Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 50 de 55

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Capítulo 50

 

Dike estava se consultando com um terapeuta três vezes por semana. Ifemelu ligava dia sim, dia não; ele às vezes falava sobre sua sessão e às vezes não, mas sempre queria saber da vida nova dela. Ifemelu falou de seu apartamento, de como tinha um motorista que a levava ao trabalho, de como estava vendo suas velhas amigas e de como, nos domingos, gostava de dirigir ela mesma, porque as ruas ficavam vazias; Lagos se tornava uma versão mais gentil de si mesma e as pessoas vestidas com suas roupas alegres de domingo pareciam, de longe, flores ao vento.

“Acho que você ia gostar de Lagos”, disse Ifemelu. Dike, com um entusiasmo surpreendente, perguntou: “Posso ir visitar você, prima?”.

Tia Uju relutou de início. “Lagos? É seguro? Você sabe pelo que ele passou. Não acho que consiga aguentar essa viagem.”

“Mas ele pediu para vir, tia.”

“Ele pediu para ir? Desde quando Dike sabe o que é bom para ele? Essa não é a mesma pessoa que queria me deixar sem filhos?”

Mas tia Uju comprou a passagem de Dike e agora ali estavam eles, ambos no carro rastejando pelo imenso engarrafamento em Oshodi, Dike olhando pela janela com os olhos arregalados. “Meu Deus, prima. Nunca vi tanta gente negra ao mesmo tempo!”, disse.

Eles pararam numa lanchonete, onde Dike pediu um hambúrguer. “Isso é carne de cavalo? Porque hambúrguer não é.” A partir de então, só comeu arroz jollof e banana-da-terra frita.

Era auspicioso Dike chegar um dia depois de ela começar seu blog e uma semana depois de pedir demissão. Tia Onenu não pareceu surpresa com o pedido e não tentou convencê-la a ficar. “Venha me dar um abraço, querida”, foi tudo o que disse, dando um sorriso falso, enquanto Ifemelu sentia o orgulho ferido. Mas ela estava cheia de expectativas otimistas para As Pequenas Redenções de Lagos, que tinha uma foto onírica de uma casa colonial abandonada em seu cabeçalho. Seu primeiro post foi uma pequena entrevista com Priye, com fotos de um casamento que ela havia planejado. Ifemelu achou que a maior parte da decoração era exagerada e espalhafatosa, mas o post recebeu comentários entusiasmados, falando principalmente da decoração. Que decoração fantástica. Madame Priye, espero que faça o meu casamento. Ótimo trabalho, parabéns. Zemaye escreveu, usando um pseudônimo, uma matéria sobre linguagem corporal e sexo. “É possível dizer se duas pessoas estão transando só de ver as duas juntas?” Ela também recebeu muitos comentários. Mas a maioria dos comentários, de longe, foi sobre a matéria de Ifemelu sobre o Clube Nigerpolita.

 

Lagos nunca foi, nunca será e nunca quis ser como Nova York ou qualquer outra cidade. Lagos sempre foi

indiscutivelmente ela mesma, mas você não concluiria isso na reunião do Clube Nigerpolita, um grupo de

jovens que voltaram do exterior e que se encontram toda semana para reclamar das muitas diferenças entre

Lagos e Nova York, como se Lagos algum dia tivesse chegado perto de ser como Nova York. Pra falar a

verdade: eu sou um deles. A maioria de nós voltou para ganhar dinheiro na Nigéria, para abrir empresas,

tentar contratos e contatos com o governo. Outros voltaram com os sonhos no bolso e uma fome de mudar

o país. Mas passamos o tempo todo reclamando da Nigéria e, embora nossas reclamações sejam legítimas,

eu me imagino como alguém de fora dizendo: Voltem para o lugar de onde vieram! Se seu cozinheiro não

sabe fazer o panini perfeito, não é porque é burro. É porque a Nigéria não é uma nação de pessoas que

comem sanduíches, e o último Oga dele não comia pão à tarde. Então, ele precisa de treinamento e prática.

E a Nigéria não é uma nação de pessoas com alergia a comida, não é uma nação de pessoas cheias de

manias para quem a comida tem a ver com distinções e separações. É uma nação de pessoas que comem

carne, frango, pele e bucho de vaca e peixe seco na mesma sopa, e que chamam isso de sopa de sortidos,

por isso parem de frescura e entendam que a vida aqui é assim: sortida.

 

O primeiro comentário foi: Que post babaca. Quem liga para isso? E o segundo: Graças a Deus, alguém finalmente está falando sobre isso. Na wa para a arrogância dos nigerianos que voltam do exterior. Minha prima voltou depois de seis anos nos Estados Unidos e outro dia foi comigo até a creche em Unilag onde eu ia deixar minha sobrinha e, perto do portão, ela viu alunos esperando numa fila para pegar o ônibus e disse: “Uau, as pessoas realmente fazem fila aqui!”. Outra pessoa que estava entre as primeiras a comentar escreveu: Por que os nigerianos que estudam fora podem escolher onde vão cumprir o Serviço Nacional da Juventude? Os nigerianos que estudam na Nigéria são enviados de forma aleatória, então por que os nigerianos que estudaram fora não podem ser tratados do mesmo jeito? Esse comentário gerou mais respostas do que o post original. No sexto dia, o blog tinha mil visitantes únicos.

Ifemelu moderava os comentários, apagando qualquer coisa obscena e se deliciando com a vivacidade de tudo, com a sensação de que ela era a vanguarda de algo vibrante. Escreveu um longo post sobre o estilo de vida caro de algumas mulheres em Lagos e, um dia após postá-lo, Ranyinudo ligou para ela furiosa, com a respiração ofegante do outro lado da linha.

“Ifem, como você pôde fazer isso? Todo mundo que me conhece vai saber que sou eu!”

“Não é verdade, Ranyi. Sua história é tão comum.”

“Como assim? É óbvio que sou eu! Veja isso!” Ranyinudo fez uma pausa e então começou a ler em voz alta:

Existem muitas jovens em Lagos com Fontes Desconhecidas de Riqueza. Elas vivem uma vida pela qual não

podem pagar. Só viajaram para a Europa de classe executiva, mas têm um emprego cujo salário não paga

nem uma passagem de classe econômica. Uma delas é minha amiga, uma mulher linda e brilhante que

trabalha com publicidade. Ela mora na Ilha de Lagos e está namorando um banqueiro importante. Temo que

vá acabar como muitas mulheres de Lagos que definem sua vida pelos homens que jamais poderão

realmente ter, tolhidas por sua cultura de dependência, com desespero nos olhos e bolsas de marca nos

braços.

 

“Ranyi, juro, ninguém vai saber que é você. Todos os comentários até agora foram de pessoas dizendo que se identificaram com o texto. Tantas mulheres se perdem em relacionamentos assim. Na verdade, eu estava pensando em tia Uju e no General. Aquele relacionamento a destruiu. Ela se tornou uma pessoa diferente por causa do General, não podia fazer nada por si mesma e, quando ele morreu, ela se perdeu.”

“E quem é você para criticar? De que maneira isso é diferente de você e do branco rico dos Estados Unidos? Você teria sua cidadania se não fosse por ele? Como foi que arrumou aquele emprego nos Estados Unidos? Você precisa parar com essa bobagem. Pare de se achar tão superior!”

Ranyinudo desligou na cara dela. Durante um longo tempo, Ifemelu ficou olhando para o telefone mudo, abalada. Então apagou o post e dirigiu até o apartamento de Ranyinudo.

“Ranyi, desculpe. Por favor, não fique zangada.”

Ranyinudo fitou-a com raiva.

“Você tem razão”, disse Ifemelu. “É fácil ser crítica. Mas não era pessoal e não tive a intenção de ser negativa. Por favor, biko. Nunca mais vou invadir sua privacidade desse jeito.”

Ranyinudo balançou a cabeça. “Ifemelunamma, seu problema é frustração emocional. Vá ver Obinze, por favor.”

Ifemelu riu. Era a última coisa que ela esperava ouvir.

“Preciso emagrecer primeiro”, disse.

“Você só está com medo.”

Antes de Ifemelu ir embora, elas ficaram no sofá bebendo malte e vendo as últimas fofocas de celebridades no E!

 

Dike se ofereceu para moderar os comentários do blog, para Ifemelu poder tirar uma folga.

“Meu Deus, prima, as pessoas levam essas coisas muito para o lado pessoal!”, disse ele. Às vezes, dava uma gargalhada ao ler um comentário. Outras, perguntava o que significava uma expressão não familiar. “O que significa ‘quero ver brilho nos olhos’?” Da primeira vez em que faltou luz desde sua chegada, os bipes e roncos do gerador o assustaram. “Ai, meu Deus, isso é tipo um alarme de incêndio?”

“Não, é só uma coisa que faz minha televisão não queimar com esses apagões malucos.”

“Isso é doido”, disse Dike, mas dias depois já estava indo em pessoa aos fundos do apartamento para ligar o gerador quando faltava luz. Ranyinudo levou suas primas para conhecê-lo, meninas que tinham quase a mesma idade que ele, com calças jeans skinny envolvendo os quadris estreitos e seios incipientes marcados pelas blusinhas. “Dike, você precisa casar com uma delas, ô”, disse Ranyinudo. “Precisamos de crianças bonitas na família.” “Ranyi!”, exclamaram as primas, envergonhadas, escondendo a timidez. Elas gostaram de Dike. Era tão fácil gostar dele, charmoso, bem-humorado, com aquela vulnerabilidade óbvia por trás. Dike postou no Facebook uma foto que Ifemelu havia tirado dele na varanda com as primas de Ranyinudo, com a legenda: Nenhum leão me comeu ainda, galera.

“Eu queria saber falar igbo”, disse ele, depois de ter passado uma tarde com Ifemelu e seus pais.

“Mas você entende perfeitamente”, disse ela.

“Mas eu queria saber falar.”

“Você ainda pode aprender”, disse Ifemelu, sentindo um desespero súbito, sem saber direito o quanto aquilo era importante para ele, pensando em Dike deitado no sofá do porão, encharcado de suor. Ela se perguntou se deveria dizer mais alguma coisa ou não.

“É, acho que sim”, disse Dike, dando de ombros, como quem sabe que já é tarde demais.

Alguns dias antes de ir embora, ele perguntou: “Como meu pai era de verdade?”.

“Ele amava você.”

“Você gostava dele?”

Ifemelu não quis mentir para Dike. “Não sei. Ele era um homem importante de um governo militar, e isso transforma você e a maneira como se relaciona com as pessoas. Eu me preocupava com sua mãe, porque achava que ela merecia mais. Mas ela o amava, amava mesmo, e ele te amava. Costumava carregar você com tanta ternura.”

“Não acredito que minha mãe escondeu de mim durante tanto tempo que era amante dele.”

“Ela estava protegendo você”, disse Ifemelu.

“A gente pode ir ver a casa em Dolphin Estate?”

“Pode.”

Ifemelu levou Dike de carro até Dolphin Estate, espantada com o declínio do lugar. A pintura dos prédios estava descascada, as ruas estavam cheias de buracos e o lugar parecia ter se resignado em ser mal cuidado. “Era tão mais bonito naquela época”, disse Ifemelu para Dike. Ele ficou olhando para a casa durante algum tempo até que o porteiro disse: “Sim? Algum problema?”, e eles voltaram para o carro.

“Posso dirigir, prima?”, pediu Dike.

“Tem certeza?”

Ele assentiu. Ela saiu do banco do passageiro e deu a volta para sentar no dele. Dike dirigiu até o prédio, hesitando um pouco antes de pegar a Osborne Road e depois levando o carro com mais confiança. Ifemelu sabia que aquilo significava algo para ele, algo indefinido para ela. Naquela noite, quando faltou luz, o gerador não ligou, e Ifemelu suspeitou que o motorista, Ayo, tivesse comprado diesel misturado com querosene sem saber. Dike reclamou do calor, dos mosquitos que o mordiam. Ifemelu abriu a janela, fez com que ele tirasse a camisa e eles ficaram lado a lado na cama conversando sobre assuntos aleatórios. Ela esticou o braço, tocou a testa dele e deixou a mão ali até ouvir a respiração tranquila do sono.

De manhã, o céu estava coberto por nuvens cinza-escuro e o ar estava denso com a ameaça de chuva. Ali perto, uma revoada de pássaros guinchou e alçou voo. A chuva ia cair, um mar descendo do céu, e as imagens da televisão por satélite iam ficar granuladas, as linhas telefônicas iam ficar congestionadas, as ruas iam inundar e o trânsito ia rugir. Ela ficou com Dike na varanda vendo as primeiras gotículas caírem.

“Eu meio que gosto daqui”, disse ele.

Ifemelu teve vontade de dizer: “Você pode morar aqui comigo. Existem boas escolas particulares aqui onde você pode estudar”, mas não disse.

Ela o levou ao aeroporto e ficou olhando até ele passar pelos seguranças, acenar e dobrar a esquina. Ao chegar em casa, ouviu o som oco de seus passos ao andar do quarto para a sala e de lá para a varanda e depois voltar. Em seguida, Ranyinudo lhe disse: “Não entendo como um menino bonito como Dike pôde querer se matar. Um menino que vive nos Estados Unidos e tem de tudo. Como é possível? Isso é um comportamento muito estrangeiro”.

“Comportamento estrangeiro? Do que você está falando, porra? Comportamento estrangeiro? Já leu O mundo se despedaça?”, perguntou Ifemelu, arrependida de ter contado a Ranyinudo o que Dike fizera. Sentiu mais raiva de Ranyinudo do que em qualquer outra ocasião, mas sabia que a intenção dela fora boa e que tinha dito o que muitos outros nigerianos diriam, e era por isso que não contara a mais ninguém sobre a tentativa de suicídio de Dike desde que voltara.