Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 6 de 55

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Americanah

Capítulo 6

 

Durante a semana, tia Uju ia correndo para casa para tomar um banho e esperar o General e, nos fins de semana, ela ficava descansando de camisola, lendo, cozinhando ou vendo televisão, porque ele ficava em Abuja com a mulher e os filhos. Ela evitava tomar sol e usava cremes que vinham em frascos elegantes para que sua pele, naturalmente tão clara, ficasse ainda mais clara, mais luminosa e ganhasse uma camada de brilho. Às vezes, quando dava ordens a seu motorista, Sola, ou a seu jardineiro, Baba Flower, ou a suas duas empregadas, Inyang, que fazia a limpeza, e Chikodili, que cozinhava, Ifemelu se lembrava da menina do interior que tia Uju era quando fora para Lagos tantos anos antes, que a mãe de Ifemelu dizia ser tão roceira que não parava de tocar as paredes do apartamento, pois por algum motivo esse povo do interior não conseguia ficar de pé sem sujar a parede com a mão. Ifemelu se perguntava se tia Uju alguma vez se observava com os olhos da menina que costumava ser. Talvez não. Ela se firmou em sua nova vida com grande leveza, mais consumida pelo próprio General do que por sua nova prosperidade.

A primeira vez que Ifemelu viu a casa de tia Uju em Dolphin Estate, não teve vontade de ir embora. O banheiro a fascinou, com sua torneira de água quente, seu chuveiro caudaloso, seus azulejos cor-de-rosa. As cortinas do quarto eram feitas de seda crua e ela disse a tia Uju: “Hum, é um desperdício usar esse tecido para fazer cortina! Vamos fazer vestidos com ele”. A sala tinha portas de vidro que abriam e fechavam deslizando, sem fazer nenhum barulho. Até a cozinha tinha ar-condicionado. Ifemelu queria morar ali. Ia impressionar suas amigas. Imaginou-as sentadas na saleta que dava para a sala de estar, que tia Uju chamava de sala de televisão, assistindo a programas via satélite. Assim, perguntou aos pais se poderia ficar com tia Uju durante a semana. “É mais perto da escola. Não vou precisar pegar dois ônibus. Posso ir às segundas-feiras e voltar às sextas. E também posso ajudar tia Uju a cuidar da casa.”

“Pelo que compreendi, ela já tem ajuda suficiente”, respondeu o pai.

“É uma boa ideia”, disse a mãe. “Ela vai poder estudar mais lá, e ao menos haverá luz todos os dias. Não vai ter de usar lâmpadas de querosene.”

“Ela pode visitar Uju depois da aula e nos fins de semana. Mas não vai morar lá”, disse o pai.

A mãe parou de falar, espantada com a firmeza dele. “Tudo bem”, disse, lançando um olhar impotente à filha.

Ifemelu passou dias emburrada. Seu pai sempre a mimava, aceitando fazer o que ela queria, mas dessa vez ignorou seu bico e seus silêncios deliberados na mesa de jantar. Fingiu não notar quando tia Uju lhes trouxe uma televisão nova. Recostou-se em seu sofá puído, lendo seu livro gasto, enquanto o motorista de tia Uju colocava a caixa de papelão da Sony no chão. A mãe de Ifemelu começou a cantar uma música da igreja — “O Senhor me deu a vitória, eu o erguerei bem alto” — que eles muitas vezes cantavam na hora de distribuir o dízimo.

“O General comprou mais do que eu preciso para a casa. Não havia onde pôr essa”, disse tia Uju, uma declaração feita para ninguém em particular, uma maneira de evitar agradecimentos. A mãe de Ifemelu abriu a caixa e tirou gentilmente a embalagem de isopor.

“Na nossa antiga não se vê mais nada”, disse ela, embora todos soubessem que não era verdade. “Olhem como é fininha!”, acrescentou. “Olhem!”

O pai ergueu os olhos do livro. “É, sim”, disse, baixando-os de novo.

 

O proprietário do apartamento veio de novo. Ele passou ventando por Ifemelu, entrou, foi para a cozinha e estendeu a mão até o quadro de luz, arrancando o fusível e cortando o pouco de eletricidade que tinham.

Depois que foi embora, o pai de Ifemelu disse: “Que ignomínia. Pedir dois anos de aluguel de uma vez. Sempre pagamos um”.

“Mas dessa vez não pagamos um ano”, disse a mãe e, em seu tom, havia a mais leve das acusações.

“Conversei com Akunne sobre pegar um empréstimo”, disse o pai. Ele não gostava de Akunne, seu quase primo, o homem próspero da aldeia deles a quem todos recorriam quando tinham problemas. Chamava-o de analfabeto lúgubre, de novo-rico ignorante.

“O que ele disse?”

“Disse para eu ir conversar com ele na sexta que vem.” Seus dedos estavam trêmulos, parecia estar se esforçando para reprimir a emoção. Ifemelu desviou o olhar depressa, torcendo para que ele não a tivesse visto observando-o, e pediu-lhe que explicasse uma pergunta difícil da lição de casa. Para distraí-lo, para fazer parecer que a vida poderia voltar ao normal.

 

Seu pai não ia pedir ajuda a tia Uju, mas, se ela lhe entregasse o dinheiro, ele não recusaria. Era melhor do que dever a Akunne. Ifemelu contou a tia Uju que o proprietário batera na porta deles, batidas altas e desnecessárias para que os vizinhos ouvissem, e gritou insultos para seu pai. “Você é homem ou não é? Quero meu dinheiro! Vou expulsar você deste apartamento se não receber o aluguel até a semana que vem!”

Conforme Ifemelu imitava o proprietário, uma expressão de tristeza cansada se espalhou pelo rosto de tia Uju. “Como pode um proprietário inútil constranger meu irmão desse jeito? Vou pedir a Oga que me dê o dinheiro.”

Ifemelu estacou. “Você não tem dinheiro?”

“Minha conta está quase vazia. Mas Oga vai me dar. Você sabia que não pagaram meu salário nem uma vez desde que comecei a trabalhar? Todo dia tem uma história nova do pessoal do financeiro. O problema começou com meu cargo, que não existe oficialmente, embora eu atenda pacientes todos os dias.”

“Mas os médicos estão em greve.”

“Os hospitais militares ainda pagam. Mas meu salário não seria suficiente para o aluguel, sha.”

“Você não tem dinheiro?”, Ifemelu perguntou de novo, devagar, para deixar aquilo claro, certificar-se. “Hum, tia, como você pode não ter dinheiro?”

“Oga nunca me dá muito dinheiro. Ele paga todas as contas e prefere que eu peça tudo o que quiser. Alguns homens são assim.”

Ifemelu olhou para ela, atônita. Tia Uju, em sua enorme casa rosa com a imensa antena satélite florescendo no telhado, o gerador transbordando de diesel, o congelador repleto de carne, não tinha dinheiro na conta do banco.

“Ifem, não faça essa cara como se alguém tivesse morrido!”, disse tia Uju com sua risada irônica. Ela subitamente pareceu pequena e perdida entre os detritos de sua nova vida, a caixa furta-cor sobre a penteadeira, o roupão de seda jogado sobre a cama, e Ifemelu sentiu medo por ela.

 

“Ele até me deu um pouco mais do que eu pedi”, tia Uju contou a Ifemelu no fim de semana seguinte com um sorrisinho, como se achasse divertido o que o General havia feito. “Vamos à sua casa depois do salão para eu dar o dinheiro ao meu irmão.”

Ifemelu ficou espantada ao saber o quanto um retoque de relaxamento na raiz custava no salão de tia Uju; as cabeleireiras altivas avaliavam cada cliente, olhando-as de cima a baixo para decidir quanta atenção mereciam. Tia Uju era alguém que bajulavam sem parar, fazendo mesuras profundas ao cumprimentá-la e elogiando de forma exagerada sua bolsa e seus sapatos. Ifemelu observou tudo, fascinada. Era ali, num salão de Lagos, que se podia compreender melhor a hierarquia da nobreza feminina.

“Aquelas meninas! Eu fiquei esperando que estendessem a mão e te pedissem para fazer cocô ali, para que pudessem idolatrá-lo também”, disse Ifemelu quando elas saíram do salão.

Tia Uju riu e deu tapinhas nos apliques de cabelo sedosos que cascateavam até a altura dos ombros: era um mega-hair chinês, a versão mais nova, brilhante e reto de tão liso; nunca embaraçava.

“Vivemos numa economia de puxa-saquismo, sabia? O maior problema deste país não é a corrupção. O problema é que há muitas pessoas qualificadas que não estão onde deveriam estar porque não puxam o saco de ninguém, ou porque não sabem que saco puxar ou porque nem sabem como puxar um saco. Eu tenho sorte, estou puxando o saco certo.” Ela sorriu. “É sorte, só isso. Oga disse que fui bem-criada, que não fui como todas essas meninas de Lagos que transam com ele na primeira noite e, na manhã seguinte, lhe dão uma lista do que querem ganhar. Transei com ele na primeira noite, mas não pedi nada, o que pensando bem foi idiota da minha parte, mas não transei com ele porque queria alguma coisa. Ah, essa coisa chamada poder… Senti atração por ele, mesmo com aqueles dentes de vampiro. Senti atração por seu poder.”

Tia Uju gostava de falar sobre o General, repetindo e saboreando versões diferentes das mesmas histórias. Seu motorista, cuja lealdade ganhara conseguindo consultas pré-natais para sua esposa e vacinas para seu bebê, revelara que o General pedia detalhes sobre aonde ela ia e quanto tempo ficava lá e, todas as vezes que tia Uju contava essa história a Ifemelu, finalizava com um suspiro. “Será que ele acha que eu não ia conseguir me encontrar com outro homem sem que ele soubesse, se quisesse? Mas não quero.”

Elas estavam no interior frio do Mazda. Quando o motorista passou de ré pelos portões do terreno onde ficava o salão, tia Uju fez um gesto para o porteiro, abriu a janela e deu-lhe algum dinheiro.

“Obrigado, madame!”, disse ele, batendo continência.

Ela passara notas de naira para todos os empregados do salão, para os seguranças que ficavam do lado de fora e para o policial no cruzamento.

“Eles não ganham o suficiente para pagar nem a escola de um filho”, disse tia Uju.

“O trocado que você deu para ele não vai para pagar uma mensalidade”, disse Ifemelu.

“Mas ele vai poder comprar uma coisinha extra, vai ficar com um humor melhor e não vai bater na esposa hoje à noite”, afirmou tia Uju. Ela olhou pela janela e disse “Vá mais devagar, Sola”, para poder observar um acidente na Osborne Street; um ônibus batera num carro; a frente do ônibus e a traseira do carro agora eram um monte de metal retorcido e os motoristas gritavam na cara um do outro, separados por uma multidão cada vez maior. “De onde eles vêm? Essa gente que aparece assim que tem um acidente?” Tia Uju se recostou no banco. “Você sabia que eu esqueci como é pegar um ônibus? É tão fácil se acostumar com tudo isso.”

“Você pode ir a Falomo agora e entrar num ônibus.”

“Mas não vai ser a mesma coisa. Nunca é a mesma coisa quando você tem uma escolha.” Tia Uju olhou para Ifemelu. “Não se preocupe comigo.”

“Não estou preocupada.”

“Está, sim, desde que eu te falei da minha conta.”

“Se outra pessoa fizesse isso, você ia dizer que ela era burra.”

“Eu não aconselharia você a fazer o que estou fazendo.” Tia Uju voltou o rosto para a janela. “Mas ele vai mudar. Vou fazê-lo mudar. Só tenho de ir devagar.”

No apartamento, tia Uju deu um saco plástico estourando de dinheiro para o pai de Ifemelu. “São dois anos de aluguel, meu irmão”, disse ela com um tom casual e constrangido, e depois fez uma piada sobre o furo na regata dele. Ela não o encarou enquanto falava e ele não a encarou quando agradeceu.

 

O General tinha olhos amarelados, o que sugeria a Ifemelu que fora subnutrido na infância. Seu corpo sólido e troncudo indicava que havia iniciado e vencido diversas brigas, e os dentes separados da frente faziam-no parecer vagamente perigoso. Ifemelu ficou surpresa com a vulgaridade exuberante dele. “Sou do interior!”, disse num tom de júbilo, como que para explicar as gotas de sopa que caíam na sua camisa e na mesa quando comia, ou os arrotos altos que dava depois. Chegava no fim da tarde, com seu uniforme verde, trazendo uma ou duas revistas de fofocas enquanto seu assistente vinha num passo obsequioso atrás, carregando sua pasta e colocando-a sobre a mesa de jantar. O General quase nunca ia embora com as revistas de fofocas; edições de Vintage People, Prime People e Lagos Life se espalhavam pela casa de tia Uju, com suas fotos fora de foco e suas manchetes sensacionalistas.

“Se eu te contar o que essas pessoas fazem, ê”, dizia tia Uju para Ifemelu, batendo numa foto de revista com sua unha francesinha. “As histórias de verdade nem estão nas revistas. Oga é que sabe de tudo.” Então ela falava do homem que fizera sexo com um general dos mais graúdos em troca de um campo de petróleo, do administrador militar cujos filhos na verdade eram de outro homem, das prostitutas estrangeiras que eram levadas de avião toda semana para o chefe de Estado. Tia Uju repetia as histórias com um divertimento afetuoso, como se achasse que o gosto do General por fofocas sórdidas fosse um defeito cativante que devia ser perdoado. “Sabia que ele tem medo de injeção? Um General com um cargo importante desses que, se vir uma agulha, morre de medo!”, dizia tia Uju, no mesmo tom. Aquilo, para ela, era um detalhe encantador. Ifemelu não conseguia pensar no General como encantador, com seus modos grosseiros e arrogantes, o jeito como batia no traseiro de tia Uju quando subiam as escadas, dizendo “Tudo isso para mim? Tudo isso para mim?”, e a maneira como falava sem parar, sem nunca acatar uma interrupção, até terminar uma história. Uma de suas preferidas, que ele sempre contava a Ifemelu enquanto bebia cerveja Star depois do jantar, era a história de como tia Uju era diferente. O General contava isso com um ar de autocongratulação, como se a diferença dela fosse um reflexo de seu bom gosto. “A primeira vez que falei que ia a Londres e perguntei o que queria, ela me deu uma lista. Antes de olhar, eu disse que já sabia o que ela ia querer. Não é perfume, sapatos, bolsa, relógio e roupas? Eu conheço as meninas de Lagos. Mas sabe o que tinha lá? Um perfume e quatro livros! Fiquei chocado. Chai. Passei mais de uma hora naquela livraria de Piccadilly. Trouxe vinte livros! Que menina de Lagos você conhece que pede livros?”

Tia Uju ria, subitamente doce e infantil. Ifemelu sorria, como sabia ser seu dever. Ela achava que era indigno e irresponsável aquele velho casado lhe contar histórias; era como se estivesse lhe mostrando sua cueca suja. Tentava vê-lo com os olhos de tia Uju, um homem cheio de maravilhas, de excitações mundanas, mas não conseguia. Reconhecia a leveza de ser, a alegria que tia Uju tinha nos dias de semana; era como ela mesma se sentia quando sabia que ia ver Obinze depois da escola. Mas parecia errado, um desperdício, tia Uju sentir isso pelo General. O ex-namorado dela, Olujimi, era diferente, um homem bonito de voz suave; sua polidez discreta brilhava. Eles haviam namorado durante quase toda a faculdade, e quem os via entendia por que estavam juntos. “Eu evoluí”, disse tia Uju.

“Quando a gente evolui, não passa para uma coisa melhor?”, perguntou Ifemelu. E tia Uju riu, como se fosse mesmo uma piada.

No dia do golpe, um amigo próximo do General ligou para tia Uju para perguntar se ela estava com ele. Havia tensão no ar: alguns oficiais do Exército já haviam sido presos. Tia Uju não estava com o General, não sabia onde ele estava e ficou andando de um lado para o outro no andar de cima e depois no andar de baixo da casa, preocupada, dando telefonemas dos quais não extraía nenhuma notícia. Logo, ela começou a ficar ofegante, sem conseguir respirar direito. Seu pânico se transformara num ataque de asma. Estava resfolegando, tremendo, furando o braço com uma agulha para tentar injetar remédio em si mesma, deixando gotas de sangue manchar a colcha da cama, fazendo com que Ifemelu corresse rua abaixo para bater na casa de um vizinho cuja irmã também era médica. Finalmente o General ligou para dizer que estava bem, que o golpe tinha fracassado e que o chefe de Estado não sofrera nada; os tremores pararam.

 

Num feriado muçulmano, um desses feriados de dois dias em que os não muçulmanos de Lagos dizem “Feliz salá!” para todos que presumem ser muçulmanos, muitas vezes porteiros do norte do país, e o canal NTA mostra imagens e mais imagens de homens matando carneiros, o General prometeu fazer uma visita; seria a primeira vez que passaria um feriado com tia Uju. Ela ficou a manhã toda na cozinha supervisionando o trabalho de Chikodili, cantando bem alto de tempos em tempos, sendo um pouco íntima demais com ela, rindo um pouco rápido demais. Finalmente, quando tudo estava preparado e a casa cheirava a temperos e molhos, tia Uju subiu para tomar um banho.

“Ifem, por favor, venha me ajudar a aparar os pelos lá de baixo. Oga disse que eles o atrapalham!”, disse tia Uju rindo, e então deitou de barriga para cima, com as pernas abertas para o alto e uma revista velha embaixo do corpo, enquanto Ifemelu usava uma gilete. Ifemelu já havia acabado e tia Uju passava um creme esfoliante no rosto quando o General ligou para dizer que não podia mais ir. Tia Uju, com o rosto parecendo o de um monstro, todo coberto de uma pasta branca como giz, com exceção dos círculos em torno dos olhos, desligou, entrou na cozinha e começou a colocar a comida em potes de plástico para guardar no congelador. Chikodili ficou olhando, confusa. Tia Uju fazia movimentos frenéticos, abrindo com um puxão o congelador e fechando com estrondo o armário. Quando foi empurrar para trás a panela de arroz jollof, o pote de sopa egusi caiu no chão. Tia Uju olhou para o líquido verde-amarelado se espalhando pelo chão da cozinha como se não soubesse como aquilo havia acontecido. Virou-se para Chikodili e gritou: “Por que está aí parada que nem uma idiota? Ande, limpe isso!”.

Ifemelu estava observando tudo da porta da cozinha. “Tia, é com o General que você devia estar gritando.”

Tia Uju parou, furiosa e com os olhos esbugalhados. “É comigo que você está falando desse jeito? Por acaso tenho a sua idade?”

Tia Uju avançou sobre ela. Ifemelu não esperava que tia Uju fosse bater nela, mas quando o tapa golpeou sua face, emitindo um som que pareceu vir de bem longe e fazendo vergões com formato de dedos surgirem ali, não ficou surpresa. As duas ficaram se olhando. Tia Uju abriu a boca como quem ia falar algo e então se virou e foi para cima, com ambas conscientes de que algo entre elas não era mais o mesmo. Tia Uju só desceu no final da tarde, quando Adesuwa e Uche foram visitá-la. Ela chamava as duas de “minhas amigas entre aspas”. “Vou ao salão com minhas amigas entre aspas”, dizia, com um riso cansado nos olhos. Sabia que eram suas amigas apenas por ela ser amante do General. Mas eram divertidas. Visitavam-na com insistência, comparando impressões sobre compras e viagens, pedindo-lhe que fosse a festas com elas. O estranho é que tia Uju as conhecia, mas não conhecia, disse um dia para Ifemelu. Sabia que Adesuwa tinha terras em Abuja, que ganhara na época em que saía com o chefe de Estado, e que um homem da etnia hausa conhecido por sua riqueza comprara uma butique em Surulere para Uche, mas não sabia quantos irmãos elas tinham, onde seus pais viviam ou se tinham feito faculdade.

Chikodili deixou-as entrar. Usavam cafetãs bordados e perfumes fortes e tinham mega-hair chinês cascateando até as costas. Sua conversa era forrada com uma aspereza mundana, um riso curto e desdenhoso. Eu disse a ele que tinha de comprar no meu nome, ô. Ah, eu sabia que ele não ia dar o dinheiro se eu não dissesse que tinha alguém doente. Não, ele não sabe que eu abri a conta. Elas iam a uma festa do Festival de Salá na Victoria Island e tinham ido buscar tia Uju.

“Não estou com vontade”, disse tia Uju enquanto Chikodili servia suco de laranja, numa bandeja com uma caixinha e dois copos.

“Hum. Por quê?”, perguntou Uche.

“Vai ter homens muito importantes lá”, disse Adesuwa. “Nunca se sabe se vai conhecer alguém.”

“Não quero conhecer ninguém”, disse tia Uju, e todas fizeram silêncio, como se tivessem que se recuperar do espanto, pois as palavras dela eram como uma tempestade que destruíra o que haviam imaginado. Ela devia querer conhecer outros homens, manter os olhos abertos; devia ver o General como alguém que poderia ser trocado por outro melhor. Finalmente uma delas, Adesuwa ou Uche, disse: “Esse seu suco de laranja é da marca barata, ô! Você não compra mais Just Juice?”. Era uma piada sem graça, mas elas riram para passar o constrangimento do momento.

Depois que foram embora, tia Uju se aproximou da mesa de jantar, onde Ifemelu estava sentada lendo.

“Ifem, eu não sei o que me deu. Ndo.” Ela segurou o pulso de Ifemelu e passou os dedos, quase sem ver o que fazia, sobre as letras em alto-relevo do título do livro de Sidney Sheldon. “Devo ser doida. Ele tem barriga de chope, dentes de vampiro, mulher, filhos e é velho.”

Pela primeira vez, Ifemelu se sentiu mais velha que tia Uju, mais sábia e forte que ela, e desejou poder arrancá-la dali, sacudi-la até que visse as coisas com mais clareza e se tornasse alguém que não colocaria suas esperanças no General, cozinhando e se raspando para ele, sempre ansiosa por diminuir seus defeitos. Não era assim que devia ser. Ifemelu sentiu uma leve satisfação quando, mais tarde, ouviu tia Uju gritando no telefone. “Mentira! Você sempre soube que ia para Abuja, então por que me deixou perder tempo preparando tudo?”

O bolo que um motorista entregou na manhã seguinte, com as palavras “Desculpe, meu amor” escritas em glacê azul, tinha um gosto levemente amargo. Ela guardou-o no congelador durante meses.

 

A gravidez de tia Uju veio como um som súbito numa noite silenciosa. Ela chegou ao apartamento usando uma túnica de paetê que refletia a luz, cintilando como um ente celeste e fluido, e disse que queria contar aos pais de Ifemelu antes que ouvissem a fofoca. “Adi m ime”, disse simplesmente.

A mãe de Ifemelu desatou a chorar, emitindo gritos dramáticos e olhando em volta, como se pudesse ver ali em torno os cacos de sua própria história. “Meu Deus, por que o Senhor me abandonou?”

“Não planejei isso, aconteceu”, disse tia Uju. “Fiquei grávida de Olujimi na faculdade. Fiz um aborto, mas não vou fazer outro.” A palavra “aborto”, tão franca, feriu a atmosfera da sala, porque todos sabiam que o que a mãe de Ifemelu não estava dizendo era que havia maneiras de lidar com aquilo. O pai de Ifemelu largou o livro que estava lendo e pegou-o de novo. Ele pigarreou. Consolou a esposa.

“Bom, eu não posso perguntar quais são as intenções dele”, disse afinal para tia Uju. “Por isso, pergunto quais são as suas.”

“Vou ter o bebê.”

O pai de Ifemelu esperou por mais, mas tia Uju não disse nada, e assim ele se recostou, acuado. “Você é adulta. Não foi isso que desejei para você, Obianuju, mas você é adulta.”

Tia Uju se levantou e sentou no braço do sofá onde ele estava. Ela falou num tom baixo e apaziguador, estranho por ser formal, mas livre de falsidade devido à sobriedade no rosto dela. “Irmão, isso também não foi o que desejei para mim, mas aconteceu. Sinto muito por desapontar você depois de tudo que fez por mim e imploro que me perdoe. Mas vou seguir adiante da melhor maneira possível. O General é um homem responsável. Ele vai tomar conta do filho.”

O pai de Ifemelu deu de ombros, mudo. Tia Uju enlaçou-o, como se fosse ele que precisasse de conforto.

 

Depois, Ifemelu pensaria naquela gravidez como algo simbólico. Marcou o início do fim e fez com que todo o resto parecesse célere, os meses escoando, o tempo precipitando-se para a frente. Lá estava tia Uju, plena de exuberância, com o rosto radiante e fazendo inúmeros planos conforme sua barriga ia crescendo. Passavam-se alguns dias e ela pensava num novo nome de menina para o bebê. “Oga está feliz”, disse ela. “Feliz de saber que ainda consegue marcar com sua idade, um cara velho como ele!” O General visitava-a com mais frequência, aparecendo até em alguns fins de semana e trazendo-lhe bolsas de água quente, remédios fitoterápicos, coisas que ouvira dizer serem boas para a gravidez.

Ele disse a tia Uju: “É claro que você vai ter o bebê no exterior”, e perguntou o que ela preferia, Estados Unidos ou Inglaterra. O General queria que fosse na Inglaterra, para poder ir junto; os americanos haviam barrado a entrada dos membros mais importantes do governo militar. Mas tia Uju escolheu os Estados Unidos porque, lá, o bebê poderia obter automaticamente a cidadania americana. Eles planejaram tudo, escolheram o hospital e alugaram um apartamento mobiliado num condomínio em Atlanta. “O que é um condomínio?”, perguntou Ifemelu. Tia Uju deu de ombros e respondeu: “Vai saber o que os americanos querem dizer com isso. Você devia perguntar a Obinze, ele deve saber. Pelo menos, é um lugar para ficar. E Oga conhece umas pessoas lá que vão me ajudar”. Tia Uju só perdeu um pouco do ânimo quando seu motorista lhe contou que a mulher do General tinha descoberto que ela estava grávida e ficara furiosa; aparentemente, houvera uma reunião tensa de família entre os parentes dele e os dela. O General quase nunca falava da esposa, mas tia Uju sabia o suficiente: era uma advogada que abrira mão da carreira para criar os quatro filhos deles em Abuja, uma mulher que parecia gorducha e agradável nas fotos dos jornais. “Queria saber o que ela está pensando”, disse tia Uju com tristeza, cismando. Enquanto ela estava nos Estados Unidos, o General mandou pintar um dos quartos de um branco brilhante. Comprou um berço com pernas parecendo velas delicadas. Comprou todo tipo de bichinho de brinquedo e ursos de pelúcia demais. Inyang colocou-os sentados dentro do berço, arrumou-os numa prateleira e, talvez por achar que ninguém ia notar, levou um para seu quarto nos fundos da casa. Tia Uju teve um menino. Ela parecia estar em êxtase quando telefonou. “Ifem, ele tem tanto cabelo! Dá para imaginar? Que desperdício!”

Batizou-o de Dike, o nome do pai, e deu-lhe apenas seu sobrenome, o que deixou a mãe de Ifemelu agitada e amarga.

“O bebê deveria ter o sobrenome do pai, ou esse homem está planejando renegar o filho?”, perguntou quando eles estavam sentados na sala, ainda digerindo a notícia do nascimento.

“Tia Uju disse que foi mais fácil dar o sobrenome dela”, explicou Ifemelu. “E por acaso o General está se comportando como um homem que vai renegar o filho? Tia Uju disse que ele está querendo até vir pagar o preço de noiva dela.”

“Deus nos livre”, disse a mãe de Ifemelu, quase cuspindo as palavras, e a menina pensou em todas aquelas preces fervorosas pelo mentor de tia Uju. Quando tia Uju voltou, a mãe de Ifemelu ficou na casa em Dolphin Estate durante algum tempo, alimentando e dando banho no bebê de pele macia que soltava bolinhas de cuspe, mas fitava o General com uma formalidade fria. Respondia às perguntas dele com monossílabos, como se o homem a tivesse traído ao quebrar as regras de seu fingimento. Ter um relacionamento com tia Uju era aceitável, mas uma prova tão flagrante disso, não. A casa cheirava a talco. Tia Uju estava feliz. O General sempre pegava Dike no colo, sugerindo que talvez precisasse mamar de novo ou que devesse ser levado ao médico para tratar a assadura no pescoço.

 

No aniversário de um ano de Dike, o General contratou uma banda para tocar. Eles organizaram os instrumentos no jardim da frente, do lado do galpão do gerador, e ficaram ali até os últimos convidados irem embora, todos caminhando devagar de tão saciados e levando comida embrulhada em papel-alumínio. Os amigos de tia Uju foram e os do General também, com uma expressão determinada, como quem dizia que, não importavam as circunstâncias, o filho de seu amigo era o filho de seu amigo. Dike, que acabara de começar a andar, cambaleava de terno e gravata-borboleta vermelha, enquanto tia Uju o seguia, tentando obrigá-lo a se manter imóvel durante alguns segundos para o fotógrafo. Finalmente, cansado, ele começou a chorar, tentando arrancar a gravata-borboleta, e o General pegou-o no colo e carregou-o pela festa. Era aquela a imagem do General que permaneceria gravada na mente de Ifemelu. Os braços de Dike em torno de seu pescoço, seu rosto iluminado, mostrando o sorriso com os dentes da frente projetados enquanto dizia: “Ele parece comigo, ô, mas graças a Deus saiu com os dentes da mãe”.

O General morreu na semana seguinte, num acidente com um avião militar. “No mesmo dia, exatamente, que o fotógrafo trouxe as fotos do aniversário de Dike”, dizia tia Uju sempre, ao contar a história, como se isso tivesse um significado especial.

Era uma tarde de sábado e Obinze e Ifemelu estavam na sala de televisão, Inyang lá em cima com Dike e tia Uju na cozinha com Chikodili quando o telefone tocou. Ifemelu atendeu. A ligação estava ruim e a voz do outro lado, do ajudante de campo do General, saía entrecortada, mas ainda assim era clara o suficiente para que compreendesse os detalhes: o acidente tinha acontecido a alguns quilômetros de Jos, os corpos tinham sido carbonizados, havia rumores de que o chefe de Estado arquitetara tudo para se livrar de oficiais que temia estarem planejando um golpe. Ifemelu segurou o telefone com força demais, atônita. Obinze foi com ela para a cozinha e ficou do lado de tia Uju enquanto a namorada repetia as palavras do ajudante.

“Você está mentindo”, disse tia Uju. “É mentira.”

Ela marchou até o telefone como que para desafiá-lo e então escorregou até o chão como se não tivesse ossos, desolada. Começou a chorar. Ifemelu abraçou-a, aninhou-a. Todos eles ficaram sem saber o que fazer e o silêncio entre os soluços dela pareciam silenciosos demais. Inyang levou Dike para baixo.

“Mamãe?”, chamou ele, intrigado.

“Leve Dike lá para cima”, disse Obinze para Inyang.

Alguém deu pancadas no portão. Dois homens e três mulheres, parentes do General, haviam obrigado Adamu a abrir o portão e agora estavam diante da porta da frente, gritando. “Uju! Faça as malas e saia daí agora! Passe a chave do carro para cá!” Uma das mulheres era esquelética e estava agitada e com os olhos vermelhos, gritando: “Sua vagabunda ordinária! Deus nos livre de encostar na propriedade do nosso irmão! Prostituta! Nunca vai viver em paz em Lagos!”. Ela tirou o lenço da cabeça e amarrou-o com força em volta da cintura, preparando-se para uma briga. No início tia Uju não disse nada e ficou olhando para eles, parada diante da porta. Depois, pediu-lhes que fossem embora numa voz rouca de lágrimas, mas os gritos dos parentes ficaram mais fortes e tia Uju se virou para voltar para dentro. “Tudo bem, não saiam daí”, disse ela. “Fiquem. Fiquem aí enquanto vou chamar os rapazes no quartel.”

Só então eles foram embora, dizendo a ela: “Vamos voltar com os nossos rapazes”. E só então tia Uju voltou a soluçar. “Não tenho nada. Tudo está no nome dele. Para onde vou levar meu filho agora?”

Tia Uju pegou o telefone e ficou olhando para ele, sem saber para quem ligar.

“Ligue para Uche e Adesuwa”, disse Ifemelu. Elas iam saber o que fazer.

Tia Uju fez isso, usando o viva voz, e recostou-se na parede.

“Você tem que sair daí imediatamente. Limpe a casa toda, leve tudo”, disse Uche. “Vá bem rápido antes que a família volte. Contrate uma van e leve o gerador. Não se esqueça de levar o gerador.”

“Não sei onde contratar uma van”, murmurou tia Uju, com um ar indefeso que lhe era estranho.

“Vamos arrumar uma para você agorinha. Tem que levar esse gerador. É isso que vai pagar suas despesas até você se ajeitar. Você precisa ir para algum lugar em que eles não possam causar problemas. Vá para Londres ou para os Estados Unidos. Você tem um visto americano?”

“Tenho.”

Os momentos finais seriam um redemoinho na memória de Ifemelu, Adamu dizendo que tinha repórteres da City People no portão, Ifemelu e Chikodili enfiando roupas em malas, Obinze carregando as coisas na van, Dike cambaleando e rindo. Os quartos do andar de cima estavam insuportavelmente quentes; os aparelhos de ar condicionado de repente tinham parado de funcionar, como se tivessem decidido, em uníssono, prestar uma homenagem àquele fim.