Americanah
Capítulo 53
Assim começaram os dias estonteantes cheios de clichês: Ifemelu se sentia completamente viva, seu coração batia mais forte quando Obinze chegava a sua porta e ela via cada manhã como um presente a ser desembrulhado. Ifemelu ria, cruzava as pernas ou mexia de leve os quadris com uma consciência aguçada de si mesma. Sua camisola tinha o cheiro do perfume dele, um aroma sutil de fruta cítrica e madeira, porque Ifemelu a deixou sem lavar durante o máximo de tempo possível, assim como demorou a limpar um pouco de creme hidratante que ele havia derramado na pia e, depois que eles faziam amor, deixava intocada a cova no travesseiro, uma marca suave onde a cabeça de Obinze tinha pousado, como quem quisesse preservar sua essência até a próxima vez. Com frequência, os dois ficavam na varanda dela observando os pavões da casa abandonada, dando-se as mãos de tempos em tempos, e ela pensava na vez seguinte, e na seguinte, em que fariam isso juntos. Era amor, ficar tão ansiosa pelo amanhã. Será que tinha se sentido assim quando era adolescente? As emoções pareciam absurdas. Ifemelu ficava inquieta quando Obinze não respondia de imediato a suas mensagens de texto. A mente dela ficava enegrecida pelo ciúme de seu passado. “Você é o grande amor da minha vida”, ele disse a Ifemelu, que acreditou, mas ainda assim sentia ciúme daquelas mulheres que Obinze amara mesmo que de forma passageira, aquelas mulheres que haviam ganhado espaço em seus pensamentos. Sentia ciúme até das mulheres que gostavam dele, imaginando quanta atenção recebia em Lagos, sendo tão bonito e agora rico também. Quando o apresentou a Zemaye, a graciosa Zemaye com sua saia justa e seu sapato de plataforma, reprimiu uma sensação de desconforto, pois viu nos olhos alertas e apreciadores da amiga os de todas as mulheres famintas de Lagos. Era um ciúme imaginário, pois Obinze não fazia nada para instigá-lo; sua devoção era constante e evidente. Ifemelu ficava maravilhada com a maneira intensa e atenciosa que ele tinha de ouvi-la. Lembrava-se de tudo o que ela dizia. Ela nunca tivera aquilo antes, ser ouvida, ser realmente escutada, então ele se tornou precioso por mais um motivo; a cada vez que se despedia no fim de um telefonema, Ifemelu sentia um pânico crescente. Era mesmo absurdo. O amor de adolescência deles tinha sido menos melodramático. Ou talvez fosse porque as circunstâncias eram diferentes e avultando-se sobre eles agora havia o casamento sobre o qual Obinze nunca falava. Às vezes, ele dizia: “Só posso chegar no meio da tarde no domingo”, ou “Tenho de ir embora mais cedo hoje”, frases que ela sabia terem a ver com sua esposa, mas não conversavam sobre o assunto. Obinze não tentava fazê-lo e Ifemelu não queria fazê-lo, ou dizia a si mesma que não queria. Ficava surpresa com o fato de ele a levar para sair abertamente, para almoçar e jantar, para seu clube, onde o garçom a chamava de “madame”, talvez presumindo que fosse sua mulher; de ficar com ela até depois da meia-noite e nunca tomar uma ducha depois de fazerem amor; de ir para casa com seu toque e seu cheiro na pele. Obinze estava determinado a dar ao relacionamento deles toda a dignidade que podia, a fingir que não estava se escondendo, embora, é claro, estivesse. Certa vez ele disse, com um ar misterioso, quando estavam deitados na cama dela na luz indecisa do fim de tarde: “Posso passar a noite aqui? Eu gostaria de passar”. Ifemelu respondeu com um não rápido e mais nada. Não queria se acostumar a acordar ao lado de Obinze, não se permitiu pensar em por que ele podia passar aquela noite ali. Assim, aquele casamento pairava sobre eles, inefável, insondável, até certa noite, quando ela não estava com vontade de comer fora. Ele, animado, disse: “Você tem espaguete e cebolas. Deixe que eu cozinho para você”.
“Desde que não me dê dor de estômago.”
Obinze riu. “Sinto saudades de cozinhar, não posso cozinhar em casa.” E, naquele instante, a esposa dele se tornou uma presença obscura e espectral na sala. Era palpável e ameaçadora de uma maneira que nunca fora quando ele dizia “Só posso chegar no meio da tarde no domingo” ou “Tenho de ir embora mais cedo hoje”. Ifemelu virou as costas para ele e abriu o laptop para ver o blog. Uma fornalha havia se acendido em seu âmago. Obinze sentiu o peso súbito de suas palavras, porque foi se postar ao lado dela.
“Kosi jamais gostou da ideia de eu cozinhar. Ela tem ideias bem básicas e tradicionais de como uma esposa deve ser e acha que eu querer cozinhar é uma crítica a ela, o que para mim é bobo. Por isso parei, só para ter paz. Faço omeletes, mas só isso, e nós dois fingimos que minha sopa onugbu não é melhor que a dela. Finge-se muita coisa no meu casamento, Ifem.” Ele fez uma pausa. “Eu me casei com ela quando estava me sentindo vulnerável; minha vida estava muito caótica na época.”
Ifemelu disse, com as costas viradas para ele: “Obinze, por favor, só faça o espaguete”.
“Sinto uma grande responsabilidade por Kosi, mas isso é tudo o que sinto. E quero que você saiba disso.” Ele a virou de frente suavemente, segurando seus ombros, e parecia querer dizer outras coisas, mas esperando que ela o ajudasse a dizê-las e, por isso, Ifemelu sentiu o ressentimento se avivando outra vez. Voltou-se para o laptop de novo, engasgada com a vontade de destruir, rasgar e queimar.
“Vou jantar com Tunde Razaq amanhã”, disse Ifemelu.
“Por quê?”
“Porque quero.”
“No outro dia você disse que não ia fazer isso.”
“O que acontece quando você chega em casa e deita na cama com sua mulher? O que acontece?”, perguntou ela, sentindo vontade de chorar. Algo havia se rompido entre eles, estragado. “Acho que você devia ir embora”, disse Ifemelu.
“Não.”
“Obinze, por favor, não discuta e vá embora.”
Ele se recusou a ir e, mais tarde, Ifemelu sentiu-se grata por isso. Obinze fez espaguete e ela ficou empurrando a comida no prato, com a garganta seca e sem apetite.
“Nunca vou te pedir nada. Sou uma mulher adulta e sabia da sua situação quando me meti nisso”, disse ela.
“Por favor, não fale assim”, disse ele. “Isso me assusta. Faz com que eu me sinta dispensável.”
“Não tem a ver com você.”
“Eu sei. Sei que é a única maneira que você tem de manter um pouco de dignidade nisso.”
Ifemelu olhou para Obinze e até o fato de ele ser tão razoável começou a irritá-la.
“Eu te amo, Ifem. Nós nos amamos”, disse ele.
Havia lágrimas em seus olhos. Ela começou a chorar também, um choro desamparado, e eles se abraçaram. Mais tarde, ficaram deitados juntos na cama e o ar estava tão parado e silencioso que o som gorgolejante do estômago dele pareceu alto.
“Isso foi a minha barriga ou a sua?”, perguntou ele num tom de brincadeira.
“É claro que foi a sua.”
“Lembra a primeira vez que fizemos amor? Você tinha acabado de ficar de pé em cima de mim. Eu adorava você de pé em cima de mim.”
“Não posso mais fazer isso. Estou gorda demais. Ia matar você.”
“Pare com isso.”
Finalmente, Obinze se levantou e pôs a calça, com movimentos lentos e relutantes. “Não posso vir amanhã, Ifem, tenho de levar minha filha…”
Ela o interrompeu. “Não tem problema.”
“Vou a Abuja na sexta”, disse ele.
“É, você disse.” Ifemelu estava tentando afastar a sensação de abandono iminente; seria dominada por ela assim que Obinze saísse e ouvisse o clique da porta sendo fechada.
“Venha comigo”, disse Obinze.
“O quê?”
“Venha comigo para Abuja. Tenho só duas reuniões e vamos poder passar o fim de semana todo lá. Vai ser bom para nós estar num lugar diferente, conversar. E você nunca foi a Abuja. Posso reservar dois quartos separados no hotel se você quiser. Diga sim. Por favor.”
“Sim”, disse ela.
Ifemelu não tinha se permitido fazer isso antes, mas, depois que ele foi embora, olhou as fotos de Kosi no Facebook. A beleza dela era espantosa, aquelas maçãs do rosto, aquela pele sem jaça, aquelas curvas femininas perfeitas. Quando Ifemelu viu uma foto tirada de um ângulo não muito favorável, examinou-a por um tempo e sentiu um prazer mesquinho e perverso.
Ifemelu estava no salão quando Obinze lhe mandou uma mensagem: Desculpe, Ifem, mas acho que é melhor que eu vá sozinho a Abuja. Preciso de um tempo para pensar. Te amo. Ela ficou olhando para a mensagem com os dedos tremendo e respondeu com três palavras: Covarde de merda. Depois, virou-se para a cabeleireira. “Você vai escovar meu cabelo com essa escova? Deve estar brincando. Vocês não pensam?”
A cabeleireira ficou intrigada. “Tia, desculpe, ô, mas foi isso que usei no seu cabelo antes.”
Quando Ifemelu chegou ao prédio, o Range Rover de Obinze estava estacionado diante dele. Ele foi atrás dela para o apartamento.
“Ifem, por favor, quero que você entenda. Acho que tudo isso entre nós dois aconteceu um pouco depressa demais e quero um pouco de tempo para pôr as coisas em perspectiva.”
“Um pouco depressa demais”, repetiu ela. “Nada original. Nem um pouco a sua cara.”
“Você é a mulher que eu amo. Nada pode mudar isso. Mas tenho uma sensação de responsabilidade em relação ao que preciso fazer.”
Ela esquivou-se dele, de sua voz rouca, da falta de sentido nebulosa que lhe saiu tão facilmente da boca. O que significava “responsabilidade em relação ao que preciso fazer”? Que ele queria continuar a se encontrar com ela, mas tinha de permanecer casado? Que não podia mais se encontrar com ela? Obinze sempre comunicava de maneira clara o que queria, mas agora ali estava ele, escondendo-se atrás de palavras sem consistência.
“O que você está dizendo?”, perguntou ela. “O que está tentando me dizer?”
Quando Obinze ficou em silêncio, Ifemelu disse: “Vá para o inferno”.
Ela entrou no quarto e trancou a porta. Da janela, ficou observando o Range Rover até ele desaparecer numa curva.