Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 40 de 55

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Capítulo 40

 

Eles só voltaram a brigar quando o relacionamento acabou, mas, durante o período em que Blaine se manteve gelado e Ifemelu se escondeu dentro de si mesma e comeu barras de chocolate inteiras, o que ela sentia por ele mudou. Ainda o admirava, admirava sua fibra moral, sua vida com demarcações nítidas, mas agora era admiração por uma pessoa separada dela, uma pessoa distante. E seu corpo havia mudado. Quando estavam na cama, Ifemelu não se virava para Blaine repleta de um desejo em carne viva como costumava fazer e, quando ele a procurava, seu primeiro instinto era se afastar. Eles se beijavam com frequência, mas ela sempre mantinha os lábios firmemente fechados; não queria a língua dele em sua boca. A paixão fora sugada daquela união, mas havia uma nova paixão vinda de fora de ambos que os uniu numa intimidade que jamais tinham experimentado antes, uma intimidade indistinta, silenciosa, instintiva: Barack Obama. Sem fazer esforço, sem as sombras da obrigação e do ceder, eles concordaram em relação a Barack Obama.

No início, embora Ifemelu quisesse que os Estados Unidos elegessem um negro para a presidência, achou que seria impossível, e não conseguia imaginar Obama nesse papel; ele parecia franzino demais, magro demais, um homem que seria levado pelo vento. Hillary Clinton era mais robusta. Ifemelu gostava de vê-la na televisão, em seus terninhos quadrados, com um rosto que era como uma máscara de determinação e com sua beleza disfarçada, porque aquela era a única maneira de convencer o mundo de que ela era uma pessoa capaz. Ifemelu gostava de Hillary Clinton. Torceu por sua vitória e desejou-lhe boa sorte até a manhã em que pegou o livro de Barack Obama, A origem dos meus sonhos, que Blaine tinha acabado de ler e deixara na estante com algumas páginas dobradas. Examinou as fotografias na capa, da jovem queniana olhando intrigada para a câmera com os braços envolvendo o filho e o rapaz americano vistoso segurando a filha contra o peito. Mais tarde, lembraria o momento em que decidira lê-lo. Só para ver. Talvez não o tivesse lido se Blaine o tivesse recomendado, pois cada vez mais evitava os livros dos quais ele gostava. Mas Blaine não o recomendara, apenas o deixara na estante, do lado de uma pilha de outros livros que já lera, mas que pretendia reler. Ifemelu leu A origem dos meus sonhos em um dia e meio, sentada no sofá e ouvindo Nina Simone a todo o volume na caixa de som do iPod de Blaine. Ficou absorta e tocada pelo homem que conheceu naquelas páginas, um homem curioso e inteligente, um homem gentil, um homem tão absoluta e irresistivelmente humano. Ele a fez se lembrar da expressão que Obinze usava para descrever as pessoas de quem gostava. Obi ocha. Um coração limpo. Ela acreditou em Barack Obama. Quando Blaine chegou em casa, Ifemelu se sentou à mesa de jantar, ficou observando-o picar manjericão fresco na cozinha e disse: “Que bom seria se o homem que escreveu esse livro pudesse ser o presidente dos Estados Unidos”.

A faca de Blaine parou de se mover. Ele ergueu o rosto com os olhos iluminados, como se não ousasse esperar que ela acreditasse na mesma coisa em que acreditava, e Ifemelu sentiu, entre eles, o primeiro pulsar de uma paixão compartilhada. Eles se abraçaram diante da televisão quando Barack Obama ganhou as primárias em Iowa. A primeira batalha, e ele havia ganhado. Sua esperança irradiava, explodia em possibilidade; era mesmo possível que Obama ganhasse a eleição. E, então, como numa coreografia, os dois começaram a se preocupar. Temiam que algo fosse desviá-lo dos trilhos, bater naquele trem que se movia tão rápido. Todas as manhãs, Ifemelu acordava e ia ver se Obama ainda estava vivo. Ver se surgira algum escândalo, se alguma história tinha sido desenterrada de seu passado. Ela ligava o computador com a respiração presa e o coração batendo freneticamente no peito e depois, com a certeza de que Obama ainda estava vivo, lia as últimas notícias sobre ele, rapidamente e com avidez, buscando informações e segurança, com múltiplas janelas minimizadas na tela. Às vezes, quando estava em fóruns on-line, Ifemelu murchava ao ler os comentários sobre Obama, e então se levantava, afastava-se do computador como se o próprio laptop fosse o inimigo e ia se postar diante da janela para esconder as lágrimas até de si mesma. Como pode um macaco ser presidente? Alguém nos faça um favor e dê um tiro nesse cara. Mande-o de volta para a floresta africana. Um negro não pode ir para a Casa Branca, cara, é por isso que chamam de Casa Branca. Ela tentava imaginar as pessoas que tinham escrito aquilo, com apelidos como MãeSuburbana231 e AmoNormanRockwell, sentadas à mesa com uma xícara de café ao lado e os filhos prestes a chegar em casa no ônibus da escola, envoltas numa aura de inocência. Aqueles fóruns faziam seu blog parecer insignificante, uma comédia de costumes, uma sátira amena sobre um mundo que era tudo menos ameno. Ifemelu não escreveu no blog sobre o horror que parecia se multiplicar a cada manhã que ela entrava na internet, com mais fóruns surgindo, mais ódio aparecendo, porque fazê-lo seria divulgar as palavras de pessoas que execravam não o homem que Barack Obama era, mas a ideia dele como presidente. Em vez disso, escreveu sobre as posições políticas de Obama, num post recorrente intitulado “É por isso que Obama vai ser o melhor”, muitas vezes acrescentando links para o site dele, e também escrevia sobre Michelle Obama. Amava o humor irônico e não convencional dela, a autoconfiança em sua postura esguia, e então lamentou quando Michelle Obama foi condicionada, achatada, quando a fizeram soar tepidamente conservadora nas entrevistas. Ainda assim havia, nas sobrancelhas arqueadas demais de Michelle Obama e no cinto que ela usava mais alto na cintura do que a tradição ditava, um lampejo de seu velho eu. Foi isso que atraiu Ifemelu, a ausência de um pedido de desculpas, a promessa da honestidade.

“Se ela casou com Obama, ele não pode ser tão mau”, Ifemelu dizia sempre para Blaine, brincando, e ele respondia: “Pode crer, pode crer”.

 

Ifemelu recebeu um e-mail de um endereço princeton.edu e, antes de lê-lo, suas mãos tremiam de animação. A primeira palavra que viu foi “prazer”. Ela havia conseguido a bolsa de pesquisa. O valor era bom e as exigências, poucas: esperavam que vivesse em Princeton, usasse a biblioteca e desse uma palestra pública no fim do ano. Parecia bom demais para ser verdade, uma porta de entrada para um reino sagrado americano. Ela e Blaine pegaram o trem para Princeton para procurar um apartamento e Ifemelu ficou impressionada com a cidade em si, com a quantidade de verde, com sua paz e sua graça. “Fui aceito para fazer faculdade em Princeton”, Blaine lhe contou. “Era quase bucólico na época. Vim fazer uma visita e achei lindo, mas não consegui me ver me matriculando de verdade.”

Ifemelu entendeu o que ele estava querendo dizer, mesmo agora que Princeton tinha mudado e se tornado, nas palavras de Blaine, “agressivamente capitalista”. Ela sentiu admiração e desorientação. Gostou de seu apartamento, numa transversal da Nassau Street; a janela do quarto dava para um grupo de árvores e ela caminhou pelo cômodo vazio pensando num novo começo para si mesma, sem Blaine, porém sem ter certeza de que aquele era de fato o novo começo que queria.

“Só vou me mudar para cá depois da eleição”, disse.

Blaine assentiu antes de Ifemelu terminar a frase; é claro que ela não ia se mudar até que tivessem acompanhado Barack Obama até a vitória. Ele tinha se voluntariado para a campanha e Ifemelu absorvia todas as suas histórias sobre as portas a que batera e as pessoas atrás delas. Um dia, Blaine chegou em casa e lhe contou sobre uma senhora negra, com o rosto enrugado como uma ameixa, que ficou segurando a porta como se fosse cair se não o fizesse e lhe disse: “Eu não achava nem que o meu neto ia chegar a ver isso”.

Ifemelu escreveu no blog sobre essa história, descrevendo as madeixas prateadas no cabelo da mulher e os dedos tremendo de Parkinson como se estivesse lá junto com Blaine. Todos os amigos dele apoiavam Obama com exceção de Michael, que sempre usava um broche da Hillary Clinton na lapela e, nas reuniões deles, Ifemelu não se sentia mais excluída. Mesmo aquela inquietação indefinida que sentia quando estava perto de Paula, que era parte amuo e parte insegurança, havia evaporado. Eles se encontravam em bares e apartamentos, discutindo os detalhes da campanha e caçoando de quão bobas eram as notícias. Será que os hispânicos vão votar em um negro? Será que Obama sabe jogar boliche? Será que ele é patriótico?

“Não é engraçado como dizem que ‘os negros querem Obama’ e ‘as mulheres querem Hillary’, mas não falam das mulheres negras?”, disse Paula.

“Quando eles falam em ‘mulheres’, automaticamente querem dizer ‘mulheres brancas’, claro”, disse Grace.

“O que não entendo é como alguém pode dizer que Obama está se beneficiando do fato de ser um homem negro”, disse Paula.

“É complicado, mas ele está, até o ponto em que Hillary Clinton também está se beneficiando de ser uma mulher branca”, disse Nathan, inclinando-se e piscando ainda mais do que o normal. “Se Hillary fosse uma mulher negra, sua estrela não ia brilhar tanto. Se Obama fosse um homem branco, sua estrela talvez brilhasse tanto ou talvez não, pois alguns homens brancos que não deviam ter sido presidentes já conseguiram ser eleitos, mas isso não muda o fato de que Obama não tem muita experiência e as pessoas estão empolgadas com a ideia de um candidato negro que tem uma chance real.”

“Mas, se ele ganhar, não vai ser mais negro, assim como Oprah não é mais negra, ela é Oprah”, disse Grace. “Pode ir a lugares onde os negros são detestados sem problemas. Ele não vai mais ser negro, vai ser só Obama.”

“Obama está se beneficiando até certo ponto, e a ideia de se beneficiar é muito problemática, aliás, mas ele está se beneficiando até certo ponto e não é por ser negro, mas por ser um tipo diferente de negro”, disse Blaine. “Se Obama não tivesse uma mãe branca, se não tivesse sido criado por avós brancos e não tivesse o Quênia, a Indonésia, o Havaí e todas essas histórias que de alguma maneira o tornam um pouco parecido com todo mundo, se ele fosse só um cara negro da Geórgia, aí seria diferente. Os Estados Unidos vão ter progredido de verdade quando um negro comum da Geórgia virar presidente, um negro que tinha média C na faculdade.”

“Concordo”, disse Nathan, e Ifemelu mais uma vez ficou impressionada com o quanto todo mundo concordava. Os amigos deles, assim como ela e Blaine, acreditavam. Acreditavam de verdade.

 

No dia em que Barack Obama se tornou o candidato do Partido Democrata, Ifemelu e Blaine fizeram amor pela primeira vez em semanas, e Obama estava ali com eles, como uma prece sem palavras, uma terceira presença emocional. Ela e Blaine passaram horas no carro para ouvi-lo discursar e ficaram de mãos dadas em meio a uma enorme multidão, erguendo cartazes com MUDANÇA escrito em grandes letras brancas. Um homem negro que estava ali perto carregava o filho nos ombros e o menino estava rindo, cheio de dentes de leite, um buraquinho na fileira de cima. O pai estava olhando para cima e Ifemelu soube que estava atônito com sua própria fé, atônito por se flagrar acreditando em coisas nas quais jamais achara que acreditaria. Quando a multidão explodiu em aplausos e assovios, o homem não podia bater palmas, porque estava segurando as pernas do filho, por isso apenas sorriu e sorriu, o rosto subitamente jovem de tanta alegria. Ifemelu observou o homem e os outros em volta, todos brilhando com uma estranha fosforescência, caminhando sobre a mesma linha de emoção completa. Eles acreditavam. Acreditavam de verdade. Muitas vezes Ifemelu levava um doce choque ao perceber aquilo, ao saber que havia tantas pessoas no mundo que sentiam exatamente a mesma coisa que ela e Blaine em relação a Barack Obama.

E, alguns dias, a fé deles voava alto. Em outros, entravam em desespero.

“Isso não é bom”, murmurou Blaine, indo de um canal para outro na televisão, todos mostrando a cena do pastor de Barack Obama fazendo um sermão, e suas palavras, “Deus amaldiçoe a América”, ficaram cauterizadas nos sonhos de Ifemelu.

 

Ela ficou sabendo pela internet que Barack Obama faria um discurso sobre raça em resposta às imagens de seu pastor e mandou uma mensagem de texto para Blaine, que estava dando aula. A resposta dele foi simples. Oba! Mais tarde, quando estava assistindo ao discurso, sentada entre Blaine e Grace no sofá da sala deles, Ifemelu se perguntou o que Obama realmente estaria pensando e como se sentiria quando se deitasse na cama naquela noite, quando tudo estivesse quieto e vazio. Ela o imaginou, aquele menino que sabia que sua avó tinha medo de homens negros, e que agora era um homem contando aquela história ao mundo para se redimir. Sentiu uma leve tristeza ao pensar nisso. Enquanto Obama falava, com compaixão e cadência, diante de bandeiras americanas que tremulavam, Blaine se remexia, suspirava, recostava-se no sofá. Afinal Blaine disse: “É imoral igualar a indignação dos negros ao medo dos brancos dessa maneira. Simplesmente imoral”.

“Esse discurso não foi feito para iniciar a conversa sobre questões raciais, mas para colocar um ponto final nela. Ele só vai conseguir ganhar se evitar falar em raça. Nós todos sabemos disso”, disse Grace. “O importante é ele ser eleito. O cara tem que fazer o necessário. Pelo menos agora essa história de pastor acabou.”

Ifemelu também encarou o discurso de forma pragmática, mas Blaine tomou-o como uma ofensa pessoal. Sua fé rachou e durante alguns dias ele deixou de ter o ânimo de costume, voltando da corrida matinal sem o entusiasmo suado de sempre, andando de um lado para o outro com passos pesados. Foi Shan que, sem querer, o arrancou de seu torpor.

“Tenho de ir a Nova York durante alguns dias para ficar com Shan”, disse ele a Ifemelu. “Ovidio acabou de me ligar. Ela não está bem.”

“Não está bem?”

“Teve um colapso nervoso. Não gosto dessa expressão, parece coisa de gente antiga. Mas foi isso que Ovidio disse. Está na cama há dias. Não está comendo. Não para de chorar.”

Ifemelu sentiu uma pontada de irritação. Pareceu-lhe que até isso era mais uma maneira de Shan chamar atenção.

“Tem sido difícil para ela”, disse Blaine. “Afinal, o livro foi ignorado.”

“Eu sei”, disse Ifemelu, mas não conseguiu sentir nenhuma pena real, o que a assustou. Talvez fosse porque considerasse Shan de certa maneira responsável por sua briga com Blaine, por não usar o poder que tinha sobre ele para fazê-lo ver que estava exagerando em sua reação.

“Ela vai ficar bem”, disse Ifemelu. “É uma pessoa forte.”

Blaine olhou-a, surpreso. “Shan é uma das pessoas mais frágeis do mundo. Ela não é forte, nunca foi. Mas é especial.”

Da última vez em que Ifemelu tinha visto Shan, cerca de um mês antes, ela dissera: “Eu sabia que você e Blaine iam acabar reatando”. Seu tom era o de alguém falando de um irmão adorado que voltara a usar drogas psicodélicas.

“Obama não é empolgante?”, perguntara Ifemelu, esperando que isso, ao menos, fosse algo sobre o qual ela e Shan podiam conversar sem alfinetadas implícitas.

“Ah, não estou prestando atenção nessa eleição”, disse Shan com desprezo.

“Você leu o livro dele?”, perguntou Ifemelu.

“Não.” Shan deu de ombros. “Seria bom se alguém lesse o meu livro.”

Ifemelu engoliu as palavras. Isso não gira em torno de você. Pela primeira vez na vida, algo não gira em torno de você.

“Você devia ler A origem dos meus sonhos. Os outros livros são textos de campanha”, disse Ifemelu. “Ele é o cara mesmo.”

Mas Shan não se interessou. Estava falando de uma mesa-redonda da qual participara na semana anterior, num festival de literatura. “Então eles me perguntaram quem eram meus escritores preferidos. É claro que eu sabia que esperavam ouvir principalmente o nome de escritores negros, e eu não ia dizer de jeito nenhum que o Robert Hayden é o amor da minha vida, e é. Então não mencionei ninguém que fosse negro, ou de alguma raça que não fosse a branca, ou com inclinações políticas, ou vivo. Listei, com uma determinação imperturbável, Turguêniev, Trollope e Goethe, mas só para não dever demais a homens brancos já mortos, porque seria um pouco de falta de originalidade demais, acrescentei Selma Lagerlöf. E, de repente, eles não sabiam mais o que me perguntar, porque eu tinha atirado o roteiro pela janela.”

“Isso é engraçado”, disse Blaine.

 

Na véspera da eleição, Ifemelu estava deitada na cama, sem dormir.

“Está acordada?”, perguntou Blaine.

“Estou.”

Eles ficaram abraçados no escuro, sem dizer nada, respirando devagar até finalmente chegar sem perceber a um estado entre o sono e a vigília. De manhã, foram para a escola em que votariam; Blaine queria ser um dos primeiros. Ifemelu observou as pessoas que já estavam ali na fila, esperando a porta ser aberta, e torceu para que todos votassem em Obama. Sentiu uma espécie de luto por não poder votar. Seu pedido de cidadania tinha sido aprovado, mas ainda faltavam semanas para a cerimônia do juramento. Ela passou uma manhã inquieta, lendo todos os sites de notícias e, quando Blaine chegou do trabalho, pediu-lhe que desligasse o computador e a televisão para eles poderem dar um tempo, respirar fundo, comer o risoto que ele tinha feito. Mal haviam acabado de comer quando Ifemelu voltou a ligar o computador. Só para ter certeza de que Barack Obama estava vivo e bem. Blaine fez coquetéis sem álcool para os amigos deles. Araminta chegou primeiro, vinda diretamente da estação de trem, segurando dois telefones e usando ambos para ver as últimas notícias. Então chegou Grace com suas sedas farfalhantes, usando um lenço dourado no pescoço e dizendo: “Ai, meu Deus, não consigo respirar de nervoso!”. Michael chegou com uma garrafa de prosecco. “Queria que minha mãe estivesse viva para ver este dia, não importa o que aconteça”, disse ele. Paula, Pee e Nathan chegaram juntos, e logo estavam todos sentados, no sofá e nas cadeiras da mesa de jantar, com os olhos na televisão, bebendo chá e os coquetéis sem álcool de Blaine e repetindo as mesmas coisas que ele tinha dito antes. Se ele ganhar em Indiana e na Pensilvânia, acabou. Está indo bem na Flórida. As notícias de Iowa são contraditórias.

“Muitos negros foram votar na Virgínia, então parece que lá as coisas vão bem”, disse Ifemelu.

“É improvável que ele ganhe na Virgínia”, disse Nathan.

“Ele não precisa da Virgínia”, disse Grace, que então gritou: “Ai, meu Deus, a Pensilvânia!”.

Um gráfico foi iluminado na tela da televisão e nele surgiu uma foto de Barack Obama. Ele ganhara na Pensilvânia e em Ohio.

“Acho que é impossível para McCain agora”, disse Nathan.

Paula estava sentada ao lado de Ifemelu um pouco mais tarde, quando os gráficos surgiram na tela: Barack Obama havia ganhado na Virgínia.

“Ai, meu Deus”, disse Paula, com a mão trêmula sobre a boca. Blaine estava sentado muito empertigado, sem se mover, com os olhos fixos na televisão, e então surgiu a voz grave de Keith Olbermann, a quem Ifemelu assistira de maneira tão obsessiva no canal MSNBC nos meses anteriores, a voz de uma raiva liberal incandescente e borbulhante; e agora aquela voz estava dizendo: “A projeção é que Barack Obama seja o próximo presidente dos Estados Unidos da América”.

Blaine chorou abraçado a Araminta, que também estava aos prantos, e depois agarrou Ifemelu, apertando-a demais, e Pee abraçou Michael enquanto Grace abraçava Nathan e Paula abraçava Araminta e Ifemelu abraçava Grace, e a sala se tornou um altar de júbilo incrédulo.

O celular de Ifemelu emitiu um bipe quando chegou uma mensagem de Dike.

Não acredito. Meu presidente é negro como eu. Ela leu a mensagem algumas vezes, com os olhos se enchendo de lágrimas.

Na televisão, Barack Obama, Michelle Obama e suas duas filhas subiam num palco. Eles pareciam levados pelo vento, banhados de uma luz incandescente, vitoriosos e sorridentes.

“Jovens e velhos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, nativo-americanos, gays, heterossexuais, com ou sem deficiência física, os americanos mandaram uma mensagem para o mundo que diz que nós nunca fomos apenas uma coleção de estados liberais ou conservadores. Nós somos e sempre seremos os Estados Unidos da América.”

Barack Obama às vezes falava mais alto e às vezes mais baixo, com uma expressão solene no rosto e, em torno dele, havia uma imensa e resplandecente multidão de esperançosos. Ifemelu assistiu àquilo hipnotizada. E, naquele momento, não havia nada mais belo para ela do que a América.

 

Entendendo a América para o Negro Não Americano:

Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

 

Uma grande dádiva para o Negro Enrustido é o Amigo Branco que Entende a Situação. Infelizmente, isso

não é tão comum quanto deveria ser, mas alguns têm a sorte de ter esse amigo branco para quem não é

preciso explicar nada. Por favor, ponha esse amigo para trabalhar. Esses amigos não só entendem como

têm um ótimo radar para hipocrisia e por isso sabem que podem dizer coisas que você não pode. A questão

é que existe, em grande parte dos Estados Unidos, uma ideia dissimulada no coração de muita gente: a de

que os brancos conseguiram emprego e vaga em escolas e universidades por mérito, enquanto os negros

entraram porque eram negros. Mas a verdade é que, desde o início, os brancos têm conseguido empregos

porque são brancos. Muitos brancos com as mesmas qualificações, mas com pele negra, não teriam o

emprego que têm. Mas nunca diga isso publicamente. Deixe que seu amigo branco o faça. Se você cometer

o erro de dizer isso, vai ser acusado de uma coisa curiosa que é “jogar a carta da raça”. Ninguém sabe

exatamente o que isso significa.

Na época em que meu pai estava no colégio em meu país de negros não americanos, muitos negros

americanos não podiam votar ou estudar em escolas boas. O motivo? A cor de sua pele. A cor da pele era o

único problema. Hoje, muitos americanos dizem que a cor da pele não pode ser parte da solução. Se for,

isso é chamado de um nome curioso que é “racismo invertido”. Peça para seu amigo branco comentar que a

situação do Negro Americano é mais ou menos como se alguém ficasse preso injustamente durante muitos

anos, mas aí de repente fosse solto, mas sem receber o valor da passagem de ônibus para voltar para casa.

E, aliás, o ex-presidiário e o cara que o prendeu agora são automaticamente iguais. Se alguém mencionar

que “a escravidão aconteceu há tanto tempo”, peça para seu amigo branco dizer que muitos brancos ainda

estão herdando o dinheiro que suas famílias ganharam há cem anos. Portanto, se esse legado continua, por

que não o legado da escravidão? E peça para seu amigo branco dizer como é engraçado quando as

pessoas dos institutos de pesquisa americanos perguntam aos brancos e negros se o racismo acabou. Os

brancos em geral dizem que sim e os negros em geral dizem que não. Engraçado mesmo. Mais sugestões

sobre o que você deve pedir para seu amigo branco dizer? Por favor, coloquem nos comentários. E um

brinde a todos os amigos brancos que entendem a situação.