Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 9 de 55

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Capítulo 9

 

Mariama voltou carregando sacolas de papel pardo sujas de óleo do restaurante chinês, trazendo o cheiro de gordura e tempero para dentro do salão abafado.

“Acabou o filme?” Ela olhou para a tela preta da televisão e então remexeu na pilha de DVD s para selecionar outro.

“Com licença, por favor, para comer”, disse Aisha para Ifemelu. Ela se empoleirou numa cadeira nos fundos e comeu com os dedos asinhas de frango fritas, mantendo os olhos na tela da televisão. O novo filme tinha trailers, cenas cortadas de forma grosseira e separadas umas das outras por lampejos de luz. Cada um deles terminava com uma voz nigeriana masculina, teatral e alta, dizendo: “Compre uma cópia já!”. Mariama comeu em pé. Ela disse algo para Halima.

“Eu termino primeiro e depois como”, respondeu Halima em inglês.

“Você pode ir comer, se quiser”, disse a cliente de Halima, uma jovem de voz aguda e ar simpático.

“Não, eu termino. Falta pouco”, disse Halima. A cabeça de sua cliente só tinha um tufo de cabelo na frente, espetado como os pelos de um animal, enquanto o resto já fora arrumado em tranças minúsculas que iam até a altura do pescoço.

“Tenho uma hora antes de ter que ir pegar minhas filhas”, disse a cliente.

“Quantas você tem?”, perguntou Halima.

“Duas”, respondeu a cliente. Ela parecia ter cerca de dezessete anos. “Duas meninas lindas.”

O filme novo havia começado. O rosto sorridente de uma atriz de meia-idade tomou a tela.

“Ô, ô, oba! Gosto dela”, disse Halima. “O nome dela é Patience! Ela não leva desaforo para casa!”

“Você conhece?”, perguntou Mariama a Ifemelu, apontando para a televisão.

“Não”, respondeu Ifemelu. Por que elas insistiam em perguntar se ela conhecia atores de Nollywood? O cômodo inteiro estava com um cheiro forte demais de comida. Aquilo deixou o ar abafado fedendo a óleo, mas também a fez sentir um pouco de fome. Comeu algumas cenouras. A cliente de Halima inclinou a cabeça para um lado e para o outro na frente do espelho e disse: “Muito obrigada, ficou lindo!”.

Depois que ela foi embora, Mariama disse: “Menina tão pequena e já tem dois filhos”.

“Ai, ai, ai, essa gente”, disse Halima. “Quando uma menina tem treze anos, ela já sabe todas as posições. Na Afrique não é assim!”

“Não é mesmo!”, concordou Mariama.

Elas olharam para Ifemelu, querendo que concordasse, aprovasse. Era o que esperavam naquele espaço compartilhado da africanidade delas, mas Ifemelu não disse nada e virou a página do livro. Tinha certeza de que iam falar mal dela depois que fosse embora. Aquela menina nigeriana, ela se acha muito importante por causa de Princeton. Vejam a barrinha de cereal, ela não come mais comida de verdade. Iam rir de desprezo, mas um desprezo apenas leve, porque ela ainda era uma irmã africana, apesar de ter perdido brevemente o rumo. Um novo cheiro de óleo tomou o cômodo quando Halima abriu o pote de plástico em que estava sua comida. Ela comia e conversava com a tela da televisão. “Ah, seu homem burro! Ela vai roubar seu dinheiro!”

Ifemelu espanou alguns cabelinhos que espetavam seu pescoço. O salão fervilhava de calor. “Posso deixar a porta aberta?”, perguntou.

Mariama abriu a porta e encostou uma cadeira nela. “Esse calor está insuportável.”

 

* * *

 

Cada onda de calor fazia Ifemelu se lembrar de sua primeira, no verão em que chegara. Era verão nos Estados Unidos, ela sabia, mas a vida toda pensara no “exterior” como um lugar de casacos de lã e neve, e como os Estados Unidos eram no “exterior” e suas ilusões eram tão fortes que não podiam ser abaladas pela razão, comprou o suéter mais grosso que encontrou no mercado Tejuosho para levar. Usou-o na viagem, fechando o zíper até em cima no interior murmurante do avião e abrindo-o quando saiu do aeroporto com tia Uju. O calor abrasador alarmou-a, assim como o velho Toyota hatch de tia Uju, que tinha uma mancha de ferrugem na lateral e tecido dos bancos descascado. Olhou com atenção para os prédios, carros e letreiros, todos opacos, decepcionantemente opacos; na paisagem de sua imaginação, as coisas mundanas dos Estados Unidos eram cobertas por um esmalte brilhante. O que deixou Ifemelu mais assustada foi o adolescente de boné parado diante do muro de tijolos com o rosto abaixado, o corpo inclinado para a frente e as mãos entre as pernas. Ela se virou para olhar de novo.

“Olhe aquele menino!”, disse. “Não sabia que as pessoas faziam esse tipo de coisa nos Estados Unidos.”

“Você não sabia que as pessoas faziam xixi nos Estados Unidos?”, disse tia Uju, mal olhando para o menino antes de virar a cabeça na direção do sinal.

“Ahn-hã, tia! Quis dizer que não sabia que faziam isso na rua. Que nem ele.”

“Não fazem. Não é que nem na Nigéria, onde todo mundo faz. Ele pode ser preso por isso, mas este bairro não é bom, de qualquer jeito”, disse tia Uju, seca. Havia algo de diferente nela. Ifemelu notara no primeiro instante no aeroporto, o cabelo mal trançado, as orelhas sem brincos, o abraço rápido e casual, como se fizesse semanas, e não anos, desde que tinham se visto pela última vez.

“Eu devia estar estudando agora”, disse tia Uju sem tirar os olhos da rua. “Você sabe que minha prova está chegando.”

Ifemelu não sabia que ainda faltava uma prova; ela achou que tia Uju estava apenas esperando o resultado. Mas disse: “Sei, sim”.

O silêncio delas parecia cheio de farpas. Ifemelu sentiu vontade de pedir desculpas, embora não soubesse pelo quê. Talvez tia Uju lamentasse sua presença agora que estava ali, em seu carro resfolegante.

O celular de tia Uju tocou. “Sim, é Uju.” Ela pronunciou iu-ju, como os americanos faziam.

“É assim que você pronuncia seu nome agora?”, perguntou Ifemelu depois.

“É assim que eles dizem.”

Ifemelu quis dizer “Bom, esse não é seu nome”, mas engoliu as palavras. Disse, em igbo: “Não sabia que ia estar tão quente aqui”.

“Estamos numa onda de calor, a primeira do verão”, disse tia Uju, como se a expressão onda de calor fosse algo que Ifemelu devesse compreender. Ela nunca tinha sentido um calor tão quente. Era um calor envolvente, sem piedade. Quando chegaram ao apartamento de um quarto de tia Uju, a maçaneta estava morna. Dike ficou de pé num pulo no chão acarpetado da sala, repleto de carrinhos de brinquedo e super-heróis, e abraçou Ifemelu como quem se lembrava dela. “Alma, esta é minha prima!”, disse para a babá, uma mulher de pele branca e expressão cansada com cabelos negros presos num rabo de cavalo oleoso. Se Ifemelu tivesse conhecido Alma em Lagos, a teria considerado branca, mas ali aprenderia que Alma era hispânica, uma categoria americana que, para confundir, era tanto etnia quanto raça, e ela se lembraria de Alma quando, anos depois, escreveu um post para o blog chamado: “Entendendo a América para o negro não americano: o que significa hispânico”.

 

Hispânicos são frequentes companheiros dos negros americanos nos índices de pobreza, um pequeno passo

acima deles na hierarquia racial do país. A raça inclui a mulher de pele chocolate do Peru; os povos indígenas

do México; pessoas com cara de mestiças da República Dominicana; pessoas mais branquinhas de Porto

Rico; e o cara louro de olhos azuis da Argentina. Você só precisa falar espanhol e não ser da Espanha e, voilà,

pertence a uma raça chamada hispânico.

 

Mas, naquela tarde, Ifemelu mal notou Alma, ou a sala onde havia apenas um sofá e uma televisão, ou a bicicleta encostada num canto, porque ficou absorta diante de Dike. Na última vez em que o vira, no dia em que tia Uju saíra apressada de Lagos, ele era uma criança de um ano chorando sem parar no aeroporto, como se entendesse a reviravolta que havia acabado de acontecer em sua vida, e agora estava ali, no primeiro ano, com um sotaque americano perfeito e uma hiperfelicidade; o tipo de menino que nunca parava quieto e nunca parecia triste.

“Por que você está de casaco? Está quente demais para usar casaco”, disse ele, rindo, ainda enlaçando-a num longo abraço. Ifemelu riu. Ele era tão pequeno, tão inocente e, no entanto, havia uma precocidade nele, mas uma precocidade solar; não acalentava intenções sombrias em relação aos adultos de seu mundo. Naquela noite, depois que ele e tia Uju deitaram na cama e Ifemelu se ajeitou no cobertor no chão, Dike disse: “Por que ela tem de dormir no chão, mãe? Nós três cabemos aqui”, como se intuísse a maneira como a prima estava se sentindo. Não havia nada de errado naquilo — afinal, ela dormia sobre tapetes quando visitava sua avó na aldeia —, mas finalmente estava nos Estados Unidos, na gloriosa América, e não tinha esperado dormir no chão.

“Eu estou bem, Dike”, disse Ifemelu.

Ele se levantou e deu seu travesseiro para ela. “Tome. É tão macio e gostoso.”

“Dike, venha deitar. Deixe sua tia dormir”, disse tia Uju.

Ifemelu não conseguiu dormir, sua mente estava alerta demais à novidade de tudo, e esperou até ouvir o ronco de tia Uju para sair do quarto e acender a luz da cozinha. Uma barata gorda estava na parede ao lado dos armários, movendo-se um pouco para cima e um pouco para baixo, como quem respira fundo. Se estivesse em sua cozinha em Lagos, Ifemelu teria procurado uma vassoura para matá-la, mas deixou a barata americana em paz e foi postar-se diante da janela da sala. Tia Uju tinha dito que aquela parte do Brooklyn chamava Flatlands. A rua lá embaixo era mal iluminada, ladeada não por árvores frondosas, mas por carros estacionados bem próximos uns dos outros, muito diferente da rua bonita do Cosby Show. Ifemelu ficou ali por bastante tempo, com o corpo inseguro, tomada por uma sensação de novidade. Mas também sentiu um frisson de expectativa, uma vontade de descobrir os Estados Unidos.

“Acho que é melhor você cuidar de Dike no verão e me ajudar a economizar o dinheiro da babá, depois procurar um emprego quando chegar à Filadélfia”, disse tia Uju na manhã seguinte. Ela acordara Ifemelu, dando instruções secas sobre Dike e dizendo que ia à biblioteca para estudar depois do trabalho. As palavras dela saíam aos borbotões. Ifemelu gostaria que diminuísse um pouco o ritmo.

“Você não pode trabalhar com visto de estudante, e esses empregos temporários que a universidade arruma são uma porcaria, não pagam nada, mas você tem que conseguir cobrir o aluguel e o resto da mensalidade de alguma forma. Eu, por exemplo, tenho três empregos e mesmo assim não é fácil. Falei com uma amiga minha, não sei se você se lembra da Ngozi Okonkwo. Ela é cidadã americana agora e vai passar um tempo na Nigéria para abrir um negócio. Implorei e ela concordou em deixar você trabalhar com o cartão dela da Seguridade Social.”

“Como? Vou usar o nome dela?”, perguntou Ifemelu.

“É claro que você vai usar o nome dela”, disse tia Uju com as sobrancelhas erguidas, como se mal tivesse conseguido se controlar para não perguntar se Ifemelu era idiota. Havia uma bolinha branca de creme facial em seu cabelo, presa na raiz de uma trança, e Ifemelu ia dizer-lhe para limpar, mas mudou de ideia e não disse nada, observando tia Uju andar apressada até a porta. Ficou magoada com a bronca. Era como se a velha intimidade entre elas tivesse desaparecido de repente. A impaciência de tia Uju, sua nova aspereza, faziam Ifemelu sentir que havia coisas que já devia saber, mas que, por sua própria culpa, não sabia. “Tem carne enlatada para você fazer sanduíches para o almoço”, disse tia Uju, como se essas palavras fossem perfeitamente normais, como se não exigissem um preâmbulo engraçado sobre como os americanos comiam pão no almoço. Mas Dike não queria comer sanduíche. Depois de ele ter mostrado todos os seus brinquedos para ela e depois de os dois terem assistido a alguns episódios de Tom e Jerry, com ele rindo, deliciado, porque Ifemelu já vira tudo antes na Nigéria e, assim, podia lhe dizer o que ia acontecer antes que acontecesse, Dike abriu a geladeira e apontou para o que queria de almoço. “Salsicha.” Ifemelu examinou aquelas linguiças curiosas e começou a abrir os armários, procurando óleo.

“A mamãe disse que eu tenho que chamar você de tia Ifem. Mas você não é minha tia. É minha prima.”

“Então me chame de prima.”

“Tá bom, prima”, disse Dike, rindo. Sua risada era tão calorosa, tão aberta. Ifemelu encontrou o óleo.

“Não precisa de óleo”, disse Dike. “É só cozinhar na água.”

“Água? Como é possível fazer linguiça na água?”

“É uma salsicha, não uma linguiça.”

É claro que era uma linguiça, apesar de usarem aquele nome ridículo de “salsicha”, e por isso ela fritou duas num pouco de óleo, como estava acostumada a fazer com linguiças Satis. Dike ficou olhando, horrorizado. Ifemelu apagou o fogo. Ele se afastou, dizendo: “Eca”. Os dois ficaram se olhando, entre eles um prato com um pão de cachorro-quente e duas salsichas murchas. Ao ver aquilo, ela soube que devia ter feito o que ele dissera.

“Posso comer um sanduíche de manteiga de amendoim com geleia em vez disso?”, perguntou Dike. Ifemelu seguiu as instruções dele ao fazer o sanduíche, cortando fora a casca do pão, colocando a manteiga de amendoim antes e tentando não rir ao ver a atenção com a qual ele a observava, como se temesse que decidisse fritar o sanduíche.

Aquela tarde, quando Ifemelu contou o incidente da salsicha para tia Uju, ela, para surpresa de Ifemelu, não achou a menor graça e disse: “Não é linguiça, é salsicha”.

“É a mesma coisa que dizer que um biquíni é diferente de calcinha e sutiã. Será que um visitante do espaço saberia a diferença?”

Tia Uju deu de ombros; ela estava sentada diante da mesa de jantar com um livro didático de medicina aberto, comendo um hambúrguer embrulhado num saco de papel amassado. Sua pele estava seca, seus olhos, sombrios, seu espírito, pálido, sem cor. Parecia estar olhando, e não lendo, aquele livro.

 

No supermercado, tia Uju nunca comprava o que precisava; comprava o que estava em promoção e se obrigava a precisar daquilo. Pegava o folheto colorido na entrada do Key Food e ia procurar os itens em liquidação em cada corredor, enquanto Ifemelu empurrava o carrinho e Dike caminhava ao lado.

“Mamãe, eu não gosto desse. Compre o azul”, disse Dike quando tia Uju colocou caixas de cereal no carrinho.

“Esse aqui é compre um, leve dois”, disse tia Uju.

“Mas o gosto é ruim.”

“O gosto é igual ao do cereal que você come sempre, Dike.”

“Não.” Dike pegou uma caixa azul da prateleira e saiu correndo na direção do caixa.

“Oi, fofinho!” A caixa era corpulenta e alegre, com bochechas avermelhadas descascando por causa de uma queimadura de sol. “Está ajudando a mamãe?”

“Dike, ponha isso lá de volta”, disse tia Uju, com o sotaque anasalado e escorregadio que usava quando falava com americanos brancos, na presença de americanos brancos, ou onde pudesse ser ouvida por americanos brancos. Junto com o sotaque, surgia uma nova personalidade, de alguém que pedia desculpas, rebaixava-se. Ela foi solícita em excesso com a caixa. “Desculpe, desculpe”, disse, procurando o cartão de débito na carteira. Como a mulher estava olhando, tia Uju deixou Dike ficar com o cereal, mas, quando eles chegaram ao carro, agarrou sua orelha, puxou e torceu.

“Eu já falei para não pegar nada no supermercado! Está me ouvindo? Ou quer que eu te dê um tapa pra você ouvir?”

Dike pressionou a palma da mão contra o ouvido.

Tia Uju se voltou para Ifemelu. “É assim que as crianças se comportam neste país. Jane estava me contando que a filha ameaça chamar a polícia quando ela lhe dá umas palmadas. Imagine. Eu não culpo a menina, ela veio para os Estados Unidos e aprendeu que se pode chamar a polícia.”

Ifemelu massageou o joelho de Dike. Ele não olhou para ela. Tia Uju estava dirigindo um pouco depressa demais.

 

Dike chamou-a do banheiro, para onde fora quando a mãe o mandara escovar os dentes antes de ir para cama.

“Dike, I mechago?”, perguntou Ifemelu.

“Por favor, não fale igbo com ele”, disse tia Uju. “Falar duas línguas vai confundi-lo.”

“Como assim, tia? Nós falávamos duas línguas quando éramos crianças.”

“Aqui é a América. É diferente.”

Ifemelu ficou quieta. Tia Uju fechou o livro de medicina e ficou olhando para o nada. A televisão estava desligada e o som de água corrente vinha do banheiro.

“O que foi, tia? Qual é o problema?”

“Como assim? Não tem nenhum problema”, disse tia Uju, suspirando. “Fui reprovada no último exame. Recebi o resultado pouco antes de você chegar.”

“Ah.” Ifemelu ficou olhando para ela.

“Nunca fui reprovada na vida. Mas eles não estavam testando para saber se eu tinha conhecimento, estavam testando minha habilidade de responder a perguntas capciosas de múltipla escolha que não têm nada a ver com medicina.” Ela ficou de pé e foi para a cozinha. “Estou cansada. Tão cansada. Achei que, a essa altura, as coisas iam estar melhores para mim e para Dike. Não tinha ninguém para me ajudar e não conseguia acreditar como o dinheiro ia embora rápido. Estava estudando e tinha três empregos. Numa loja no shopping, trabalhando como assistente de pesquisa e cheguei até a trabalhar algumas horas no Burger King.”

“Vai melhorar”, disse Ifemelu, perdida. Ela sabia quão vazias eram suas palavras. Nada era pessoal. Ifemelu não podia confortar tia Uju, porque não sabia como. Quando tia Uju falou das amigas que tinham ido para os Estados Unidos antes e passado nas provas — Nkechi, que morava em Maryland, lhe dera uma mesa de jantar e cadeiras; Kemi, de Indiana, comprara sua cama; Ozavisa mandara louças e roupas de Hartford —, Ifemelu disse “Deus as abençoe” e as palavras incharam em sua boca, inúteis.

Ela havia presumido, pelos telefonemas de tia Uju, que as coisas não estavam muito ruins, embora agora estivesse se dando conta de que ela sempre era vaga nas conversas, mencionando “o trabalho” e “as provas” sem dar detalhes. Ou talvez fosse porque Ifemelu não tinha pedido detalhes, imaginando que não os compreenderia. E Ifemelu pensou, olhando para ela, que a velha tia Uju jamais usaria tranças tão malfeitas. Jamais teria tolerado os pelinhos encravados que pareciam passas em seu queixo, ou usado calças que sobravam entre as pernas. A América a deixara submissa.