Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 33 de 55

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Capítulo 33

 

O blog havia se mostrado para o mundo e perdido os dentes de leite; ele alternadamente a surpreendia, dava-lhe prazer e a deixava perplexa. Seus leitores cresceram, chegando a milhares em todo o mundo, de forma tão rápida que ela resistia ao impulso de conferir as estatísticas, relutando em saber quantas pessoas novas tinham clicado na página para lê-la naquele dia, porque isso a amedrontava. E a encantava. Quando via seus posts republicados em outro site, corava com a sensação de ter realizado algo importante, mas não havia imaginado nada disso, não havia acalentado nenhuma ambição definida. Chegaram e-mails de leitores que queriam apoiar o blog. Apoiar. Aquela palavra fez o blog ser algo ainda mais exterior a Ifemelu, uma coisa separada que poderia prosperar ou não, às vezes sem ela e às vezes com. Assim, Ifemelu colocou um link para sua conta no PayPal. Apareceram créditos, muitos pequenos e um tão grande que, quando ela o viu, soltou um som desconhecido, uma mistura de suspiro e grito. Ele começou a aparecer todo mês, uma contribuição anônima, tão regular quanto um salário e, cada vez que isso acontecia, ela se sentia envergonhada, como se tivesse encontrado algo de valor na rua e guardado. Imaginou se seria de Curt, assim como se perguntava se ele lia o blog e o que achava de ser chamado de O Ex-Namorado Branco e Gostoso. Eram perguntas feitas sem grande nervosismo; Ifemelu sentia falta do que poderia ter sido, mas não sentia mais falta dele.

Ela entrava no blog e no e-mail com frequência demais, como uma criança rasgando ansiosamente o embrulho de um presente que não sabe se quer, e lia coisas de gente chamando-a para tomar um drinque, acusando-a de ser racista, dando-lhe ideias sobre o que postar. Outra blogueira que fazia cremes para cabelo foi a primeira a sugerir pôr um anúncio e, por uma taxa simbólica, Ifemelu postou a imagem de uma mulher de cabelos abundantes no topo da página de seu blog, à direita; clicar nela levava ao site de cremes para cabelo. Outro leitor ofereceu mais dinheiro para que ela publicasse um anúncio gráfico com duas imagens, mostrando primeiro uma modelo de pescoço longo com um vestido justo e depois a mesma modelo com um chapéu de abas moles. Clicar na imagem levava a uma loja on-line. Logo, ela recebeu e-mails com ofertas para anunciar xampus da Pantene e maquiagem da Covergirl. Depois, um e-mail do diretor para assuntos multiculturais de uma escola particular de Connecticut, tão formal que ela o imaginou sendo datilografado em papel cortado à mão com um brasão prateado, pedindo-lhe que desse uma palestra sobre diversidade para os alunos. Chegou também um e-mail de uma corporação na Pensilvânia, escrito de maneira menos formal, dizendo-lhe que um professor universitário local a havia identificado como uma instigante blogueira de raça e pedindo-lhe que se apresentasse em seu workshop anual sobre diversidade. Um editor da Baltimore Living mandou um e-mail dizendo que eles queriam incluí-la numa matéria do tipo “dez pessoas que vão dar o que falar”; Ifemelu foi fotografada ao lado do laptop com o rosto mergulhado nas sombras e a foto saiu com a legenda: “A blogueira”. Seus leitores triplicaram. Mais convites chegaram. Para receber telefonemas, ela usava suas calças mais sérias e seu batom mais discreto e falava sentada à mesa bem empertigada, com as pernas cruzadas, a voz segura e tranquila. Mas uma parte dela sempre ficava apreensiva, esperando que a pessoa do outro lado da linha percebesse que estava fingindo ser essa mulher profissional que negociava quanto ia receber e visse que era uma desempregada que usava uma camisola amassada o dia inteiro, gritasse “Fraude!” e desligasse. Mais convites chegaram. O hotel e a passagem eram pagos e os honorários variavam. Certa vez Ifemelu disse, num impulso, que queria duas vezes mais do que lhe fora oferecido na semana anterior e ficou chocada quando o homem que tinha ligado de Delaware disse: “Tudo bem, pode ser”.

A maior parte das pessoas que compareceram à sua primeira palestra sobre diversidade, numa pequena empresa de Ohio, usava tênis. Todas eram brancas. Sua apresentação se chamava “Como falar sobre raça com colegas de outras raças”, mas com quem, perguntou-se ela, eles iam falar sobre isso, já que eram todos brancos? Talvez o faxineiro fosse negro.

“Não sou especialista, por isso não me citem”, começou Ifemelu. Eles riram, risos calorosos e encorajadores, e ela disse a si mesma que ia se sair bem, não precisava ter se preocupado em se dirigir a uma sala cheia de estranhos no meio de Ohio. (Tinha sentido uma leve apreensão ao ler que ainda existiam cidades abertamente racistas naquele estado.) “O primeiro passo para se comunicar de forma honesta sobre a questão da raça é entender que você não pode igualar todos os racismos”, disse Ifemelu, partindo para o discurso que havia preparado com cuidado. Quando, no fim, disse “Obrigada”, feliz com a fluidez com que as palavras tinham saído, os rostos ao seu redor estavam gélidos. Os aplausos mecânicos a deixaram arrasada. Depois, Ifemelu ficou sozinha com o diretor de recursos humanos, bebendo chá doce demais no salão de conferências e conversando sobre futebol, que ele sabia que a Nigéria jogava bem, como se estivesse ansioso por discutir qualquer coisa, menos a palestra que ela acabara de dar. Naquela noite, ela recebeu um e-mail: SUA PALESTRA FOI UMA PORCARIA. VOCÊ É RACISTA. DEVIA ESTAR FELIZ POR TERMOS DEIXADO VOCÊ ENTRAR NESTE PAÍS.

O e-mail, escrito todo em maiúsculas, foi uma revelação. O propósito de workshops sobre diversidade ou palestras multiculturais não era inspirar nenhuma mudança real, mas fazer com que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas. Elas não queriam o conteúdo de suas ideias; queriam apenas o simbolismo de sua presença. Não tinham lido seu blog, apenas ouvido falar que ela era uma “blogueira famosa” que escrevia sobre questões raciais. Assim, ao longo das semanas seguintes, conforme Ifemelu foi dando mais palestras em empresas e escolas, começou a dizer o que eles queriam ouvir, sendo que jamais escreveria nada daquilo em seu blog, pois sabia que as pessoas que o liam não eram as mesmas que iam a workshops sobre diversidade. Durante suas palestras, Ifemelu dizia: “Os Estados Unidos já progrediram muito e devemos nos orgulhar disso”. Em seu blog, escrevia: O racismo nunca devia ter acontecido, então você não ganha um doce por ele ter diminuído. Mais convites ainda chegaram. Ela contratou uma estagiária, uma estudante americana cuja família era do Haiti e que usava o cabelo em caracóis elegantes, que conhecia bem os meandros da internet, procurando qualquer informação de que Ifemelu precisasse e apagando comentários inapropriados praticamente assim que eram postados.

Ifemelu comprou um pequeno apartamento. Ao ver o anúncio na parte de imóveis dos classificados do jornal, ela tomara um susto ao se dar conta de que tinha como pagar a entrada sem precisar de um empréstimo. Assinar seu nome acima da palavra “proprietária” a deixara com a sensação amedrontadora de ser uma adulta e também com um leve espanto de isso ser possível por causa de seu blog. Ela transformou um dos dois quartos num escritório e começou a escrever lá, passando bastante tempo diante da janela para observar seu novo bairro de Roland Park, com as casas geminadas restauradas à sombra de velhas árvores. Ficava surpresa ao ver que alguns posts chamavam atenção e que outros mal eram clicados. Seus textos sobre sites e namoro continuavam a receber comentários após muitos meses, como se fossem uma coisa grudenta.

 

Bom, como ainda estou um pouco triste por causa do término com O Ex-Namorado Branco e Gostoso e

não gosto de ir a bares, acabei entrando num site de namoro. E vi vários perfis. Mas sabe a hora em que

você escolhe em qual etnia está interessado? Os homens brancos escolhem mulheres brancas e os mais

corajosos escolhem asiáticas e hispânicas. Os homens hispânicos escolhem brancas e hispânicas. Os

homens negros são os únicos que provavelmente vão escolher “todas”, mas alguns nem escolhem as

mulheres negras. Escolhem brancas, asiáticas e hispânicas. Não fez com que eu me sentisse muito amada.

Mas o que o amor tem a ver com essas escolhas? Você pode entrar no supermercado, encontrar alguém por

acaso e se apaixonar, e essa pessoa não ser um membro da raça que você escolheria on-line. Por isso, após

ver os perfis, cancelei minha conta, que, ainda bem, estava nos primeiros dias, obtive um reembolso e de

agora em diante vou andar às cegas pelo supermercado.

 

Surgiram comentários de pessoas com histórias parecidas, de pessoas dizendo que ela estava errada, de homens pedindo que publicasse uma foto sua, de mulheres negras compartilhando histórias de namoros na internet que haviam dado certo, de pessoas que tinham ficado com raiva e pessoas que haviam adorado o post. Alguns dos comentários a divertiam, pois não tinham nenhuma ligação com o assunto. Vá se foder, escreveu um. Os negros se dão bem em tudo. Você não consegue nada neste país se não for negro. As mulheres negras podem até ser mais gordas. Seu post semanal, “Mistura de sexta-feira”, um emaranhado de pensamentos, era o que mais recebia cliques e comentários todas as semanas. Às vezes, Ifemelu escrevia alguns posts esperando reações desagradáveis, com um nó no estômago de medo e animação, mas recebia só comentários insossos. Agora que a convidavam para participar de mesas-redondas e debates em emissoras de rádio públicas ou comunitárias, sempre identificada simplesmente como blogueira, sentia-se consumida por seu blog. Ela se tornara seu blog. Havia momentos em que estava acordada no meio da noite e seus desconfortos crescentes rastejavam das fendas em que se escondiam, fazendo com que os muitos leitores do blog se tornassem, em sua mente, uma multidão furiosa e crítica que a esperava, aguardando o momento de atacá-la, desmascará-la.

 

Discussão aberta: para todos os negros enrustidos

 

Isto é para todos os negros enrustidos, os negros americanos e não americanos que estão vencendo na vida

e não gostam de falar sobre experiências de vida que têm exclusivamente a ver com o fato de serem negros,

pois não querem deixar ninguém constrangido. Conte sua história aqui. Se desenrusta. Este é um lugar

seguro.