Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 12 de 55

Páginas do PDF

Americanah

Capítulo 12

 

Lá estava Ginika, parada no pequeno terminal de ônibus cheio de gente, usando uma minissaia e um tomara que caia que cobria seus seios, mas não sua barriga, pronta para arrebanhar Ifemelu e levá-la para a verdadeira América. Estava muito mais magra, com metade do tamanho antigo, e sua cabeça parecia maior, equilibrada sobre um pescoço longo que lembrava o de um vago animal exótico. Ela estendeu os braços, como quem atrai uma criança para um abraço, rindo e exclamando “Ifemsco! Ifemsco!”, e Ifemelu, por um momento, foi transportada para o ensino médio — uma imagem de meninas fofocando em uniforme azul e branco, com uma boina de feltro sobre a cabeça, num grupinho no corredor da escola. Abraçou Ginika. O gesto teatral delas, de se apertar com força, separar-se e então voltar a se apertar, fez, para sua leve surpresa, com que seus olhos se enchessem de lágrimas.

“Olhe só para você!”, disse Ginika, gesticulando e fazendo tilintar as diversas pulseiras de prata que tinha no braço. “É você mesma?”

“Quando você parou de comer e ficou parecendo um bacalhau seco?”, perguntou Ifemelu.

Ginika riu, pegou a mala e virou-se para a porta. “Vamos logo, estacionei em lugar proibido.”

O Volvo verde estava na esquina de uma rua estreita. Uma mulher sisuda de uniforme, com o bloquinho de multas na mão, marchava na direção delas quando Ginika pulou para dentro do carro e deu a partida. “Essa foi por pouco!”, disse ela, rindo. Um mendigo usando uma camiseta imunda e empurrando um carrinho repleto de embrulhos havia parado bem ao lado do carro, como quem quisesse descansar por um instante, olhando em frente, para o vazio, e Ginika olhou-o de soslaio ao sair devagar da vaga. Elas mantiveram os vidros abertos. A Filadélfia tinha o cheiro do sol de verão, de asfalto queimado, de carne grelhada em carrinhos de comida aninhados nas esquinas, com estrangeiros morenos, homens e mulheres, trabalhando debruçados lá dentro. Ifemelu passaria a gostar dos gyros que eram vendidos nesses carrinhos, feitos de pão pita, cordeiro e molhos que pingavam, assim como passaria a amar a própria Filadélfia. A cidade não trazia o espectro da intimidação como Manhattan; era um lugar íntimo, mas não provinciano, uma cidade que poderia ser gentil. Ifemelu viu mulheres na calçada saindo do trabalho para ir almoçar, usando tênis, prova da preferência americana pelo conforto e não pela elegância, e viu jovens casais enlaçados, beijando-se de tempos em tempos como se temessem que, se soltassem as mãos, seu amor se dissolveria, derreteria e viraria nada.

“Peguei o carro do meu senhorio emprestado. Não queria vir buscar você no meu carro de merda. Não acredito, Ifemsco. Você está nos Estados Unidos!”, disse Ginika. Havia um glamour metálico e diferente em sua magreza, na pele clara, na saia curta que subiu quando se sentou, mal cobrindo sua virilha, no cabelo muito liso que toda hora passava para trás da orelha, com mechas louras brilhando à luz do sol.

“Estamos entrando na Cidade Universitária e é lá que fica o campus da Wellson, shay, sabe? Podemos passar lá, para você ver a universidade primeiro, depois vamos para minha casa no subúrbio e à noite podemos ir para a casa de uma amiga. Vai ter uma reuniãozinha lá.” Ginika havia passado a usar o inglês nigeriano, uma versão datada e afetada, ansiosa por provar que continuava a mesma. Com uma lealdade esforçada, havia mantido contato ao longo dos anos: ligava, escrevia cartas e mandava livros e calças disformes de alfaiataria. E agora estava dizendo “shay, sabe”, e Ifemelu não teve coragem de contar que ninguém mais dizia “shay”.

Ginika contou histórias sobre suas primeiras experiências nos Estados Unidos, como se contivessem uma sabedoria sutil da qual Ifemelu ia precisar.

“Se você tivesse visto como eles riram de mim no colégio quando eu disse que alguém estava pagando pau para mim. Porque aqui ninguém fala assim, já que pau quer dizer pênis! E eu tive que explicar várias vezes que na Nigéria pagar pau era estar a fim. E você sabia que ‘mestiço’ aqui é uma palavra feia? No primeiro ano de faculdade, eu estava contando para uns amigos meus sobre como fui votada a menina mais bonita da escola no meu país. Lembra? Não devia ter ganhado. Era Zainab. Foi só porque sou mestiça. Isso é mais forte ainda aqui. Você vai ouvir umas merdas dos brancos daqui que eu não ouço. Mas, então, eu estava contando sobre como era lá na Nigéria e sobre como todos os meninos ficavam atrás de mim porque eu era mestiça, e elas disseram que eu estava me insultando. Por isso agora digo que sou birracial e devo me sentir ofendida quando alguém fala em mestiça. Eu conheci muita gente aqui cuja mãe é branca e eles são tão cheios de problemas, ê. Eu não sabia nem que deveria ter problemas até vir para os Estados Unidos. Sinceramente, se alguém quiser criar filhos birraciais, é melhor fazer isso na Nigéria.”

“Claro. Onde todos os meninos correm atrás das meninas mestiças.”

“Nem todos os meninos, aliás”, disse Ginika, fazendo uma careta. “É melhor Obinze vir logo para cá antes que alguém roube você. Sabe que tem o tipo de corpo que eles gostam aqui, não é?”

“Como assim?”

“Você é magra e tem o peito grande.”

“Eu não sou magra. Sou esguia.”

“Os americanos dizem magra. Aqui, ser magra é uma coisa boa.”

“É por isso que você parou de comer? Sua bunda sumiu. Sempre quis ter uma bunda igual à sua”, disse Ifemelu.

“Sabia que eu comecei a perder peso assim que vim para cá? Cheguei perto até da anorexia. Os meninos da minha escola me chamavam de Porca. Você sabe como, na Nigéria, quando alguém comenta que você perdeu peso é uma coisa ruim? Aqui, se alguém diz que você perdeu peso, é preciso agradecer. É diferente aqui, só isso”, disse Ginika com certa melancolia, como se ela também fosse nova nos Estados Unidos.

Mais tarde, Ifemelu estava observando Ginika no apartamento de sua amiga Stephanie, com uma garrafa de cerveja na boca e as palavras com sotaque americano simplesmente saindo, e ficou impressionada ao ver como ela tinha ficado parecida com as amigas que fizera naquele país. Jessica, de família japonesa, linda e animada, brincando com a chave de sua Mercedes, que tinha o emblema da marca. Teresa, uma menina de pele pálida que tinha uma risada alta e usava brincos solitários de diamante e sapatos velhos e gastos. Stephanie, de família chinesa, cujo cabelo era um Chanel perfeito com as pontas viradas para dentro na altura do queixo e que, de tempos em tempos, tirava um maço de cigarros da bolsa estampada com monogramas e ia para fora fumar. Hari, de pele cor de café e cabelos pretos, que usava uma blusinha com os dizeres “Eu sou indiana, não indo-americana” quando Ginika a apresentou a Ifemelu. Todas riam das mesmas coisas e diziam “Eca!” para as mesmas coisas, numa coreografia perfeita. Stephanie anunciou que tinha uma cerveja artesanal na geladeira e todas disseram “Legal!” em uníssono. Então Teresa disse “Posso beber a cerveja normal, Steph?” na vozinha de quem temia ofender. Ifemelu ficou sentada numa poltrona solitária num dos extremos da sala, bebendo suco de laranja e ouvindo-as conversar. Aquela empresa é tão do mal. Ai, meu Deus, não acredito na quantidade de açúcar que tem aqui. A internet supervai mudar o mundo. Ela ouviu Ginika perguntar “Você sabia que eles usam um componente de osso de animal para fazer essa pastilha de hortelã?”, e as outras gemeram. Havia códigos que Ginika conhecia, maneiras de ser que dominava. Ao contrário de tia Uju, fora para os Estados Unidos com a flexibilidade e a fluidez da juventude, as pistas culturais haviam penetrado sua pele e ela agora ia jogar boliche, sabia o que Tobey Maguire andava fazendo e achava que mergulhar a batata frita no molho depois de já tê-la mordido uma vez era digno de um “eca”. A pilha de garrafas e latas de cerveja estava ficando maior. As meninas relaxavam, numa lassidão glamorosa, no sofá e no tapete, enquanto um CD de rock pesado, que Ifemelu considerava um barulho sem nenhuma harmonia, tocava. Teresa era quem bebia mais rápido, jogando cada lata de cerveja vazia no chão de madeira, enquanto as outras riam com um entusiasmo que intrigava Ifemelu, porque não era tão engraçado assim. Como elas sabiam quando rir, e do que rir?

 

Ginika estava comprando um vestido para ir a um jantar organizado pelo escritório de advocacia em que era estagiária.

“Você devia comprar algumas coisas, Ifem.”

“Não vou gastar dez kobos do meu dinheiro a não ser que precise.”

“Dez centavos.”

“Dez centavos.”

“Posso te dar uma jaqueta e roupas de cama, mas você precisa pelo menos de uma meia-calça. O frio está chegando.”

“Eu vou dar um jeito”, disse Ifemelu. E daria mesmo. Se precisasse, usaria todas as roupas ao mesmo tempo, em camadas, até conseguir um emprego. Ficava apavorada com a ideia de gastar dinheiro.

“Ifem, eu pago para você.”

“Você não está ganhando muito dinheiro.”

“Pelo menos estou ganhando algum”, brincou Ginika.

“Tomara que eu consiga um emprego logo.”

“Vai conseguir, não se preocupe.”

“Não entendo como alguém vai acreditar que sou Ngozi Okonkwo.”

“Não mostre a carteira de motorista quando for fazer a entrevista. Mostre só o cartão da Seguridade Social. Talvez eles nem peçam a carteira. Às vezes não pedem, em empregos mais simples.”

Ginika levou-a a uma loja de roupas que Ifemelu achou frenética demais; o lugar a fez pensar numa casa noturna, com música eletrônica tocando alto, o interior sombrio, as vendedoras, duas jovens de braços finos todas de preto, andando de um lado para o outro depressa demais. Uma tinha pele chocolate e um longo mega-hair negro com luzes castanho-avermelhadas e a outra era branca, com o cabelo negro retinto que balançava nas costas quando se aproximou.

“Oi, meninas, tudo bem? Posso ajudar em alguma coisa?”, perguntou a vendedora numa voz melodiosa que tilintava. Ela tirou roupas dos cabides e desdobrou-as para mostrar a Ginika. Ifemelu olhava as etiquetas e convertia os preços para naira, depois comentava: “Hum! Como essa coisa pode custar tanto?”. Pegou e examinou cuidadosamente algumas das roupas para descobrir o que era cada uma, se uma roupa de baixo ou uma blusa, se uma camisa ou um vestido, e às vezes não chegava a nenhuma conclusão.

“Isso literalmente acabou de chegar”, disse a vendedora, mostrando um vestido com brilhos como quem divulgava um grande segredo, e Ginika disse “Ai, meu Deus, jura?” com muita animação. Sob as luzes fortes demais do vestiário, Ginika experimentou o vestido e ficou andando na ponta dos pés. “Amei.”

“Mas ele não tem forma”, disse Ifemelu. Para ela, parecia um saco quadrado no qual uma pessoa entediada havia grudado lantejoulas de maneira aleatória.

“É pós-moderno”, disse Ginika.

Ao ver Ginika se exibir diante do espelho, Ifemelu se perguntou se ela também adquiriria o mesmo gosto por vestidos sem forma, se era isso que os Estados Unidos faziam com você.

No caixa, a funcionária loura perguntou: “Alguém atendeu você?”.

“Sim”, disse Ginika.

“Chelcy ou Jennifer?”

“Desculpe, não lembro o nome dela.” Ginika olhou em torno para apontar a vendedora, mas ambas as jovens haviam sumido nos vestiários dos fundos.

“Foi a de cabelo comprido?”

“Bom, as duas tinham cabelo comprido.”

“Foi a de cabelo preto?”

As duas tinham cabelo preto.

Ginika sorriu e olhou para a caixa, que sorriu e olhou para Ginika, e dois segundos flácidos se arrastaram até que a segunda disse, num tom alegre: “Não tem problema, eu descubro depois e garanto a comissão dela”.

Quando saíram da loja, Ifemelu disse: “Eu estava vendo a hora que ela ia perguntar: ‘Foi a que tinha dois olhos ou a que tinha duas pernas?’. Por que ela não perguntou se tinha sido a negra ou a branca?”.

Ginika riu. “Porque aqui é a América. A gente tem que fingir que não nota certas coisas.

 

Ginika perguntou se Ifemelu não queria morar com ela e economizar no aluguel, mas o apartamento dela ficava muito longe, no fim da linha principal, e pegar o trem todos os dias para a Filadélfia seria caro demais. Elas foram ver apartamentos juntas na parte oeste da cidade e Ifemelu ficou surpresa ao encontrar armários podres na cozinha e um camundongo correndo por um quarto vazio.

“Meu alojamento em Nsukka era sujo, mas não tinha rato, ô.”

“É um camundongo”, disse Ginika.

Ifemelu estava prestes a assinar um contrato — se para economizar ela tinha que morar com camundongos, que fosse — quando uma amiga de Ginika falou para elas de um quarto para alugar, um negócio ótimo para quem estava na faculdade. Era num apartamento de quatro quartos com o carpete mofado que ficava em cima de uma pizzaria na Powelton Avenue, na esquina onde drogados às vezes largavam o cachimbo de crack, pedaços horríveis de metal retorcido que brilhavam ao sol. O quarto de Ifemelu era o mais barato, o menor, de frente para a parede de tijolos gastos do prédio ao lado. Havia pelos de cachorro flutuando no ar. Suas colegas de apartamento, Jackie, Elena e Allison, quase pareciam ser a mesma pessoa, todas meninas franzinas de quadris estreitos com cabelos castanhos alisados e tacos de lacrosse empilhados no corredor estreito. O cachorro de Elena andava pela casa, grande e preto como um burrico de pelos longos; de tempos em tempos, uma pilha de cocô aparecia na base da escada e Elena gritava “Você está ferrado agora, rapazinho!” como se estivesse fazendo uma performance para as outras, interpretando um papel cujas falas todas conheciam. Ifemelu lamentou que o cachorro não ficasse do lado de fora, que era o lugar dos cachorros. Quando Elena perguntou por que Ifemelu não havia feito carinho ou coçado a cabeça do animal durante sua primeira semana no apartamento, ela respondeu: “Não gosto de cachorro”.

“Isso é tipo uma coisa cultural?”

“Como assim?”

“Tipo, eu sei que na China eles comem carne de gato e de cachorro.”

“Meu namorado adora cachorro, eu só não gosto.”

“Ah”, disse Elena, olhando para Ifemelu com o cenho franzido, do mesmo jeito que Jackie e Allison haviam olhado mais cedo, quando ela disse que nunca tinha jogado boliche, como se estivessem se perguntando como poderia ser uma pessoa normal sem nunca ter jogado boliche. Ifemelu estava na periferia de sua própria vida, compartilhando uma geladeira e um banheiro, uma intimidade rasa, com pessoas que não conhecia nem um pouco. Pessoas que viviam usando pontos de exclamação. “Legal!”, diziam sempre. “Que legal!” Pessoas que não esfregavam a pele quando tomavam banho; o banheiro era repleto de xampus, condicionadores e géis, mas não havia nem uma esponja e isso, a ausência de uma esponja, fazia as colegas parecerem irremediavelmente estranhas para ela. (Uma de suas lembranças mais antigas era da mãe no banheiro com um balde de água, dizendo: “Ngwa, esfregue entre as pernas muito, muito bem…”; Ifemelu usara a esponja com um pouco de vigor demais, para mostrar à mãe quão bem sabia se limpar, e durante os dias que se seguiram teve que andar com as pernas bem abertas.) Havia uma falta de questionamento na vida de suas colegas de apartamento, uma certeza presumida que a fascinava, pois elas sempre diziam “Vamos lá pegar” sobre o que quer que precisassem — mais cerveja, pizza, asinhas de frango, destilado — como se esse pegar fosse um ato que não requeria dinheiro. Na Nigéria, ela estava acostumada às pessoas primeiro perguntarem “Você tem dinheiro?” antes de fazerem esses planos. Elas largavam caixas de pizza na mesa da cozinha; a cozinha em si ficava bagunçada durante dias; nos fins de semana, seus amigos se reuniam na sala, deixando latas de cerveja empilhadas na geladeira e rastros de urina seca no assento da privada.

“Vamos a uma festa. Venha também, vai ser ótimo!”, disse Jackie, e Ifemelu vestiu calças justas e uma blusa frente única que havia pegado emprestada de Ginika.

“Vocês não vão se vestir?”, ela perguntou às outras meninas antes de saírem. Jackie disse: “Nós estamos vestidas. Como assim?”, com uma risada que sugeria que mais uma estranheza havia surgido. Elas foram à casa de uma fraternidade na Chestnut Street, onde todos ficaram parados, de pé, bebendo um ponche cheio de vodca em copos de plástico até Ifemelu aceitar o fato de que ninguém ia dançar; fazer uma festa ali era beber de pé. As roupas dos estudantes daquela festa eram de tecidos esfiapados e golas largas, parecendo gastas de propósito. (Anos mais tarde, ela escreveria um post para o blog dizendo que, quando a questão é se vestir bem, a cultura americana é tão satisfeita consigo mesma que não apenas tem uma falta de atenção com a cortesia de uma boa aparência como transformou essa falta de atenção numa virtude. “Somos superiores/ocupados/malandros/relaxados demais para nos importarmos com nosso aspecto aos olhos dos outros, por isso podemos usar pijamas para ir à escola e roupa de baixo para ir ao shopping.”) Conforme eles foram ficando mais e mais bêbados, alguns caíram, desacordados, no chão, e outros pegaram canetas e começaram a escrever na pele exposta dos primeiros. Chupa. Vai, Sixers.

“A Jackie disse que você é da África”, comentou um menino de boné de beisebol.

“Sou.”

“Que maneiro!”, disse ele, e Ifemelu imaginou-se contando aquilo a Obinze, a maneira como o imitaria. Obinze arrancava cada fiapo de história dela, repassando os detalhes, fazendo perguntas, e às vezes ria, o som ecoando pela linha do telefone. Ifemelu lhe contou sobre a vez em que Allison disse: “Ei, a gente vai comer um negócio. Venha também!”, e ela achou que era um convite e que, como acontecia nos convites na Nigéria, Allison ou uma das outras pagaria a conta. Mas, quando a garçonete trouxe a conta, Allison começou a decifrar cuidadosamente quantas bebidas cada uma havia pedido e quem havia comido a lula de entrada para se certificar de que ninguém ia pagar por outro. Obinze achara muito engraçado, e disse: “Isso é a América mesmo!”.

Para Ifemelu, foi engraçado apenas na hora de contar. Ela teve dificuldades para esconder seu espanto com as fronteiras da hospitalidade e também com a questão das gorjetas — pagar mais quinze ou vinte por cento para a garçonete —, que parecia muito com um suborno, um sistema forçado e eficiente de suborno.