Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 17 de 55

Páginas do PDF

Americanah

Capítulo 17

 

Ifemelu decidiu parar de fingir que tinha sotaque americano num dia ensolarado de julho, o mesmo dia em que conheceu Blaine. Era um sotaque convincente. Ela o aperfeiçoara, ouvindo com cuidado amigos e apresentadores de noticiário, a contração do tê, o enrolado profundo do erre, as frases começando com “então” e a resposta fácil, “é mesmo?”, mas o sotaque tinha rachaduras, era consciente, precisava ser lembrado. Exigia um esforço, o lábio retorcido, os volteios da língua. Se Ifemelu estivesse em pânico, apavorada, ou se fosse acordada de supetão no meio de um incêndio, não ia lembrar como produzir aqueles sons americanos. Por isso, resolveu parar naquele dia de verão, no fim de semana do aniversário de Dike. Sua decisão foi tomada devido a uma ligação de telemarketing. Ela estava em seu apartamento na Spring Garden Street, o primeiro que foi realmente seu nos Estados Unidos, só seu, um conjugado com uma torneira que pingava e um aquecedor barulhento. Nas semanas após sua mudança, Ifemelu se sentira pisando nas nuvens, coberta de bem-estar, porque abria a geladeira sabendo que tudo lá dentro era seu e limpava a banheira sabendo que não ia encontrar no ralo tufos de cabelos de outra pessoa, tão diferentes dos seus que a deixavam desconcertada. “Oficialmente a dois quarteirões do gueto”, fora como o porteiro-chefe do prédio, Jamal, descrevera o lugar ao lhe dizer que podia esperar ouvir tiros de tempos em tempos, mas, embora Ifemelu abrisse a janela toda noite, se esforçando para escutar, tudo o que ouvia eram os sons do fim do verão, a música dos carros que passavam, os risos animados das crianças, os gritos das mães.

Naquela manhã de julho, já com a mala arrumada para ir passar o fim de semana em Massachusetts, ela estava fazendo ovos mexidos quando o telefone tocou. O identificador de chamadas mostrou “número desconhecido” e Ifemelu achou que podia ser um telefonema de seus pais na Nigéria. Mas era um funcionário de telemarketing, um jovem americano que estava oferecendo tarifas mais baratas para ligações interurbanas e internacionais. Ela sempre desligava quando era telemarketing, mas algo na voz dele a fez apagar o fogo e manter o telefone junto ao ouvido, algo pungente de tão jovem e inexperiente, o mais leve tremor, uma simpatia agressiva de vendedor que não era nem um pouco agressiva; era como se o rapaz estivesse dizendo o que fora treinado para dizer, mas ao mesmo tempo morrendo de medo de ofendê-la.

Ele perguntou como ela andava, como estava o tempo em sua cidade e disse-lhe que fazia muito calor em Phoenix. Talvez fosse seu primeiro dia no emprego e ele estivesse com o fone machucando-lhe o ouvido enquanto trabalhava, sentindo a vaga esperança de que as pessoas para quem ligava não estivessem em casa. Como Ifemelu teve uma estranha pena dele, perguntou se tinha uma oferta melhor do que cinquenta e sete centavos por minuto para ligar para a Nigéria.

“Espere um minuto enquanto procuro a tarifa para a Nigéria”, disse ele, e ela voltou a mexer os ovos.

O rapaz voltou para a linha e disse que a tarifa deles era a mesma, mas será que não havia outro país para o qual ela ligava? México? Canadá?

“Bem, eu às vezes ligo para Londres”, disse ela. Ginika estava passando o verão lá.

“Tá bem, espere um minuto enquanto procuro a França”, disse ele.

Ifemelu deu uma gargalhada.

“Está vendo alguma coisa engraçada aí?”, perguntou ele.

Ela riu mais ainda. Havia aberto a boca para lhe dizer, sem rodeios, que a graça estava no fato de ele estar vendendo ligações internacionais e não saber onde ficava Londres, mas algo a impediu; uma imagem do rapaz, que devia ter dezoito ou dezenove anos, ser gorducho, ter o rosto cor-de-rosa, sentir-se constrangido diante das meninas, adorar videogames e não ter ideia das contradições turbulentas que formavam o mundo. Por isso, ela disse: “Tem uma comédia antiga e hilária passando na televisão”.

“É mesmo?”, disse o rapaz, e riu também. A ingenuidade dele partiu o coração de Ifemelu e, quando ele voltou para a linha para lhe dizer as tarifas da França, ela disse que eram mais baixas do que as que pagava e que ia pensar em trocar de companhia telefônica.

“Quando seria um bom horário para ligar de novo? Se não tiver problema….”, disse ele. Ifemelu se perguntou se ele recebia comissão. Será que ganharia mais se ela trocasse mesmo de companhia telefônica? Porque faria isso, desde que não lhe custasse nada.

“No fim da tarde”, disse ela.

“Posso perguntar com quem eu falo?”

“Meu nome é Ifemelu.”

Ele repetiu o nome dela com um cuidado exagerado. “É um nome francês?”

“Não. Nigeriano.”

“Sua família é de lá?”

“É.” Ela pegou os ovos com a espátula e pôs no prato. “Fui criada lá.”

“É mesmo? Há quanto tempo você está nos Estados Unidos?”

“Três anos.”

“Uau. Legal. Você parece uma americana falando.”

“Obrigada.”

Só depois de desligar Ifemelu começou a sentir a mácula de uma vergonha crescente se espalhando sobre ela, por ter agradecido ao rapaz, por ter transformado as palavras dele, “Você parece uma americana falando”, numa guirlanda que pôs em volta do próprio pescoço. Por que era um elogio, uma realização, soar como um americano? Ifemelu tinha ganhado; Cristina Tomas, a branca Cristina Tomas sob cujo olhar se encolhera como um pequeno animal derrotado, falaria normalmente com ela agora. Tinha ganhado de fato, mas seu triunfo era vazio. Sua vitória efêmera havia criado um enorme espaço oco, porque ela assumira, por tempo demais, um tom de voz e uma maneira de ser que não eram seus. Assim, ela acabou de comer os ovos e decidiu parar de fingir que tinha sotaque americano. Falou pela primeira vez sem o sotaque americano naquela tarde na estação da rua 13, inclinando-se na direção da mulher atrás do balcão da Amtrak.

“Eu gostaria de uma passagem de ida e volta para Haverhill, por favor. A volta vai ser na tarde de domingo. Tenho carteirinha de estudante”, disse ela, sentindo um prazer súbito em forçar bem as palavras e não enrolar o erre em “Haverhill”. Aquela era mesmo ela; era a voz com que falaria se acordasse de um sono profundo no meio de um terremoto. Mesmo assim, Ifemelu havia decidido que se a mulher da Amtrak reagisse ao seu sotaque, falando devagar como se ela fosse uma idiota, falaria com a voz do sr. Agbo, a pronúncia afetada e extracuidadosa que aprendera durante os debates do ensino médio, quando seu professor barbado, mexendo na gravata desfiada, colocava cassetes com gravações da BBC para tocar e fazia todos os alunos pronunciarem as palavras sem parar até dar um sorriso radiante e dizer: “Correto!”. Além da voz do sr. Agbo, também ergueria de leve as sobrancelhas, no que imaginava ser a postura altiva de um estrangeiro. Mas não houve necessidade de fazer nada disso, porque a mulher da Amtrak falou normalmente. “Pode me mostrar a carteirinha, senhorita?”

Por isso, Ifemelu só usou sua voz do sr. Agbo quando conheceu Blaine.

O trem estava lotado. O assento ao lado de Blaine era o único disponível no vagão, pelo que ela podia ver, e o jornal e a garrafa de suco ali em cima pareciam ser dele. Ifemelu parou, fazendo um gesto na direção do assento, mas Blaine manteve o olhar fixo à frente. Uma mulher atrás dela arrastava uma mala pesada, o condutor anunciava que todos os itens pessoais deviam ser removidos dos assentos livres e Blaine estava vendo-a ali parada — como poderia não ver? — e, ainda assim, não fez nada. Assim, a voz do sr. Agbo surgiu. “Com licença. Esses objetos são seus? Poderia retirá-los?”

Ela colocou a mala no compartimento de cima e ajeitou-se no banco com frieza, segurando sua revista e voltando o corpo para o corredor, e não para ele. O trem já havia começado a se mover quando ele disse: “Desculpe por não ter visto você parada aí”.

Ifemelu se surpreendeu com o pedido de desculpas, dito com uma expressão tão sincera que parecia que ele tinha feito algo mais ofensivo. “Não tem problema”, disse ela, e sorriu.

“Tudo bem?”

Ela havia aprendido a responder “Tudo, e com você?” do jeito melodioso dos americanos, mas nessa ocasião disse apenas: “Estou bem, obrigada”.

“Meu nome é Blaine”, disse ele, oferecendo a mão para ela apertar.

Ele parecia ser alto. Um homem com pele cor de pão de mel e o tipo de corpo esguio e bem-proporcionado que era perfeito para um uniforme, qualquer uniforme. Ifemelu soube logo que ele era afro-americano, não caribenho, africano, filho de imigrantes vindos de um lugar ou de outro. Ela nem sempre fora capaz de discernir isso. Numa ocasião, perguntara a um taxista “De onde você é?” num tom arguto e íntimo, certa de que ele era de Gana, e o homem respondera “Detroit” dando de ombros. Mas, quanto mais tempo passava nos Estados Unidos, melhor ficava em fazer essa distinção, às vezes pela aparência e pelo andar, mas principalmente pela postura e pelo comportamento, aquela marca sutil que a cultura imprime nas pessoas. Com Blaine, ela teve certeza: ele era descendente dos negros e negras que estavam nos Estados Unidos havia centenas de anos.

“Eu me chamo Ifemelu, é um prazer”, disse ela.

“Você é nigeriana?”

“Sou, sim.”

“Uma burguesa nigeriana”, disse Blaine com um sorriso. Houve uma intimidade surpreendente e imediata na maneira como ele a provocou, chamando-a de privilegiada.

“Tão burguesa quanto você.” Agora, eles estavam usando um claro tom de flerte. Ela avaliou-o discretamente, observando sua calça cáqui e sua camisa azul-marinho, o tipo de roupa selecionado com a quantidade correta de cuidado; um homem que se olhava no espelho, mas não por tempo demais. Ele sabia bastante coisa sobre os nigerianos, segundo disse. Era professor assistente em Yale e, embora sua área de interesse fosse principalmente o sul da África, como poderia não saber coisas sobre os nigerianos se eles estavam em todos os lugares?

“Como é mesmo a porcentagem? Um em cada cinco africanos é nigeriano?”, perguntou Blaine, ainda sorrindo. Seu tom era meigo e irônico ao mesmo tempo. Era como se acreditasse que eles compartilhavam uma série de piadas intrínsecas que não precisavam ser verbalizadas.

“Sim, nós, nigerianos, nos espalhamos bastante. Temos que fazer isso. Somos muitos e no nosso país não há espaço suficiente”, disse Ifemelu, percebendo quão próximos um do outro estavam, separados apenas por um apoio de braço. Ele falava o tipo de inglês americano do qual ela acabara de abrir mão, o tipo que levava pessoas que faziam pesquisa por telefone a presumir que você era branco e com alto nível de escolaridade.

“Então você dá aulas sobre o sul da África?”, perguntou ela.

“Não. Sobre política comparativa. Você não pode simplesmente falar da África num programa de pós-graduação em ciências políticas neste país. Pode comparar a África com a Polônia ou com Israel, mas focar só no continente? Isso, eles não deixam.”

O uso da palavra “eles” sugeria um “nós” que seriam os dois. As unhas dele estavam limpas. Não usava aliança. Ifemelu começou a imaginar um relacionamento, ambos acordando juntos no inverno, enroscados na brancura intensa da luz da manhã, tomando chá; ela torceu para que ele fosse um daqueles americanos que gostavam de chá. O suco na garrafa que Blaine enfiara na sacola presa ao assento da frente era de romã orgânica. Uma garrafa marrom simples com um rótulo marrom simples, ambos estilosos e saudáveis. Nada de produtos químicos no suco e nada de gastar tinta em rótulos decorativos. Onde será que ele tinha comprado aquilo? Não era o tipo de coisa que se vendia na estação. Talvez ele fosse vegetariano, não confiasse em grandes corporações, só fizesse compras em feiras de produtos orgânicos e trouxesse seu próprio suco de casa. Ifemelu não tinha muita paciência com as amigas de Ginika, que eram, em sua maioria, assim; o ar de superioridade delas a fazia se sentir irritada e falha, mas ela estava preparada para perdoar a atitude moralista de Blaine. Ele tinha nas mãos um livro de biblioteca de capa dura cujo título Ifemelu não conseguia ler, e havia enfiado sua edição do New York Times ao lado da garrafa de suco. Quando Blaine viu sua revista, ela lamentou não ter tirado da mala o livro de poemas de Esiaba Irobi que planejara ler na viagem de volta. Ele ia achar que ela só lia revistas de moda superficiais. Ifemelu sentiu uma vontade súbita e irracional de lhe contar o quanto amava a poesia de Yusef Komunyakaa, para se redimir. Primeiro, ela cobriu com a palma da mão o batom vermelho vivo no rosto da modelo da capa. Depois, esticou o braço e empurrou a revista para dentro da sacola do assento da frente, dizendo, com ar de desprezo, que era absurdo como as revistas femininas forçavam imagens de mulheres brancas, de ossos pequenos e seios pequenos, para que as mulheres multiósseas e multiétnicas tentassem imitá-las.

“Mas eu leio assim mesmo”, disse. “É que nem fumar: é ruim para a saúde, mas você faz mesmo assim.”

“Multiósseas e multiétnicas”, repetiu Blaine, divertido, com os olhos cálidos de interesse indisfarçado; Ifemelu ficou encantada por ele não ser o tipo de homem que, quando estava interessado numa mulher, cultivava uma indiferença fingida.

“Você está fazendo pós-graduação?”, perguntou ele.

“Estou no terceiro ano da faculdade. Estudo na Wellson.”

Será que ela havia imaginado ou ele tinha mesmo feito uma expressão sisuda que mostrava decepção e surpresa? “É mesmo? Você parece mais madura.”

“Eu sou. Fiz alguns anos de faculdade na Nigéria antes de vir para cá.” Ifemelu se remexeu na cadeira, determinada a voltar para aquele tom de flerte que não deixava dúvidas. “Já você parece ser jovem demais para ser professor de faculdade. Seus alunos nem devem saber quem é o professor.”

“Acho que tem muita coisa que eles não sabem. Comecei a lecionar no ano passado.” Ele fez uma pausa. “Você está pensando em fazer pós-graduação?”

“Sim, mas tenho medo de terminar a pós e perder a habilidade de falar inglês. Conheço uma mulher que está fazendo pós, amiga de uma amiga, e só de ouvi-la falar fico assustada. A dialética semiótica da modernidade intertextual. Não faz o menor sentido. Às vezes, acho que eles vivem num universo acadêmico paralelo, falando academiquês em vez de inglês, sem saber o que está acontecendo no mundo real.”

“É uma opinião bem forte.”

“Não sei como ter opiniões de outro tipo.”

Blaine riu e ela ficou feliz por tê-lo feito rir.

“Mas eu entendo”, disse ele. “Meus interesses em pesquisa incluem movimentos sociais, a economia política das ditaduras, o direito de voto e de representação dos americanos, raça e etnia na política e financiamento de campanha. Pelo menos, é o que digo sempre. E grande parte disso é bobagem. Dou minhas aulas e me pergunto se alguma coisa do que digo importa para aqueles moleques.”

“Ah, com certeza importa. Eu adoraria assistir a uma de suas aulas.” Ela pareceu ansiosa demais. A frase não saiu como pretendera. Sem querer, colocara-se no papel de uma aluna em potencial. Blaine pareceu muito interessado em mudar o rumo da conversa; talvez também não quisesse ser seu professor. Ele disse que estava voltando para New Haven depois de ter ido visitar alguns amigos em Washington. “E você, está indo para onde?”, ele perguntou.

“Para Warrington. É um pouco longe de Boston. Minha tia mora lá.”

“E você vai a Connecticut?”

“Não com muita frequência. Nunca fui a New Haven. Mas já fui aos shoppings de Stamford e Clinton.”

“Ah, sim, os shoppings”, disse ele, virando os cantos dos lábios um pouco para baixo.

“Você não gosta de shoppings?”

“Tirando o fato de que são lugares sem graça e sem alma? Não me incomodam muito.”

Ifemelu jamais tinha entendido o problema com shoppings, com a ideia de encontrar exatamente as mesmas lojas em todos eles; para ela, o fato de todos serem iguais era reconfortante. E, com aquelas roupas cuidadosamente escolhidas, ele sem dúvida fazia compras em algum lugar, não fazia?

“Então você planta seu próprio algodão e faz suas próprias roupas?”, perguntou ela.

Blaine riu e Ifemelu também. Ela imaginou os dois de mãos dadas indo ao shopping em Stamford, ela provocando-o, lembrando-o da conversa que haviam tido no dia em que se conheceram e erguendo o rosto para beijá-lo. Não era de sua natureza conversar com estranhos em meios de transporte públicos — passaria a fazê-lo com mais frequência quando começasse a escrever o blog, anos mais tarde —, mas naquela ocasião falou sem parar, talvez devido à novidade em sua voz. Quanto mais conversavam, mais Ifemelu disse a si mesma que aquilo não era coincidência — havia algo de significante no fato de ela ter conhecido aquele homem no dia em que devolveu sua própria voz a si mesma. Ifemelu contou a Blaine, com o riso contido de alguém impaciente pelo fim da própria piada, sobre o operador de telemarketing que achava que Londres era na França. Ele não riu, apenas balançou a cabeça.

“Eles não treinam nem um pouco essas pessoas. Aposto que é um temporário que não tem plano de saúde nem benefícios.”

“É”, disse ela, arrependida. “Senti um pouco de pena dele.”

“Meu departamento trocou de prédio há algumas semanas. Yale contratou uma empresa de mudanças e disse a eles que colocassem todas as coisas do escritório de cada pessoa exatamente no mesmo lugar nos escritórios novos. E eles obedeceram. Todos os meus livros estavam no mesmo lugar nas prateleiras. Mas sabe o que eu vi depois? Muitos estavam de ponta-cabeça.” Ele olhava para ela como quem desejava vivenciar uma epifania compartilhada e, por um instante, ela sentiu um branco e não soube bem do que se tratava a história.

“Ah. Os homens da empresa de mudança não sabiam ler”, disse finalmente.

Blaine assentiu. “Alguma coisa nisso me deixou arrasado…” Ele permitiu que o resto da frase ficasse no ar.

Ifemelu começou a imaginar como ele seria na cama. Devia ser um amante gentil e atencioso para quem a realização emocional era tão importante quanto a ejaculação, alguém que não julgaria a pele flácida dela, que acordaria de bom humor todas as manhãs. Ela desviou o olhar depressa, temendo que ele pudesse ler sua mente, de tão espantosamente claras que eram as imagens surgidas ali.

“Quer beber uma cerveja?”, perguntou Blaine.

“Uma cerveja?”

“É. O café do trem serve cerveja. Quer uma? Vou pegar uma para mim.”

“Quero. Obrigada.”

Ifemelu se levantou, envergonhada, para deixá-lo passar, torcendo para sentir algum cheiro nele, mas não sentiu. Blaine não usava perfume. Talvez boicotasse perfumes porque os fabricantes não tratavam bem os empregados. Ela observou-o atravessar o corredor, sabendo que ele sabia que estava olhando. A oferta de cerveja lhe agradara. Ifemelu temera que ele só bebesse suco de romã orgânica, mas a ideia de um suco de romã orgânica era agradável se ele bebesse cerveja também. Quando Blaine voltou com as cervejas e os copos de plástico, serviu-a com um gesto elaborado que, para ela, pingava romance. Ifemelu jamais gostara de cerveja. Quando era adolescente considerava-a uma bebida de homem, rude e deselegante. Agora, sentada ao lado de Blaine, rindo enquanto ele lhe contava sobre a primeira vez que ficara bêbado de verdade, no primeiro ano da faculdade, deu-se conta de que podia gostar de cerveja. Do sabor encorpado de cereais da cerveja.

Blaine falou de sua época de faculdade: da tolice de comer um sanduíche de sêmen durante o trote de sua fraternidade; de ser chamado o tempo todo de Michael Jordan na China, durante as férias de verão de seu terceiro ano, que passara viajando pela Ásia; da morte da mãe, de câncer, na semana em que ele se formou.

“Um sanduíche de sêmen?”

“Eles se masturbavam dentro de um pão pita e você tinha de dar uma mordida, mas não precisava engolir.”

“Ai, meu Deus.”

“Acho que a ideia é fazer coisas idiotas quando você é jovem para não fazer quando for mais velho”, disse ele.

Quando o condutor anunciou que a próxima parada era New Haven, Ifemelu sentiu uma pontada de tristeza. Ela rasgou uma página de sua revista e escreveu seu telefone. “Você tem um cartão?”, perguntou.

Blaine tocou os bolsos. “Não tenho nenhum aqui comigo.”

Eles ficaram em silêncio enquanto ele pegava suas coisas. Então, ouviu-se o apito dos freios do trem. Ifemelu sentiu, torcendo para estar errada, que Blaine não queria lhe dar seu número.

“Bom, você pode escrever seu telefone então, se conseguir lembrar qual é”, pediu ela. Uma piada boba. A cerveja arrancara aquelas palavras de sua boca.

Ele escreveu o telefone na revista. “Cuide-se”, disse. Tocou-lhe o ombro de leve ao ir embora e havia algo em seus olhos, algo ao mesmo tempo terno e triste, que obrigou Ifemelu a dizer a si mesma que estivera errada em imaginar uma relutância nele. Blaine já estava com saudades. Ela se mudou para o assento dele, desfrutando do calor que seu corpo deixara para trás, e ficou observando-o atravessar a plataforma pela janela.

Quando chegou à casa de tia Uju, a primeira coisa que quis fazer foi ligar para ele. Mas achou que era melhor esperar algumas horas. Depois de uma hora, pensou “dane-se” e ligou. Blaine não atendeu. Ela deixou um recado. Mais tarde, ligou de novo. Ninguém. Ifemelu ligou diversas vezes. Nunca tinha ninguém. Ligou à meia-noite. Não deixou nenhum recado. Ligou e ligou o fim de semana todo, mas ele nunca atendeu.

 

Warrington era uma cidadezinha sonolenta, contente consigo mesma; ruas sinuosas cortavam bosques cerrados — até a rua principal, que os moradores não queriam alargar por medo de que isso atraísse gente estranha da cidade grande, era sinuosa e estreita —, casas pacatas eram cercadas por árvores e, nos fins de semana, o lago azul ficava pontilhado de barcos. Da janela da sala de jantar da casa de tia Uju via-se o lago cintilando, num azul tão tranquilo que prendia o olhar. Ifemelu estava diante da janela e tia Uju, sentada à mesa, bebendo suco de laranja e exibindo suas queixas como se fossem joias. Aquilo havia se tornado uma rotina das visitas de Ifemelu: tia Uju juntava todas as suas insatisfações numa bolsa de seda, acalentando-as, polindo-as, e então, no sábado dos fins de semana que Ifemelu passava lá, enquanto Bartholomew estava na rua e Dike no andar de cima, espalhava-as sobre a mesa e virava todas para um lado e para o outro, para ver a luz refletir-se nelas.

Algumas histórias, ela contava duas vezes. Falava sobre como havia ido à biblioteca pública outro dia, esquecido de tirar da bolsa o livro que tinha de entregar e o segurança lhe dissera: “Sua gente nunca faz nada direito”. Sobre como havia entrado no consultório e a paciente perguntara: “O médico já está vindo?”, e quando dissera que a médica era ela, o rosto da paciente ficara cor de tijolo.

“Sabia que naquela tarde ela ligou para transferir seu prontuário para o consultório de outro médico? Dá para acreditar?”

“O que Bartholomew acha de tudo isso?”, Ifemelu fez um gesto que abarcava a sala, a vista do lago, a cidade.

“Aquele lá está ocupado demais correndo atrás de clientes. Ele sai cedo e volta tarde para casa todos os dias. Às vezes, Dike passa uma semana inteira sem pôr os olhos nele.”

“Fico surpresa por você ainda estar aqui, tia”, disse Ifemelu baixinho, e ambas sabiam que “aqui” não significava apenas Warrington.

“Quero outro filho. Nós estamos tentando.” Tia Uju postou-se ao lado de Ifemelu, de pé diante da janela.

Ouviu-se o som de passos na escada de madeira e Dike surgiu na cozinha, usando uma camiseta desbotada e shorts e segurando seu Game Boy. Toda vez que Ifemelu o via, ele parecia estar mais alto e mais reservado.

“Você vai usar essa camiseta para ir para a colônia de férias?”, perguntou tia Uju.

“Vou, mãe”, respondeu ele, com os olhos fixos na tela que piscava em suas mãos.

Tia Uju foi olhar o forno. Naquela manhã, ela concordara em deixá-lo comer nuggets de frango de café da manhã. Dike passaria o dia numa colônia de férias.

“Prima, a gente ainda vai jogar futebol mais tarde, não vai?”, perguntou Dike.

“Vamos”, disse Ifemelu. Ela pegou um nugget do prato dele e levou-o à boca. “Já é esquisito comer nuggets de café, mas esses são feitos de frango ou de plástico?”

“Plástico apimentado.”

Ifemelu andou com Dike até o ônibus e observou-o embarcar, vendo o rosto pálido das outras crianças nas janelas, o motorista acenando para ela com uma alegria exagerada. Ifemelu estava ali esperando quando o ônibus o trouxe de volta à tarde. Havia algo de furtivo em seu rosto, algo parecido com tristeza.

“O que foi?”, perguntou Ifemelu, enlaçando-o pelos ombros.

“Nada”, disse Dike. “Vamos jogar futebol agora?”

“Só depois de você me contar o que aconteceu.”

“Não aconteceu nada.”

“Acho que você está precisando de um pouco de açúcar. Provavelmente vai comer demais amanhã, já que vai ter bolo de aniversário. Mas vamos comer um biscoito.”

“Você suborna as crianças de quem cuida com açúcar? Cara, como elas são sortudas.”

Ifemelu riu. Pegou o pacote de Oreo da geladeira.

“Você joga futebol com as crianças de quem cuida?”, perguntou Dike.

“Não”, disse ela, embora de vez em quando jogasse com Taylor, chutando a bola para ele e recebendo de volta no imenso quintal arborizado da casa deles. Às vezes, quando Dike lhe perguntava sobre as crianças de quem cuidava, Ifemelu satisfazia a curiosidade infantil dele, falando sobre seus brinquedos e sua vida, mas sempre tomava cuidado para não fazê-las parecer importantes para ela.

“E como foi na colônia de férias?”

“Legal.” Ele fez uma pausa. “A guia do meu grupo, Haley, deu filtro solar para todo mundo passar, mas não quis dar para mim. Disse que eu não precisava.”

Ifemelu olhou para o rosto dele, que estava quase sem expressão, impávido a ponto de parecer assustador. Não soube o que dizer.

“Ela achou que, como você tem a pele negra, não precisa de filtro solar. Mas precisa. Muita gente não sabe que pessoas negras também precisam de filtro solar. Não se preocupe, vou te dar um.” Ifemelu estava falando depressa demais, sem saber se aquilo era a coisa certa a dizer, ou o que seria a coisa certa a dizer, e preocupada porque o incidente o chateara tanto que ficara aparente em seu rosto.

“Não tem problema”, disse Dike. “Foi meio engraçado. Meu amigo Danny riu.”

“Por que seu amigo achou que foi engraçado?”

“Porque foi!”

“Você queria que ela tivesse dado o filtro para você também, não é?”

“Acho que sim”, respondeu ele, dando de ombros. “Só quero ser normal.”

Ifemelu deu um abraço nele. Mais tarde, foi ao mercado e comprou para ele uma embalagem enorme de filtro solar e, em sua visita seguinte, viu-a na cômoda, esquecida e fechada.

 

Entendendo a América para o Negro Não Americano:

O tribalismo americano

 

Nos Estados Unidos, o tribalismo vai muito bem, obrigado. Existem quatro tipos: de classe, ideologia, região

e raça. Em primeiro lugar, vamos ao de classe. É bem fácil. Ele separa os ricos dos pobres.

Em segundo lugar, o de ideologia. Liberais e conservadores. Eles não apenas discordam em questões

políticas, mas cada lado acha que o outro é malévolo. O casamento com uma pessoa da outra ideologia é

desencorajado e, nas raras ocasiões em que acontece, é considerado espantoso. Em terceiro lugar, o de

região. Entre Norte e Sul. Os dois lados lutaram numa guerra civil e as máculas dessa guerra persistem.

Finalmente, o de raça. Existe uma hierarquia de raça nos Estados Unidos. Os brancos estão sempre no topo,

especificamente os brancos, de família anglo-saxã e protestante, conhecidos como wasps, e os negros

sempre estão no nível mais baixo, enquanto o que está no meio depende da época e do lugar. (Ou, como

dizem aqueles versos maravilhosos: “Se você é branco, tudo bem; se você é marrom, fique por aí; se você é

negro, volte para casa!”.) Os americanos presumem que todos vão compreender seu tribalismo. Mas demora

um pouco para entendê-lo de fato. Quando eu estava na faculdade, tivemos um palestrante convidado e uma

colega sussurrou para outra: “Meu Deus, que cara de judeu ele tem”, e estremeceu, estremeceu de verdade.

Como se ser judeu fosse uma coisa ruim. Não entendi. Para mim, o homem era branco, não muito diferente

da menina que falara aquilo. Judeu, para mim, era algo vago, bíblico. Mas aprendi rápido. Entenda, na

hierarquia das raças dos Estados Unidos, os judeus são brancos, mas ficam um degrau abaixo dos brancos.

Era um pouco confuso, porque eu conhecia uma menina de cabelo cor de palha e sardas que dizia ser judia.

Como os americanos sabiam quem era judeu? Como minha colega sabia que aquele homem era judeu? Li

em algum lugar que as faculdades americanas costumavam perguntar aos candidatos qual era o sobrenome

de sua mãe, para ter certeza de que não eram judeus, porque não os aceitavam. Era assim que se sabia?

Pelo sobrenome das pessoas? Quanto mais tempo você passar aqui, mais vai entender.