Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 32 de 55

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Americanah

Capítulo 32

 

Durante semanas Ifemelu tateou, tentando se lembrar da pessoa que era antes de namorar Curt. A vida conjunta deles tinha acontecido, ela não teria sido capaz de imaginá-la antes, então, sem dúvida, conseguiria voltar ao que era. Mas o antes era uma névoa cor de ardósia, e Ifemelu não sabia mais quem fora, do que gostava, do que não gostava, o que queria. Seu emprego a entediava: ela fazia as mesmas coisas chatas, escrevendo releases, editando releases, revisando releases, com gestos automáticos e entorpecidos. Talvez sempre houvesse sido assim e Ifemelu não tivesse notado, pois estava cega com o brilho de Curt. Seu apartamento parecia a casa de um estranho. Nos fins de semana, ela ia para Willow. O apartamento de tia Uju ficava num condomínio de prédios com revestimento de estuque, num bairro cuidadosamente planejado com pedras colocadas nos cantos, onde, no fim da tarde, pessoas simpáticas saíam para passear com cachorros bonitos. Tia Uju tinha uma nova leveza; usava uma fina tornozeleira no verão, um lampejo esperançoso de ouro na perna. Passara a fazer parte da Médicos Africanos pela África, doando seu tempo em missões médicas de duas semanas e, durante a viagem ao Sudão, conheceu Kweku, um médico ganense divorciado. “Ele me trata como se eu fosse uma princesa. Como Curt tratava você.”

“Estou tentando esquecê-lo, tia. Pare de falar nele!”

“Sinto muito”, disse tia Uju, não parecendo sentir nem um pouco. Ela tinha dito a Ifemelu para fazer de tudo para salvar aquele relacionamento, porque não ia encontrar outro homem que a amasse tanto quanto Curt. Quando Ifemelu disse a Dike que tinha terminado com Curt, ele falou: “Ele era bem legal, prima. Você vai ficar bem?”.

“Vou, claro.”

Talvez ele sentisse que a verdade era outra e soubesse da leve instabilidade de seu ânimo; na maioria das noites, Ifemelu ficava na cama chorando, culpando-se pelo que destruíra, e depois dizendo a si mesma que não tinha motivos para chorar, mas chorando mesmo assim. Dike levou uma bandeja para o quarto dela com uma banana e uma lata de amendoim.

“Hora do lanche!”, disse, com um sorriso de zombaria; ainda não entendia por que alguém comeria aquelas duas coisas juntas. Ele ficou sentado na cama, contando como estava a escola enquanto Ifemelu comia. Dike jogava basquete agora, suas notas tinham melhorado e ele gostava de uma menina chamada Autumn.

“Você está se adaptando bem aqui.”

“Estou”, disse ele, e seu sorriso a fez lembrar como eram seus sorrisos no Brooklyn, francos, sem reservas.

“Lembra aquele personagem de anime, o Goku?”

“Lembro.”

“Você meio que parece o Goku com esse afro”, disse Dike, rindo.

Kweku bateu na porta e esperou que Ifemelu dissesse “Entre” antes de enfiar a cabeça pela fresta. “Já está pronto, Dike?”, perguntou.

“Estou, tio. Vamos nessa!”

“Vamos ao centro comunitário, quer vir?”, perguntou Kweku a Ifemelu de forma hesitante, quase formal; ele também sabia que ela estava sofrendo por ter terminado com o namorado. Era um homem baixo e de óculos, um cavalheiro, um homem gentil; Ifemelu gostava dele, pois ele gostava de Dike.

“Não, obrigada”, disse ela. Kweku morava numa casa não muito longe dali, mas algumas de suas camisas estavam no armário de tia Uju e Ifemelu vira uma loção pós-barba no banheiro dela e embalagens de iogurte orgânico na geladeira, que sabia que ela não comia. Kweku olhava para tia Uju com olhos translúcidos, de um homem que queria que o mundo soubesse o quanto estava apaixonado. Aquilo fez Ifemelu se lembrar de Curt e sentir, mais uma vez, uma tristeza nostálgica.

A mãe dela percebeu algo em sua voz pelo telefone. “Você está doente? Aconteceu alguma coisa?”

“Estou bem. É só o emprego.”

Seu pai também lhe perguntou por que estava diferente e se estava tudo bem. Ifemelu contou que estava tudo bem e que ela passava boa parte do tempo depois do trabalho escrevendo no blog e estava prestes a explicar seu novo passatempo quando ele disse: “O conceito me é razoavelmente familiar. Estamos passando por um rigoroso programa de treinamento em computação no escritório”.

“Eles deferiram o pedido do seu pai. Ele vai poder sair de licença durante as férias da minha escola”, disse a mãe dela. “Então, devemos pedir nosso visto em breve.”

Ifemelu havia tempos sonhava com uma visita dos pais e falava nessa possibilidade. Ela podia pagar por uma naquele momento e sua mãe queria que fosse naquele momento, mas Ifemelu lamentou que não pudesse ser em outro. Queria vê-los, mas pensar na visita deles a deixava exausta. Não sabia se ia ser capaz de ser sua filha, a pessoa de quem se lembravam.

“Mamãe, ando muito ocupada no trabalho atualmente.”

“Hum. A gente por acaso vai para atrapalhar seu trabalho?”

Assim, ela enviou para eles uma carta-convite, o extrato do banco e uma cópia de seu green card. Ir à embaixada americana era melhor agora; os funcionários ainda eram rudes, mas o pai de Ifemelu contou que você não tinha mais de brigar e empurrar os outros para conseguir entrar na fila. Eles receberam visto de seis meses. Passaram três semanas com ela. Pareciam estranhos. Sua aparência estava a mesma, mas a dignidade da qual Ifemelu se lembrava sumira e deixara em seu lugar uma avidez mesquinha e provinciana. O pai dela ficou maravilhado com os carpetes no hall do prédio; a mãe comprou inúmeras bolsas de couro falso no Kmart e guardou guardanapos de papel da praça de alimentação do shopping e até sacolas plásticas. Ambos posaram para fotos diante da loja de departamentos JC Penney, pedindo que Ifemelu não deixasse de pegar o letreiro inteiro. Ela os observava com desprezo e sentia-se culpada por isso; tinha guardado suas lembranças como se fossem tão preciosas, mas, agora que finalmente os estava vendo, observava-os com desprezo.

“Eu não entendo os americanos. Eles dizem uma coisa e eu entendo outra”, declarou seu pai. “A maneira de falar dos britânicos é preferível, creio.”

Antes de irem embora, a mãe de Ifemelu lhe perguntou, falando baixinho: “Você tem um amigo?”. Ela disse a palavra “amigo” em inglês e não em igbo; era a palavra inofensiva que os pais usavam para não conspurcar a língua com termos como “namorado”, embora fosse exatamente isso que queriam dizer; um envolvimento romântico, um marido em potencial.

“Não”, disse Ifemelu. “Tenho estado muito ocupada no trabalho.”

“Trabalhar é bom, Ifem. Mas você também deve ficar de olhos abertos. Lembre que uma mulher é como uma flor. Nosso tempo passa rápido.”

Antes, Ifemelu teria rido sem dar importância e dito à mãe que não se sentia nem um pouco como uma flor, mas agora estava cansada demais, aquilo lhe parecia um esforço grande demais. No dia em que seus pais voltaram para a Nigéria, ela desabou na cama, chorando descontroladamente e pensando no que havia de errado com ela. Estava aliviada por seus pais terem ido embora e se sentia culpada pelo alívio. Depois do trabalho, vagava pelo centro de Baltimore sem rumo, sem se interessar por nada. Era isso que os escritores queriam dizer quando falavam em ennui? Numa tarde enfadonha de quarta-feira, ela pediu demissão. Não planejara fazê-lo, mas subitamente pareceu-lhe que era necessário, e por isso fez uma carta no computador e levou-a até o escritório do gerente.

“Mas você estava progredindo tanto. Há algo que podemos fazer para que mude de ideia?”, perguntou o gerente, muito surpreso.

“É um motivo pessoal, ligado à minha família”, disse Ifemelu vagamente. “Agradeço muito por todas as oportunidades que me deu.”

 

Então, qual é a verdade?

 

Eles nos dizem que raça é uma invenção, que existe mais variação genética entre duas pessoas negras do

que entre um negro e um branco. Mas então dizem que as negras têm um tipo pior de câncer de mama e

maior predisposição a tumores no útero. E que os brancos têm mais fibrose cística e osteoporose. Então,

qual é a verdade, médicos presentes? Raça é uma invenção ou não é?