Americanah
Parte 7
44.
No início, Lagos agrediu-a; a pressa aturdida pelo sol, os ônibus amarelos repletos de corpos amassados, os ambulantes suados correndo atrás dos carros, os anúncios em cartazes gigantescos (e outros rabiscados nas paredes — BOMBEIRO LIGUE 080177777) e as pilhas de lixo que se amontoavam à beira da estrada como uma provocação. O comércio pulsava de forma desafiadora demais. E o ar era denso de exageros, as conversas, cheias de declarações excessivas. Numa manhã, havia o cadáver de um homem na Awolowo Road. Em outra, a Ilha de Lagos inundou e os carros se tornaram barcos afundando. Ali, sentia ela, qualquer coisa podia acontecer, uma pedra sólida de repente podia se tornar um tomate maduro. Assim, Ifemelu teve a sensação estonteante de que caía, caía dentro dessa nova pessoa que se tornara, caía no estranho familiar. Será que sempre tinha sido daquele jeito ou tinha mudado tanto em sua ausência? Quando Ifemelu fora embora, só os ricos tinham celulares, todos os números começavam com 090 e as meninas queriam namorar os homens do 090. Agora, a moça que trançava seu cabelo tinha um celular, o vendedor de banana-da-terra que cuidava de uma grelha empretecida tinha celular. Ela crescera conhecendo todos os pontos de ônibus e ruas laterais, compreendendo o código secreto dos motoristas e a linguagem corporal dos ambulantes de rua. Agora, lutava para entender o que não era dito. Quando os donos de loja tinham ficado tão grosseiros? Os prédios de Lagos sempre tiveram aquela camada de podridão em cima? E quando aquela se tornara uma cidade de pessoas que pediam por tudo e se apaixonavam pelo que era de graça?
“Americanah!”, brincava Ranyinudo sempre. “Você está vendo as coisas com olhos de americano. Mas o problema é que nem é uma americanah de verdade. Se pelo menos tivesse um sotaque americano, a gente aturaria as reclamações!”
Ranyinudo a pegou no aeroporto, postando-se ao lado da saída de desembarque num vestido de madrinha esvoaçante, com um blush vermelho demais que fazia com que parecesse estar com as bochechas machucadas e as flores de cetim verdes do cabelo já tortas. Ifemelu ficou impressionada ao ver como ela estava fascinante, como estava bonita. Não era mais um longo amontoado de braços e pernas compridos, mas uma mulher grande, firme e cheia de curvas, exultante com seu peso e sua altura, o que fazia dela uma pessoa imponente, uma presença que atraía olhares.
“Ranyi!”, disse Ifemelu. “Sei que minha volta é um acontecimento importante, mas não sabia que valia um vestido de noite.”
“Boba. Eu vim direto do casamento. Não quis ir para casa me trocar e me arriscar a pegar trânsito.”
Elas se abraçaram, apertando-se bem. Ranyinudo cheirava a perfume floral, fumaça de carro e suor; era o cheiro da Nigéria.
“Você está deslumbrante, Ranyi”, disse Ifemelu. “Apesar de toda essa pintura de guerra. As fotos não te faziam justiça.”
“Ifemsco, olhe só para você, uma mulher linda mesmo depois desse voo demorado”, disse ela, rindo, negando o elogio, assumindo o velho papel da menina que não era bonita. Sua aparência tinha mudado, mas o ar animado e levemente temerário não. Outra coisa que estava igual era o borbulhar de sua voz, do riso logo abaixo da superfície, pronto para jorrar. Ranyinudo dirigiu rápido, freando de maneira brusca e olhando várias vezes para o BlackBerry em seu colo; sempre que o trânsito parava, ela o pegava e começava a digitar depressa.
“Ranyi, você só devia mandar mensagem de texto e dirigir ao mesmo tempo quando está sozinha, pois assim só mata a si mesma”, disse Ifemelu.
“Haba! Eu não mando mensagem quando estou dirigindo, ô. Mando quando não estou”, disse ela. “Esse casamento foi uma coisa, o melhor casamento da minha vida. Não sei se você vai se lembrar da noiva. Ela era muito amiga de Funke no ensino médio. Ijeoma, uma menina muito amarela. Ela estudou na Holy Child, mas costumava vir para nosso preparatório para o WAEC com Funke. A gente ficou amiga na faculdade. Se você a vir agora, ê, ela ficou uma gata. O marido dela é cheio da grana. A aliança dela é maior que a Pedra Zuma.”
Ifemelu olhou pela janela, sem ouvir direito, pensando em como Lagos era feia, com suas estradas infestadas de buracos e casas brotando aqui e ali sem planejamento, como se fossem ervas daninhas. De uma mistura de sentimentos, o único que reconheceu foi confusão.
“Verde-limão e pêssego”, disse Ranyinudo.
“O quê?”
“As cores da decoração. Verde-limão e pêssego. O salão estava tão bonito e o bolo era lindo. Olhe, tirei umas fotos. Vou postar essa aqui no Facebook.” Ranyinudo passou o BlackBerry para Ifemelu. Ela ficou com ele, para que a amiga se concentrasse em dirigir.
“E eu conheci um cara, ô. Ele me viu quando eu estava do lado de fora, esperando a missa acabar. Estava tão quente, minha base estava derretendo na minha cara e eu sei que parecia um zumbi, mas mesmo assim ele veio falar comigo! É um bom sinal. Acho que esse é mesmo um bom partido. Contei que minha mãe estava rezando uma novena de verdade pro meu namoro com Ibrahim acabar? Pelo menos com esse ela não teria um ataque cardíaco. O nome dele é Ndudi. Nome legal, abi? Mais igbo, impossível. E você devia ter visto o relógio dele! Trabalha com petróleo. O cartão tem o telefone de escritórios na Nigéria e no exterior.”
“Por que você estava esperando a missa acabar do lado de fora?”
“Todas as damas de honra tiveram de esperar do lado de fora porque nosso vestido era indecente.” Ranyinudo falou a palavra “indecentes” de um jeito exagerado e deu uma risada. “Isso acontece o tempo todo, principalmente nas igrejas católicas. Tínhamos um casaquinho, mas o padre disse que era rendado demais, então esperamos do lado de fora até a missa acabar. Mas graças a Deus por isso, ou eu não teria conhecido esse cara!”
Ifemelu olhou o vestido de Ranyinudo, com as alcinhas e o decote com pregas que não mostrava nada dos seios. Antes de ela ir embora, as damas de honra eram banidas das cerimônias religiosas porque seus vestidos eram de alcinha? Ela achava que não, mas não tinha mais certeza. Não tinha mais certeza do que era novo em Lagos e do que era novo nela mesma. Ranyinudo estacionou o carro numa rua em Lekki, que só tinha terrenos baldios quando Ifemelu se mudara, mas agora tinha uma fileira de casas grandes circundadas por muros altos.
“Meu apartamento é o menor, então não tenho uma vaga lá dentro”, disse Ranyinudo. “Os outros inquilinos estacionam lá dentro, mas você devia ouvir a gritaria que tem de manhã quando alguém não tira o carro do caminho e outra pessoa está atrasada para o trabalho.”
Ifemelu saiu do carro e ouviu o barulho alto e dissonante dos geradores, tantos deles; o som penetrava o interior delicado de seus ouvidos e fazia sua cabeça latejar.
“Faz uma semana que não tem luz”, disse Ranyinudo, falando alto para ser ouvida apesar dos geradores.
O porteiro havia corrido para ajudar com as malas.
“Bem-vinda de volta, tia”, disse ele para Ifemelu.
Não dissera apenas “bem-vinda”, mas “bem-vinda de volta”, como se soubesse que ela realmente estava de volta. Ifemelu agradeceu e, na escuridão cinzenta do fim de tarde, com o ar pesado de odores, sentiu a dor de uma emoção quase insuportável que não sabia definir. Era nostálgica e melancólica, uma linda tristeza pelas coisas que perdera e que jamais conheceria. Mais tarde, quando estava sentada no sofá da sala pequena e elegante de Ranyinudo, com os pés afundados no carpete macio demais e a televisão de tela plana presa na parede em frente, Ifemelu se olhou sem acreditar. Ela havia mesmo feito aquilo. Havia voltado. Ligou a televisão e procurou os canais nigerianos. Na NTA a primeira-dama, com um lenço azul em volta do rosto, estava se dirigindo a uma multidão de mulheres que protestava e, na tela, passava devagar a legenda: “A primeira-dama dá mais poder às mulheres com as redes contra mosquito”.
“Nem lembro a última vez que assisti a esse canal idiota”, disse Ranyinudo. “Eles mentem para o governo, mas não conseguem nem mentir bem.”
“Que canal nigeriano você vê, então?”
“Na verdade não vejo nenhum, ô. Vejo Style e E! Às vezes, CNN e BBC.” Ranyinudo havia vestido um short e uma camiseta. “Tem uma menina que vem cozinhar e limpar a casa, mas eu mesma fiz esse cozido porque você ia chegar, então você tem de comer, ô. Quer beber o quê? Tenho malte e suco de laranja.”
“Malte! Vou beber todo o malte da Nigéria. Costumava comprar num supermercado hispânico em Baltimore, mas não era a mesma coisa.”
“Comi um arroz ofada muito gostoso no casamento, não estou com fome”, disse Ranyinudo. Mas, depois de servir a comida de Ifemelu num prato de jantar, comeu um pouco de arroz e cozido de frango de uma tigela de plástico, empoleirada no braço do sofá, enquanto elas fofocavam sobre velhos amigos. Priye promovia eventos e tinha acabado de ficar muito importante depois de ser apresentada à mulher do governador. Tochi perdera o emprego no banco depois da última crise bancária, mas casou-se com um advogado rico e teve um bebê.
“Tochi costumava me contar quanto as pessoas tinham na conta”, disse Ranyinudo. “Lembra aquele cara, o Mekkus Parara, que morria por Ginika? Lembra como ele sempre tinha manchas amarelas e fedidas embaixo do braço? Está cheio da grana agora, mas é dinheiro sujo. Você sabe como é, todos esses caras que cometem fraudes em Londres e nos Estados Unidos voltam correndo para a Nigéria com o dinheiro e constroem casas enormes em Victoria Garden City. Tochi me contou que ele nunca ia ao banco em pessoa. Costumava mandar seus empregados com sacolas de feira para levar dez milhões aqui, vinte milhões ali. Já eu nunca quis trabalhar num banco. O problema de trabalhar em um é que se você não pega uma agência boa com clientes que têm somas altas está acabado. Vai passar o tempo todo atendendo comerciantes inúteis. Tochi deu sorte com o emprego e trabalhava numa agência boa, onde conheceu o marido. Quer mais malte?”
Ranyinudo se levantou. Havia uma lentidão sensual e feminina em seu andar, um levantar, rolar e balançar da bunda a cada passo. Um andar nigeriano. Um andar que também indicava certo excesso, mostrava algo que precisava ser menos exagerado. Ifemelu pegou a garrafa gelada de malte das mãos de Ranyinudo e se perguntou se essa seria sua vida se não tivesse ido embora, se ela seria como Ranyinudo, trabalhando para uma agência de publicidade, morando num apartamento de um quarto cujo aluguel não podia pagar com seu salário, frequentando uma igreja pentecostal onde era ajudante do pastor e namorando um executivo casado que lhe comprava passagens de classe executiva para Londres. Ranyinudo mostrou a Ifemelu fotos dele que tinha no celular. Em uma delas, ele estava sem camisa, com a leve barriga de meia-idade, deitado na cama de Ranyinudo e dando o sorriso envergonhado de um homem que acaba de se saciar de sexo. Em outra, estava olhando para baixo num close, o rosto um perfil desfocado e misterioso. Havia algo de atraente e até distinto em seu cabelo salpicado de fios brancos.
“É impressão minha ou ele parece uma tartaruga?”, disse Ifemelu.
“É impressão sua. Mas, Ifem, falando sério, Don é um bom homem, ô. Não é como muitos desses inúteis que andam por aí em Lagos.”
“Ranyi, você me disse que era um caso passageiro. Mas dois anos não é um caso passageiro. Eu me preocupo com você.”
“Gosto dele, não vou negar, mas quero me casar e ele sabe disso. Costumava pensar em ter um filho dele, mas olhe Uche Okafor, lembra dela, de Nsukka? Teve um filho do diretor do Hale Bank e o homem a mandou para o inferno, disse que não é o pai, e agora ela tem de criar o filho sozinha. Na wa.”
Ranyinudo estava olhando a foto em seu celular com um leve sorriso de ternura. Mais cedo, quando elas estavam no carro, ela dissera, conforme desacelerava para cair e depois sair devagar de um grande buraco na rua: “Eu quero muito que Don me dê um carro novo. Ele está prometendo há três meses. Preciso de um jipe. Está vendo como as ruas estão horríveis?”. E Ifemelu tinha sentido algo entre fascínio e desejo pela vida de Ranyinudo. Uma vida em que fazia um gesto com a mão e as coisas caíam do céu, coisas que ela simplesmente esperava que caíssem do céu.
À meia-noite, Ranyinudo desligou seu gerador e abriu as janelas. “Estou com esse gerador ligado há uma semana direto, dá para imaginar? A situação da luz não ficava tão ruim havia muito tempo.”
O ar fresco se dissipou rapidamente. Um ar quente e úmido sufocou o quarto e logo Ifemelu estava se revirando em lençóis molhados de suor. Começou a sentir um latejar doloroso por trás dos olhos, ouviu um mosquito zumbindo ali perto e, de forma súbita e cheia de culpa, sentiu-se grata por ter um passaporte azul americano na bolsa. Aquilo a protegia da falta de escolhas. Ela sempre poderia ir embora; não tinha de ficar ali.
“Que umidade é essa?”, disse. Estava na cama de Ranyinudo, que deitara num colchão no chão. “Não consigo respirar.”
“Não consigo respirar!”, repetiu Ranyinudo, achando uma enorme graça naquilo. “Haba! Americanah!”