Americanah
Capítulo 25
Escolado era a palavra que usavam para descrever Emenike no ensino médio. Escolado, uma palavra feia, vinda da admiração envenenada que sentiam por ele. Cara Escolado. Homem Escolado. Se o gabarito de uma prova vazava, Emenike sabia onde obtê-lo. Também sabia que menina tinha feito um aborto, quais eram as propriedades dos pais dos alunos ricos, que professores estavam transando. Sempre falava depressa e de um jeito belicoso, como se qualquer conversa fosse uma discussão, a rapidez e a força de suas palavras sugerindo autoridade e desencorajando a discordância. Ele sabia e estava repleto de uma ânsia de saber. Sempre que Kayode voltava das férias em Londres, corado de relevância, Emenike lhe perguntava sobre as últimas músicas e filmes e depois examinava seus sapatos e suas roupas. “É de marca? Qual?”, indagava, com os olhos ferais de desejo. Tinha dito a todos que seu pai era o igwe de sua aldeia e que ele o mandara a Lagos para morar com um tio até fazer vinte e um anos, para evitar as pressões da vida de príncipe. Mas um dia um velho chegou à escola usando uma calça com o joelho remendado, o rosto magro e o corpo curvado da humildade que a pobreza lhe impusera. Todos os meninos riram depois de descobrir que aquele era o pai de Emenike. O riso logo foi esquecido, talvez porque ninguém nunca tivesse mesmo acreditado naquela história de príncipe — Kayode, afinal, sempre chamava Emenike de caipira pelas costas. Ou talvez precisassem de Emenike, que possuía informações que ninguém mais tinha. Isso, a audácia dele, tinha atraído Obinze. Emenike era uma das poucas pessoas para quem “ler” não significava “estudar” e, por isso, passavam horas juntos conversando sobre livros, trocando conhecimento e jogando palavras cruzadas. Sua amizade cresceu. Na universidade, quando Emenike morava com ele no alojamento masculino, as pessoas às vezes o confundiam com um parente seu. “E seu irmão, como está?”, perguntavam. E Obinze dizia “Está bem”, sem se incomodar em explicar que eles não eram da mesma família. Mas havia muitas coisas que não sabia sobre Emenike, e que sabia que não devia perguntar. Ele com frequência abandonava a escola durante semanas, dizendo vagamente que tinha “ido para casa”, e falava sem parar de pessoas que estavam “se dando bem” no exterior. Tinha a ansiedade retorcida e urgente de alguém que acreditava que a sorte lhe dera um lugar abaixo de seu verdadeiro destino. Quando Emenike foi morar na Inglaterra durante uma greve no segundo ano de faculdade, Obinze nunca entendeu como conseguira um visto. Ainda assim, tinha ficado feliz por ele. Emenike estava repleto, quase estourando, de ambição, e Obinze pensou naquele visto como um ato de misericórdia: aquela ambição afinal encontraria uma válvula de escape. Isso pareceu acontecer com bastante rapidez, pois Emenike enviava notícias de progresso: uma pós-graduação concluída, um emprego no Ministério das Cidades, um casamento com uma inglesa que era advogada em Londres.
Emenike foi a primeira pessoa para quem Obinze ligou quando chegou à Inglaterra.
“Zed! Que bom que ligou. Depois ligo de volta, estou entrando numa reunião da gerência”, disse Emenike. Na segunda vez em que Obinze ligou, Emenike pareceu um pouco agitado. “Estou em Heathrow. Georgina e eu vamos passar uma semana em Bruxelas. Ligo quando voltar. Estou doido para encontrar você, cara!” O e-mail que ele tinha mandado em resposta ao de Obinze fora parecido: Que bom que você está vindo para cá, cara, vai ser tão bom te ver! Obinze tinha imaginado, tolamente, que Emenike ia hospedá-lo e lhe mostrar o caminho. Ele sabia das muitas histórias de amigos e parentes que, à luz crua da vida no exterior, se tornavam versões não confiáveis e até hostis de si mesmos. Mas o que acontece com a teimosia da esperança, com a necessidade de acreditar que somos excepcionais, que essas coisas acontecem com outras pessoas, cujos amigos não são como os seus? Obinze ligou para outros amigos. Nosa, que partira da Nigéria logo depois de se formar, apanhou-o na estação do metrô e levou-o de carro até um pub onde outros amigos logo se reuniram. Eles trocaram apertos de mão, deram tapinhas nas costas uns dos outros e beberam chope. Riram das lembranças da escola. Falaram pouco sobre os detalhes de sua vida atual. Quando Obinze disse que precisava de um número da Seguridade Social e perguntou: “Gente, o que eu faço?”, todos balançaram vagamente a cabeça.
“Fique esperto, cara, só isso”, disse Chidi.
“Você precisa é vir mais para o centro de Londres. Está muito longe de tudo em Essex”, disse Wale.
Quando Nosa o levou de volta à estação de metrô mais tarde, Obinze perguntou: “Você trabalha onde, cara?”.
“No subterrâneo. É muito duro, mas as coisas vão melhorar”, disse Nosa. Embora Obinze soubesse que ele estava se referindo ao metrô, a palavra “subterrâneo” o fez pensar em túneis lúgubres que rasgavam a terra e seguiam sempre, sem dar em nada.
“E o Escolado, o Emenike?”, perguntou Nosa, com o tom repleto de maldade. “Está indo muito bem e mora em Islington, com a esposa oyinbo que tem idade para ser mãe dele. Ficou metido, ô. Não fala mais com qualquer um. Pode ajudar você.”
“Ele tem viajado muito, a gente não se viu ainda”, disse Obinze, ouvindo claramente a falta de convicção das próprias palavras.
“Como vai seu primo Iloba?”, perguntou Nosa. “Eu o vi no ano passado, no casamento do irmão de Emeka.”
Obinze nem tinha lembrado que Iloba agora morava em Londres; a última vez que o vira fora dias antes da formatura. Iloba era apenas da aldeia de sua mãe, mas era tão entusiástico ao falar de sua relação com Obinze que todos no campus presumiram que os dois eram primos. Iloba muitas vezes pegava uma cadeira, sorrindo e sem ser convidado, e se sentava com Obinze e seus amigos num bar de beira de estrada, ou aparecia na porta de Obinze nas tardes de domingo, quando estava cansado do langor das tardes de domingo. Certa vez, Iloba tinha parado Obinze na sala de estudos gerais, gritando alegremente “Primo!”, e então lhe desfiando uma lista de casamentos e mortes de pessoas da aldeia de sua mãe que ele mal conhecia. “Udoakpuanyi morreu há algumas semanas. Você não conheceu? A casa da família é vizinha à da sua mãe.” Obinze assentiu e emitiu os sons apropriados para agradar a Iloba, pois seu comportamento era sempre tão agradável e sem noção, com calças sempre apertadas e curtas demais, mostrando os calcanhares ossudos; por causa delas, ele ganhara o apelido Pula-Brejo Iloba, que logo se transformara em Puloba.
Obinze pegou o telefone dele com Nicholas e ligou.
“Zed! Primo! Você não me contou que vinha para Londres”, disse Iloba. “Como está sua mãe? E seu tio, aquele que casou com uma mulher de Abagana? E Nicholas?” Iloba parecia repleto de uma felicidade simples. Algumas pessoas nasciam com uma inabilidade de se emaranhar em emoções sombrias, em complicações, e ele era uma delas. Por essas pessoas, Obinze sentia admiração e tédio. Quando ele perguntou se Iloba poderia ajudá-lo a conseguir um número da Seguridade Social, teria entendido se houvesse reagido com algum ressentimento, alguma má vontade — afinal, estava contatando-o só porque precisava de algo —, mas, para sua surpresa, Iloba pareceu sinceramente ansioso por ajudar.
“Eu deixaria você usar o meu, mas estou usando, então é arriscado”, disse Iloba.
“Onde você trabalha?”
“No centro de Londres. Como segurança. Não é fácil, este país não é fácil, mas estamos nos virando. Gosto dos turnos da noite, porque me dão tempo de ler para o curso. Estou fazendo mestrado em administração na Birkbeck.” Iloba fez uma pausa. “Zed, não se preocupe, vamos resolver isso juntos. Deixe-me perguntar por aí e depois te falo.”
Iloba ligou duas semanas depois para dizer que tinha encontrado uma pessoa. “O nome dele é Vincent Obi. Ele é de Abia. Um amigo meu me falou dele. Quer conhecer você amanhã no fim da tarde.”
Eles se conheceram no apartamento de Iloba. O lugar passava uma sensação claustrofóbica, aquele bairro de concreto sem árvores, as paredes arranhadas do prédio. Tudo parecia pequeno demais, apertado demais.
“Belo apartamento, Puloba”, disse Obinze, não porque o apartamento fosse belo, mas porque Iloba tinha um apartamento em Londres.
“Eu convidaria você para vir morar comigo, Zed, mas moro com dois primos.” Iloba colocou garrafas de cerveja e um pequeno prato de chin-chin na mesa. Obinze sentiu uma saudade aguda de casa com aquele ritual de hospitalidade. Lembrou-se de ir à aldeia com a mãe no Natal e das tias lhe oferecendo chin-chin.
Vincent Obi era um homem pequeno e rotundo, submerso numa calça jeans larga e num casaco deselegante. Quando Obinze apertou sua mão, eles se olharam de cima a baixo. Pela postura de Vincent, pela agressividade de sua atitude, Obinze sentiu que ele aprendera muito cedo, por necessidade, a resolver seus próprios problemas. Obinze imaginou a vida dele na Nigéria: uma escola pública de ensino médio cheia de crianças descalças, um curso politécnico pago com a ajuda de diversos tios, uma família com muitos irmãos e uma multidão de dependentes em sua aldeia que, sempre que visitava, esperariam que levasse pão e algum dinheiro, que seria cuidadosamente distribuído a cada um. E ele se viu pelos olhos de Vincent: o filho de uma professora universitária que tinha sido criado no carpete e que agora precisava da ajuda dele. No início, Vincent fingiu um sotaque britânico, exagerando um pouco.
“Estamos fazendo um negócio, mas estou te ajudando. Você pode usar meu número da Seguridade Social e me pagar quarenta por cento do que ganhar”, disse Vincent. “É um negócio. Se eu não ganhar o que a gente combinou, denuncio você.”
“Meu irmão”, disse Obinze. “Isso é um pouco demais. Você sabe qual é a minha situação. Não tenho nada. Por favor, peça menos.”
“Trinta e cinco por cento é o melhor que posso fazer. Isso é um negócio.” Ele tinha perdido o sotaque e agora falava em inglês nigeriano. “Preste atenção, tem muita gente na sua situação.”
Iloba interrompeu em igbo. “Vincent, meu irmão aqui está tentando economizar para conseguir seus documentos. Trinta e cinco é demais, o rika, biko. Por favor, nos ajude.”
“Você sabe que algumas pessoas pedem cinquenta por cento. Sim, ele está numa situação ruim, mas todo mundo está numa situação ruim. Vou ajudar, mas isso é um negócio.” O igbo de Vincent tinha um sotaque rural. Ele colocou o cartão da Seguridade Social na mesa e escreveu o número de sua conta num papel. O celular de Iloba começou a tocar. Quando a noite caiu, com a cor do céu se suavizando e virando um violeta pálido, Obinze tinha se tornado Vincent.