Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 45 de 55

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Americanah

Capítulo 45

 

Ifemelu tinha visto o anúncio no site Nigerian Jobs Online — “redatora de conteúdo para grande revista feminina mensal”. Ela refez seu currículo, inventou um emprego como redatora de uma revista feminina (com “interrompida por falência” escrito entre parênteses) e, dias depois de tê-lo mandado por correio expresso, a editora da revista Zoe ligou de Lagos. Na voz madura e amigável do outro lado da linha, havia algo de inconveniente. “Ah, pode me chamar de tia Onenu”, disse ela alegremente quando Ifemelu perguntou quem era. Antes de oferecer o emprego a Ifemelu ela falou, num sussurro confidencial: “Meu marido não me apoiou quando fundei a revista, porque achou que os homens iam correr atrás de mim quando fosse buscar anunciantes”. Ifemelu sentiu que a revista era um hobby para tia Onenu, um hobby que significava algo, mas ainda assim um hobby. Não uma paixão. Não algo que a consumia. E, quando a conheceu, sentiu isso com mais força ainda: ali estava uma mulher de quem seria fácil gostar, mas difícil levar a sério.

Ifemelu foi com Ranyinudo à casa de tia Onenu em Ikoyi. Elas se sentaram em sofás de couro que eram frios ao tato e ficaram conversando em voz baixa até tia Onenu aparecer. Uma mulher esguia, sorridente e bem cuidada que vestia legging, uma camiseta larga e um mega-hair juvenil demais, com cabelos ondulados que lhe desciam até as costas.

“Minha nova redatora de conteúdo veio dos Estados Unidos!”, disse ela, abraçando Ifemelu. Era difícil dizer que idade tinha, qualquer coisa entre cinquenta e sessenta e cinco, mas era fácil perceber que tia Onenu não nascera com aquela pele branca, pois seu brilho era encerado demais e os nós dos dedos dela eram escuros, como se aqueles pedaços de pele tivessem resistido bravamente ao creme clareador.

“Quis que você passasse aqui antes de começar na segunda-feira para poder te dar as boas-vindas pessoalmente”, disse tia Onenu.

“Obrigada.” Ifemelu achava aquela visita à casa dela estranha e nada profissional, mas era uma revista pequena e era a Nigéria, onde os limites não eram claros, onde o trabalho se misturava à vida pessoal e as pessoas chamavam suas chefes de Mamãe. Além disso, ela já havia se imaginado assumindo o controle da Zoe, transformando-a numa publicação vibrante e relevante para as mulheres nigerianas e — quem sabe — talvez um dia comprando-a de tia Onenu. E ela não receberia os novos contratados em sua casa.

“Você é uma menina bonita”, disse tia Onenu assentindo, como se ser bonita fosse necessário para o emprego e ela tivesse temido que Ifemelu não fosse. “Gostei da sua voz no telefone. Tenho certeza de que, com você na equipe, logo vamos ter uma circulação maior que a da Glass. Somos uma revista muito mais nova, mas já estamos alcançando a concorrência!”

Um mordomo vestido de branco, um homem grave e bem velho, surgiu para lhes perguntar o que queriam beber.

“Tia Onenu, estou lendo edições passadas tanto da Glass quanto da Zoe, e tenho algumas ideias de coisas que podemos mudar”, disse Ifemelu depois que o mordomo saiu para pegar o suco de laranja delas.

“Você é mesmo americana! Pronta para trabalhar, uma pessoa sem rodeios! Muito bem. Em primeiro lugar, me diga o que acha de nós em comparação com a Glass.”

Ifemelu tinha achado as duas revistas sem conteúdo, mas a Glass tinha uma edição melhor, as cores das páginas não escorriam tanto quando na Zoe, e ela era mais visível no trânsito; sempre que Ranyinudo desacelerava o carro, vinha um vendedor pressionar uma edição da Glass na janela. Mas, como ela já podia ver a obsessão de tia Onenu com a concorrência, tão obviamente pessoal, disse: “Elas são mais ou menos iguais, mas acho que podemos fazer algo melhor. Precisamos cortar os perfis de entrevistadas e fazer só um por mês, com uma mulher que realmente realizou algo sozinha. Precisamos de mais colunas e devíamos introduzir uma seção de colunista convidado, além de falar mais de saúde e dinheiro, ter uma presença maior on-line e parar de usar matérias de revistas estrangeiras. A maior parte das suas leitoras não pode comprar brócolis no mercado porque não temos isso aqui na Nigéria, então por que a Zoe deste mês tem uma receita de sopa cremosa de brócolis?”.

“Sim, sim”, disse tia Onenu, devagar. Ela parecia atônita. Então como quem se recuperava, disse: “Muito bem. Vamos discutir tudo isso na segunda-feira”.

No carro, Ranyinudo disse: “Falar assim com sua chefe nova, hahaha! Se você não tivesse vindo dos Estados Unidos, ela ia demiti-la na hora”.

“Queria saber qual é a história entre ela e a dona da Glass.”

“Eu li em um tabloide que elas se odeiam. Aposto que é problema de homem, o que mais seria? Mulheres, ê! Acho que tia Onenu fundou a Zoe só para concorrer com a Glass. Até onde eu sei, ela não é editora, é só uma mulher rica que decidiu fundar uma revista e amanhã pode querer fechá-la e fundar um spa.”

“E que casa feia”, disse Ifemelu. Era monstruosa, com dois anjos de alabastro ladeando o portão e uma fonte em forma de domo cuspindo água no jardim da frente.

“Feia, kwa? Como assim? A casa é linda!”

“Para mim, não”, disse Ifemelu, embora já tivesse achado casas como aquela lindas. Mas ali estava ela, desprezando aquela com a confiança altiva de uma pessoa que sabia o que era kitsch.

“O gerador dela é do tamanho do meu apartamento e é completamente silencioso!”, disse Ranyinudo. “Você notou o galpão do gerador do lado do portão?”

Ifemelu não tinha notado. E aquilo a irritou. Era isso que um verdadeiro lagosiano teria notado: o galpão do gerador, o tamanho do gerador.

Na Kingsway Road, ela achou ter visto Obinze passar numa Mercedes preta baixa e se empertigou, esticando o pescoço para ver melhor, mas, quando o carro andou mais devagar por causa do engarrafamento, viu que o homem não se parecia nada com ele. Haveria outros vislumbres imaginários de Obinze ao longo das semanas seguintes, pessoas que Ifemelu sabia não serem ele, mas que poderiam ser: a figura de coluna reta e terno que entrou no escritório de tia Onenu, o homem na parte de trás de um carro com vidros escuros que estava com o rosto baixo olhando o celular, a figura atrás dela na fila do supermercado. Ela até imaginou, quando foi conhecer o proprietário de seu apartamento, que ia entrar e descobrir que era Obinze sentado ali. O corretor havia lhe dito que o proprietário preferia inquilinos estrangeiros. “Mas ele relaxou quando eu falei que você veio dos Estados Unidos”, acrescentou ele. O proprietário era um homem idoso vestindo um cafetã marrom e uma calça da mesma cor; ele tinha a pele maltratada e o ar magoado de alguém que já sofrera muito nas mãos dos outros.

“Eu não alugo para os igbos”, disse o homem num tom suave, deixando-a pasma. Essas coisas eram ditas assim, de maneira tão fácil? Será que sempre haviam sido ditas de maneira tão fácil e ela simplesmente esquecera? “Essa é a minha regra desde que um homem igbo destruiu minha casa em Yaba. Mas você parece ser uma pessoa responsável.”

“Eu sou responsável”, disse Ifemelu, dando um sorriso afetado. Os outros apartamentos de que tinha gostado eram caros demais. Embora houvesse canos expostos debaixo da pia da cozinha, a privada fosse torta e os azulejos do banheiro fossem mal assentados, esse era o melhor lugar pelo qual ela podia pagar. Gostava de como a sala era arejada, com suas janelas grandes, e ficara encantada com a escadinha estreita que levava a uma varanda minúscula, mas o principal era ser em Ikoyi. E Ifemelu queria morar em Ikoyi. Quando era criança, Ikoyi emanava um ar de nobreza, uma nobreza distante que ela não podia tocar: as pessoas que moravam em Ikoyi tinham rostos sem espinhas e motoristas que eram “o motorista das crianças”. A primeira vez que vira aquele apartamento, Ifemelu fora à varanda e vira a propriedade ao lado, uma imensa casa colonial que agora estava amarelada de abandono, com o jardim tomado pelas plantas, a grama e os arbustos subindo uns nos outros. No teto da casa, parte do qual havia caído, ela vira um movimento, um lampejo turquesa de penas. Era um pavão. O corretor lhe dissera que um oficial do Exército tinha morado ali durante o regime do general Abacha; agora, a posse da casa estava sendo disputada na Justiça. E Ifemelu imaginou as pessoas que tinham morado lá quinze anos antes, enquanto ela, num pequeno apartamento do populoso centro da cidade, ansiava por sua vida espaçosa e serena.

Ela fez o cheque equivalente a dois anos de aluguel. Era por isso que as pessoas aceitavam subornos e pediam subornos; de que outra maneira alguém poderia pagar dois anos de aluguel adiantado honestamente? Ifemelu planejou encher sua varanda de lírios brancos e vasos de argila e decorar a sala em tons pastel, mas primeiro tinha de achar um eletricista para instalar aparelhos de ar condicionado, um pintor para refazer aquelas paredes oleosas e alguém para colocar os novos azulejos na cozinha e no banheiro. O corretor trouxe um homem que colocava azulejos. O homem trabalhou durante uma semana e, quando o corretor ligou para ela para avisar que estava tudo pronto, Ifemelu foi ansiosa para o apartamento. No banheiro, ficou olhando atônita. As bordas dos azulejos eram ásperas e havia pequenos buracos nos cantos. Um dos azulejos tinha uma rachadura feia no meio. Parecia algo feito por uma criança impaciente.

“Que maluquice é essa? Olhe só como isso está áspero! Um dos azulejos está quebrado! Está pior que os azulejos velhos! Como você pode considerar um trabalho acabado?”, ela perguntou ao homem.

Ele deu de ombros; claramente, achava que ela estava dificultando as coisas de forma desnecessária. “Estou feliz com o trabalho, tia.”

“E quer que eu pague?”

Um pequeno sorriso. “Ah, tia, mas eu terminei o trabalho.”

O corretor interveio. “Não se preocupe, senhora, ele vai consertar o que está quebrado.”

O homem dos azulejos relutou. “Mas eu terminei o trabalho. O problema é que o azulejo quebra muito fácil. É a qualidade do azulejo.”

“Você terminou? Faz esse trabalho horrível e diz que terminou?” A raiva dela estava aumentando, sua voz ficando mais alta e mais dura. “Eu não vou pagar o que nós combinamos, de jeito nenhum, porque você não fez o que nós combinamos.”

O homem dos azulejos estava fitando-a com os olhos apertados, perplexo.

“E se quiser arrumar problema comigo, vai arrumar um problema bem grande”, disse Ifemelu. “A primeira coisa que eu vou fazer é ligar para o comissário de polícia e eles vão trancar você na Alagbon Close!” Ela estava gritando agora. “Você sabe quem eu sou? Não sabe quem eu sou, é por isso que fez essa droga de trabalho para mim!”

O homem se intimidou. Ifemelu tinha surpreendido a si mesma. De onde viera aquilo, aquela falsa bravata, aquela facilidade a recorrer a ameaças? Veio-lhe uma lembrança, ainda nítida após tantos anos, do dia em que o General tinha morrido, de como tia Uju tinha ameaçado seus parentes. “Tudo bem, não saiam daí”, dissera ela. “Fiquem. Fiquem aí enquanto vou chamar os rapazes no quartel.”

O corretor disse: “Tia, não se preocupe, ele vai refazer o trabalho”.

Depois, Ranyinudo lhe disse: “Você não está mais se comportando como uma americanah!”. E, mesmo sem querer, Ifemelu ficou satisfeita de ouvir isso.

“O problema é que não temos mais artesãos neste país”, disse Ranyinudo. “Os ganenses são melhores. Meu chefe está construindo uma casa e está usando só trabalhadores ganenses para fazer o acabamento. Os nigerianos fazem uma droga de trabalho. Não demoram o tempo necessário para fazer as coisas direito. É horrível. Mas, Ifemelu, você devia ter ligado para Obinze. Ele ia ter resolvido tudo para você. Trabalha com isso, afinal. Deve ter vários contatos. E você devia ter ligado para Obinze antes mesmo de começar a procurar apartamento. Ele podia ter lhe dado um desconto no aluguel em um de seus imóveis ou até um apartamento de graça, sef. Não sei o que você está esperando para ligar para ele.”

Ifemelu balançou a cabeça. Ranyinudo, para quem os homens só existiam como fontes de coisas. Ela não podia imaginar ligar para Obinze para pedir por um desconto no aluguel de um de seus imóveis. Ainda assim, não sabia por que não tinha ligado. Pensara nisso muitas vezes, pegando com frequência o telefone para selecionar o número dele, mas não havia ligado. Ele ainda mandava e-mails, dizendo que esperava que ela estivesse bem e que Dike estivesse melhor, e ela respondia alguns, sempre de maneira breve, respostas que Obinze presumiria estarem sendo enviadas dos Estados Unidos.