Americanah
Capítulo 18
A nova cliente de Mariama estava usando um short jeans grudado na bunda e um par de tênis do mesmo tom de rosa vívido da blusa. Imensos brincos de argola tocavam seu rosto. Ela estava de pé diante do espelho, descrevendo o tipo de trança que queria.
“Tipo um zigue-zague com uma divisão bem aqui deste lado, mas não coloca o cabelo no começo, coloca quando começar o rabo de cavalo”, disse, falando devagar e enunciando bem cada palavra. “Entendeu?”, perguntou, parecendo já convencida de que Mariama não havia entendido.
“Entendi”, disse Mariama, muito séria. “Quer ver uma foto? Tenho esse tipo no meu álbum.”
O álbum foi folheado até o final e, enfim, a cliente sentiu-se satisfeita e se sentou; um plástico esfiapado foi posto em torno de seu pescoço e a altura de sua cadeira foi ajustada, enquanto Mariama mantinha no rosto um sorriso repleto de coisas reprimidas.
“Fui nessa outra cabeleireira da última vez”, contou a cliente. “Ela era africana também e queria queimar meu cabelo! Pegou um isqueiro e eu pensei: Shontay White, não deixe essa mulher chegar perto do seu cabelo. Então perguntei para ela: ‘Para que serve isso?’. E ela: ‘Quero limpar suas tranças’. E eu: ‘O quê?’. E aí ela tentou me mostrar, tentou passar o isqueiro em uma das tranças, e eu dei uma de louca para cima dela.”
Mariama balançou a cabeça. “Não, isso é ruim. Queimar não é bom. A gente não faz isso.”
Uma cliente entrou com o cabelo coberto por um lenço amarelo-gema.
“Oi”, disse ela. “Queria trançar o cabelo.”
“Que tipo de trança você quer?”, perguntou Mariama.
“Tranças com apliques normais, médios.”
“Quer longa?”
“Não muito longa, talvez na altura do ombro.”
“Tudo bem. Pode sentar, por favor. Ela vai fazer para você.” Mariama fez um gesto para Halima, que estava sentada nos fundos com os olhos fixos na televisão. Halima levantou e se espreguiçou por um pouco de tempo demais, como se para registrar sua relutância.
A mulher se sentou e fez um gesto para a pilha de DVDs. “Vocês vendem filmes nigerianos?”, perguntou a Mariama.
“Costumava vender, mas meu fornecedor faliu. Quer comprar?”
“Não. Perguntei porque você tem muitos.”
“Alguns são muito bons”, disse Mariama.
“Não consigo assistir a essas coisas. Acho que tenho certo preconceito. No meu país, a África do Sul, os nigerianos são conhecidos por roubar cartão de crédito, usar drogas e mais um monte de coisas loucas. Acho que os filmes são meio assim, também.”
“Você é da África do Sul? Não tem sotaque!”, exclamou Mariama.
A mulher deu de ombros. “Estou aqui há muito tempo. Não faz muita diferença.”
“Não”, disse Halima, subitamente animada, de pé atrás da mulher. “Quando vim para cá com meu filho, bateram nele na escola por causa do sotaque africano. Em Newark. Se você visse o rosto do meu filho… Roxo que nem cebola. Eles bateram, bateram, bateram. Meninos negros bateram nele daquele jeito. Agora o sotaque foi embora e não tem mais problema.”
“Lamento muito”, disse a mulher.
“Obrigada.” Halima sorriu, apaixonada pela mulher por aquele feito extraordinário, ter um sotaque americano. “É, a Nigéria é um país muito corrupto. O mais corrupto da África. Eu vejo os filmes, mas não vou lá, não!” Ela sacudiu a mão no ar.
“Nunca me casaria com um nigeriano e não deixaria ninguém na minha família casar”, disse Mariama, lançando um rápido olhar de desculpas para Ifemelu. “Não são todos, mas muitos fazem coisas ruins. Até matam por dinheiro.”
“Isso eu não sei”, disse a cliente, num tom moderado, sem muita convicção.
Aisha ficou observando tudo em silêncio, com um ar astuto. Mais tarde sussurrou para Ifemelu, com uma expressão de desconfiança: “Você está aqui há quinze anos, mas não tem sotaque americano. Por quê?”.
Ifemelu ignorou-a e, mais uma vez, abriu Cane, o livro de Jean Toomer. Olhou fixamente para as palavras e, de súbito, teve vontade de voltar no tempo e adiar a volta para casa. Talvez tivesse se precipitado. Não devia ter vendido seu apartamento. Devia ter aceitado a oferta da revista Letterly de comprar seu blog e pagar-lhe para escrever os posts. E se chegasse a Lagos e se desse conta de que fora um erro voltar? Mesmo a ideia de que sempre poderia voltar para os Estados Unidos não a confortava tanto quanto ela gostaria.
O filme tinha acabado e, em meio ao silêncio que agora imperava no salão, a cliente de Mariama disse: “Está apertada”, tocando uma das tranças fininhas que saíam de seu couro cabeludo. Falou mais alto do que precisava.
“Não tem problema. Eu refaço”, disse Mariama. Ela foi simpática e educada, mas Ifemelu podia ver que achava que aquela cliente era implicante e que não havia nada de errado com a trança, mas isso era parte de sua nova personalidade americana, esse fervor de servir bem ao cliente, essa falsidade cintilante das superfícies, e que ela aceitara aquilo, conformara-se. Quando a cliente fosse embora, talvez Mariama se despisse daquela personalidade e dissesse algo para Halima ou Aisha sobre os americanos, sobre como eram mimados e infantis, mas, quando a próxima cliente chegasse, ia se tornar mais uma vez uma versão sem jaça de sua personalidade americana.
A cliente disse: “Ficou fofo”, enquanto entregava o dinheiro para Mariama e, pouco depois de ela ir embora, uma jovem branca entrou, com o corpo macio e bronzeado e o cabelo mal preso num rabo de cavalo.
“Oi!”, disse ela.
Mariama respondeu “Oi” e esperou, enxugando as mãos sem parar na parte da frente do short.
“Eu queria trançar o cabelo… Você sabe trançar meu cabelo, não sabe?”
Mariama deu um sorriso excessivamente entusiasmado. “Claro. Fazemos todo tipo de cabelo. Você quer trança normal ou de raiz?” Ela agora estava limpando a cadeira com furor. “Por favor, sente-se.”
A mulher se sentou e disse que queria trança de raiz. “Que nem a Bo Derek naquele filme, sabe? Mulher nota dez?
“Sei, sim”, disse Mariama. Ifemelu duvidava que soubesse.
“Meu nome é Kelsey”, anunciou a mulher, como quem falava para todos ali. Ela era simpática de uma maneira agressiva. Perguntou de onde Mariama era, havia quanto tempo estava nos Estados Unidos, se tinha filhos, como andavam os negócios.
“Às vezes bem, às vezes mal, mas a gente tenta”, disse Mariama.
“Mas você nem conseguiria abrir um negócio no seu país, não é? Não é maravilhoso poder vir para os Estados Unidos para que seus filhos tenham uma vida melhor?”
Mariama pareceu surpresa. “É.”
“As mulheres podem votar no seu país?”, perguntou Kelsey.
Mariama fez uma pausa mais longa. “Podem.”
“O que você está lendo?”, perguntou Kelsey a Ifemelu.
Ifemelu mostrou-lhe a capa do romance. Não queria iniciar uma conversa. Principalmente não com Kelsey. Reconheceu nela o nacionalismo dos americanos liberais que criticavam abundantemente os Estados Unidos, mas não gostavam que você o fizesse; esperavam que você fosse silencioso e grato, e sempre lembravam o quanto a América era melhor do que seu país de origem.
“É bom?”
“É.”
“É um romance, não é? É sobre o quê?”
Por que as pessoas perguntavam “É sobre o quê?”, como se um romance só pudesse ser sobre uma coisa? Ifemelu não gostava da pergunta; não teria gostado mesmo que não estivesse sentindo, além daquela incerteza deprimente, o começo de uma dor de cabeça. “Se você for uma pessoa que só gosta de certos tipos de livro, talvez não goste deste. Mistura verso e prosa.”
“Seu sotaque é lindo. De onde você é?”
“Da Nigéria.”
“Ah. Legal.” Kelsey tinha dedos finos; seriam perfeitos para um anúncio de anéis. “Eu vou à África no outono. Ao Congo e ao Quênia, e vou tentar ver a Tanzânia também.”
“Que legal.”
“Estou lendo uns livros para me preparar. Todo mundo recomendou O mundo se despedaça, que eu li no colégio. É muito bom, mas meio antiquado, não é? Tipo, ele não me ajudou a entender a África moderna. Acabei de ler um livro incrível, Uma curva no rio. Fez com que eu realmente entendesse como a África moderna funciona.”
Ifemelu emitiu um som que era algo entre uma fungada e um “hum”, mas não disse nada.
“É tão honesto, o livro mais honesto que já li sobre a África”, disse Kelsey.
Ifemelu se remexeu na cadeira. O tom de Kelsey a irritou. Sua dor de cabeça estava piorando. Ela não achava que aquele romance era sobre a África, de jeito nenhum. Era sobre a Europa, ou um anseio pela Europa, sobre a imagem negativa que um homem indiano nascido na África tinha de si mesmo, um homem que se sentia tão ferido, tão humilhado, por não ter nascido europeu, por não ser membro de uma raça que alçara às alturas devido à sua habilidade de criar, que transformava suas insuficiências pessoais imaginárias num desprezo impaciente pela África; através de sua atitude altiva e presumida com o africano, ele podia se tornar, mesmo que brevemente, um europeu. Ifemelu se recostou na cadeira e disse isso num tom contido. Kelsey ficou assustada; não havia esperado um minidiscurso. Depois disse, num tom gentil: “Bem, eu entendo por que você vê o romance desse jeito”.
“E eu entendo por que você o vê como viu”, disse Ifemelu.
Kelsey ergueu as sobrancelhas, como se Ifemelu fosse uma daquelas pessoas um pouco desequilibradas que era melhor evitar. Ifemelu fechou os olhos. Sentiu como se nuvens estivessem tomando sua cabeça. Sentia-se fraca. Talvez fosse o calor. Tinha terminado um relacionamento no qual não estava infeliz e dado fim a um blog do qual gostava, e agora estava perseguindo algo que não conseguia articular de forma clara, nem para si mesma. Podia ter escrito um post sobre Kelsey também, aquela menina que achava ser milagrosamente neutra na forma como lia os livros, enquanto os outros eram emocionais.
“Você quer usar cabelo?”, perguntou Mariama a Kelsey.
“Cabelo?”
Mariama mostrou um conjunto de apliques numa embalagem de plástico transparente. Os olhos de Kelsey se arregalaram e ela deu uma rápida olhada em torno, vendo o saco de onde Aisha pegava pequenas madeixas para cada trança e o outro que Halima estava abrindo naquele momento.
“Ai, meu Deus, então é assim que se faz. Eu sempre achei que as afro-americanas de cabelo trançado tinham o cabelo cheio!”
“Não, nós usamos apliques”, disse Mariama, sorrindo.
“Talvez da próxima vez. Acho que só vou usar meu próprio cabelo hoje”, disse Kelsey.
Não demorou muito para fazer o cabelo dela, que foi dividido em sete tranças, com os fios finos demais já soltando nas raízes. “Ficou ótimo!”, disse ela no fim.
“Obrigada”, disse Mariama. “Por favor, venha de novo. Posso fazer outro estilo para você da próxima vez.”
“Ótimo!”
Ifemelu observou Mariama pelo espelho, pensando em sua própria personalidade americana. Era com Curt que estava quando se olhou no espelho e, numa súbita revelação, pela primeira vez viu outra pessoa.
Curt gostava de dizer que tinha sido amor à primeira risada. Sempre que as pessoas perguntavam como eles tinham se conhecido, mesmo pessoas com quem não tinham nenhuma intimidade, ele contava a história de como Kimberly os tinha apresentado, ele o primo que viera de Maryland visitar, ela a babá nigeriana de quem Kimberly falava tanto, e quão impressionado ficou com sua voz grave e com a trança que escapava de seu elástico. Mas foi quando Taylor entrou correndo na sala, usando uma capa azul e uma cueca e gritando “Eu sou o Capitão Cueca!” e Ifemelu atirou a cabeça para trás e gargalhou que ele se apaixonou. A risada dela era tão vibrante, com os ombros sacudindo e o peito arfando; era a risada de uma mulher que, quando ria, ria mesmo. Às vezes, quando eles estavam sozinhos e Ifemelu ria, Curt dizia, numa provocação: “Foi isso que me pegou. E sabe o que eu pensei? Se ela ri assim, como será que faz outras coisas?”. Curt também contava que Ifemelu sabia que ele estava encantado — como podia não saber? —, mas fingiu não perceber, porque não queria um branco. Mas a verdade é que Ifemelu não havia notado o interesse dele. Sempre fora capaz de sentir o desejo dos homens, mas não o de Curt, não no início. Ainda pensava em Blaine, via-o andando pela plataforma da estação de trem de New Haven, uma imagem que a deixava repleta de um anseio impossível. Ela não tinha se sentido meramente atraída por Blaine, mas absorta diante dele e, em sua mente, ele se transformara no perfeito namorado americano que jamais teria. Ainda assim, tinha vivido outras paixonites desde então, menores se comparadas àquele impacto do trem, e acabara de superar uma por Abe, de sua aula de ética. Abe, que era branco, que não desgostava dela, que a achava inteligente e engraçada, até bonita, mas não a via como mulher. Ifemelu tinha curiosidade em relação a Abe, interesse, mas todos os seus flertes, para ele, eram apenas ela sendo legal: Abe a apresentaria para um amigo negro se tivesse um. Ifemelu era invisível para ele. Isso arrasara sua paixonite e talvez também a tivesse feito não prestar atenção em Curt. Até uma tarde em que estava jogando beisebol com Taylor, que atirou a bola alto demais, mandando-a para dentro do arbusto ao lado da cerejeira dos vizinhos.
“Acho que perdemos essa”, disse Ifemelu. Na semana anterior, um frisbee havia desaparecido lá dentro. Curt se levantou da cadeira dobrável (ele estava observando todos os gestos dela, segundo relataria mais tarde) e marchou para o arbusto, quase mergulhando nele como se fosse uma piscina e emergindo com a bola.
“Viva! Tio Curt!”, disse Taylor. Mas Curt não deu a bola a Taylor; em vez disso, ofereceu-a a Ifemelu. Ela viu em seus olhos o que ele queria que visse. Sorriu e disse: “Obrigada”. Mais tarde, na cozinha, quando estava bebendo um copo d’água depois de ter colocado um vídeo para Taylor, Curt disse: “É agora que eu convido você para jantar, mas, a essa altura, aceito qualquer negócio. Posso te pagar um drinque, um sorvete, uma refeição, um ingresso para o cinema? Esta noite? No fim de semana antes de eu voltar para Maryland?”.
Ele olhava maravilhado para ela, com a cabeça um pouco abaixada, e Ifemelu sentiu algo desabrochando dentro de si. Como era glorioso ser tão desejada, e por aquele homem com um bracelete de metal estilo roqueiro no pulso e uma beleza de covinha no queixo dos modelos de catálogos de lojas de departamento. Ela começou a gostar de Curt porque ele gostava dela. “Você come de um jeito tão delicado”, disse Curt no primeiro encontro dos dois, num restaurante italiano na Old City. Não havia nada de particularmente delicado no ato de levar um garfo à boca, mas Ifemelu gostou de ele ter achado isso.
“Bom, sou um branco rico de Potomac, mas sou bem menos babaca do que deveria ser”, disse Curt, de um jeito que fez Ifemelu sentir que ele já havia dito aquilo antes, e que tivera uma boa recepção quando o fizera. “Laura sempre diz que minha mãe tem mais dinheiro que Deus, mas não tenho certeza disso.”
Ele falou de si mesmo com entusiasmo, como se estivesse determinado a dizer tudo que havia para ser dito de uma só vez. A família de Curt era dona de hotéis havia cem anos. Ele tinha feito faculdade na Califórnia para escapar deles. Tinha se formado e viajado pela América Latina e pela Ásia. Algo começara a atraí-lo de volta, talvez a morte do pai, talvez o fato de estar infeliz num relacionamento. Então, fazia um ano, ele tinha se mudado para Maryland de novo, aberto uma empresa de software só para não ter que entrar para o negócio da família, comprado um apartamento em Baltimore e passado a ir para Potomac todo domingo para tomar brunch com a mãe. Curt falava de si mesmo com uma simplicidade desimpedida, presumindo que Ifemelu ia gostar de suas histórias apenas porque ele gostava. Seu entusiasmo juvenil a fascinou. Ela sentiu o corpo firme dele quando eles deram um abraço de despedida diante de seu prédio.
“Vou tentar beijar você em exatamente três segundos”, disse ele. “Vai ser um beijo de verdade que pode nos levar a outras etapas, por isso, se você não quiser que aconteça, talvez seja bom dar um passo para trás agora.”
Ifemelu não deu um passo para trás. O beijo foi excitante da maneira como as coisas novas são excitantes. Depois Curt disse, num tom de urgência: “Precisamos contar para Kimberly”.
“Contar o que para Kimberly?”
“Que estamos saindo.”
“Estamos?”
Curt riu e Ifemelu riu também, embora não estivesse brincando. Ele era franco e transbordava; o cinismo não lhe ocorria. Ela ficou encantada e quase indefesa diante disso, sendo levada por ele; talvez estivessem mesmo saindo após um beijo, já que Curt tinha tanta certeza de que estavam.
No dia seguinte, Kimberly cumprimentou-a, dizendo: “Olá, mocinha apaixonada”.
“Então você vai perdoar seu primo por querer sair com a criadagem?”, perguntou Ifemelu.
Kimberly riu e então, num gesto que surpreendeu e emocionou Ifemelu, abraçou-a. Elas se afastaram, constrangidas. O programa da Oprah estava passando na televisão da sala e Ifemelu ouviu a plateia irrompendo em aplausos.
“Bom”, disse Kimberly, parecendo ela própria um pouco surpresa com o abraço. “Só queria dizer que fico muito… feliz por vocês dois.”
“Obrigada. Mas a gente só saiu uma vez e não aconteceu nada.”
Kimberly deu uma risadinha e por um instante pareceu que elas eram amigas de colégio fofocando sobre meninos. Às vezes Ifemelu sentia, por trás das sequências bem engrenadas da vida de Kimberly, um lampejo de arrependimento não apenas pelas coisas que ela desejava ter no presente, mas pelas que desejara ter no passado.
“Você devia ter visto Curt esta manhã”, disse Kimberly. “Nunca o vi desse jeito! Ele está muito animado.”
“Com o quê?”, perguntou Morgan. Ela estava de pé diante da entrada da cozinha, com o corpo pré-adolescente hirto de hostilidade. Atrás, Taylor tentava esticar as pernas de um robozinho de plástico.
“Bom, querida, você vai ter que perguntar para o tio Curt.”
Curt entrou na cozinha com um sorriso tímido e o cabelo um pouco molhado, usando um perfume leve com cheiro de menta. “Oi”, disse ele. Tinha ligado para ela à noite, dizendo que não conseguia dormir. “Isso é muito brega, mas estou tão repleto de você, é como se estivesse respirando você, sabe?”, dissera, e Ifemelu tinha pensado que os escritores de romances estavam errados e que eram os homens, e não as mulheres, os verdadeiros românticos.
“Morgan está perguntando por que você parece tão animado”, disse Kimberly.
“Bom, Morg, estou animado porque tenho uma namorada nova, uma pessoa muito especial que acho que você conhece.”
Ifemelu quis que Curt removesse o braço que estava em volta de seus ombros; ele não estava anunciando um noivado, pelo amor de Deus. Morgan olhou fixamente para eles. Ifemelu viu Curt pelos olhos dela: o tio bonito que viajava pelo mundo e contava todas as piadas engraçadas no Dia de Ação de Graças, o tio legal, jovem o suficiente para compreendê-la, mas velho o suficiente para tentar fazer sua mãe compreendê-la.
“Ifemelu é sua namorada?”, perguntou Morgan.
“É”, disse Curt.
“Que nojo”, disse Morgan, com uma genuína cara de nojo.
“Morgan!”, exclamou Kimberly.
Morgan se virou e marchou lá para cima.
“Ela tem uma paixonite pelo tio Curt e aí chega a babá e invade seu território. Deve ser difícil mesmo”, disse Ifemelu.
Taylor, que parecia contente tanto com a notícia quanto com o fato de ter esticado as pernas do robô, disse: “Você e a Ifemelu vão se casar e ter um filho, tio Curt?”.
“Bom, meu amigo, por enquanto vamos passar um bom tempo juntos para tentar nos conhecer bem.”
“Ah, tudo bem”, disse Taylor, um pouco decepcionado, mas quando Don chegou em casa, ele correu para os braços dele e disse: “A Ifemelu e o tio Curt vão se casar e ter um filho!”.
“Ah”, disse Don.
A surpresa dele fez Ifemelu pensar em Abe, da aula de ética. Don a achava bonita e interessante e achava Curt bonito e interessante, mas não lhe ocorreu pensar nos dois, juntos, emaranhados nos fios delicados de um romance.
Curt nunca tinha transado com uma negra; ele disse isso para ela após sua primeira vez, em sua cobertura em Baltimore, jogando a cabeça num gesto em que caçoava de si mesmo, como se isso fosse algo que devesse ter feito havia muito tempo, mas que sempre deixara para depois.
“Um brinde a esse marco, então”, disse Ifemelu, fingindo que erguia um copo.
Certa vez, depois de Dorothy apresentar seu novo namorado holandês numa reunião da Associação de Estudantes Africanos, Wambui dissera: “Eu nunca ia poder transar com um branco, ia ter medo de vê-lo pelado, com toda aquela palidez. A não ser que fosse um italiano com um bronzeado forte. Ou um judeu de cabelo escuro”. Ifemelu olhou para os cabelos e a pele claros de Curt, as sardas cor de ferrugem em suas costas, a leve penugem dourada no peito, e pensou no quanto discordava de Wambui naquele momento.
“Você é tão sexy”, disse ela.
“Você é mais.”
Curt lhe disse que nunca tinha se sentido tão atraído por uma mulher antes, nunca havia visto um corpo tão lindo, seus seios perfeitos, sua bunda perfeita. Ifemelu achou engraçado o fato de ele considerar perfeito o que Obinze chamava de uma bunda achatada, e ela achava que seus seios eram seios grandes como quaisquer outros, já um pouco caídos. Mas as palavras dele lhe agradaram, como um presente generoso e desnecessário. Ele queria sugar seu dedo, lamber mel do bico de seu seio, espalhar sorvete em sua barriga, como se não fosse o suficiente ficar deitado sentindo sua pele nua contra a dela.
Mais tarde, quando Curt quis brincar de ser outra pessoa — “Que tal você fingir que é a Foxy Brown?”, disse ele —, Ifemelu achou aquilo cativante, a habilidade que ele tinha de atuar, de se perder de forma tão completa num personagem, e entrou na brincadeira para agradá-lo, feliz com seu prazer, embora ficasse intrigada por isso ser tão excitante para ele. Muitas vezes, quando estava nua ao lado de Curt, pegava-se pensando em Obinze. Tinha de se esforçar para não comparar o toque de Curt com o dele. Contara a Curt sobre Mofe, seu namoradinho da escola, mas não dissera nada sobre Obinze. Parecia um sacrilégio discuti-lo, referir-se a ele como um “ex”, aquela palavra vazia que não dizia nada e não significava nada. A cada mês de silêncio que se passava entre eles, Ifemelu sentia o próprio silêncio se calcificar e se tornar uma estátua imensa e sólida, impossível de derrotar. Ela ainda começava a escrever para ele com frequência, mas sempre parava, decidindo não mandar os e-mails.
Com Curt Ifemelu se tornou, em sua mente, uma mulher livre de pesos e preocupações, uma mulher correndo na chuva com o gosto de morangos cálidos de sol na boca. “Um drinque” tornou-se parte da arquitetura de sua vida, mojitos e martínis, drinques transparentes e secos, drinques vermelhos e frutados. Com ele, Ifemelu foi escalar, andar de caiaque, acampar perto da casa de campo da família dele, todas coisas que jamais se imaginara fazendo antes. Estava mais leve e mais esguia; era a Namorada de Curt, um papel que vestiu como quem usava o vestido preferido, de caimento perfeito. Ifemelu ria mais porque ele ria tanto. O otimismo de Curt a cegava. Ele era cheio de planos. “Tive uma ideia!”, dizia sempre. Ela o imaginou quando criança, cercado de brinquedos demais com cores vivas, sempre sendo encorajado a realizar “projetos”, sempre com alguém a lhe dizer que suas ideias prosaicas eram maravilhosas.
“Vamos para Paris amanhã!”, disse Curt certo fim de semana. “Sei que não é nada original, mas você nunca foi e vou amar mostrar a cidade para você!”
“Eu não posso simplesmente decidir ir a Paris. Tenho um passaporte nigeriano. Preciso pedir um visto, mostrar meu extrato bancário, minha carteirinha do plano de saúde e várias outras provas de que não vou ficar lá e me tornar um fardo para a Europa.”
“É, não pensei nisso. Tudo bem, vamos no fim de semana que vem. Vamos resolver essa questão do visto esta semana. Tiro um extrato do banco amanhã.”
“Curtis”, disse ela com alguma severidade, para obrigá-lo a ser racional, mas enquanto estava ali, vendo a cidade tão do alto, sentiu um redemoinho de alegria arrastá-la. Ele era animado, uma animação que nunca dava descanso, e de uma maneira que apenas um americano como ele podia ser, e havia uma qualidade infantil nisso que Ifemelu achava tanto admirável quanto repulsiva. Um dia, caminharam pela South Street, porque ela nunca tinha visto o que ele afirmou ser a melhor parte da Filadélfia, e Curt deu-lhe a mão enquanto os dois passavam por lojas de tatuagem e grupos de meninos de cabelo rosa. Perto da Condom Kingdom, Curt entrou na minúscula loja de uma mulher que lia tarô, arrastando-a consigo. A mulher de véu negro disse para eles: “Vejo luz e felicidade de longo prazo adiante para vocês dois”, e Curt respondeu: “Nós também!”, e deu-lhe dez dólares a mais. Mais tarde, quando sua efervescência se tornou uma provocação para Ifemelu, uma alegria incansável que ela queria golpear, esmagar, essa se tornaria uma de suas melhores lembranças de Curt, ele dentro de uma da loja de tarô na South Street num dia repleto da promessa de verão; tão bonito, tão alegre, alguém que acreditava de verdade. Acreditava em bons presságios, pensamentos positivos e finais felizes para os filmes, uma crença sem preocupação, porque não havia pensado muito antes de acreditar; apenas acreditava.