Americanah
Capítulo 16
Kimberly chamou aquilo de um bônus de contratação. “Ginika me disse que você teve alguns problemas”, disse. “Por favor, não recuse.”
Não teria ocorrido a Ifemelu recusar o cheque; agora ela poderia pagar algumas contas e mandar um pouco de dinheiro para os pais. Sua mãe gostou dos sapatos que enviou, de bico fino e com franja na frente, do tipo que poderia usar para ir à igreja. “Obrigada”, disse-lhe a mãe e, então, dando um suspiro fundo no telefone, acrescentou: “Obinze veio me ver”.
Ifemelu ficou em silêncio.
“Seja qual for o problema que você tem, por favor, converse com ele”, disse.
Ifemelu respondeu “Tudo bem” e começou a falar de outra coisa. Quando a mãe disse que eles estavam sem luz fazia duas semanas, aquilo subitamente pareceu alheio a ela e sua própria casa pareceu um lugar distante. Não conseguia mais lembrar como era passar uma noite à luz de velas. Não lia mais as notícias no site Nigeria.com porque cada manchete, mesmo as mais improváveis, a fazia se lembrar de Obinze.
A princípio, decidiu que ia esperar um mês. Um mês para permitir que o ódio que sentia de si mesma se dissipasse, e então ligaria para Obinze. Mas um mês se passou e ainda assim Ifemelu o manteve lacrado no silêncio, amordaçado em sua mente para que pudesse pensar o mínimo possível nele. Ainda apagava seus e-mails sem ler. Começou a responder-lhe muitas vezes, fazendo rascunhos, mas então parava e apagava-os. Ela teria de lhe contar o que acontecera e não podia suportar a ideia de fazer isso. Sentia vergonha. Sentia que fracassara. Ginika não parava de perguntar qual era o problema, por que havia cortado o contato com Obinze, e Ifemelu dizia que não era nada, só queria um pouco de espaço. Ginika olhou-a, atônita. Você só quer um pouco de espaço?
No início da primavera, chegou uma carta de Obinze. Ifemelu precisava de apenas um clique para apagar seus e-mails e, depois da primeira vez, as outras foram mais fáceis, porque ela não conseguia imaginar ler o segundo e-mail se não lera o primeiro. Mas uma carta era diferente. Aquela trouxe a Ifemelu a maior dor que já sentira. Ela afundou na cama, segurando o envelope; cheirou-o, ficou olhando a caligrafia familiar dele. Imaginou-o em sua escrivaninha no alojamento masculino, ao lado da geladeira que zumbia, escrevendo daquele seu jeito calmo. Queria ler a carta, mas não conseguia se obrigar a abri-la. Colocou-a sobre a mesa. Ela a leria em uma semana. Precisava de uma semana para ganhar forças. E responderia, disse a si mesma. Contaria tudo para ele. Mas, uma semana depois, a carta ainda estava lá. Ifemelu colocou um livro em cima dela, depois outro, até que um dia a carta ficou esmagada debaixo de pastas e livros. Ela jamais a leria.
Taylor era fácil, uma criança infantil, o brincalhão que às vezes era tão ingênuo que Ifemelu, sentindo-se culpada, o achava burro. Mas Morgan, apenas três anos mais velha, já tinha a postura lúgubre de uma adolescente. Lia tão bem quanto crianças vários anos acima, fazia diversas atividades extras e observava os adultos com um olhar velado, como se conhecesse a escuridão à espreita em suas vidas. No início, Ifemelu não gostava dela, reagindo ao que pensava ser uma intensa antipatia. Durante as primeiras semanas em que cuidou deles, foi distante e às vezes até fria com Morgan, resolvida a não fazer as vontades daquela criança mimada e opulenta com um punhado de sardas escuras no nariz, mas, conforme os meses foram passando, começou a gostar da menina, um sentimento que tomou o cuidado de não demonstrar. Em vez disso, era firme e neutra, sem deixar de sustentar os olhares dela. Talvez fosse por isso que Morgan fazia o que Ifemelu pedia. Com frieza, indiferença e má vontade, mas fazia. Com frequência, ela ignorava a própria mãe. E, com o pai, seu jeito vigilante e melancólico se aguçava, transformando-se em veneno. Don chegava em casa e entrava com alarde na sala, esperando que tudo parasse por causa dele. E tudo parava mesmo, com exceção do que quer que Morgan estivesse fazendo. Kimberly, arfante e ardente, perguntava como tinha sido seu dia, esforçando-se para agradar, como se não conseguisse acreditar que ele mais uma vez tivesse voltado para casa e para ela. Taylor se atirava nos braços do pai. E Morgan tirava os olhos da televisão, de um livro ou de um jogo para observá-lo, como se visse através dele, enquanto Don fingia não se inquietar com aquele olhar penetrante. Às vezes, Ifemelu se perguntava: será que o problema era Don? Será que ele estava traindo Kimberly e Morgan descobrira? Traição era a primeira coisa que passaria pela cabeça de qualquer pessoa com um homem como Don, com aquele seu ar lúbrico. Mas talvez ele se satisfizesse apenas com insinuações; flertava descaradamente, mas não fazia nada a mais, pois um caso requereria algum esforço e ele era o tipo de homem que tomava, mas não entregava.
Ifemelu sempre pensava naquela tarde, quando não fazia muito tempo que trabalhava lá. Kimberly tinha saído. Taylor estava brincando e Morgan, lendo na sala. De repente, ela largou o livro, subiu calmamente as escadas e arrancou o papel de parede de seu quarto, arrastou a cômoda, tirou a colcha da cama, rasgou as cortinas e estava de joelhos, puxando, puxando, puxando o carpete muito bem colado quando Ifemelu chegou correndo para impedi-la. Era como se Morgan fosse um robozinho de aço, debatendo-se para escapar com uma força que assustou Ifemelu. Talvez a menina acabasse virando uma assassina em série como aquelas mulheres nos documentários policiais que passavam na televisão, ficando seminua em ruas escuras para atrair caminhoneiros e estrangulá-los. Quando Ifemelu afinal a largou, soltando-a devagar agora que estava mais calma, Morgan voltou para o primeiro andar e retomou a leitura do livro.
Mais tarde, Kimberly, aos prantos, perguntou: “Meu amor, por favor, me diga o que houve”.
E Morgan disse: “Estou velha demais para todas aquelas coisas cor-de-rosa no meu quarto”.
Agora, Kimberly levava Morgan duas vezes por semana a uma terapeuta em Bala Cynwyd. Tanto ela quanto Don estavam mais hesitantes com a filha, mais amedrontados com seu olhar de denúncia.
Quando Morgan ganhou um concurso de redação na escola, Don chegou em casa com um presente para ela. Kimberly permaneceu ao pé da escada, ansiosa, enquanto Don subia para lhe dar o presente, embrulhado em papel cintilante. Ele desceu poucos instantes depois.
“Ela nem olhou para ele. Levantou, entrou no banheiro e ficou lá”, disse. “Deixei em cima da cama.”
“Não se preocupe, querido, ela vai acabar se aproximando de você”, disse Kimberly, abraçando-o e esfregando suas costas.
Mais tarde, Kimberly disse baixinho a Ifemelu: “Morgan é muito dura com ele. Ele tenta sem parar, mas ela não deixa o pai se aproximar. De jeito nenhum”.
“Morgan não deixa ninguém se aproximar”, disse Ifemelu. Don precisava lembrar que a criança ali era Morgan, não ele.
“Ela ouve você”, disse Kimberly, um pouco triste.
Ifemelu teve vontade de dizer: “Eu não lhe dou muita escolha”, porque gostaria que Kimberly não fosse tão transparente em sua propensão a ceder; talvez Morgan apenas precisasse sentir que a mãe sabia se impor também. Em vez disso, ela disse: “É porque eu não sou da família. Ela não me ama e por isso não sente todas essas coisas complicadas por mim. Sou um motivo de irritação, na melhor das hipóteses”.
“Não sei o que estou fazendo de errado”, disse Kimberly.
“É uma fase. Vai passar, você vai ver.” Ela queria proteger Kimberly, servir de escudo para ela.
“Ela só gosta do meu primo Curt. Adora. Quando a família se reúne, fica emburrada se ele não está. Vou ver se pode vir fazer uma visita e conversar com ela.”
Laura havia trazido uma revista.
“Olhe isso, Ifemelu. Não é na Nigéria, mas é perto. Sei que as celebridades podem ser superficiais, mas ela parece estar fazendo um trabalho legal.”
Ifemelu e Kimberly olharam juntas a página: uma mulher branca e magra, sorrindo para a câmera, segurando um bebê africano de pele escura nos braços e, ao seu redor, criancinhas africanas de pele escura espalhadas como um tapete. Kimberly emitiu um som, um hummm, como se não soubesse o que sentir.
“E, além do mais, ela é linda”, disse Laura.
“É mesmo”, disse Ifemelu. “E é tão magra quanto as crianças, mas sua magreza é por escolha, e a delas, não.”
Laura explodiu numa risada. “Você é tão engraçada! Como é atrevida!”
Kimberly não riu. Depois, quando estava sozinha com Ifemelu, ela disse: “Lamento que Laura tenha dito aquilo. Nunca gostei da palavra ‘atrevida’. É o tipo de palavra que se usa com algumas pessoas e não com outras”. Ifemelu deu de ombros, sorriu e mudou de assunto. Ela não entendia por que Laura procurava tantas informações sobre a Nigéria, perguntando-lhe sobre as fraudes que haviam se tornado uma epidemia no país, dizendo-lhe quanto dinheiro os nigerianos que moravam nos Estados Unidos mandavam para casa todos os anos. Era um interesse agressivo, sem nenhum afeto; muito estranho, alguém dar tanta atenção a algo de que não gostava. Talvez o motivo daquilo na verdade fosse Kimberly, e Laura, de um jeito sinuoso, estivesse tentando atingir a irmã, dizendo coisas que a fariam começar a pedir profusas desculpas. Mas parecia muito trabalho para pouca recompensa. No início, Ifemelu achava os pedidos de desculpa de Kimberly gentis, embora desnecessários, mas começara a sentir um lampejo de impaciência com eles, porque aquelas desculpas repetidas eram manchadas pela autoindulgência, como se Kimberly acreditasse que, através delas, poderia alisar todas as superfícies ásperas do mundo.
Quando Ifemelu estava no emprego havia alguns meses, Kimberly perguntou: “Você consideraria morar aqui? O porão na verdade é um apartamento de um quarto com uma entrada separada. Você não pagaria aluguel, é claro”.
Ifemelu já estava procurando um conjugado, ansiosa por deixar suas colegas de apartamento agora que tinha dinheiro para isso, e não queria se imiscuir ainda mais na vida dos Turner, mas considerou a possibilidade, porque ouviu a súplica na voz de Kimberly. No fim das contas, decidiu que não poderia morar com eles. Quando recusou, Kimberly ofereceu o carro extra deles emprestado para ela. “Vai ficar muito mais fácil para você vir para cá depois da aula. Ele é bem velhinho. Íamos doá-lo. Espero que não pife no meio do caminho”, disse ela, como se houvesse possibilidade de aquele Honda, com apenas alguns anos de idade e nenhum arranhão, pifar no meio do caminho.
“Você não devia confiar em mim desse jeito, me deixando levar o carro para casa. E se eu não voltar um dia?”, perguntou Ifemelu.
Kimberly riu. “Ele não vale grande coisa.”
“Você tem uma carteira de motorista americana, não tem?”, perguntou Laura. “Digo, você pode dirigir aqui, não é?”
“Claro que pode, Laura”, disse Kimberly. “Por que ela aceitaria o carro se não pudesse?”
“Só estou confirmando”, disse Laura, como se não pudesse confiar que Kimberly fizesse as duras perguntas necessárias a quem não era cidadão americano. Ifemelu ficou observando as duas, tão parecidas fisicamente, ambas tão infelizes. Mas a infelicidade de Kimberly era interna, não reconhecida, oculta por seu desejo de que as coisas fossem como deveriam ser e também pela esperança — ela acreditava na felicidade dos outros porque aquilo significava que algum dia talvez pudesse tê-la. A infelicidade de Laura era diferente, cheia de espinhos — ela desejava que todos à sua volta fossem infelizes, porque se convencera de que sempre seria assim.
“Sim, tenho uma carteira de motorista americana”, disse Ifemelu, e então começou a falar sobre o curso de direção segura que tinha feito no Brooklyn antes de obter a carteira e sobre como o instrutor, um homem branco e magro com cabelos emaranhados cor de palha, a havia enganado. Num porão escuro e cheio de estrangeiros, aonde se chegava descendo uma escada estreita e ainda mais escura, o instrutor tinha recolhido o pagamento em dinheiro de todo mundo antes de passar o filme sobre direção segura, que foi projetado na parede. De tempos em tempos, ele fazia piadas que ninguém entendia e ria sozinho. Ifemelu desconfiou um pouco do filme: como era possível que um carro indo tão devagar tivesse causado todos aqueles estragos num acidente, quebrando o pescoço do motorista? Depois, ela passou para as perguntas da prova. Achou-as fáceis, preenchendo rapidamente as bolinhas das respostas com seu lápis. Um sul-asiático franzino ao lado, que devia ter cinquenta anos de idade, não parava de lhe lançar olhares súplices, enquanto ela fingia não entender que ele queria ajuda. O instrutor recolheu os papéis, pegou uma borracha cor de argila e começou a apagar algumas respostas e colorir outras. Todos passaram. Muitos apertaram a mão do homem, dizendo “Obrigado, obrigado”, numa grande gama de sotaques, antes de saírem, meio envergonhados. Agora, eles podiam requerer uma carteira de motorista americana. Ifemelu contou a história com uma franqueza falsa, como se fosse mera curiosidade e não algo que escolhera para provocar Laura.
“Foi um momento estranho para mim, porque até aquele ponto eu achava que ninguém nos Estados Unidos era desonesto”, disse Ifemelu.
“Minha Nossa Senhora”, disse Kimberly.
“Isso aconteceu no Brooklyn?”, perguntou Laura.
“Sim.”
Laura deu de ombros, como quem dizia que é claro que aquilo podia acontecer no Brooklyn, mas não nos Estados Unidos que ela habitava.
A questão era uma laranja. Uma laranja redonda cor de fogo que Ifemelu trouxera junto com o almoço, descascada, cortada em quatro e colocada num saco com fecho. Ela a comia na mesa da cozinha enquanto Taylor fazia a lição de casa sentado ali perto.
“Quer um pouco?”, perguntou ela, oferecendo um pedaço.
“Obrigado”, disse o menino. Ele pôs o pedaço na boca. Fez uma careta. “É ruim! Tem um monte de coisa dentro!”
“São as sementes”, disse ela, vendo o que Taylor havia cuspido na mão.
“Sementes?”
“Isso, as sementes da laranja.”
“As laranjas não têm coisas dentro.”
“Têm, sim. Jogue isso no lixo, Taylor. Vou colocar o vídeo educativo para você.”
“As laranjas não têm coisas dentro”, repetiu ele.
A vida toda, Taylor havia comido laranjas sem sementes, laranjas cultivadas de modo a serem laranjas perfeitas, com casca perfeita, mas sem sementes. Por isso, aos oito anos de idade, ele não sabia que existia algo como uma laranja com sementes. Taylor correu para a sala para contar a Morgan. Ela ergueu os olhos do livro que lia e ajeitou o cabelo atrás da orelha num gesto lento e cheio de enfado.
“É claro que as laranjas têm sementes. Mamãe compra sem semente, só isso. Ifemelu não comprou o tipo certo.” Ela lançou um de seus olhares acusatórios à babá.
“Essa laranja é do tipo certo para mim, Morgan. Fui criada comendo laranjas com sementes”, disse Ifemelu, ligando o vídeo.
“Tá”, disse Morgan, dando de ombros. Se fosse Kimberly ela não teria dito nada, só mantido uma expressão de raiva no rosto.
A campainha tocou. Só podia ser o limpador de carpetes. No dia seguinte, Kimberly e Don iam dar um coquetel para angariar fundos para um amigo sobre quem Don dissera: “Ele só está se candidatando ao Congresso para massagear o ego, mas não vai nem chegar perto de se eleger”, e Ifemelu ficou surpresa por ele parecer reconhecer o ego dos outros, embora estivesse perdido na névoa do seu. Ela foi até a porta. Um homem pesado e de rosto vermelho estava lá fora carregando um equipamento de limpeza, com algo jogado sobre o ombro e uma peça parecida com um cortador de grama no chão aos seus pés.
Ele se empertigou quando a viu. Seu rosto mostrou uma breve surpresa e depois congelou numa expressão de hostilidade.
“Você chamou para limpar o carpete?”, perguntou, como se não se importasse, como se ela pudesse mudar de ideia, ou ele quisesse que mudasse de ideia. Ifemelu encarou o homem com uma provocação nos olhos, prologando um momento carregado de presunções: ele achava que ela era dona da casa, e não era o que tinha esperado encontrar naquela casa de pedra imponente com pilares brancos.
“Sim”, disse Ifemelu, sentindo um cansaço súbito. “A sra. Turner me disse que vocês viriam.”
Foi como um passe de mágica, o desaparecimento instantâneo da hostilidade dele. O rosto do homem relaxou num sorriso. Ela também era uma empregada. O universo mais uma vez era como devia ser.
“Bom dia, como vai? Sabe onde ela quer que eu comece?”, perguntou ele.
“Lá em cima”, disse Ifemelu, perguntando-se como toda aquela alegria podia estar contida naquele corpo antes. Ela jamais esqueceria aquele homem, os pedaços de pele presos aos lábios ressecados, e iniciaria o post intitulado “Às vezes, nos Estados Unidos, raça é classe” com a história de sua mudança drástica de atitude, terminando com a frase: Para ele, não importava quanto dinheiro eu tinha. De acordo com sua maneira de ver as coisas, eu não me encaixava no papel de proprietária daquela mansão por causa da minha aparência. No discurso público dos Estados Unidos, muitas vezes “negros”, como um todo, são colocados na mesma categoria que “brancos pobres”. Não “negros pobres” e “brancos pobres”. Mas “negros” e “brancos pobres”. É uma coisa muito curiosa mesmo.
Taylor estava animado. “Eu quero ajudar, posso? Posso?”, ele pediu ao limpador.
“Não, obrigado, rapazinho”, disse o homem. “Eu dou conta.”
“Tomara que ele não comece pelo meu quarto”, disse Morgan.
“Por quê?”, perguntou Ifemelu.
“Porque eu não quero.”
Ifemelu teve vontade de contar a Kimberly sobre o limpador de carpete, mas ela talvez ficasse perturbada e pedisse desculpas por algo que não era sua culpa, como fazia muitas vezes, vezes demais, em nome de Laura.
Era constrangedor ver como Kimberly se esforçava, ansiosa por fazer a coisa certa, mas sem saber o que era. Se Ifemelu lhe contasse sobre o limpador de carpetes, era impossível prever o que ela faria — rir, pedir desculpas, pegar o telefone para ligar para a empresa e reclamar.
Assim, em vez disso, ela falou de Taylor e da laranja.
“Ele achou mesmo que as sementes queriam dizer que a laranja estava estragada? Que engraçado.”
“É claro que Morgan logo disse que ele estava errado.”
“É a cara dela, mesmo.”
“Quando eu era pequena, minha mãe costumava me dizer que uma laranja ia crescer na minha cabeça se eu engolisse uma semente. Acordei muitas vezes ansiosa, e tive que ir me olhar no espelho. Pelo menos Taylor não vai ter esse trauma de infância.”
Kimberly riu.
“Olá!” Era Laura, entrando pela porta dos fundos com Athena, uma criança que era um fio de gente, com um cabelo tão ralo que seu couro cabeludo branco aparecia por entre os fios. Parecia uma menininha faminta e abandonada. Talvez os vegetais batidos e as regras rígidas de dieta de Laura a tivessem deixado subnutrida.
Laura colocou um vaso de plantas sobre a mesa. “Vai ficar incrível na decoração de amanhã.”
“É lindo”, disse Kimberly, inclinando-se para beijar a cabeça de Athena. “Esse é o cardápio do bufê. Don acha que a seleção de canapés é simples demais. Eu não sei.”
“Ele quer que você inclua mais?”, perguntou Laura, passando os olhos pelo cardápio.
“Só achou que eram simples demais, mas não se zangou nem um pouco.”
Na sala, Athena começou a chorar. Laura foi falar com ela e, logo, teve início uma série de negociações. “Você quer esse aqui, meu amor? O amarelo, o azul ou o vermelho? Qual você quer?”
Dê logo um, pensou Ifemelu. Soterrar uma criança de quatro anos com um monte de escolhas, colocar nela o fardo de tomar uma decisão, era privá-la da bênção da infância. Afinal a vida de adulto estava logo ali, e então ela teria de tomar decisões cada vez mais penosas.
“Ela está emburrada hoje”, disse Laura, voltando para a cozinha. O choro de Athena parou. “Eu a levei ao médico para ver se a infecção no ouvido tinha sarado mesmo, e ela está uma ferinha o dia todo. Ah, e conheci um nigeriano encantador hoje. Quando chegamos lá, descobrimos que havia um médico novo no consultório, nigeriano, e ele veio nos cumprimentar. Ele me fez lembrar de você, Ifemelu. Eu li na internet que os nigerianos são o grupo de imigrantes que têm o mais alto nível de educação neste país. É claro que isso não se refere aos milhões que vivem com menos de um dólar por dia no seu país, mas quando conheci esse médico, pensei nesse artigo, em você e em outros africanos privilegiados que estão aqui neste país.” Laura fez uma pausa e Ifemelu sentiu, como muitas vezes sentia, que ela tinha mais a dizer, mas estava se controlando. Era estranho ser chamada de privilegiada. Os privilegiados eram pessoas como Kayode DaSilva, cujo passaporte vergava sob o peso de vistos, que passava o verão em Londres e ia nadar no Clube Ikoyi, que podia se levantar e dizer casualmente: “Vamos tomar um sorvete no Frenchies”.
“Nunca ninguém me chamou de privilegiada antes!”, disse Ifemelu. “Isso é muito bom.”
“Acho que vou trocar e pedir que ele seja o pediatra de Athena. Foi maravilhoso, tão educado e bem-falante. Desde que o dr. Hoffman saiu ela está com o dr. Bingham, e eu não gosto dele.” Laura pegou o cardápio de novo. “Na pós-graduação conheci uma africana que era igual a esse médico, acho que era de Uganda. Ela era maravilhosa e não se dava nem um pouco com a afro-americana da nossa aula. Não tinha todas aquelas questões.”
“Talvez na época em que o pai da afro-americana não podia votar por ser negro o pai da ugandense fosse candidatado ao Parlamento ou estudasse em Oxford”, disse Ifemelu.
Laura olhou para ela com uma expressão de confusão fingida. “Desculpe, será que não entendi alguma coisa?”
“Só acho que é uma comparação simplista. Você precisa entender história um pouco melhor”, disse Ifemelu.
Laura ficou de boca aberta. Ela cambaleou, mas se recompôs.
“Bem, vou pegar minha filha e ir procurar alguns livros de história na biblioteca, se é que vou saber como é a cara deles!”, disse Laura, saindo da cozinha com passos firmes.
Ifemelu quase pôde ouvir o coração de Kimberly batendo loucamente.
“Sinto muito”, disse Ifemelu.
Kimberly balançou a cabeça e murmurou: “Sei que a Laura pode ser difícil”, mantendo o olhar na salada que estava fazendo.
Ifemelu correu lá para cima para falar com Laura.
“Sinto muito. Fui grossa com você e peço desculpas.” Mas ela só sentia muito por causa de Kimberly, por causa da maneira como ela começara a misturar a salada, como se quisesse transformá-la numa polpa.
“Não tem problema”, fungou Laura, passando a mão nos cabelos da filha, e Ifemelu soube que, durante muito tempo, ela usaria o manto dos magoados.
A não ser por um “oi” seco, Laura não falou com Ifemelu na festa do dia seguinte. A casa ficou repleta do murmúrio gentil de vozes e de convidados levando taças de vinho à boca. Eram todos parecidos, com roupas bonitas que jamais chocariam alguém e um senso de humor agradável que jamais chocaria alguém e, assim como outros americanos de classe média alta, usavam demais a palavra “maravilhoso”. “Você vai vir ajudar na festa, não vai?”, perguntara Kimberly a Ifemelu, como sempre fazia quando reuniam os amigos em casa. Ifemelu não sabia bem de que maneira ajudava, já que a comida desses eventos ficava a cargo de bufês e as crianças eram mandadas para a cama mais cedo, mas sentia, sob a leveza do convite de Kimberly, algo próximo a uma carência. De uma maneira sutil que Ifemelu não compreendia inteiramente, sua presença parecia dar forças a Kimberly. Se ela a queria ali, Ifemelu iria.
“Esta é Ifemelu, nossa babá e minha amiga”, disse Kimberly ao apresentá-la aos convidados.
“Você é tão bonita”, disse-lhe um homem com dentes horrivelmente brancos. “As mulheres africanas são lindas, principalmente as etíopes.”
Um casal falou de seu safári na Tanzânia. “Nosso guia era maravilhoso e agora estamos pagando os estudos da filha mais velha dele.” Duas mulheres falaram de suas doações a uma instituição de caridade maravilhosa do Malaui que furava poços, a um orfanato maravilhoso em Botsuana, a uma cooperativa de microfinanciamento no Quênia. Ifemelu ficou observando-as. Havia certo luxo na ideia de ajudar instituições de caridade com o qual ela não conseguia se identificar e que não possuía. Achar que “fazer caridade” era algo normal, regozijar-se com essa doação feita a pessoas que não se conheciam — talvez isso surgisse quando você tivera posses ontem, tinha hoje e esperava ter amanhã. Ifemelu as invejou por isso.
Uma mulher franzina com um paletó cor-de-rosa de corte severo disse: “Sou presidente do conselho de uma instituição de caridade que atua em Gana. Trabalhamos com mulheres do campo. Estamos sempre interessados em contratar funcionários africanos, não queremos ser aquela ONG que não usa a mão de obra local. Por isso, se você estiver procurando um emprego para quando se formar e quiser voltar para a África para trabalhar, me ligue”.
“Obrigada.” Ifemelu sentiu um desejo súbito e desesperado de ser do país onde as pessoas davam dinheiro, e não do país onde elas recebiam, ser um daqueles que tinham posses e que, portanto, podiam ser iluminados pela graça de ter doado, estar entre aqueles que tinham dinheiro para gastar em piedade e empatia copiosas. Ela foi para a varanda em busca de ar fresco. Do outro lado da sebe, viu a babá jamaicana das crianças dos vizinhos andando pela alameda, aquela que sempre desviava o olhar e não gostava de cumprimentá-la. Então, Ifemelu percebeu um movimento na outra ponta da varanda. Era Don. Havia algo de furtivo em seu comportamento e ela sentiu, embora não tivesse visto, que ele havia acabado de desligar o telefone.
“Ótima festa”, disse Don para ela. “É só uma desculpa para Kim e eu convidarmos nossos amigos. Roger está dando um salto alto demais e eu já falei isso para ele, não tem chance…”
Don continuou a falar, com a voz carregada demais de bonomia, e Ifemelu sentiu sua antipatia arranhando a garganta. Ela e Don não conversavam daquele jeito. Era informação demais, conversa demais. Ifemelu teve vontade de dizer a ele que não tinha ouvido seu telefonema, se é que houvera algo a ser ouvido, que não sabia nada e não queria saber.
“Eles devem estar estranhando sua ausência.”
“É, a gente precisa voltar”, disse Don, como se tivessem ido para fora juntos. Dentro da casa, Ifemelu viu Kimberly parada no meio da sala, um pouco afastada de seu círculo de amigos; ela estava procurando Don e, quando o viu, seus olhos pousaram nele e seu rosto ficou tranquilo, despido de preocupação.
Ifemelu saiu cedo da festa; ela queria falar com Dike antes de ele ir para a cama. Tia Uju atendeu o telefone.
“Dike já foi dormir?”, perguntou.
“Ele está escovando os dentes”, disse ela. E então, numa voz mais baixa, acrescentou: “Dike estava perguntando sobre o sobrenome dele de novo”.
“O que você disse?”
“A mesma coisa. Você sabe que ele nunca perguntou sobre esse tipo de coisa antes de nos mudarmos para cá.”
“Talvez seja o fato de agora existir o Bartholomew e de vocês estarem num ambiente novo. Está acostumado a ter você só para ele.”
“Dessa vez ele não perguntou por que tem meu sobrenome, perguntou se tem meu sobrenome porque o pai não o amava.”
“Tia, talvez esteja na hora de explicar que você não foi a segunda esposa do General”, disse Ifemelu.
“Eu praticamente fui.” Tia Uju falou num tom desafiador, quase petulante, apertando sua própria versão dos fatos com força no punho fechado. Ela dissera a Dike que seu pai fora membro do governo militar, que ela era sua segunda esposa e que eles haviam colocado seu sobrenome nele para protegê-lo, porque algumas pessoas do governo, embora não o pai dele, haviam feito coisas ruins.
“Bem, Dike está aqui”, disse tia Uju num tom de voz normal.
“Oi, prima! Você devia ter visto a partida de futebol que eu joguei hoje!”, disse ele.
“Por que você só faz todos esses gols incríveis quando eu não estou aí? Será que você sonha com esses gols?”, perguntou Ifemelu.
Dike riu. Ele ainda ria com facilidade, tinha o senso de humor intacto, mas desde que se mudara para Massachusetts não era mais transparente. Uma camada fina de algo o envolvera, fazendo com que se tornasse difícil de decifrar, mantendo a cabeça eternamente baixa para ver o Game Boy, erguendo os olhos de tempos em tempos para observar a mãe e o mundo com um cansaço pesado demais para uma criança. As notas dele estavam caindo. Tia Uju o ameaçava com mais frequência. Da última vez em que Ifemelu os visitara, tia Uju tinha dito para ele: “Vou mandar você de volta para a Nigéria se fizer isso de novo!”, falando igbo como só fazia quando estava com raiva. Ifemelu temia que, para Dike, igbo fosse se tornar a língua do conflito.
Tia Uju também havia mudado. No início, parecia curiosa, cheia de expectativas em relação à sua nova vida. “Esse lugar tem tanta gente branca”, disse ela. “Dei uma passada rápida na farmácia para comprar um batom, porque é preciso fazer uma viagem de trinta minutos para ir ao shopping, e todos os tons disponíveis eram claros demais! Mas eles não podem oferecer o que não vão vender nunca! Pelo menos esse lugar é tranquilo e silencioso, e eu me sinto segura bebendo a água da torneira, algo que jamais tentaria fazer no Brooklyn.”
Devagar, conforme os meses foram passando, tia Uju foi ficando mais amarga.
“A professora de Dike disse que ele é agressivo”, contou a Ifemelu certo dia, depois de ser chamada para conversar com o diretor. “Agressivo, imagine. Ela quer que ele faça o que chamam de educação especial, onde vai ser obrigado a fazer as aulas sozinho com alguém acostumado a lidar com crianças com problemas. Falei para a mulher que não é o meu filho, mas o pai dela que é agressivo. Olhe só para ele, só por ter a aparência diferente, quando faz o que os outros meninos fazem, dizem que é agressão. Então o diretor me disse: ‘Dike é um de nós, nós não o vemos como sendo nem um pouco diferente’. Que fingimento é esse? Eu disse a ele para olhar bem para meu filho. Só tem dois meninos como ele na escola inteira. O outro é mestiço e tem a pele tão clara que, se você olhar de longe, nem vai perceber que é negro. Meu filho se destaca, então como pode me dizer que não vê diferença? Absolutamente recusei que o colocassem na turma especial. Ele é mais inteligente que todos os outros juntos. Querem começar agora, assim ele já fica marcado. Kemi me falou disso. Ela disse que tentaram fazer isso com o filho dela em Indiana.”
Depois, as reclamações de tia Uju passaram a ser sobre seu programa de residência, sobre quão lento era, quão limitado, com prontuários médicos escritos à mão e guardados em arquivos empoeirados. Então, quando terminou a residência, reclamava dos pacientes que pensavam estar lhe fazendo um favor se consultando com ela. Tia Uju mal mencionava Bartholomew, era como se ela morasse só com Dike em Massachusetts, na casa perto do lago.