Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 49 de 55

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Americanah

Capítulo 49

 

A lancha deslizava na água cheia de espuma, passando por praias de areias cor de marfim e árvores de um verde explosivo, luxuriante. Ifemelu ria. Ela se flagrou no meio do riso e observou aquele instante, em que estava com um colete salva-vidas laranja amarrado ao corpo, vendo um barco no horizonte esfumado e suas amigas de óculos escuros a caminho da casa de praia da amiga de Priye, onde iam fazer um churrasco e correr descalças. Pensou: estou mesmo em casa. Estou em casa. Ela não mandava mais mensagens de texto para Ranyinudo perguntando o que fazer — Devo comprar carne no Shoprite ou mandar Iyabo ao mercado? Onde devo comprar cabides? Agora, acordava com o som dos pavões e saía da cama com a programação do dia já familiar e as rotinas feitas sem pensar. Tinha se matriculado numa academia, mas ido apenas duas vezes, porque depois do trabalho preferia ir encontrar as amigas e, embora sempre planejasse não comer, acabava comendo um sanduíche e bebendo uma ou duas cervejas Chapman e então decidindo adiar a ida à academia. Suas roupas estavam ainda mais apertadas agora. Em algum lugar, numa parte recôndita da mente, estava o desejo de perder peso antes de reencontrar Obinze. Ela ainda não tinha ligado para ele; ia esperar até voltar a ser tão esguia quanto antes.

No trabalho, Ifemelu sentia uma inquietação cada vez maior. Zoe a sufocava. Era como usar um suéter que irritava a pele no frio: ela estava louca para arrancá-lo, mas temia o que aconteceria se o fizesse. Pensava muito em começar um blog, em escrever sobre o que lhe importava, construindo-o devagar, e finalmente publicando sua própria revista. Mas era uma ideia nebulosa, uma grande incógnita. Ter aquele emprego, agora que estava de volta à Nigéria, fazia com que se sentisse ancorada. No início, Ifemelu tinha gostado de fazer as matérias, entrevistando mulheres da alta sociedade em casa, observando sua vida e reaprendendo velhas sutilezas. Mas logo começou a se entediar e, durante as entrevistas, não ouvia direito, não estava inteiramente presente. Sempre que entrava nas propriedades cimentadas daquelas mulheres, desejava que ali houvesse areia onde pudesse enfiar os dedos dos pés. Um criado ou uma criança abria a porta para ela e deixava-a sentada numa sala de couro e mármore que lembrava um aeroporto bem limpo num país rico. Então a madame aparecia, simpática e bem-humorada, oferecendo-lhe algo para beber e às vezes comida antes de se sentar no sofá para falar. Todas as madames que Ifemelu entrevistava se gabavam das coisas que possuíam, dos lugares onde elas e os filhos tinham estado, de tudo que já haviam feito, e coroavam esses feitos com Deus. Agradecemos a Deus. Foi Deus quem fez. Deus é fiel. Quando ia embora, Ifemelu pensava que podia escrever as matérias sem precisar fazer as entrevistas.

Ela também podia cobrir eventos sem comparecer a eles. Como essa palavra era comum em Lagos, e como era popular: evento. Podia ser o relançamento de um produto, um desfile de moda, o lançamento de um disco. Tia Onenu sempre insistia para que uma redatora fosse com o fotógrafo. “Por favor, não deixe de interagir”, dizia. “Se eles ainda não estiverem anunciando na revista, queremos que comecem; e, se já estiverem, queremos que anunciem mais!” Para Ifemelu, tia Onenu dizia “interagir” com grande ênfase, como se achasse que isso era algo que ela não fazia bem. Talvez estivesse certa. Nesses eventos, em salões tomados por balões, rolos de panos cintilantes drapeados nos cantos, cadeiras cobertas de gaze e recepcionistas demais andando de um lado para o outro com o rosto coberto por uma maquiagem berrante, Ifemelu não gostava de conversar com estranhos sobre a Zoe. Ela passava o tempo todo trocando mensagens de texto com Ranyinudo, Priye ou Zemaye, entediada, esperando pelo momento em que não seria considerado falta de educação ir embora. Sempre eram feitos dois ou três discursos digressivos que pareciam ter sido escritos pela mesma pessoa prolixa e falsa. Os ricos e famosos eram mencionados — “Gostaríamos de mencionar a presença do ex-governador de…”. Garrafas eram desarrolhadas, caixas de suco eram abertas, samosas e satays de frango eram servidos. Certa vez, num evento ao qual Ifemelu foi com Zemaye, o lançamento de uma nova marca de bebidas, ela achou ter visto Obinze passando. Virou-se. Não era ele, mas podia muito bem ser. Ifemelu imaginou-o indo a eventos como aquele, em salões como aquele, com a esposa ao lado. Ranyinudo lhe dissera que, quando estudava, a esposa dele havia sido eleita a menina mais bonita da Universidade de Lagos e, na imaginação de Ifemelu, ela tinha o rosto de Bianca Onoh, o ícone de beleza de sua adolescência, com maçãs do rosto altas e olhos amendoados. Quando Ranyinudo mencionou o nome da mulher, Kosisochukwu, um nome incomum, Ifemelu imaginou a mãe de Obinze pedindo-lhe que o traduzisse. A ideia de a mãe de Obinze e a esposa de Obinze decidindo qual tradução era melhor — A Vontade de Deus ou Como Deus Quiser — foi como uma traição. A lembrança da mãe de Obinze dizendo “traduza” todos aqueles anos atrás parecia ainda mais preciosa agora que ela havia falecido.

Quando Ifemelu estava saindo do evento, viu Don. “Ifemelu”, disse ele, e ela levou um instante para reconhecê-lo. Ranyinudo os apresentara certa tarde, meses antes, quando Don passara no apartamento de Ranyinudo a caminho do clube, usando roupa de tênis branca, e Ifemelu tinha ido embora quase imediatamente, para dar privacidade a eles. Estava elegante num terno azul-marinho, com o cabelo grisalho lustroso.

“Boa noite”, disse ela.

“Você está muito bonita”, disse Don, avaliando seu vestido de noite decotado.

“Obrigada.”

“Você nunca pergunta por mim.” Como se houvesse algum motivo para ela perguntar por ele. Don lhe deu seu cartão. “Ligue para mim, não deixe de ligar, ê. Vamos conversar. Cuide-se.”

Ele não estava interessado em Ifemelu, não particularmente; era apenas um homem importante de Lagos, ela era bonita e solteira e, pelas leis de seu universo, ele tinha de lhe passar uma cantada, mesmo que fosse sem muita convicção, mesmo que já estivesse saindo com sua amiga, esperando, é claro, que Ifemelu não fosse contar a ela. Enfiou o cartão de Don na bolsa e, quando chegou em casa, rasgou-o em minúsculos pedacinhos que observou flutuando na água da privada durante algum tempo antes de dar a descarga. Sentiu uma estranha raiva dele. Sua ação indicava algo sobre a amizade dela com Ranyinudo que não lhe agradava. Ifemelu ligou para Ranyinudo e estava prestes a lhe contar quando ela disse: “Ifem, estou tão deprimida”. E, por isso, Ifemelu apenas escutou o que ela tinha a dizer. O problema era Ndudi. “Ele é tão criança”, disse Ranyinudo. “Se você diz que não gosta de algo, ele para de falar e começa a cantarolar. Cantarolar mesmo, alto. Como um homem adulto pode se comportar de forma tão imatura?”

 

Era segunda-feira de manhã e Ifemelu estava lendo Postbourgie, seu blog americano preferido. Zemaye examinava uma pilha de fotos em papel brilhante. Doris olhava para a tela do computador com uma xícara que dizia I ♥ FLORIDA entre as duas mãos. Sobre sua mesa, ao lado do computador, havia uma lata de chá.

“Ifemelu, acho que essa matéria está maldosinha demais?”

“Seu comentário editorial não tem preço”, disse Ifemelu.

“O que significa ‘maldosinha’? Por favor, expliquem para aqueles que não estudaram nos Estados Unidos”, disse Zemaye.

Doris a ignorou por completo.

“É só que eu não acho que tia Onenu vai querer publicar isso?”

“Convença-a, você é a editora”, disse Ifemelu. “Precisamos deslanchar essa revista.”

Doris deu de ombros e se levantou. “Vamos falar sobre isso na reunião?”

“Estou com tanto sono”, disse Zemaye. “Vou mandar Esther fazer Nescafé para não dormir na reunião.”

“Café instantâneo é horrível?”, disse Doris. “É, tipo, a pior coisa?”

Zemaye bocejou e se espreguiçou. “Já eu gosto de café. E café é café.”

Mais tarde, quando entraram no escritório de tia Onenu, Doris na frente, usando um macaquinho azul largo e sapatos de presilha com o salto quadrado, Zemaye perguntou a Ifemelu: “Por que Doris usa essas porcarias para vir trabalhar? Ela parece estar contando uma piada com as próprias roupas”.

Elas se sentaram em redor da mesa oval de conferências no espaçoso escritório de tia Onenu. O mega-hair atual dela era mais longo e incongruente que o anterior, com a parte da frente arrumada num penteado alto e madeixas cascateando até as costas. Ela deu um gole numa garrafa de Sprite diet e disse que tinha gostado da matéria de Doris, “Casando com seu melhor amigo”.

“Muito boa e inspiradora”, disse.

“Ah, tia Onenu, mas as mulheres não devem se casar com seu melhor amigo porque não há química sexual”, disse Zemaye.

Tia Onenu lançou a Zemaye o olhar que se lança à aluna maluca que ninguém pode levar a sério e então embaralhou seus papéis e disse que não tinha gostado do perfil de Ifemelu da sra. Funmi King.

“Porque você disse que ela nunca olha para o mordomo quando fala com ele?”, perguntou tia Onenu.

“Por que não olha”, disse Ifemelu.

“Mas isso a faz parecer horrível”, disse tia Onenu.

“Acho que é um detalhe interessante”, disse Ifemelu.

“Concordo com tia Onenu”, disse Doris. “Interessante ou não, é muito crítico?”

“A ideia de entrevistar uma pessoa e escrever um perfil é fazer uma crítica”, disse Ifemelu. “A questão não é o entrevistado. É o que o entrevistador achou do entrevistado.”

Tia Onenu balançou a cabeça. Doris balançou a cabeça.

“Por que a gente tem de escrever sempre as mesmas coisas?”, perguntou Ifemelu.

Doris disse, com falso bom humor: “Porque aqui não é seu blog americano sobre questões raciais onde você provocava todo mundo, Ifemelu. É uma revista feminina que trata de coisas decentes e saudáveis?”.

“É, sim!”, disse tia Onenu.

“Mas, tia Onenu, nunca vamos ultrapassar a Glass se continuarmos assim”, disse Ifemelu.

Tia Onenu arregalou os olhos.

“A Glass faz exatamente a mesma coisa que nós”, disse Doris depressa.

Esther entrou para dizer a tia Onenu que sua filha havia chegado.

Os sapatos de salto alto pretos de Esther tremiam e, quando ela passou, Ifemelu temeu que fossem arrebentar e torcer os calcanhares da recepcionista. No início da manhã, Esther dissera a Ifemelu “Tia, seu cabelo está ruim” com uma espécie de honestidade triste, falando de algo que Ifemelu considerava um penteado retorcido bonito.

“Ela já está aqui? Meninas, por favor, terminem a reunião. Vou levar minha filha para comprar um vestido e tenho uma reunião com nossos distribuidores à tarde.”

Ifemelu estava cansada, entediada. Mais uma vez, pensou em escrever um blog. Seu telefone vibrou. Era Ranyinudo ligando e, normalmente, ela teria esperado a reunião acabar para ligar de volta. Mas disse: “Desculpe, preciso atender, é uma ligação internacional”, e saiu às pressas. Ranyinudo reclamou de Don. “Ele disse que não sou a menina doce que costumava ser. Que mudei. Sei que ele comprou o jipe para mim e até passou com ele pela alfândega no porto, mas agora não quer me dar.”

Ifemelu pensou na expressão “menina doce”. Dizer que Ranyinudo era uma menina doce significava que, durante um bom tempo, Don a transformara numa forma maleável, ou que ela permitira que ele pensasse que o estava fazendo.

“E Ndudi?”

Ranyinudo deu um suspiro audível. “A gente não se fala desde domingo. Hoje, ele vai se esquecer de me ligar. Amanhã, vai estar ocupado demais. Eu disse que não vou aceitar esse tipo de coisa. Por que devo fazer todo o esforço? Agora, ele está emburrado. Não consegue nunca iniciar uma conversa como um adulto ou concordar que fez algo errado.”

Mais tarde, quando estavam de volta no escritório, Esther disse que um tal de sr. Tolu queria ver Zemaye.

“É o fotógrafo com quem você fez o artigo sobre os alfaiates?”, perguntou Doris.

“É. Ele está atrasado. Evita meus telefonemas há semanas”, disse Zemaye.

Doris disse: “Você precisa cuidar disso e ter certeza de que as imagens vão estar na minha mão até amanhã à tarde? Preciso mandar tudo para a gráfica antes das três? Não quero que a impressão atrase de novo, principalmente agora que a Glass está sendo impressa na África do Sul?”.

“Tudo bem.” Zemaye sacudiu o mouse. “O servidor está tão lento hoje. Só preciso mandar isso. Esther, peça para ele esperar.”

“Sim, senhora.”

“Você está se sentindo melhor, Esther?”, perguntou Doris.

“Sim, senhora. Obrigada, senhora.” Esther fez uma mesura à maneira dos iorubas. Ela estava parada ao lado da porta como se estivesse esperando ser dispensada, escutando a conversa. “Estou tomando remédio para febre tifoide.”

“Você está com febre tifoide?”, perguntou Ifemelu.

“Você não viu como ela estava na segunda? Eu lhe dei dinheiro na segunda-feira e a mandei ir a um hospital, não a um farmacêutico?”, disse Doris.

Ifemelu desejou que tivesse sido ela quem notara que Esther não estava bem.

“Sinto muito, Esther”, disse Ifemelu.

“Obrigada, senhora.”

“Esther, sinto muito, ô”, disse Zemaye. “Vi o rosto abatido dela, mas achei que era só porque estava jejuando. Vocês sabem que ela está sempre jejuando. Vai jejuar sem parar até Deus lhe dar um marido.”

Esther deu uma risadinha.

“Eu lembro que tive um acesso forte de febre tifoide quando estava no ensino médio”, disse Ifemelu. “Foi horrível, e acabamos descobrindo que eu estava tomando um antibiótico que não era forte o suficiente. O que você está tomando, Esther?”

“Remédio, senhora.”

“Que antibiótico eles te deram?”

“Não sei.”

“Você não sabe o nome?”

“Vou trazer, senhora.”

Esther voltou com pílulas em pacotes transparentes em que havia instruções, mas não nomes, escritas numa letra muito feia, em tinta azul. Tomar dois de manhã e à noite. Tomar um três vezes ao dia.

“Devíamos escrever sobre isso, Doris. Devíamos ter uma coluna sobre saúde com informações práticas e úteis. Alguém devia informar o ministro da Saúde de que os nigerianos vão se consultar e o médico dá remédios sem nome para eles. Isso pode matar. Como alguém vai saber que remédio você já tomou ou o que não deve tomar se já estiver tomando outra coisa?”

“Ahn-hã, mas esse problema é pequeno: eles fazem isso para você não comprar remédios de outras pessoas”, disse Zemaye. “E quanto aos remédios falsificados? Vá ao mercado e veja o que eles estão vendendo.”

“Bom, vamos com calma? Não precisa dar uma de ativista? A gente não faz jornalismo investigativo aqui?”, disse Doris.

Ifemelu então começou a visualizar seu novo blog, com um fundo azul e branco e, no cabeçalho, uma vista aérea de uma cena de Lagos. Nada que fosse familiar, como um engarrafamento de ônibus amarelos enferrujados ou uma favela de barracos de metal alagada. Talvez a casa abandonada ao lado de seu prédio servisse. Ela mesma tiraria a foto, na luz assombrada do fim de tarde, esperando pegar o pavão macho em pleno voo. Os posts do blog seriam numa fonte simples e legíveis. Um artigo sobre saúde usando a história de Esther, com fotos dos pacotes de remédios sem nome. Uma matéria sobre o Clube Nigerpolita. Um artigo sobre moda falando de roupas que as mulheres realmente possam comprar. Posts sobre pessoas ajudando outras, mas diferentes das matérias da Zoe, que sempre mostravam alguém rico abraçando crianças num orfanato com um saco de arroz e latas de leite em pó empilhadas no fundo.

“Mas, Esther, você tem de parar com todo esse jejum, ô”, disse Zemaye. “Você sabia que em alguns meses Esther dá todo o seu dinheiro para a igreja? Eles chamam isso de ‘plantar a semente’, e aí ela vem e me pede para lhe dar trezentos nairas para o transporte.”

“Mas, senhora, é só uma pequena ajuda. A tarefa não é pesada demais para a senhora”, disse Esther, sorrindo.

“Semana passada, ela estava jejuando com um lenço”, continuou Zemaye. “Ficou com o lenço em cima da mesa o dia todo. Disse que uma pessoa de sua igreja foi promovida depois de jejuar com o lenço.”

“Era por isso que tinha um lenço na mesa dela?”, perguntou Ifemelu.

“Mas eu acredito que os milagres funcionam totalmente? Sei que minha tia se curou de um câncer na igreja dela?”, disse Doris.

“Com um lenço mágico, abi?”, perguntou Zemaye com desdém.

“Você não acredita, senhora? Mas é verdade.” Esther estava gostando da camaradagem, relutando em voltar para sua mesa.

“Então você quer uma promoção, Esther? O que significa que quer meu emprego?”, disse Zemaye.

“Não, senhora! Todas vamos ser promovidas, em nome de Jesus!”, disse Esther.

Todas riram.

“Esther já te disse que espírito você tem, Ifemelu?”, perguntou Zemaye, andando até a porta. “Quando comecei a trabalhar aqui, ela sempre me convidava para ir à sua igreja e então um dia me disse que haveria um culto especial para pessoas com o espírito de sedução. Pessoas como eu.”

“Isso não é completamente descabido?”, disse Doris, com um sorriso zombeteiro.

“Qual é meu espírito, Esther?”, perguntou Ifemelu.

Esther balançou a cabeça, sorrindo, e saiu do escritório.

Ifemelu se voltou para o computador. O nome do blog havia acabado de lhe ocorrer. As Pequenas Redenções de Lagos.

“Quem será que Zemaye está namorando?”, disse Doris.

“Ela me disse que não tem namorado.”

“Você já viu o carro dela? Com o salário que ganha, não consegue nem pagar o farol daquele carro? A família dela não é rica nem nada. Eu trabalho com ela há quase um ano e não sei, tipo, o que realmente faz?”

“Talvez ela vá para casa, mude de roupa e se transforme numa bandida mascarada à noite”, disse Ifemelu.

“Esqueça”, disse Doris.

“Devíamos fazer uma matéria sobre igrejas”, disse Ifemelu. “Como a igreja de Esther.”

“Isso não se encaixa na linha editorial da Zoe.”

“Não faz sentido tia Onenu querer publicar três perfis dessas mulheres chatas que não fizeram nada da vida e não têm nada a dizer. Ou de mulheres mais novas sem nenhum talento que decidiram que são estilistas.”

“Você sabe que elas pagam à tia Onenu, não sabe?”, perguntou Doris.

“Elas pagam?” Ifemelu arregalou os olhos. “Não. Não sabia. E você sabia que eu não sabia.”

“Bom, elas pagam. A maioria? Você tem de se dar conta de que muitas coisas neste país acontecem desse jeito?”

Ifemelu se levantou para pegar suas coisas. “Nunca sei no que você acredita, se é que acredita em alguma coisa.”

“E você é uma escrota que adora criticar!”, gritou Doris, com os olhos esbugalhados. Ifemelu, assustada com a mudança abrupta, pensou que talvez, por baixo de todas as afetações retrô, Doris fosse uma daquelas mulheres que podiam se transformar quando eram provocadas, arrancar as roupas e brigar no meio da rua.

“Você fica aqui, criticando todo mundo”, disse Doris. “Quem você pensa que é? Por que acha que essa revista deve ser sobre você? Ela não é sua. Tia Onenu te disse como quer que sua revista seja e ou você faz isso ou não devia estar trabalhando aqui?”

“Você precisa passar um hidratante e parar de assustar as pessoas com esse batom vermelho horroroso”, disse Ifemelu. “E precisa arrumar outras coisas para fazer da vida e parar de achar que puxar o saco de tia Onenu e ajudá-la a publicar uma revista horrível vai abrir portas para você, porque não vai.”

Ela saiu do escritório se sentindo horrível, envergonhada, por causa do que acontecera. Talvez aquilo fosse um sinal para pedir demissão e começar a escrever o blog.

Quando estava saindo, Esther disse, num tom baixo e sincero: “Senhora? Acho que a senhora tem o espírito de repelir marido. É muito severa, senhora, não vai encontrar marido. Mas meu pastor sabe destruir esse espírito”.