Americanah
Capítulo 39
Tia Uju tinha começado a fazer ioga. Estava de quatro, com as costas bem arqueadas, sobre um tapete azul-claro estendido sobre o chão do porão, enquanto Ifemelu a observava deitada no sofá, comendo uma barra de chocolate.
“Quantas dessas você já comeu? E desde quando come chocolate normal? Achei que você e Blaine só comiam chocolates orgânicos desses vendidos em feira.”
“Comprei essas barras na estação de trem.”
“Essas? Quantas?”
“Dez.”
“Hum! Dez!”
Ifemelu deu de ombros. Já tinha comido todas, mas não ia contar isso a tia Uju. Sentira prazer ao comprar chocolates na banca, barras baratas cheias de açúcar, produtos químicos e outras coisas tenebrosas e geneticamente modificadas.
“Então já que vocês estão brigados, vai comer os chocolates dos quais ele não gosta?” Tia Uju riu.
Dike desceu e olhou a mãe, cujos braços agora estavam estendidos na posição do guerreiro. “Mãe, você está ridícula.”
“Seu amigo não disse outro dia que sua mãe era bonita? É por causa disso aqui.”
Dike balançou a cabeça. “Prima, preciso te mostrar uma coisa no YouTube, um vídeo hilário.”
Ifemelu se levantou.
“Dike te contou sobre o incidente com o computador na escola?”, perguntou tia Uju.
“Não, o que houve?”, perguntou Ifemelu.
“O diretor me ligou na segunda para me contar que Dike tinha invadido a rede de computadores da escola no sábado. Um menino que passou o sábado inteiro comigo. Fomos a Hartford visitar Ozavisa. Passamos o dia todo lá e o menino não chegou nem perto de um computador. Quando perguntei por que achavam que tinha sido ele, disseram que tinham informações sobre o caso. Imagine, o homem acorda e culpa meu filho. O menino nem é bom com computadores. Achei que tínhamos deixado essa gente para trás naquela cidade caipira. Kweku quer que a gente faça uma reclamação formal, mas acho que não vale a pena. Agora, eles disseram que não suspeitam mais dele.”
“Eu nem sei como entrar numa rede de computadores”, disse Dike secamente.
“Por que eles fariam uma imbecilidade dessas?”, perguntou Ifemelu.
“Você tem de culpar o negro primeiro”, disse ele, rindo.
Mais tarde, Dike contou que seus amigos sempre falavam “Ei, Dike, você tem um bagulho?” e achavam aquilo engraçado. Contou da pastora da igreja, uma mulher branca, que tinha dito oi para todos os outros meninos, mas, ao chegar nele, dissera: “E aí, mano?”. “Eu me sinto como se tivesse legumes no lugar das orelhas, imensos brócolis saindo da cabeça”, disse ele. “Então, é claro que tinha de ser eu a invadir a rede da escola.”
“Esse povo da sua escola é muito burro”, disse Ifemelu.
“É engraçado o jeito de você falar essa palavra, prima: burro.” Ele ficou em silêncio um instante e depois repetiu o que ela dissera: “Esse povo da sua escola é muito burro”, imitando bem o sotaque nigeriano. Ela lhe contou a história do pastor nigeriano que, ao dar um sermão numa igreja nos Estados Unidos, disse algo sobre uma luta, mas, por causa de seu sotaque, as pessoas da paróquia acharam que ele tinha dito “puta” e escreveram para o bispo para reclamar. Dike morreu de rir. Aquela virou uma das piadas recorrentes deles. “Ei, prima, vamos à puta”, dizia ele.
Durante nove dias, Blaine ignorou os telefonemas de Ifemelu. Finalmente ele atendeu, com a voz abafada.
“Posso ir aí nesse fim de semana para a gente fazer arroz de coco? Eu cozinho”, disse ela. Antes de ele responder “Tudo bem”, Ifemelu sentiu que tinha respirado fundo e se perguntou se havia ficado surpreso por ela ousar sugerir arroz de coco.
Ifemelu observou Blaine cortar as cebolas, observou seus longos dedos e se lembrou deles em seu corpo, traçando linhas na clavícula e na pele escura abaixo do umbigo. Ele ergueu o olhar e perguntou se as fatias estavam de bom tamanho e ela disse: “A cebola está boa”, e pensou em como Blaine sempre soubera o tamanho certo para as cebolas, fatiando-as de forma precisa, e em como ele sempre colocara o arroz para cozinhar, embora ela fosse fazê-lo agora. Blaine quebrou o coco contra a pia e deixou sair a água antes de começar a raspar a carne branca com uma faca. As mãos de Ifemelu tremeram quando ela jogou o arroz dentro da água fervendo, e enquanto olhava os grãos fininhos de basmati começando a inchar, perguntou-se se eles estavam fracassando naquilo, sua refeição de reconciliação. Foi olhar o frango que estava no fogo. O cheiro dos temperos subiu quando tirou a tampa — gengibre, curry e folhas de louro —, e ela, de forma desnecessária, disse a Blaine que o frango estava com a cara boa.
“Não temperei demais, como você faz”, disse ele. Ifemelu sentiu uma raiva momentânea e teve vontade de dizer que era injusto da parte dele recusar-se a perdoá-la, mas, em vez disso, perguntou se Blaine achava que ela devia pôr um pouco mais de água. Ele continuou a ralar o coco e não disse nada. Ela observou o coco se desintegrando até virar uma poeira branca; sentiu-se triste ao pensar que ele jamais voltaria a ser um coco inteiro e esticou os braços e abraçou Blaine por trás, enlaçando seu peito e sentindo seu calor através do moletom, mas ele se desvencilhou e disse que precisava terminar antes de o arroz virar uma papa. Ifemelu atravessou a sala para olhar pela janela, para a torre do relógio, alta e majestosa, impondo-se sobre os outros prédios do campus de Yale lá embaixo. Viu os primeiros flocos de neve rodopiando no ar do fim da tarde como se fossem atirados de cima e lembrou-se de seu primeiro inverno com ele, quando tudo parecia brilhante e interminavelmente novo.
Entendendo a América para o Negro Não Americano:
Explicações sobre o que algumas frases realmente querem dizer
1. De todas as suas divisões, aquela com a qual os americanos se sentem mais desconfortáveis é a raça. Se
você estiver tendo uma conversa com um americano e quiser discutir uma questão racial que acha
interessante, mas o americano disser: “Ah, é simplista dizer que isso é uma questão racial, o racismo é tão
complexo”, isso significa que ele quer que você cale a boca agora. Porque é claro que o racismo é
complexo. Muitos abolicionistas queriam libertar os escravos, mas não queriam negros morando perto da
casa deles. Muita gente hoje não se importa em ter uma babá negra ou um motorista de limusine negro. Mas
se importa pra cacete em ter um chefe negro. Simplista é dizer: “Isso é tão complexo”. Mas cale a boca
mesmo assim, principalmente se precisar de um emprego ou de um favor do americano em questão.
2. A diversidade significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Se uma pessoa branca diz que um
bairro tem diversidade, isso significa que nove por cento dos moradores são negros. (Assim que passa para
dez por cento, os brancos se mudam.) Se um negro diz que um bairro tem diversidade, está pensando em
quarenta por cento de moradores negros.
3. Às vezes eles dizem “cultura” quando querem dizer raça. Dizem que um filme é “mainstream” quando
querem dizer “pessoas brancas gostam dele ou o fizeram”. Quando dizem “urbano” isso quer dizer negro,
pobre, possivelmente perigoso e potencialmente excitante. Dizer que algo é “racialmente problemático”
significa que estão constrangidos demais para dizer que é “racista”.