroz jollof na geladeira. Podemos almoçar aqui. Quer alguma coisa para beber?” Ifemelu se virou para a cozinha.

“O que aconteceu nos Estados Unidos?”, perguntou Obinze. “Por que você cortou o contato comigo daquele jeito?”

Ifemelu continuou a andar até a cozinha.

“Por que cortou o contato comigo daquele jeito?”, repetiu ele, muito sério. “Por favor, me diga o que aconteceu.”

Antes de Ifemelu se sentar diante dele em sua pequena mesa de jantar e lhe contar sobre o professor de tênis de olhos corruptos de Ardmore, na Pensilvânia, serviu suco de manga de caixa para os dois. Ela falou de pequenos detalhes do escritório do homem que ainda estavam em sua memória, as pilhas de revistas esportivas, o cheiro de mofo, mas, quando chegou à parte em que ele a levou até o quarto, disse apenas: “Eu tirei a roupa e fiz o que ele pediu. Não consegui acreditar quando fiquei molhada. Odiei aquele homem. E me odiei. Como me odiei. Senti como se tivesse, não sei, me traído”. Ela fez uma pausa. “E traído você.”

Durante muitos minutos Obinze não disse nada, com os olhos baixos, como se estivesse absorvendo a história.

“Não penso muito nisso”, acrescentou Ifemelu. “Eu lembro, mas isso não me absorve, não permito que me absorva. É tão estranho falar sobre isso agora. Parece um motivo idiota para jogar fora o que tínhamos, mas foi por isso, e, conforme mais tempo foi passando, cada vez sabia menos como consertar a situação.”

Obinze ainda estava em silêncio. Ifemelu olhou a caricatura emoldurada de Dike que estava pendurada em sua parede, mostrando as orelhas dele exageradamente pontudas, e se perguntou o que Obinze estava sentindo.

Finalmente, ele disse: “Nem consigo imaginar como você deve ter se sentido mal e como deve ter se sentido sozinha. Devia ter me contado. Queria tanto que tivesse me contado”.

Ifemelu ouviu as palavras dele como se fossem uma melodia e sentiu que estava com a respiração entrecortada, sorvendo o ar. Ela não ia chorar, era ridículo chorar depois de tanto tempo, mas seus olhos estavam se enchendo de lágrimas e havia uma pedra em seu peito e algo queimando sua garganta. As lágrimas faziam seus olhos coçarem. Ifemelu não emitiu nenhum som. Obinze pegou sua mão e eles ficaram de mãos dadas sobre a mesa. Entre eles, cresceu um silêncio, um silêncio ancestral que ambos conheciam. Ela estava dentro desse silêncio, e estava segura.