Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 54 de 55

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Americanah

Capítulo 54

 

Abuja tinha horizontes amplos, ruas largas, ordem; ir de Lagos para lá era ficar perplexo com as sequências e os espaços. O ar cheirava a poder; ali, todos avaliavam todos, perguntando-se quão poderoso era cada um. Cheirava a dinheiro, dinheiro fácil, que trocava facilmente de mãos. E também transbordava sexo. Chidi, um amigo de Obinze, dizia que não corria atrás de mulher em Abuja porque não queria brigar com um ministro ou um senador. Todas as mulheres jovens e bonitas se tornavam misteriosamente suspeitas. Abuja era mais conservadora do que Lagos, dizia Chidi, porque era mais muçulmana, e nas festas as mulheres não usavam roupas reveladoras, mas você podia comprar e vender sexo com mais facilidade ali. Tinha sido em Abuja que Obinze quase traíra Kosi, não com uma das meninas vistosas com lentes de contato coloridas e cabelos falsos cascateantes que não paravam de dar em cima dele, mas com uma mulher de meia-idade que usava um cafetã e se sentou ao seu lado no bar de um hotel, dizendo: “Sei que você está entediado”. Ela parecia faminta por perigo, talvez fosse uma esposa reprimida e frustrada que havia escapado só naquela noite.

Por um instante a luxúria, uma luxúria vibrante e crua, o dominou, mas ele pensou como ficaria mais entediado depois, ansioso por ir embora de seu quarto no hotel, e a coisa pareceu-lhe um esforço grande demais.

Ela acabaria com um dos muitos homens de Abuja que viviam vidas sórdidas e ociosas em hotéis e casas em que moravam durante parte do tempo, bajulando e cortejando pessoas importantes para conseguir um contrato ou receber por um. Na última viagem de Obinze para lá, um homem assim, que ele mal conhecia, havia olhado por um tempo para duas jovens na outra ponta do balcão e lhe perguntado casualmente: “Você tem uma camisinha sobrando?”. Obinze se afastara, chocado.

Agora, sentado a uma mesa coberta de branco em Protea Asokoro, esperando por Edusco, o executivo que queria comprar seu terreno, ele imaginou Ifemelu ali ao seu lado e se perguntou o que ela acharia de Abuja. Não ia gostar da cidade, de sua falta de alma, ou talvez gostasse. Não era fácil prever suas reações. Certa vez, quando estavam jantando num restaurante em Victoria Island, com garçons sorumbáticos rondando a mesa, ela parecia distante, com os olhos na mesa atrás dele, e Obinze temeu que estivesse chateada com alguma coisa. “No que você está pensando?”, perguntou.

“Estou pensando em como todos os quadros de Lagos sempre parecem tortos, nunca são pendurados direito”, disse ela. Obinze riu e pensou como, com ela, sempre ficava de uma maneira como nunca estivera com outra mulher: alegre, alerta, vivo. Mais tarde, quando saíram do restaurante, ele a observou se desviar com habilidade das poças de água nos buracos perto do portão, e sentiu um desejo de alisar todas as ruas de Lagos por ela.

Sua cabeça estava conturbada: num minuto achava que tinha sido a decisão certa não ir a Abuja com Ifemelu, porque precisava refletir, e no minuto seguinte se enchia de arrependimento. Talvez a tivesse afastado. Ele tinha ligado muitas vezes, mandado mensagens perguntando se podiam conversar, mas Ifemelu o ignorara, o que talvez fosse melhor, porque ele não sabia o que diria caso se falassem.

Edusco tinha chegado. Uma voz alta bradando ao telefone do saguão do restaurante. Obinze não o conhecia bem — eles tinham feito negócios apenas uma vez antes, apresentados por um amigo em comum —, mas admirava homens como ele, que não conheciam nenhum homem importante, não tinham contatos, e haviam ganhado dinheiro de uma maneira que não era contrária à lógica simples do capitalismo. Edusco tinha acabado de terminar o ensino fundamental quando arrumou uma vaga de aprendiz no varejo. Começara com uma barraquinha em Onitsha e agora era dono da segunda maior transportadora do país. Ele entrou no restaurante, com um porte seguro e uma barriga grande, falando alto em seu inglês terrível; duvidar de si mesmo não era algo que lhe ocorria.

Mais tarde, quando estavam discutindo o preço do terreno, Edusco disse: “Veja bem, meu irmão. Você não vai vender por esse preço, ninguém vai comprar. Ife esika kita. A recessão está mordendo todo mundo”.

“Irmão, suba essa mão um pouco, estamos falando de um terreno em Maitama, não na sua aldeia”, disse Obinze.

“Seu estômago está cheio. O que mais você quer? Está vendo, esse é o problema com vocês, igbos. Não tratam de irmão para irmão. É por isso que gosto dos iorubas, eles cuidam uns dos outros. Sabia que outro dia fui ao escritório da Receita Federal perto da minha casa e um homem de lá, um igbo… eu vi o nome dele e falei com ele em igbo, e ele nem me respondeu! Um hausa fala hausa com outro hausa. Um ioruba vê um ioruba em qualquer lugar e fala ioruba. Mas um igbo fala inglês com outro igbo. Fico até surpreso de você estar falando igbo comigo.”

“É verdade”, disse Obinze. “É triste, é o legado de ser um povo derrotado. Perdemos a Guerra de Biafra e aprendemos a ter vergonha.”

“É só egoísmo!”, disse Edusco, sem se interessar pela visão intelectual de Obinze. “O ioruba está ali ajudando seu irmão, mas vocês, igbos? I ga-asikwa. Veja você agora, me pedindo esse preço.”

“Tudo bem, Edusco, por que eu não te dou a terra de graça? Vou lá pegar o título e te dar agora.”

Edusco riu. Gostava de Obinze, dava para perceber; imaginou-o falando dele numa reunião de outros igbos que tinham feito fortuna com as próprias mãos, homens francos e empreendedores, que tocavam diversas empresas enormes e sustentavam diversos membros da aldeia. Obinze ma ife, ele imaginou Edusco dizendo. Obinze não é como esses menininhos inúteis que têm dinheiro. Ele não é burro.

Obinze olhou para sua garrafa quase vazia de Gulder. Era estranho como tudo sem Ifemelu perdia o brilho; até o gosto de sua cerveja preferida ficava diferente. Ele devia tê-la levado a Abuja. Era idiota afirmar que precisava de tempo para refletir quando tudo o que estava fazendo era se esconder de uma verdade que já sabia. Ela o chamara de covarde e havia mesmo uma covardia em seu medo de desordem, de perturbar aquilo que nem sequer queria: sua vida com Kosi, aquela segunda pele em que jamais estivera perfeitamente confortável.

“Tudo bem, Edusco”, disse Obinze, sentindo-se exausto de repente. “Não vou poder comer a terra se não a vender.”

Edusco ficou espantado. “Está dizendo que concorda em vender pelo que ofereci?”

“Sim.”

Depois que Edusco foi embora, Obinze ligou para Ifemelu sem parar, mas ela não atendeu. Talvez o telefone estivesse no silencioso e ela estivesse comendo sentada à mesa de jantar, com aquela camiseta rosa que usava sempre e que tinha um buraquinho na gola e HEARTBREAKER CAFÉ escrito na frente; seus mamilos, quando endureciam, pontuavam aquelas palavras como vírgulas. Pensar na camiseta rosa de Ifemelu o deixou excitado. Ou talvez ela estivesse lendo na cama, com sua canga abadá espalhada sobre o corpo como um cobertor, com uma calcinha preta modelo shortinho e mais nada. Todas as suas calcinhas eram pretas modelo shortinho; ela achava engraçadas roupas de baixo femininas demais. Certa vez, Obinze pegou uma calcinha daquelas no chão, onde a havia jogado depois de tirá-la de Ifemelu e olhou para a casquinha leitosa nela. Ela riu e disse: “Ah, você quer cheirar? Nunca entendi essa história de cheirar calcinha”. Ou talvez estivesse diante do laptop, trabalhando no blog. Ou na rua com Ranyinudo. Ou ao telefone com Dike. Ou na sala com algum homem, conversando sobre Graham Greene. Obinze sentiu um enjoo se espalhando ao pensar em Ifemelu com outro. É claro que não estaria com outro, não tão pouco tempo depois. Ainda assim, havia aquela teimosia imprevisível nela; talvez o fizesse só para magoá-lo. Quando ela lhe disse, naquele primeiro dia: “Eu sempre via o teto com os outros homens”, ele tentou imaginar quantos houvera. Quis perguntar, mas não perguntou, porque temeu que Ifemelu lhe dissesse a verdade e temeu que isso o atormentasse para sempre. É claro que ela sabia que ele a amava, mas será que sabia o quanto aquilo o consumia, como a cada dia era infectado por ela, afetado por ela? E como ela tinha poder sobre ele, mesmo quando estava dormindo? “Kimberly idolatra o marido e o marido se idolatra. Ela devia abandoná-lo, mas nunca vai fazer isso”, disse Ifemelu certa vez sobre a mulher para quem trabalhara nos Estados Unidos, a mulher com obi ocha. As palavras dela tinham sido leves, livres de sombra, mas Obinze ouviu nelas o veneno de outros significados.

Quando ela falava de sua vida americana, ele ouvia com uma atenção próxima do desespero. Queria fazer parte de tudo que Ifemelu já tinha feito, ser familiar a cada emoção que já sentira. Certa vez, ela disse: “O problema de namorar uma pessoa de outra cultura é que você passa muito tempo se explicando. Meu ex-namorado e eu passávamos muito tempo nos explicando. Eu às vezes me perguntava se teríamos alguma coisa para dizer um ao outro se fôssemos do mesmo lugar”. Obinze ficou satisfeito ao ouvir isso, porque dava ao seu relacionamento com Ifemelu uma profundidade, uma ausência de novidade superficial. Eles eram do mesmo lugar, mas ainda assim tinham muita coisa a dizer um para o outro.

Estavam falando sobre política americana certa vez e ela disse: “Gosto dos Estados Unidos. É o único lugar onde poderia viver, além daqui. Mas, um dia, um bando de amigos de Blaine e eu estávamos falando sobre crianças e eu me dei conta de que, se algum dia tiver filhos, não quero que tenham uma infância americana. Não quero que digam ‘oi’ para os adultos, quero que digam ‘bom dia’ e ‘boa tarde’. Não quero que murmurem ‘bem’ quando alguém perguntar como estão. Quero que digam, ‘estou bem, obrigado’ e ‘eu tenho cinco anos’. Não quero um filho que se alimenta de elogios, espera ganhar um prêmio por ter feito um esforço e desafia os adultos em nome da autoexpressão. Isso é horrivelmente conservador? Os amigos de Blaine disseram que é e, para eles, ‘conservador’ é o pior insulto que existe.”

Obinze riu, lamentando não ter estado lá com o “bando de amigos”, e queria que aquele filho imaginário fosse dele, aquele filho conservador com bons modos. Ele disse: “Essa criança vai fazer dezoito anos e pintar o cabelo de roxo”, e ela respondeu: “Sim, mas a essa altura eu já vou tê-la expulsado de casa”.

No aeroporto de Abuja, quando ia voltar para Lagos, Obinze pensou em ir para a ala internacional e comprar uma passagem para um lugar diferente, como Malabo. Então, sentiu um nojo passageiro de si mesmo, porque é claro que não faria isso; faria o que esperavam que fizesse. Estava entrando no voo para Lagos quando Kosi ligou.

“O voo está no horário certo? Lembre-se de que vamos sair com Nigel para comemorar o aniversário dele”, disse ela.

“É claro que eu lembro.”

Fez-se um silêncio do outro lado da linha. Ele tinha perdido a paciência.

“Desculpe”, disse. “Estou com uma dor de cabeça estranha.”

“Querido, ndo. Sei que você está cansado”, ela disse. “Vejo você logo.”

Obinze desligou e pensou no dia em que a filha deles tinha nascido, melada e de cabelos encaracolados, no hospital Woodlands, em Houston, lembrando como Kosi se virara para ele enquanto ainda tirava as luvas de látex e dissera, como pedindo desculpas: “Querido, vamos ter um menino da próxima vez”. Obinze havia recuado, horrorizado. Percebera que ela não o conhecia. Não o conhecia nem um pouco. Não sabia que o sexo de seu bebê lhe era indiferente. E ele sentiu um leve desprezo por ela, por querer um menino porque eles supostamente deviam querer um menino e por ser capaz de dizer, logo depois de dar à luz, aquelas palavras: “vamos ter um menino da próxima vez”. Talvez devesse ter falado mais com Kosi, sobre o filho que estavam esperando e sobre tudo o mais, porque, embora trocassem sons agradáveis, fossem bons amigos e compartilhassem silêncios confortáveis, não conversavam de verdade. Mas nunca havia tentado, porque as perguntas que fazia sobre a vida eram inteiramente diferentes das dela.

Obinze soube disso desde o início, sentira-o em sua primeira conversa depois que um amigo os apresentara num casamento. Kosi usava um vestido de madrinha fúcsia, com um decote profundo que mostrava um colo para o qual ele não conseguia parar de olhar. Alguém estava fazendo um discurso, descrevendo a noiva como “uma mulher de virtude”, e Kosi assentiu com vigor e sussurrou para ele: “Ela é mesmo uma mulher de virtude”. Obinze ficou surpreso por ela poder usar a palavra “virtude” sem um pingo de ironia, como acontecia nos artigos mal escritos da seção feminina das edições de fim de semana dos jornais. A mulher do pastor é uma discreta mulher de virtude. Ainda assim, sentiu desejo por ela e a perseguiu com uma obsessão imensa. Nunca tinha visto uma mulher com um desenho tão perfeito das maçãs do rosto, que fazia toda a sua face parecer tão vivaz, tão arquitetada, erguendo-se quando ela sorria. Além disso, Obinze havia acabado de ficar rico e estava desorientado: numa semana, estava morando de favor no apartamento da prima, e na outra tinha milhões de nairas em sua conta no banco. Kosi se tornou uma pedra de toque da realidade. Se ele pudesse ficar com ela, tão extraordinariamente bela, mas tão normal, previsível, doméstica e dedicada, então talvez pudesse acreditar que aquela era mesmo sua vida. Ela se mudou do apartamento que dividia com uma amiga para a casa de Obinze e organizou seus vidros de perfume em sua cômoda, aromas cítricos que passou a associar com estar em casa; sentava-se na BMW ao lado de Obinze como se aquele sempre tivesse sido o carro dele, sugeria viagens casualmente como se ele sempre tivesse podido viajar, e, quando os dois tomavam banho juntos, esfregava-o com uma esponja dura, mesmo entre os dedos dos pés, até ele sentir que havia nascido de novo. Até sua vida nova lhe pertencer. Kosi não tinha os mesmos interesses que ele — era uma pessoa literal que não lia, era satisfeita com o mundo, e não curiosa em relação a ele —, mas Obinze sentia-se grato a ela, sortudo por estar com ela. Então, Kosi lhe disse que seus parentes estavam perguntando quais eram as intenções dele. “Eles não param de perguntar”, disse, acentuando o “eles” para se excluir desse clamor pelo casamento. Ele reconheceu a manipulação e não gostou. Ainda assim, casou com ela. Já estavam morando juntos, ele não estava infeliz e imaginou que, com o tempo, Kosi ganharia um pouco de peso. Mas após quatro anos não ganhara, a não ser fisicamente, de uma maneira que, para Obinze, a deixara ainda mais linda, mais fresca, com quadris e seios mais cheios, como uma planta bem rezada.

 

Obinze achava graça no fato de Nigel ter decidido se mudar para a Nigéria em vez de simplesmente ir para lá sempre que precisava de seu gerente-geral branco. O salário era bom e Nigel agora podia levar o tipo de vida em Essex que jamais teria imaginado antes, mas queria morar em Lagos, pelo menos por algum tempo. Assim, Obinze passou a esperar, jocoso, pelo momento em que Nigel enjoaria de comer sopa de pimenta, ir a casas noturnas e beber nas barracas da praia Kuramo. Mas Nigel continuava ali, em seu apartamento em Ikoyi, com uma empregada passava a noite ali e seu cachorro. Ele não dizia mais “Lagos tem tantos sabores”, reclamava mais do trânsito e finalmente tinha parado de se lamuriar por causa da última namorada, uma moça de Benue com um rosto bonito e um jeito dissimulado que o largara por um executivo libanês rico.

“O cara é completamente careca”, Nigel tinha dito a Obinze.

“Seu problema, meu amigo, é que você se apaixona muito fácil e demais. Qualquer um podia ver que aquela moça era falsa, que estava procurando um homem maior.”

“Não diga que o homem era maior, cara!”, exclamou Nigel.

Agora ele tinha conhecido Ulrike, uma mulher esguia de rosto angular com um corpo de rapaz jovem que trabalhava na embaixada e parecia determinada a ficar emburrada durante todo o tempo que permanecesse na Nigéria. No jantar, ela limpou seus talheres com o guardanapo antes de começar a comer.

“Você não faz isso no seu país, faz?”, perguntou Obinze com frieza. Nigel imediatamente olhou-o, assustado.

“Na verdade, faço”, disse Ulrike, encarando-o.

Kosi deu um tapinha em sua coxa por debaixo da mesa, como se quisesse acalmá-lo, o que o irritou. Nigel também o irritava, começando a falar de repente sobre as casas que Obinze pretendia construir, como era interessante o projeto do arquiteto novo. Uma tentativa tímida de pôr um ponto final no diálogo entre Obinze e Ulrike.

“A planta interna é fantástica, me fez pensar em algumas fotos daqueles lofts chiques de Nova York”, disse Nigel.

“Nigel, não vou usar esse projeto. Uma cozinha americana nunca daria certo com os nigerianos, e nosso público-alvo são eles, porque vamos vender, não alugar. Projetos com cozinha americana são para estrangeiros, e os estrangeiros não vão comprar propriedades neste país.” Ele já havia dito muitas vezes a Nigel que a culinária nigeriana não era cosmética, com todos aqueles pilões. Era suada e apimentada, e os nigerianos preferiam apresentar o produto final, não o processo.

“Chega de falar em trabalho!”, disse Kosi alegremente. “Ulrike, você já experimentou comida nigeriana?”

Obinze se levantou de forma abrupta e foi ao banheiro. Ligou para Ifemelu e ficou furioso por ela ainda não atender. Culpou-a. Culpou-a por transformá-lo numa pessoa que não tinha controle completo sobre o que estava sentindo.

Nigel entrou no banheiro. “O que houve, cara?” As bochechas dele estavam muito vermelhas, como sempre ficavam quando bebia. Obinze estava diante da pia com o celular na mão, sentindo aquela lassidão exausta se espalhar por ele de novo. Quis contar a Nigel. Nigel era o único amigo em quem confiava inteiramente, mas ele adorava Kosi. “Ela é muito mulher, cara”, dissera Nigel para ele certa vez, e Obinze tinha visto em seus olhos aquele desejo terno e esmagado de um homem por aquilo que nunca conseguiria ter. Nigel ouviria, mas não compreenderia.

“Desculpe, não deveria ter sido grosseiro com Ulrike”, disse Obinze. “Só estou cansado, pode ser malária.”

Naquela noite, Kosi se aproximou dele, numa oferta. Não era uma declaração de desejo o ato de acariciar seu peito e esticar a mão para pegar seu pênis, mas uma oferta votiva. Alguns meses antes, ela havia dito que queria começar a “tentar fazer nosso filho homem”. Não disse “tentar ter um segundo filho”, disse “fazer nosso filho homem”, e aquilo era o tipo de coisa que aprendia na igreja. Existe poder na palavra falada. Reivindique seu milagre. Ele lembrava como, quando ela estava havia meses tentando engravidar pela primeira vez, começara a dizer, emburrada e ofendida: “Todas as minhas amigas que tinham vidas desregradas estão grávidas”.

Depois que Buchi nasceu, Obinze concordou em mandar rezar uma missa de Ação de Graças na igreja de Kosi, um salão lotado de pessoas bem vestidas, que eram amigas de Kosi, que eram como ela. E ele as vira como um mar de bárbaros ignorantes que batiam palmas e dançavam, todos aquiescentes e maleáveis diante do pastor em seu terno de marca.

“O que houve, querido?”, perguntou Kosi, quando ele não ficou ereto em sua mão. “Está se sentindo bem?”

“Só estou cansado.”

O cabelo dela estava coberto por uma rede preta e seu rosto tinha uma camada de um creme que cheirava a hortelã, do qual Obinze sempre tinha gostado. Ele deu as costas para ela. Vinha lhe dando as costas desde o dia em que beijara Ifemelu pela primeira vez. Não devia comparar as duas, mas comparava. Ifemelu exigia dele. “Não, não goze ainda, eu mato você se gozar”, dizia, ou: “Não, amor, não se mova”, e então enfiava as unhas em seu peito e se movia em seu próprio ritmo e, quando finalmente arqueava as costas e soltava um grito agudo, Obinze se sentia realizado por tê-la satisfeito. Ela esperava ser satisfeita, mas Kosi não. Kosi sempre reagia a seu toque com complacência, e às vezes Obinze imaginava seu pastor lhe dizendo que uma esposa devia fazer sexo com o marido mesmo que não tivesse vontade, ou o marido encontraria consolo numa Jezebel.

“Espero que você não esteja ficando doente”, disse Kosi.

“Estou bem.” Normalmente, Obinze a abraçaria e faria carinho em suas costas devagar até que ela dormisse. Mas, agora, não conseguiu fazer isso. Tantas vezes nas últimas semanas havia começado a falar de Ifemelu para Kosi, mas desistido. O que ele ia dizer? Ia parecer uma cena de um filme bobo. Estou apaixonado por outra mulher. Existe outra pessoa. Vou deixar você. O fato de essas serem palavras que alguém podia dizer a sério, fora de um filme e fora das páginas de um livro, parecia estranho. Kosi estava enlaçando-o com os braços. Obinze se afastou, murmurou que estava enjoado e entrou no banheiro. Ela havia colocado um novo pot-pourri, uma mistura de folhas secas e sementes, numa tigela roxa, em cima da caixa da privada. O cheiro forte demais de lavanda o deixou sufocado. Ele jogou o conteúdo da tigela na privada e no instante seguinte sentiu-se culpado. A intenção de Kosi tinha sido boa. Ela não sabia que o cheiro forte demais de lavanda seria desagradável para ele, afinal.

Na primeira vez em que Obinze encontrou Ifemelu na Jazzhole, chegou em casa e disse a Kosi: “Ifemelu está na cidade. Eu tomei um suco com ela”, e Kosi disse: “Ah, sua namorada da faculdade?”, com uma indiferença tão indiferente que ele não acreditou completamente nela.

Por que ele havia lhe contado? Talvez porque, mesmo na época, houvesse percebido a força do que sentia e querido prepará-la, revelar tudo em etapas. Mas como Kosi poderia não ter visto que ele tinha mudado? Como poderia não ver isso em seu rosto? Em todo o tempo que passava sozinho em seu escritório, na frequência com que saía, em como voltava tarde? Obinze, de maneira egoísta, havia torcido para que isso a afastasse, a irritasse. Mas Kosi sempre assentia, aceitando com naturalidade, quando ele lhe dizia que estivera no clube. Ou na casa de Okwudiba. Certa vez, Obinze disse que ainda estava correndo atrás do negócio com os donos árabes da Megatel, mencionando “o negócio” casualmente, como se ela já soubesse o que era, e Kosi emitiu sons vagos de encorajamento. Mas ele nem estava envolvido com a Megatel.

 

Na manhã seguinte, Obinze acordou cansado, com a mente envolta em uma grande tristeza. Kosi já havia se levantado, tomado banho e estava sentada diante de sua penteadeira, que era cheia de cremes e loções organizados de maneira tão cuidadosa que ele às vezes se imaginava enfiando as mãos embaixo da mesa e virando-a, só para ver o que aconteceria com aqueles vidros.

“Faz tempo que você não faz uns ovos para mim, Zed”, disse ela, indo lhe dar um beijo quando viu que ele estava acordado. Então Obinze fez ovos para ela, brincou com Buchi na sala e, quando a menina adormeceu, leu os jornais, sempre com a mente envolta naquela tristeza. Ifemelu ainda não atendia seus telefonemas. Obinze subiu as escadas e foi para o quarto. Kosi estava organizando um armário. Havia uma pilha de sapatos com os saltos para cima no chão. Ele ficou parado diante da porta e disse baixinho: “Não sou feliz, Kosi. Amo outra pessoa. Quero me divorciar. Não vai faltar nada para você e para Buchi”.

“O quê?” Ela virou de costas para o espelho e encarou-o, atônita.

“Não sou feliz.” Não era assim que ele tinha planejado dizer aquilo, mas na verdade não tinha planejado nada. “Estou apaixonado por outra pessoa. Não vai faltar…”

Kosi ergueu a mão, a palma aberta virada para ele, para fazê-lo parar de falar. Não diga mais nada, implicava a mão. Não diga mais nada. E Obinze ficou irritado por ela não querer saber mais. Sua palma era branca, quase diáfana, e ele podia ver o entrecruzar esverdeado das veias. Kosi baixou a mão. E então, devagar, tombou de joelhos. Era uma descida fácil para ela, tombar de joelhos, porque fazia isso com frequência quando rezava, na sala de televisão do andar de cima, com a empregada, a babá e quem mais estivesse na casa. “Psiu, Buchi”, dizia entre uma palavra e outra da prece, enquanto a filha continuava com sua tagarelice infantil, mas no fim Buchi sempre guinchava com sua vozinha aguda: “Amém!”. Quando Buchi dizia “Amém!” com aquele deleite, aquele entusiasmo, Obinze temia que crescesse e se tornasse uma mulher que, com aquela palavra, “amém”, esmagaria as perguntas que queria fazer ao mundo. E agora Kosi estava tombando de joelhos diante dele, que não queria compreender aquele gesto.

“Obinze, somos uma família”, disse ela. “Temos uma filha. Ela precisa de você. Eu preciso de você. Precisamos manter a família unida.”

Kosi estava de joelhos, implorando-lhe que não a deixasse, e ele preferia que ela estivesse furiosa.

“Kosi, eu amo outra mulher. Detesto machucar você dessa maneira e…”

“A questão não é outra mulher, Obinze”, disse ela, erguendo-se, com a voz ficando mais fria e o olhar, mais duro. “A questão é manter a família unida! Você fez um voto perante Deus. Eu fiz um voto perante Deus. Sou uma boa esposa. Somos casados. Você acha que pode destruir esta família só porque sua ex-namorada voltou para a cidade? Sabe o que significa ser um pai responsável? Você tem obrigações com aquela criança lá embaixo! O que faz hoje pode arruinar a vida dela e traumatizá-la até o dia de sua morte! E tudo porque sua ex-namorada voltou dos Estados Unidos? Porque você está fazendo sexo acrobático que o fez lembrar seus tempos de faculdade?”

Obinze recuou. Então, ela sabia. Ele foi para o escritório e trancou a porta. Odiou Kosi por saber durante todo esse tempo e fingir que não sabia, e pelo lamaçal de humilhação que lhe ficara no estômago. Vinha guardando um segredo que nem sequer era segredo. Uma culpa de múltiplas camadas o deixou pesado, não apenas por querer deixar Kosi, mas por ter se casado com ela. Ele não podia primeiro se casar com ela, sabendo muito bem que não deveria ter feito aquilo, e agora, quando tinham uma filha, abandoná-la. Kosi estava decidida a continuar casada e esse era o mínimo que ele lhe devia, continuar casado. Obinze sentiu-se trespassado pelo pânico ao pensar em continuar casado; sem Ifemelu, o futuro se avultava com um tédio infindável e sem alegria. Então, ele disse a si mesmo que estava sendo bobo e dramático. Tinha que pensar em sua filha. Mas, quando sentou na cadeira e girou-a para procurar um livro na estante, sentiu-se já alçando voo.

Como Obinze havia se refugiado em seu escritório e dormido no sofá lá dentro, como eles não tinham dito mais nada um para o outro, ele achou que Kosi não ia querer ir à festa de batizado do filho de seu amigo Ahmed no dia seguinte. Mas, de manhã, Kosi dispôs sobre a cama deles sua saia longa azul de renda, o cafetã senegalês azul dele e, entre os dois, o vestido rodado de veludo azul de Buchi. Ela nunca havia feito isso antes, escolher roupas da mesma cor para eles todos. Ao chegar lá embaixo, Obinze viu que ela tinha feito panquecas, gordas como ele gostava, que estavam sobre a mesa de café da manhã. Buchi havia derramado um pouco de Ovomaltine no joguinho americano dela.

“Hezekiah ligou”, disse Kosi, distraída, referindo-se ao primo de Obinze de Awka, que só ligava quando queria dinheiro. “Mandou uma mensagem dizendo que não consegue falar com você. Não sei por que finge não saber que você ignora seus telefonemas.”

Era estranho Kosi dizer aquilo, falar do fingimento de Hezekiah quando ela própria estava imersa em fingimento, colocando cubos de abacaxi fresco no prato dele como se a noite anterior não tivesse acontecido.

“Mas você devia fazer algo por ele, mesmo que pouco, ou ele não vai deixar você em paz”, disse Kosi.

“Fazer algo por ele” significava dar-lhe dinheiro e Obinze sentiu um ódio súbito daquela tendência dos igbos de recorrer a eufemismos sempre que falavam de dinheiro, usando referências indiretas, fazendo gestos vagos em vez de apontar. Encontre algo para essa pessoa. Faça algo por essa pessoa. Aquilo o irritava. Parecia covarde, em especial para um povo que, em qualquer outro respeito, era brutalmente franco. Ifemelu o chamara de covarde de merda. Havia uma covardia até mesmo no fato de ele ligar e mandar mensagens para ela, sabendo que não responderia; poderia ter ido ao seu apartamento e batido na porta, mesmo que fosse só para ouvi-la mandando-o embora. E havia uma covardia no fato de ele não dizer a Kosi mais uma vez que queria se divorciar, de se aninhar no conforto da negação da esposa. Kosi pegou um pedaço de abacaxi de seu prato e comeu. Ela estava inabalável, focada, calma.

“Segure a mão do papai”, disse Kosi para Buchi quando eles entraram na festiva propriedade de Ahmed naquela tarde. Ela queria que a normalidade voltasse pela força de sua vontade. Queria que um bom casamento surgisse pela força de sua vontade. Carregava um presente embrulhado em papel prateado, para o bebê de Ahmed. No carro, tinha contado a Obinze o que era, mas ele já esquecera. Tendas e mesas com comida estavam espalhadas pela imensa propriedade, que era cheia de árvores e tinha um jardim planejado, com um buraco nos fundos que viria a ser uma piscina. Havia uma banda tocando. Dois palhaços corriam de um lado para o outro. Crianças dançavam e gritavam.

“Eles chamaram a mesma banda da festa de Buchi”, sussurrou Kosi. Ela quisera fazer uma grande festa para celebrar o nascimento de Buchi e Obinze tinha passado aquele dia como se flutuasse, com uma bolha de ar entre ele e a festa. Quando o mestre de cerimônias disse “o novo pai”, Obinze teve um estranho sobressalto ao perceber que era a ele que o homem se referia, que ele era o novo pai. Um pai.

A esposa de Ahmed, Sike, estava abraçando-o, apertando as bochechas de Buchi, as pessoas relaxavam, o ar estava repleto de gargalhadas. Eles admiraram o bebê, adormecido nos braços da avó, uma senhora de óculos. E Obinze se deu conta de que havia alguns anos eles tinham ido a diversos casamentos, mas agora eram batizados e logo seriam funerais. Eles morreriam. Todos morreriam após se arrastarem por uma vida na qual não eram nem felizes nem infelizes. Ele tentou se livrar da sombra melancólica que o envolvia. Kosi levou Buchi até o grupo de mulheres e crianças reunido ao lado da entrada da sala; elas faziam alguma brincadeira organizadas num círculo, no centro do qual estava um palhaço de boca vermelha. Obinze observou a filha — seu andar desajeitado, a tiara azul enfeitada com flores de seda em meio aos seus cabelos fartos, a maneira súplice como olhava para Kosi, com uma expressão que o fez lembrar sua mãe. Ele não podia suportar a ideia de Buchi crescer e se ressentir dele, sentir a falta de algo que ele deveria ter sido para ela. Mas o que devia importar não era se ele ia ou não deixar Kosi, mas a frequência com que veria Buchi. Moraria em Lagos, afinal, e se certificaria de que ela o visse sempre que possível. Muitas pessoas eram criadas sem o pai. Ele próprio fora criado assim, embora sempre houvesse tido o espírito de seu pai para consolá-lo, idealizado, congelado em lembranças alegres da infância. Desde que Ifemelu tinha voltado, Obinze procurara histórias de homens que deixaram o casamento, desejando que acabassem bem, com os filhos mais felizes com pais separados do que com pais casados e infelizes. Mas a maior parte das histórias era sobre crianças ressentidas que viam o divórcio com amargura, crianças que prefeririam que os pais infelizes permanecessem juntos. Certa vez, no clube, ele se animara ao ouvir um jovem falando com os amigos sobre o divórcio dos pais, sobre como se sentira aliviado, porque a infelicidade dos dois era pesada. “O casamento deles bloqueava as bênçãos em nossa vida, e o pior é que eles nem brigavam.”

Na outra ponta do balcão, Obinze tinha exclamado “Muito bem!”, fazendo com que os outros o olhassem, estranhando.

Ele ainda estava observando Kosi e Buchi falando com o palhaço de boca vermelha quando Okwudiba chegou. “Zed!”

Eles se abraçaram, trocaram tapinhas nas costas.

“Como foi na China?”, perguntou Obinze.

“Esses chineses… É uma gente muito astuta. Você sabe que os idiotas que estavam cuidando do projeto antes assinaram um monte de acordos imbecis com eles. Queríamos rever alguns acordos, mas, esses chineses, chegam em cinquenta a uma reunião e eles só trazem os papéis e dizem: ‘Assine aqui, assine aqui!’. Você fica exausto de tanto que negociam e no fim eles ficam com seu dinheiro e sua carteira.” Okwudiba riu. “Venha, vamos lá para cima. Ouvi dizer que Ahmed pôs umas garrafas de Dom Pérignon lá.”

Lá em cima, no que parecia ser uma sala de jantar, as pesadas cortinas cor de vinho estavam fechadas, deixando a luz do sol do lado de fora, e um candelabro vistoso e brilhante, que parecia um bolo de casamento feito de cristal, pendia do centro do teto. Havia homens sentados em torno da grande mesa de carvalho, que estava repleta de garrafas de vinho e licor e travessas com arroz, carne e saladas. Ahmed entrava e saía, dando instruções à criada, ouvindo conversas e contribuindo com uma ou duas frases.

“Os ricos não ligam para as tribos. Mas, quanto mais baixo se desce, mais importantes são”, dizia Ahmed quando Obinze e Okwudiba entraram. Obinze gostava da natureza sardônica de Ahmed. Ele havia alugado telhados estratégicos em Lagos bem na época em que as empresas de telefonia móvel estavam começando a chegar à cidade, e agora os alugava para suas estações de base e ganhava o que ironicamente chamava de “o único dinheiro fácil e limpo do país”.

Obinze apertou a mão dos homens, a maioria dos quais conhecia, e perguntou à criada, uma jovem que havia colocado uma taça de vinho diante dele, se poderia pegar uma Coca. O álcool o faria afundar ainda mais em seu pântano. Ele ouviu a conversa ao redor, as piadas, as provocações, as mesmas histórias contadas e recontadas. Então, como sabia que inevitavelmente ocorreria, os homens começaram a criticar o governo — dinheiro roubado, contratos que não eram levados até o fim, infraestrutura largada que apodrecia.

“Vejam bem, é muito difícil ser do governo neste país e não ser corrupto. Tudo é feito para você roubar. E o pior é que as pessoas querem que você roube. Seus parentes querem que você roube, seus amigos querem que você roube”, disse Olu. Ele era magro e curvado, com a arrogância fácil que vinha com seu dinheiro herdado, com seu sobrenome famoso. Diziam que certa vez tinham lhe oferecido um ministério e ele respondera: “Mas não posso morar em Abuja, não tem mar, não consigo sobreviver sem meus barcos”. Olu tinha acabado de se divorciar da esposa, Morenike, amiga de Kosi da faculdade. Ele vivia importunando Morenike, que era só um pouco acima do peso, para emagrecer, de forma a manter o interesse dele. Durante o divórcio, ela descobrira uma série de imagens pornográficas no computador que eles tinham em casa, todas de mulheres obesas, com montes de gordura nos braços e na barriga. Morenike concluíra, e Kosi concordava, que Olu tinha um problema espiritual.

“Por que tudo tem que ser um problema espiritual? O homem tem um fetiche, só isso”, dissera Obinze a Kosi. Agora, ele às vezes se pegava olhando Olu com uma curiosidade divertida; nunca se sabe o que se passa na cabeça das pessoas.

“O problema não é que as pessoas do governo roubam, o problema é que roubam demais”, disse Okwudiba. “Olhe todos esses governadores. Eles deixam seus estados, vêm para Lagos, compram um monte de terra e só vendem depois que deixam o cargo. É por isso que ninguém tem dinheiro para comprar terra hoje.”

“É verdade! Os especuladores estragam os preços para todo mundo. E os especuladores são do governo. Temos um problema sério neste país”, disse Ahmed.

“Mas não é só na Nigéria. Existem especuladores de terra em todo lugar do mundo”, disse Eze. Eze era o homem mais rico ali, dono de poços de petróleo. Assim como muitos dos ricos da Nigéria, era livre de angústias, um homem feliz, sem preocupações. Colecionava arte e dizia a todo mundo que colecionava arte. Aquilo fazia Obinze se lembrar da amiga de sua mãe, tia Chinelo, uma professora de literatura que havia voltado de uma curta temporada em Harvard e dito à sua mãe, sentada à mesa de jantar da casa deles: “O problema é que temos uma burguesia muito atrasada neste país. Eles têm dinheiro, mas precisam se tornar sofisticados. Precisam entender de vinho”. E a mãe de Obinze respondera num tom brando: “Existem muitas maneiras diferentes de ser pobre no mundo, mas cada vez mais parece existir apenas uma maneira de ser rico”. Mais tarde, depois que tia Chinelo fora embora, sua mãe dissera: “Que bobagem. Por que eles teriam que entender de vinho?”. Aquilo havia impressionado Obinze — “Precisam entender de vinho” — e, de certa maneira, o havia decepcionado, porque ele sempre gostara de tia Chinelo. Ele imaginava que alguém tinha dito algo parecido a Eze — você precisa colecionar arte, precisa entender de arte — e o homem fora atrás de arte com o zelo de um interesse inventado. Toda vez que Obinze o encontrava e o ouvia falando desajeitadamente sobre sua coleção, tinha vontade de aconselhá-lo a vender tudo e se libertar.

“O preço das terras não é problema para alguém como você, Eze”, disse Okwudiba.

Eze riu, uma risada que mostrava concordância e vaidade. Ele havia tirado seu blazer vermelho e pendurado na cadeira. Em nome do estilo, vestia-se quase como um dândi; sempre usava cores primárias e as fivelas de seus cintos eram grandes e proeminentes, como os dentes de uma pessoa dentuça.

Na outra ponta da mesa, Mekkus estava dizendo: “Vocês sabiam que meu motorista me disse que passou na prova do WAEC, mas outro dia eu o mandei escrever uma lista e ele não sabe escrever nada! Não sabe soletrar ‘menino’ nem ‘gato’! Incrível!”.

“Por falar em motoristas, meu amigo estava me dizendo outro dia que o motorista dele é um homossexual econômico: ele vai atrás de homens que lhe dão dinheiro, e tem esposa e filhos.”

“Homossexual econômico!”, repetiu alguém, para gargalhada geral. Charlie Bombay pareceu achar uma graça particular naquilo. Tinha um rosto rude e cheio de cicatrizes, era do tipo que ficava mais à vontade no meio de um grupo de homens falando alto, comendo carne apimentada, bebendo cerveja e vendo um jogo do Arsenal.

“Zed! Você está muito quieto hoje”, disse Okwudiba, bebendo a quinta taça de champanhe. “Aru adikwa?”

Obinze deu de ombros. “Estou bem. Só cansado.”

“Mas Zed sempre é quieto”, disse Mekkus. “Ele é um cavalheiro. Só porque veio aqui se sentar com a gente? O homem lê poemas e Shakespeare. É um inglês perfeito.” Mekkus riu alto da própria piada sem graça. Na universidade era brilhante com eletrônicos, consertava aparelhos de som que eram considerados causas perdidas, e fora dele o primeiro computador pessoal que Obinze vira. Formou-se e foi para os Estados Unidos, então voltou pouco tempo depois, muito furtivo e muito rico, porque, segundo muita gente, havia participado de um enorme esquema de fraude de cartões de crédito. Sua casa era repleta de câmeras de vigilância; seus seguranças carregavam armas automáticas. E, agora, à menor menção dos Estados Unidos numa conversa, Mekkus dizia: “Nunca mais posso entrar nos Estados Unidos depois do negócio que fiz lá”, como quem quisesse se adiantar aos sussurros que o perseguiam.

“Sim, Zed é um cavalheiro de verdade”, disse Ahmed. “Dá para imaginar que Sike estava me perguntando se conheço alguém como ele para apresentar para a irmã dela? Eu disse: ‘Hum, você não está procurando alguém como eu para casar com sua irmã, em vez disso está procurando alguém como Zed’. Imagine, ô!”

“Não, Zed não é quieto por ser um cavalheiro”, disse Charlie Bombay, falando daquele jeito vagaroso que tinha, com o forte sotaque igbo acrescentando sílabas extras às palavras, já na metade de uma garrafa de conhaque que havia colocado diante de si, num gesto territorial. “É porque ele não quer que ninguém saiba quanto dinheiro tem!”

Eles riram. Obinze sempre tinha imaginado que Charlie Bombay batia na esposa. Não havia motivos para pensar isso; não sabia nada sobre a vida pessoal de Charlie Bombay e nunca nem tinha visto sua esposa. Ainda assim, sempre que o via o imaginava batendo na esposa com um grosso cinto de couro. Ele parecia repleto de violência, aquele homem malandro e poderoso, aquele chefão que havia pagado pela campanha eleitoral do governador de seu estado e agora tinha um monopólio em quase todos os ramos de negócio do estado.

“Deixem o Zed, ele pensa que não sabemos que é dono de metade das terras de Lekki”, disse Eze.

Obinze emitiu uma risadinha obrigatória. Ele pegou o celular e rapidamente mandou uma mensagem para Ifemelu: Por favor, fale comigo.

“Ainda não nos conhecemos, eu sou Dapo”, disse o homem sentado do outro lado de Okwudiba, estendendo a mão para apertar a de Obinze com entusiasmo, como se ele tivesse acabado de brotar do chão. Obinze envolveu a mão do homem num aperto pouco entusiasmado. Charlie Bombay havia mencionado sua riqueza e, de repente, ele se tornara interessante para Dapo.

“Você também trabalha com petróleo?”, perguntou Dapo.

“Não”, disse Obinze secamente. Ele tinha ouvido trechos da conversa de Dapo mais cedo, sobre seu trabalho de consultoria no ramo de petróleo, sobre seus filhos que moravam em Londres. Dapo devia ser um daqueles homens que deixavam a esposa e os filhos instalados na Inglaterra e voltavam para a Nigéria para correr atrás de dinheiro.

“Eu estava dizendo agora que os nigerianos que não param de reclamar das petroleiras não entendem que esta economia vai entrar em colapso sem elas”, disse Dapo.

“Você deve estar muito confuso se pensa que as petroleiras estão nos fazendo um favor”, disse Obinze. Okwudiba olhou-o, atônito; a frieza de seu tom não era normal. “O governo nigeriano basicamente financia a indústria de petróleo de tanto que investe nela, e as grandes petroleiras estão planejando se retirar das operações em terra de qualquer maneira. Elas querem deixar isso para os chineses e se concentrar só nas operações no mar. É como uma economia paralela; eles ficam só com as operações no mar, só investem em equipamentos de alta tecnologia, extraem petróleo que fica a milhares de quilômetros de profundidade. Não contratam pessoas locais. Os funcionários são trazidos de Houston e da Escócia. Não, elas não estão nos fazendo nenhum favor.”

“Isso!”, disse Mekkus. “E é tudo ralé. Todos esses bombeiros de fundo do mar, mergulhadores de alta profundidade, gente que sabe consertar robôs debaixo d’água. Ralé, todos eles. Estão sempre no lounge da British Airways. Ficam no batente durante um mês sem poder beber álcool e, quando chegam ao aeroporto, já estão caindo de bêbados e se comportam como idiotas no voo. Minha prima era aeromoça e ela disse que chegou ao ponto em que as companhias aéreas tiveram que obrigar os homens a assinar um termo sobre o consumo de bebidas alcoólicas, ou não os deixavam embarcar.”

“Mas Zed não viaja de British Airways, então ele não tem como saber disso”, disse Ahmed. Certa vez, caçoara de Obinze por se recusar a viajar de British Airways, porque era a companhia que os homens importantes usavam.

“Quando eu era um cara comum viajando de econômica, a British Airways me tratou como se eu fosse um cocô”, disse Obinze.

Os homens riram. Obinze estava ansioso para sentir seu telefone vibrar e aquela ansiedade o irritava. Ele se levantou.

“Preciso ir ao banheiro.”

“É logo ali na frente”, disse Mekkus.

Okwudiba foi atrás dele.

“Vou para casa”, disse Obinze. “Tenho que encontrar Kosi e Buchi.”

“Zed, o gini? O que foi? É só cansaço?”

Eles estavam diante da escadaria em curva, que era debruada por uma balaustrada cheia de ornamentos.

“Você sabe que Ifemelu voltou”, disse Obinze, e o mero ato de dizer o nome dela o aqueceu.

“Sei.” Okwudiba deixou claro que sabia mais que isso.

“É sério. Quero me casar com ela.”

“Hum. Você virou muçulmano e não nos contou?”

“Okwu, não estou brincando. Eu nunca devia ter me casado com Kosi. Sabia disso, mesmo naquela época.”

Okwudiba deu um suspiro fundo e exalou, como quem quisesse expelir o álcool. “Olhe, Zed, muitos de nós não casamos com a mulher que realmente amávamos. Casamos com a mulher que estava por perto quando estávamos prontos para casar. Então, esqueça isso. Pode continuar a vê-la, mas não precisa se comportar como um branco. Se sua mulher tem um filho de outro homem ou se você bate nela, isso é motivo para se divorciar. Mas chegar e dizer que você não tem nenhum problema com sua mulher, mas vai largá-la por outra? Haba. Por favor, nós não fazemos isso.”

Kosi e Buchi estavam paradas no pé da escadaria. Buchi chorava. “Ela caiu”, disse Kosi. “Disse que quer ser carregada pelo papai.”

Obinze começou a descer a escada. “Buch-Buch! O que aconteceu?” Antes de chegar perto de Buchi, ela já estava com os braços estendidos, esperando por ele.