Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 15 de 55

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Capítulo 15

 

O homem era baixo, seu corpo uma massa de músculos, e o cabelo desbotado pelo sol havia começado a rarear. Ao abrir a porta ele olhou-a, avaliando-a sem piedade, e então sorriu e disse: “Entre. Meu escritório é no porão”. Ifemelu ficou arrepiada e uma inquietação surgiu dentro dela. Havia algo de venal no rosto de lábios finos dele; tinha o ar de um homem que conhecia bem a perversão.

“Sou um cara bastante ocupado”, disse ele, indicando uma cadeira no escritório minúsculo que cheirava levemente a mofo.

“Foi o que presumi pelo anúncio”, disse Ifemelu. Assistente pessoal mulher para professor de esportes ocupado de Ardmore, precisa ser comunicativa e saber lidar com o público. Ela sentou na cadeira, tensa, de repente se dando conta de que, por causa de um anúncio que lera no City Paper, agora estava sozinha com um estranho no porão de uma casa estranha nos Estados Unidos. Com as mãos enfiadas bem no fundo dos bolsos do jeans, ele andou de um lado para o outro com passos curtos e rápidos, falando sobre quanta gente queria contratá-lo como professor de tênis, e Ifemelu achou que talvez ele fosse tropeçar nas pilhas de revistas esportivas no chão. Ela sentiu-se tonta só de olhar para aquele homem. Falava com a mesma rapidez com que se movia, com uma expressão incrivelmente alerta; seus olhos permaneciam arregalados, sem piscar, durante tempo demais.

“Bom, o negócio é o seguinte. Tem duas vagas, uma para secretária e outra para ajuda no relaxamento. A vaga de secretária já foi preenchida. Ela começou ontem, estuda na Bryn Mawr, e vai passar o fim de semana inteiro organizando meus arquivos. Aposto que tenho uns cheques não depositados aqui em algum lugar.” Ele tirou uma das mãos do bolso para mostrar a escrivaninha bagunçada. “Agora, o que eu preciso é de ajuda no relaxamento. Se você quiser, o emprego é seu. Pago cem dólares com possibilidade de aumento, mas você trabalha quando for necessário, sem horário definido.”

Cem dólares, quase o suficiente para o aluguel de um mês, por dia. Ifemelu se remexeu na cadeira. “O que exatamente você quer dizer com ‘ajuda no relaxamento’?”

Ficou olhando para ele, esperando uma explicação. Começou a irritá-la pensar no quanto pagara pelo trem até o subúrbio.

“Olhe, você não é mais criança. Eu trabalho tanto que não consigo dormir. Não consigo relaxar. Não uso drogas, por isso achei que precisava de ajuda para relaxar. Você pode fazer uma massagem, me ajudar a relaxar, entendeu? Eu tinha uma pessoa que fazia isso, mas ela acabou de se mudar para Pittsburgh. É um trabalho ótimo, pelo menos ela achava. Ajudou a pagar os estudos.” Ifemelu percebeu que ele já tinha dito isso para muitas outras mulheres devido ao ritmo cadenciado com que as palavras saíam. Aquele não era um homem bom. Ela não sabia bem o que ele estava querendo dizer, mas fosse o que fosse, estava arrependida por ter ido.

Ifemelu se levantou. “Posso pensar e ligar para você?”

“Claro.” Ele deu de ombros, um movimento com o peso de uma irritação súbita, como se não pudesse acreditar que ela não visse a sorte que dera. Após levá-la até a porta, o homem fechou-a depressa, sem responder ao último “obrigada” de Ifemelu. Ela andou até a estação, lamentando-se pela passagem de trem. As árvores estavam explodindo de cor, com folhas vermelhas e amarelas que tingiam o ar de dourado, e ela pensou nas palavras que lera em algum lugar: O primeiro verde da natureza é ouro. O ar fresco, fragrante e seco, fez com que se lembrasse de Nsukka durante a época do harmatão e trouxe consigo uma pontada súbita de saudade, tão aguda e abrupta que encheu os olhos dela de lágrimas.

 

* * *

 

Toda vez que Ifemelu ia a uma entrevista de emprego ou ligava para algum lugar para falar de uma vaga, dizia a si mesma que aquele, finalmente, seria seu dia: dessa vez o emprego de garçonete, hostess ou babá seria seu, mas, no mesmo instante em que se desejava sorte, sentia uma sombra cada vez maior num canto de sua mente. “O que eu estou fazendo de errado?”, perguntou a Ginika, que lhe disse para ser paciente, não perder as esperanças. Ifemelu escreveu e reescreveu seu currículo, inventou que já trabalhara de garçonete em Lagos, colocou Ginika como uma empregadora de cujos filhos já tinha cuidado, deu o nome da senhoria de Wambui como referência e, a cada entrevista, dava sorrisos calorosos e apertos de mão firmes, tudo o que era sugerido no livro que lera sobre como fazer entrevistas de emprego nos Estados Unidos. Mas não surgia nem um emprego. Seria seu sotaque estrangeiro? Sua falta de experiência? Mas seus amigos africanos todos tinham empregos, e universitários viviam conseguindo trabalhar sem experiência. Certa vez, Ifemelu fora a um posto de gasolina na Chestnut Street e um mexicano grandalhão dissera, com os olhos fixos em seus seios: “Você veio por causa da vaga de vendedora? Pode trabalhar para mim de outro jeito”. E, então, com um sorriso, sem nunca deixar de ter malícia nos olhos, ele disse que a vaga já fora preenchida. Ela começou a pensar mais no demônio de sua mãe, a imaginar que podia haver o dedo dele ali. Somava e subtraía sem parar, determinando do que ia e do que não ia precisar, fazendo arroz e feijão toda semana e esquentando porções pequenas no micro-ondas para comer no almoço e no jantar. Obinze se ofereceu para lhe mandar algum dinheiro. Seu primo de Londres fora visitá-lo e lhe dera algumas libras. Ele podia trocar por dólares em Enugu.

“Como é que você vai me mandar dinheiro da Nigéria? Devia ser o contrário”, disse ela. Mas ele mandou assim mesmo, pouco mais de cem dólares num envelope cuidadosamente selado.

 

Ginika estava ocupada, trabalhando muitas horas no estágio e estudando para as provas da faculdade de direito, mas ligava sempre para saber como andava a busca de emprego e sempre falava num tom alegre, como quem queria empurrar a amiga na direção da esperança. “Eu trabalhei pra uma instituição de caridade de uma mulher, Kimberly, e ela me ligou para dizer que sua babá vai sair e então está procurando alguém. Falei de você e ela quer te conhecer. Se ela te contratar, vai pagar em dinheiro sem declarar nada, então você não vai ter de usar aquele nome falso. Que horas acabam as aulas amanhã? Posso passar aí e te levar na entrevista.”

“Se eu conseguir esse emprego, vou dar o salário do primeiro mês para você”, disse Ifemelu, e a amiga riu.

Ginika estacionou na alameda circular que dava numa casa cuja riqueza era ostensiva, com uma soberba fachada de pedra e quatro pilares brancos imponentes na entrada. Kimberly abriu a porta da frente. Ela era esguia e sem curvas, e ergueu ambas as mãos para tirar os espessos cabelos dourados da frente do rosto, como se fosse impossível para apenas uma delas dar conta de todas aquelas madeixas.

“Que prazer conhecer você”, disse para Ifemelu, sorrindo, quando a cumprimentou com uma mãozinha ossuda e frágil. Com seu suéter dourado marcando uma cintura surrealmente pequena, seu cabelo dourado e sua sapatilha dourada, ela parecia improvável como a luz do sol.

“Essa é minha irmã Laura, que veio fazer uma visita. Bem, nós nos visitamos quase todos os dias! Laura vive praticamente aqui do lado. As crianças estão em Poconos até amanhã, com minha mãe. Achei que seria melhor fazer isso com elas viajando, de qualquer maneira.”

“Oi”, disse Laura. Ela era tão magra, reta e loura quanto Kimberly. Ao descrevê-las para Obinze, Ifemelu diria que Kimberly parecia um minúsculo pássaro de ossos bem finos, fáceis de esmagar, enquanto Laura lembrava um falcão, de bico afiado e mente sombria.

“Olá, sou Ifemelu.”

“Que nome lindo”, disse Kimberly. “Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.” Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que “cultura” é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo “rica”. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma “cultura rica”.

“Eu não sei o que significa”, disse Ifemelu, sentindo, sem precisar ver, a expressão levemente divertida no rosto de Ginika.

“Quer um chá?”, perguntou Kimberly, indo até uma cozinha de cromados brilhantes, granitos e espaços vazios que indicavam opulência. “Sempre tomamos chá, mas é claro que temos outras opções.”

“Um chá seria ótimo”, disse Ginika.

“E você, Ifemelu? Sei que estou destruindo seu nome com minha pronúncia, mas é realmente um nome lindo. Lindo mesmo.”

“Não, você disse direitinho. Aceito uma água ou um suco de laranja, por favor.” Ifemelu mais tarde se daria conta de que Kimberly usava a palavra “lindo” de uma maneira peculiar. “Vou encontrar minha amiga linda do mestrado”, dizia ela, ou: “Estamos trabalhando com essa mulher linda no projeto para o centro da cidade”, e as mulheres a quem se referia sempre acabavam sendo pessoas de aparência nada extraordinária, mas negras. Um dia, mais para o fim do inverno, quando ela estava com Kimberly naquela mesa enorme da cozinha, tomando chá e esperando que as crianças chegassem de um passeio com a avó, Kimberly disse: “Ah, olhe que mulher linda”, e apontou para uma modelo sem graça numa revista, cuja única característica diferente era uma pele muito escura. “Ela não é incrível?”

“Não é, não.” Ifemelu fez uma pausa. “Sabe, você pode simplesmente dizer que uma pessoa é negra. Nem toda pessoa negra é linda.”

Kimberly ficou surpresa. Algo para o qual não tinha palavras se espalhou em seu rosto. Então ela sorriu, e Ifemelu depois consideraria aquele o momento em que tinham se tornado amigas de verdade. Naquele primeiro dia já tinha gostado de Kimberly, com sua beleza quebrável, seus olhos azuis repletos da expressão que Obinze muitas vezes usava para descrever as pessoas de quem gostava: obi ocha. Um coração limpo. Kimberly fez perguntas a Ifemelu sobre sua experiência com crianças, ouvindo com atenção, como se o que quisesse ouvir fosse aquilo que não seria dito em voz alta.

“Ela não fez curso de primeiros-socorros, Kim”, disse Laura. “Você estaria disposta a fazer um? É muito importante para quem vai cuidar de crianças.”

“Claro.”

“Ginika disse que você se mudou da Nigéria porque os professores universitários vivem em greve lá, é isso?”, perguntou Kimberly.

“Isso.”

Laura assentiu com ar de quem compreendia bem. “É horrível como as coisas estão na África.”

“O que você achou dos Estados Unidos até agora?”

Ifemelu falou da vertigem que teve a primeira vez que foi ao supermercado; foi até a seção dos cereais, querendo comprar flocos de milho simples, que era o que estava acostumada a comer na Nigéria, mas subitamente foi confrontada por cem tipos diferentes de cereal, num turbilhão de cores e imagens, e teve que controlar uma zonzeira. Contou essa história porque achou que era engraçada; um apelo inofensivo ao ego americano.

Laura riu. “Dá para entender por que você ficou tonta!”

“É, adoramos excesso neste país”, disse Kimberly. “Aposto que no seu você comia vários alimentos e vegetais orgânicos maravilhosos, mas vai ver que aqui é diferente.”

“Kim, se ela estava comendo toda essa comida orgânica maravilhosa na Nigéria, por que veio para os Estados Unidos?”, perguntou Laura. Quando as duas eram crianças, Laura devia ter assumido o papel da irmã mais velha que expunha a tolice da mais nova, sempre num tom gentil e alegre e, de preferência, diante de parentes adultos.

“Bom, mesmo que eles tivessem pouca coisa para comer, só estou dizendo que devia ser tudo orgânico, nada dessa comida maluca que temos aqui”, disse Kimberly. Ifemelu sentiu, entre elas, a presença de espinhos afiados flutuando no ar.

“Você não falou da televisão para ela”, disse Laura, que então se voltou para Ifemelu. “Os filhos da Kim só veem televisão na companhia de adultos, e só o canal educativo. Se ela contratar você, vai ter de estar completamente presente e monitorar tudo, principalmente com Morgan.”

“Tudo bem.”

“Eu não tenho babá”, disse Laura, aquele “eu” brilhando com enfática superioridade. “Sou mãe em tempo integral, superenvolvida. Achei que ia voltar a trabalhar quando Athena fez dois anos, mas não consegui suportar a ideia de me separar dela. Kim também é superenvolvida, mas às vezes está ocupada, faz um trabalho maravilhoso com a instituição de caridade dela e por isso eu sempre me preocupo com as babás. A última, Martha, era maravilhosa, mas nos perguntávamos se a que veio antes, como era mesmo o nome dela?, deixava Morgan assistir a programas que não eram apropriados. Minha filha não vê televisão. Acho que tem violência demais. Pode ser que a deixe assistir a alguns desenhos animados quando for mais velha.”

“Mas os desenhos animados também têm violência”, disse Ifemelu.

Laura pareceu irritada. “Mas é desenho. As crianças ficam traumatizadas quando veem a coisa de verdade.”

Ginika olhou de soslaio para Ifemelu, um olhar de cenho franzido que dizia: Deixe para lá. Quando estava no ensino fundamental, Ifemelu vira o pelotão de fuzilamento que havia matado Lawrence Anini, fascinada pelas mitologias em torno dos roubos à mão armada feitos por ele, pela maneira como escrevia cartas de advertência para os jornais, alimentava os pobres com o que roubava, virava ar quando a polícia chegava. Sua mãe dissera: “Vá lá para dentro, criança não pode ver isso”, mas sem muita convicção, e só depois de Ifemelu já ter visto a maior parte do fuzilamento. O corpo de Anini amarrado grosseiramente a um poste, contorcendo-se conforme as balas o atingiam, antes de tombar sobre o emaranhado de cordas. Ela se lembrou daquilo, de como a imagem a assombrara e ao mesmo tempo parecera comum.

“Deixe-me mostrar a casa para você, Ifemelu”, disse Kimberly. “Eu falei certo?”

Elas passaram por todos os cômodos — o quarto da filha com paredes cor-de-rosa e uma colcha de babados na cama, o quarto do filho com uma bateria, a sala com um piano cuja tampa de madeira estava repleta de fotos da família.

“Tiramos essa na Índia”, disse Kimberly. Eles estavam de pé ao lado de um riquixá, de camiseta, Kimberly com o cabelo dourado preso num rabo de cavalo, seu marido alto e esguio, seu filho pequeno de cabelos louros e sua filha um pouco mais velha, de cabelos ruivos, todos segurando garrafas de água e sorrindo. Estavam sempre sorrindo nas fotos que tiravam, velejando, fazendo trilha e visitando lugares turísticos, sempre se abraçando, repletos de braços e pernas relaxados e dentes brancos. Faziam Ifemelu se lembrar de comerciais de televisão, de pessoas cuja vida sempre acontecia sob luzes que as deixavam mais bonitas, pessoas de quem até mesmo a bagunça era agradável esteticamente.

“Algumas das pessoas que conhecemos não tinham nada, absolutamente nada, mas eram tão felizes”, disse Kimberly. Ela pegou uma fotografia na parte de trás do piano, cheio delas, mostrando sua filha com duas mulheres indianas, de pele escura e cheia de rugas, sorriso com dentes faltando. “Essas mulheres eram maravilhosas”, disse.

Ifemelu também aprenderia que, para Kimberly, os pobres eram desprovidos de culpa. A pobreza era reluzente. Ela não podia conceber que pessoas pobres fossem perversas ou más, pois sua pobreza as canonizara, e os maiores santos eram os pobres de outros países.

“Morgan adora isso, é nativo-americano. Mas Taylor diz que dá medo!” Kimberly apontou para uma pequena escultura em meio às fotografias.

“Ah.” Ifemelu de repente não lembrou qual era o menino e qual era a menina; ambos os nomes, Morgan e Taylor, pareciam sobrenomes.

O marido de Kimberly chegou em casa pouco antes de Ifemelu ir embora.

“Olá! Olá!”, disse ele, deslizando para dentro da cozinha, alto, bronzeado, cheio de táticas. Ao ver os fios longos com ondulações quase perfeitas que batiam na gola da camisa dele, Ifemelu imaginou que cuidava com grande zelo de seus cabelos.

“Você deve ser a amiga de Ginika, da Nigéria”, disse ele, sorrindo, transbordando consciência de seu próprio charme. Olhava as pessoas nos olhos não por estar interessado nelas, mas porque sabia que assim elas sentiam que ele estava interessado nelas.

Com a chegada dele, Kimberly ficou um pouco sem ar. Sua voz mudou; ela passou a falar no tom agudo de uma mulher forçando feminilidade. “Don, querido, você chegou mais cedo”, disse, beijando-o.

Ele olhou nos olhos de Ifemelu e contou que quase fora à Nigéria logo depois de Shagari ser eleito, quando trabalhava como consultor para uma agência de desenvolvimento internacional, mas a viagem foi cancelada no último minuto e ele sempre lamentara isso, pois torcera para ver um show do Fela num templo. Mencionou Fela de forma casual, íntima, como se fosse algo que eles tinham em comum, um segredo que compartilhavam. Em sua maneira de contar uma história havia a expectativa de uma sedução bem-sucedida. Ifemelu observou-o, falando pouco, recusando-se a cair em sua armadilha e sentindo uma estranha pena de Kimberly. Imagine ter que aturar uma irmã como Laura e um marido assim.

“Don e eu ajudamos uma instituição de caridade muito boa do Malaui, aliás Don ajuda muito mais que eu.” Kimberly olhou para ele, que fez uma cara irônica e disse: “Bem, nós fazemos o que podemos, mas sabemos muito bem que não somos messias”.

“Devíamos planejar uma visita. É um orfanato. Nunca fomos à África. Adoraria organizar alguma atividade da minha instituição lá.”

O rosto de Kimberly assumira uma expressão mais suave, seus olhos tinham ficado úmidos, e, por um instante, Ifemelu lamentou ter vindo da África e ser o motivo pelo qual aquela mulher linda, com seus dentes esbranquiçados e seu cabelo farto, teve de procurar tão lá no fundo aquela piedade, aquela falta de esperança. Deu um sorriso alegre, esperando que isso fizesse Kimberly se sentir melhor.

“Vou entrevistar mais uma pessoa e depois entro em contato com você, mas acho que se encaixa muito bem conosco”, disse Kimberly, levando Ifemelu e Ginika até a porta da frente.

“Obrigada”, disse Ifemelu. “Adoraria trabalhar para você.”

No dia seguinte, Ginika ligou e deixou um recado com uma voz triste. “Ifem, sinto muito mesmo. Kimberly contratou outra pessoa, mas disse que não vai se esquecer de você. Alguma coisa vai dar certo em breve, não se preocupe demais. Ligo para você mais tarde.”

Ifemelu quis atirar o telefone longe. Não vai se esquecer de você. Por que Ginika se daria ao trabalho de repetir uma expressão tão vazia: “Não vai se esquecer de você”?

 

Era o fim do outono, as árvores pareciam ter criado chifres, folhas secas às vezes entravam no apartamento e o aluguel tinha vencido. Os cheques de suas colegas de apartamento estavam sobre a mesa da cozinha, um sobre o outro, todos cor-de-rosa com flores nas bordas. Ifemelu achou desnecessariamente decorativo que houvesse cheques floridos nos Estados Unidos; aquilo quase tirava sua seriedade. Ao lado deles estava um bilhete na letra infantil de Jackie: Ifemelu, o aluguel já está quase uma semana atrasado. Se ela fizesse o cheque, não ia sobrar nada em sua conta. Um dia antes de ela ir embora de Lagos, sua mãe lhe dera um pequeno frasco da marca Mentholatum para passar nos lábios, dizendo: “Ponha isso na mala para quando sentir frio”. Ifemelu remexeu a bagagem procurando por ele, abriu-o e cheirou-o, passando um pouco embaixo do nariz. O cheiro a fez sentir vontade de chorar. A secretária eletrônica estava piscando, mas Ifemelu não queria ouvir o recado porque seria apenas outra variação do último deixado por tia Uju. “Alguém ligou para você? Já tentou no McDonald’s e no Burger King aí perto? Eles nem sempre põem anúncios no jornal, mas pode ser que estejam precisando de gente. Não posso te mandar nada até o mês que vem. Minha conta também está vazia, vou te dizer, ser médica-residente é trabalho escravo.”

Havia jornais espalhados pelo chão com anúncios de empregos circulados à caneta. Ifemelu pegou um e folheou, vendo anúncios que já lera. Mais uma vez, a seção de ACOMPANHANTES chamou sua atenção. Ginika dissera: “Esqueça esse negócio de acompanhante. Eles dizem que não é prostituição, mas é, e o pior é que você recebe um quarto do que ganha, se tanto, porque a agência fica com o resto. Conheço uma menina que fez isso no primeiro ano de faculdade”. Ifemelu leu o anúncio e, de novo, pensou em ligar, mas não ligou, porque estava torcendo para que a última entrevista que tinha feito, para uma vaga de garçonete num pequeno restaurante que não pagava salário, só repassava as gorjetas, desse resultado. Disseram que iam ligar até o fim do dia caso o emprego fosse dela; esperou até bem tarde, mas não ligaram.

 

E então o cachorro de Elena comeu seu bacon. Ifemelu havia aquecido uma fatia numa folha de papel toalha, colocado sobre a mesa e se virado para abrir a geladeira. O cachorro engoliu o bacon e o papel toalha. Ela olhou para o espaço vazio onde seu bacon estivera e depois para o cachorro, que estava com uma expressão presunçosa, e todas as frustações de sua vida fervilharam em sua cabeça. Um cachorro comendo seu bacon, um cachorro comendo seu bacon e ela sem um emprego.

“Seu cachorro acabou de comer meu bacon”, disse ela para Elena, que estava fatiando uma banana do outro lado da cozinha e deixando as rodelas cair em sua tigela de cereal.

“Você é que odeia meu cachorro.”

“Ele devia ser mais bem treinado. Não devia roubar a comida das pessoas da mesa da cozinha.”

“Não vai fazer um vodu para matar meu cachorro.”

“O quê?”

“Tô brincando!”, disse Elena. Ela estava dando um sorrisinho superior, seu cão abanava o rabo e Ifemelu sentiu ácido nas veias; aproximou-se de Elena com a mão erguida, pronta para acertar seu rosto, mas se controlou com um tranco, parou, virou-se e foi para o andar de cima. Sentou na cama e apertou os joelhos contra o peito, abalada com a própria reação, com a rapidez com que sua fúria surgira. Lá embaixo, Elena estava gritando ao telefone: “Juro por Deus, a piranha tentou me bater!”. Ifemelu tinha sentido vontade de dar uma bofetada em sua colega dissoluta não porque o cachorro dela comera seu bacon, mas porque estava em guerra com o mundo e acordava todos os dias sentindo-se machucada, imaginando uma horda de pessoas sem rosto que estavam todas contra ela. O fato de não conseguir visualizar o futuro a aterrorizava. Quando seus pais ligaram e deixaram um recado, ela armazenou-o, imaginando se aquela seria a última vez que ouviria a voz deles. Estar ali, vivendo no exterior, sem saber quando ia poder voltar para casa, era ver o amor se transformar em ansiedade. Se Ifemelu ligava para a amiga de sua mãe, tia Bunmi, e o telefone tocava e ninguém atendia, ela entrava em pânico, temendo que seu pai tivesse morrido e tia Bunmi não soubesse como contar.

 

Mais tarde, Allison bateu em sua porta. “Ifemelu? Só queria lembrar que seu cheque para o aluguel não está na mesa. Já está atrasado.”

“Eu sei. Estou fazendo o cheque.” Ela estava deitada na cama de barriga para cima. Não queria ser a menina que tinha problemas para pagar o aluguel. Odiava o fato de que Ginika pagara suas compras de supermercado na semana anterior. Ouviu Jackie gritando de lá de baixo: “O que é que a gente vai fazer? Não somos os pais dela, porra”.

Ifemelu pegou o talão. Antes de fazer o cheque, ligou para tia Uju para falar com Dike. Então, munida com o frescor da inocência dele, ligou para o professor de tênis de Ardmore.

“Quando é que eu posso começar?”, perguntou.

“Quer passar aqui agora?”

“Tudo bem.”

Ela raspou as axilas e procurou o batom que não usava desde o dia em que deixara Lagos, quando a maior parte do que tinha na boca havia ficado no pescoço de Obinze na despedida no aeroporto. O que ia acontecer com o professor de tênis? Ele tinha falado em “massagem”, mas seus modos, seu tom, pingavam insinuações. Talvez ele fosse um daqueles homens brancos estranhos sobre os quais Ifemelu lera, com gostos estranhos, que queriam que as mulheres passassem uma pena em suas costas ou urinassem neles. Ela faria aquilo sem problemas, urinar num homem por cem dólares. A ideia divertiu-a e Ifemelu deu um pequeno sorriso irônico. O que quer que acontecesse, ela chegaria com sua melhor aparência e deixaria claro que havia limites que não ultrapassaria. Logo no início, ela diria: “Se você está esperando sexo, nada feito”. Ou talvez falasse de forma mais delicada, mais sugestiva. “Não me sinto confortável indo longe demais.” Talvez estivesse imaginando coisas; talvez ele só quisesse uma massagem.

Quando Ifemelu chegou à casa do homem, ele se comportou de maneira brusca. “Vamos lá para cima”, disse, indo na direção do quarto, onde havia apenas uma cama e uma enorme pintura de uma lata de sopa de tomate na parede. Ofereceu-lhe algo para beber, de um modo automático que indicava que esperava uma recusa, e então tirou a camisa e deitou na cama. Não haveria nenhum preâmbulo? Ifemelu lamentou que não tivesse feito as coisas um pouco mais devagar. Estava sem palavras.

“Venha aqui”, disse ele. “Preciso me esquentar.”

Era melhor ir embora. O equilíbrio de forças pendia para o lado dele, desde o instante em que ela entrara na casa. Era melhor ir embora. Ifemelu ficou de pé.

“Não vou conseguir fazer sexo”, disse ela. Sua voz pareceu aguda, insegura. “Não vou conseguir fazer sexo com você”, repetiu.

“Ah, não. Eu não espero que faça”, disse o homem depressa demais.

Ifemelu caminhou devagar na direção da porta, conjecturando se estaria trancada, se ele a trancara, e então imaginando se ele tinha uma arma.

“Venha para cá e se deite”, disse ele. “Venha me esquentar. Vou tocar um pouco você, mas não vai ser nada que te deixe constrangida. Só preciso de um pouco de contato humano para relaxar.”

Havia, na expressão e no tom de voz do homem, uma segurança completa. Ela se sentiu derrotada. Como era sórdido tudo aquilo, o fato de estar ali com um estranho que já sabia que ela ia ficar. Sabia que ia ficar pelo fato de ter ido. Já estava ali, já fora maculada. Ifemelu tirou os sapatos e deitou na cama dele. Não queria estar ali, não queria o dedo dele se movendo entre suas pernas, não queria ouvir os suspiros e gemidos dele em seus ouvidos, mas sentiu seu corpo despertando numa excitação nauseante. Depois, ficou imóvel, enrodilhada e dormente. O homem não a forçara. Ela tinha vindo por conta própria. Tinha deitado naquela cama e, quando ele colocou sua mão entre as pernas dele, enroscou-se e moveu os dedos. Agora, mesmo depois de ter lavado as mãos, que seguravam a nota nova e fininha de cem dólares que o homem lhe dera, seus dedos ainda pareciam grudentos; não pertenciam mais a ela.

“Você pode vir duas vezes por semana? Pago sua passagem de trem”, disse ele se espreguiçando num tom de fim de conversa; queria que ela fosse embora.

Ifemelu não disse nada.

“Feche a porta”, disse o homem, virando as costas para ela.

Ela andou até o trem, sentindo-se pesada e lenta, com a mente entupida de lama. Sentou-se ao lado da janela e começou a chorar. Sentiu-se como uma bolinha, sozinha e à deriva. O mundo era um lugar tão, tão grande, e ela era tão pequena, tão insignificante, sendo jogada de um lado para o outro, vazia. Quando chegou ao apartamento, lavou as mãos com uma água tão quente que lhe escaldou os dedos e um pequeno pedaço de carne viva surgiu em seu polegar, vermelho como uma flor. Ifemelu tirou todas as roupas e amassou-as até formar uma bola compacta que atirou num canto e para a qual ficou olhando durante algum tempo. Nunca voltaria a usar aquelas roupas, nem a tocar nelas. Ficou sentada na cama, nua, observando sua vida, aquele quarto minúsculo com o carpete mofado, a nota de cem sobre a mesa, o corpo contorcido numa ânsia. Não devia ter ido lá. Devia ter ido embora. Queria tomar uma ducha, esfregar a pele, mas não podia suportar a ideia de tocar o próprio corpo, e por isso vestiu a camisola com cuidado, para encostar o mínimo possível em si mesma. Imaginou-se arrumando as malas, comprando uma passagem de alguma maneira e voltando para Lagos. Enroscou-se na cama e chorou, desejando poder colocar sua mão dentro de si mesma e arrancar a lembrança do que tinha acabado de acontecer. A luz da secretária eletrônica estava piscando. Devia ser Obinze. Ifemelu não suportou pensar nele naquele momento. Pensou em ligar para Ginika. Por fim, ligou para tia Uju.

“Fui fazer um trabalho para um homem no subúrbio hoje. Ele me pagou cem dólares.”

“Ê? Que bom. Mas você precisa continuar a procurar alguma coisa permanente. Acabei de descobrir que vou ter de pagar um plano de saúde para Dike, porque o que o hospital novo de Massachusetts oferece não presta, não cobre meu filho. Ainda estou em choque depois de saber quanto vou ter de pagar.”

“Você não vai me perguntar o que fiz, tia? Não vai me perguntar o que fiz antes de o homem me dar cem dólares?”, perguntou Ifemelu, com uma raiva que surgiu dominando-a, esmigalhando seus dedos e fazendo-os tremer.

“O que você fez?”, perguntou tia Uju, indiferente.

Ifemelu desligou. Apertou Novas Mensagens em sua secretária eletrônica. A primeira era de sua mãe, falando rápido para diminuir o custo da ligação. “Ifem, como você está? Estamos ligando para saber como andam as coisas. Faz tempo que não liga. Por favor, mande uma mensagem. Nós estamos bem. Deus te abençoe.”

Então veio a voz de Obinze, suas palavras flutuando no ar e para dentro da cabeça de Ifemelu. “Eu te amo, Ifem”, disse ele no fim, naquela voz que subitamente pareceu tão distante, parte de outra época e outro lugar. Ela ficou deitada na cama, tensa. Não conseguia dormir, não conseguia se distrair. Começou a pensar em matar o professor de tênis. Golpearia a cabeça dele com um machado diversas vezes. Enfiaria uma faca em seu peito musculoso. O homem morava sozinho, provavelmente chamava outras mulheres para entrar em seu quarto e abrir as pernas para que ele enfiasse seu dedo curto com a unha roída. Ninguém saberia qual delas tinha cometido o crime. Ifemelu deixaria a faca enfiada no peito dele e procuraria em suas gavetas pelo maço de notas de cem dólares, para pode pagar o aluguel e a mensalidade.

Naquela noite nevou. Era a primeira vez que Ifemelu via neve, e ela observou o mundo pela janela, os carros estacionados cobertos, deformados, pelas camadas de neve. Estava inerte, distante, flutuando num mundo onde a escuridão surgia cedo demais e todos andavam vergados pelo peso dos casacos e achatados pela ausência de luz. Os dias escoavam, o ar frio se transformou num ar gelado, doloroso de respirar. Obinze ligou muitas vezes, mas ela não atendeu. Apagou as mensagens dele sem ouvir e os e-mails dele sem ler, e sentiu-se afundando, afundando rápido, sem conseguir nadar até a superfície.

 

Ifemelu acordava entorpecida todas as manhãs, debilitada pela tristeza, assustada pelo dia interminável que tinha pela frente. Tudo tinha se tornado mais espesso. Fora engolida, estava perdida numa névoa viscosa, envolta em uma sopa de nada. Havia um abismo entre ela e o que deveria sentir. Não ligava para nada. Queria ligar, mas não sabia mais como; a habilidade de fazê-lo escapara da sua memória. Às vezes, acordava se debatendo, indefesa, e via, diante de si e atrás de si e por todo lado, uma completa falta de esperança. Sabia que não fazia sentido estar ali, estar viva, mas não tinha energia para pensar de forma concreta em como se matar. Ficava deitada na cama, lendo sem pensar em nada. Às vezes se esquecia de comer e às vezes esperava até meia-noite, quando suas colegas de apartamento estavam cada uma em seu quarto, para esquentar a comida, e foi deixando os pratos sujos debaixo da cama até que um mofo esverdeado surgiu, fofo, em torno dos resquícios oleosos do feijão com arroz. Muitas vezes, quando estava lendo ou comendo, sentia uma vontade avassaladora de chorar e as lágrimas vinham, os soluços machucando sua garganta. Ela tinha tirado o som do telefone. Não ia mais às aulas. Seus dias ficaram imóveis de silêncio e neve.

 

Allison estava dando pancadas em sua porta de novo. “Você está aí dentro? Telefone! Ela disse que é uma emergência, meu Deus! Eu sei que você está aí dentro, ouvi a descarga do banheiro um minuto atrás!”

As pancadas secas e surdas, como se Allison estivesse batendo na porta com a palma da mão e não com os nós dos dedos, irritaram Ifemelu. “Ela não quer abrir”, disse Allison, e então, justamente quando Ifemelu achou que tinha ido embora, as pancadas voltaram. Ifemelu se levantou da cama, onde estivera deitada, lendo dois romances alternadamente capítulo por capítulo, e foi na direção da porta com as pernas pesadas. Queria andar depressa, de maneira normal, mas não conseguia. Seus pés haviam se transformado em caramujos. Destrancou a porta. Com uma expressão furiosa, Allison enfiou o telefone em suas mãos.

“Obrigada”, disse Ifemelu sem energia. Acrescentou num murmúrio: “Desculpe”. Até mesmo falar, fazer as palavras subirem pela garganta e saírem pela boca, deixava Ifemelu exausta.

“Alô?”, disse ao telefone.

“Ifem! O que está acontecendo? O que você tem?”, perguntou Ginika.

“Nada.”

“Estava tão preocupada com você. Graças a Deus encontrei o telefone da sua colega! Obinze me ligou várias vezes. Ele está louco de preocupação”, disse Ginika. “Até tia Uju ligou para saber se eu tinha visto você.”

“Tenho estado ocupada”, disse Ifemelu vagamente.

Fez-se uma pausa. O tom de Ginika ficou mais suave. “Ifem, eu estou aqui, você sabe disso, não sabe?”

Ifemelu queria desligar e voltar para a cama. “Sei.”

“Tenho uma boa notícia. Kimberly me ligou para pedir seu telefone. A babá que tinha contratado acabou de ir embora. Ela quer contratar você. Quer que comece a trabalhar na segunda-feira. Disse que quis contratar você desde o início, mas Laura a convenceu a escolher a outra. Então, Ifem, você conseguiu um emprego! Pago em dinheiro! Sem declarar! Ifemsco, é maravilhoso. Ela vai pagar duzentos e cinquenta por semana, mais do que dava para a outra babá. E dinheiro vivo, sem pagar imposto! Kimberly é uma pessoa incrível. Vou aí amanhã buscar você para ir falar com ela.”

Ifemelu não disse nada, esforçando-se para compreender. As palavras demoravam a ganhar sentido.

No dia seguinte, Ginika bateu sem parar na porta até que ela finalmente abriu e viu Allison parada ali atrás no patamar da escada, observando a cena com curiosidade.

“A gente já está atrasada, vá se vestir”, disse Ginika com firmeza e autoridade, sem deixar espaço para discordância. Ifemelu pôs uma calça jeans. Ela sentiu que Ginika a fitava. No carro, o rock que Ginika gostava de ouvir preencheu o silêncio. Elas estavam na Lancaster Avenue, prestes a sair da parte oeste da Filadélfia, com prédios cercados por tapumes e embalagens de hambúrguer jogadas no chão, e entrar nos subúrbios imaculados e repletos de árvores da Main Line quando Ginika disse: “Acho que você está com depressão”.

Ifemelu balançou a cabeça e se virou para a janela. Depressão era algo que acontecia com os americanos, com sua necessidade egocêntrica de transformar tudo numa doença. Ela não estava com depressão; estava apenas um pouco cansada e um pouco lenta. “Não estou com depressão”, disse. Anos mais tarde, escreveria sobre isso no blog: “Sobre negros não americanos sofrendo de doenças cujo nome se recusam a saber”. Uma congolesa havia escrito um longo comentário em resposta: ela tinha se mudado de Kinshasa para a Virgínia e, quando já estava na faculdade fazia meses, começara a sentir tontura de manhã, o coração aos pulos como se estivesse tentando escapar do peito, o estômago embrulhado, os dedos dormentes. Foi ao médico. E mesmo tendo marcado “sim” em todos os sintomas descritos no cartão que ele tinha lhe dado, recusou-se a aceitar o diagnóstico de síndrome do pânico, porque síndrome do pânico era coisa de americano. Ninguém em Kinshasa tinha síndrome do pânico. Não era que chamassem aquilo de outro nome, não chamavam de nada. Será que as coisas só começavam a existir quando ganhavam um nome?

“Ifem, muita gente passa por isso, e eu sei que não tem sido fácil pra você se adaptar a um país novo sem ter um emprego. Não falamos de coisas como depressão na Nigéria, mas isso existe. Você devia consultar alguém no centro médico. Pode fazer terapia.”

Ifemelu manteve o rosto virado para a janela. Sentiu, mais uma vez, aquela vontade avassaladora de chorar e respirou fundo, torcendo para que passasse. Queria ter contado a Ginika sobre o professor de tênis, ter tomado o trem para o apartamento dela naquele dia, mas agora era tarde demais, o ódio que sentia por si mesma cristalizara dentro de Ifemelu. Jamais seria capaz de formar as frases para contar sua história.

“Ginika”, disse. “Obrigada.” Sua voz estava rouca. As lágrimas tinham chegado, e ela não conseguia controlá-las. Ginika parou num posto de gasolina, deu-lhe um lenço e esperou que seus soluços parassem antes de dar a partida no carro e dirigir até a casa de Kimberly.