Americanah
Capítulo 21
Era domingo de manhã e tia Uju ligou, agitada e estressada.
“Veja esse menino! Você precisa ver a roupa maluca que ele quer usar para ir à igreja. Está se recusando a pôr o que eu separei para ele. Você sabe que, se Dike não se vestir direito, eles vão ter um motivo para falar da gente. Se eles estão esfarrapados não tem problema, mas se nós estamos já é outra coisa. É por isso também que tenho dito para Dike ser mais calmo na escola. Outro dia, disseram que ele estava conversando na aula, e Dike disse que estava conversando porque já tinha acabado a lição. Ele tem que ser mais calmo, porque gente como nós sempre vai ser vista como diferente, mas esse menino não entende. Por favor, converse com seu primo!”
Ifemelu pediu que Dike levasse o telefone para o quarto.
“A mamãe quer que eu use uma camisa muito feia.” Seu tom de voz não demonstrava nenhuma emoção.
“Sei que essa camisa é careta, Dike, mas use para lhe agradar, tá? Só para ir à igreja. Só hoje.”
Ela sabia que camisa era, uma listrada e sisuda que Bartholomew comprara para Dike. Era o tipo de camisa que Bartholomew comprava; fez Ifemelu se lembrar dos amigos dele que ela conhecera num fim de semana, um casal nigeriano que morava em Maryland com dois filhos. As crianças sentaram ao lado deles no sofá, hirtas e abotoadas, presas na jaula sem ar das aspirações dos pais imigrantes. Ifemelu não queria que Dike fosse como eles, mas entendia as ansiedades de tia Uju, que estava tentando avançar sobre um território desconhecido.
“Você provavelmente não vai encontrar ninguém que conhece na igreja”, disse ela. “E eu vou conversar com a sua mãe e pedir que ela não o obrigue a usar essa camisa de novo.” Ifemelu argumentou até Dike concordar, desde que pudesse usar um tênis e não o sapato que sua mãe tinha escolhido.
“Eu vou para aí no próximo fim de semana”, disse a ele. “Vou levar meu namorado, Curt. Você finalmente vai conhecê-lo.”
Com tia Uju, Curt foi solícito e encantador daquela maneira bem treinada que fazia Ifemelu sentir um pouco de vergonha. Eles tinham jantado com Wambui e alguns amigos fazia pouco tempo e Curt enchera uma taça de vinho aqui, um copo de água ali. Encantador, fora o que uma das meninas dissera depois. Seu namorado é tão encantador. E ocorreu a Ifemelu que ela não gostava daquele encanto. Não do tipo que Curt tinha, com sua necessidade de brilhar, de desempenhar um papel. Ela gostaria que seu namorado fosse tranquilo e mais introspectivo. Quando puxava conversa com outras pessoas no elevador ou elogiava estranhos de maneira derramada, Ifemelu prendia a respiração, certa de que todos perceberiam como ele amava atenção. Mas retribuíam o sorriso, respondiam e permitiam que Curt os cortejasse. Como tia Uju fez. “Curt, não quer experimentar a sopa? Ifemelu nunca fez essa sopa para você? Já comeu banana-da-terra frita?”
Dike observou, falando pouco, mas sempre com educação, apesar de Curt ter brincado com ele, falado de esportes e se esforçado tanto para ganhar sua afeição que Ifemelu achou que ele fosse dar cambalhotas. Finalmente, Curt perguntou: “Quer jogar um pouco de basquete?”.
Dike deu de ombros. “Tudo bem.”
Tia Uju ficou olhando os dois irem lá para fora.
“Olhe a maneira como ele se comporta, como se tudo o que você toca cheirasse a perfume. Ele gosta muito de você”, disse tia Uju. E então, com uma careta, acrescentou: “Apesar do seu cabelo estar assim”.
“Tia, biko, deixe meu cabelo em paz.”
“Parece juta.” Tia Uju enfiou uma das mãos no afro de Ifemelu.
Ifemelu afastou a cabeça. “E se todas as revistas que você lesse e todos os filmes que visse tivessem mulheres lindas com cabelo parecendo juta? Você ia estar admirando meu cabelo.”
Tia Uju fez um muxoxo de desdém. “Tudo bem, você pode falar desse jeito complicado, mas o que eu estou dizendo é verdade. Cabelo natural tem algo de desleixado e desmazelado.” Tia Uju fez uma pausa. “Você já leu a redação que seu primo escreveu?”
“Já.”
“Como ele pode dizer que não sabe o que é? Desde quando é cheio de conflitos desse jeito? E falar até que o nome dele é difícil?”
“Você devia conversar com ele, tia. Ele se sente assim, pronto.”
“Acho que Dike escreveu isso porque é o tipo de coisa que ensinam para as crianças aqui. Todo mundo é cheio de conflitos, identidade disso, identidade daquilo. Alguém comete um assassinato e diz que foi porque sua mãe não o abraçava quando tinha três anos. Ou fazem algo perverso e dizem que é por causa de uma doença que têm.” Tia Uju olhou pela janela. Curt e Dike batiam bola no quintal e, mais ao longe, começava um bosque denso. Na última visita de Ifemelu, ela acordara e vira, pela janela da cozinha, um casal de cervos galopando, graciosos.
“Estou cansada”, disse tia Uju em voz baixa.
“O que você quer dizer?” Mas Ifemelu sabia que ela ia reclamar mais de Bartholomew.
“Nós dois trabalhamos. Nós dois chegamos em casa no mesmo horário. E você sabe o que Bartholomew faz? Senta na sala, liga a televisão e me pergunta o que vamos comer no jantar.” Tia Uju franziu o cenho e Ifemelu notou como ganhara peso, o princípio de um queixo duplo, o nariz alargado. “Ele quer que eu dê meu salário para ele. Imagine! Diz que é assim que os casamentos são e que ele é o chefe da família, que eu não devia mandar dinheiro para meu irmão sem pedir permissão a ele, que eu devia usar meu salário para pagar as prestações do carro dele. Quero dar uma olhada em escolas privadas para Dike, com todas essas maluquices acontecendo naquela escola pública, mas Bartholomew diz que é caro demais. Caro demais! Já os filhos dele estudaram em escolas particulares na Califórnia. Ele nem se incomoda com todas as coisas ruins que estão acontecendo na escola de Dike. Fui lá outro dia e uma assistente gritou comigo da outra ponta do corredor. Imagine. Ela foi tão grosseira. Notei que ela não gritou com os outros pais. Por isso, fui até lá dar uma bronca nela. Essa gente, eles fazem você ficar agressivo só para fazer tipo.” Tia Uju balançou a cabeça. “Bartholomew nem se incomoda que Dike ainda o chama pelo nome. Eu lhe disse para encorajar o menino a chamá-lo de pai, mas ele não se incomoda. Tudo o que quer de mim é que entregue meu salário e faça moela apimentada aos sábados enquanto assiste ao futebol europeu. Por que eu deveria dar meu salário para ele? Por acaso ele pagava minhas mensalidades da faculdade de medicina? Ele quer abrir um negócio, mas não consegue um empréstimo e diz que vai processar o banco por discriminação porque sua avaliação de crédito não foi ruim e ele descobriu que um homem da nossa igreja conseguiu um empréstimo com uma avaliação muito pior. É culpa minha se ele não consegue um empréstimo? Alguém o forçou a se mudar para cá? Ele não sabia que íamos ser os únicos negros daqui? Ele não veio para cá porque achou que isso ia beneficiá-lo? Tudo é dinheiro, dinheiro, dinheiro. Fica querendo tomar minhas decisões de trabalho por mim. O que um contador sabe de medicina? Só quero estar bem de vida. Só quero poder pagar a faculdade do meu filho. Não preciso trabalhar mais horas só para acumular dinheiro. Não estou planejando comprar um barco como os americanos fazem.” Tia Uju se afastou da janela e se sentou à mesa da cozinha. “Eu nem sei por que vim para este lugar. Outro dia, a farmacêutica disse que meu sotaque era incompreensível. Imagine, eu fui pedir um remédio e ela teve a coragem de dizer que meu sotaque era incompreensível. E naquele mesmo dia, como se alguém tivesse mandado os dois de propósito, um paciente, um vagabundo inútil cheio de tatuagens pelo corpo, me disse para voltar para o lugar de onde vim. Só porque eu sabia que ele estava mentindo quando disse que sentia dor e me recusei a lhe dar analgésicos. Por que tenho que aceitar essa droga? Eu culpo Buhari, Babangida e Abacha, porque eles destruíram a Nigéria.”
Era estranho como tia Uju sempre falava dos antigos chefes de Estado, citando seus nomes com uma acusação venenosa, sem nunca mencionar o General.
Curt e Dike voltaram para a cozinha. Dike estava com os olhos brilhando, um pouco suado e falando bastante: lá fora, diante da cesta de basquete que eles tinham na casa, o menino se apaixonara por Curt.
“Quer água, Curt?”, perguntou Dike.
“Chame-o de tio Curt”, disse tia Uju.
Curt riu. “Ou primo Curt. Que tal priminho Curt?”
“Você não é meu primo”, disse Dike, sorrindo.
“Eu seria, se me casasse com sua prima.”
“Isso depende de quanto você vai nos oferecer por ela!”, disse Dike.
Todos riram. Tia Uju pareceu contente.
“Quer pegar essa água e ir me encontrar lá fora, Dike?”, perguntou Curt. “Ainda temos que terminar a partida!”
Curt tocou o ombro de Ifemelu com gentileza e perguntou se estava tudo bem antes de ir lá para fora de novo.
“O na-eji gi ka akwa”, disse tia Uju, com a voz carregada de admiração.
Ifemelu sorriu. Curt de fato a segurava como se ela fosse um ovo. Com ele, ela se sentia quebrável, preciosa. Mais tarde, quando eles foram embora, Ifemelu pegou a mão dele e apertou-a; sentia-se orgulhosa — por estar com ele, por ser dele.
Certa manhã, tia Uju acordou e foi ao banheiro. Bartholomew havia acabado de escovar os dentes. Ela foi pegar sua escova de dentes e viu, dentro da pia, uma bola grande de pasta de dente. Grande o suficiente para uma escovada completa. Ali estava ela, distante do ralo, macia, derretendo. Aquilo a deixou enojada. Como exatamente alguém escovava os dentes e acabava deixando tanta pasta de dente na pia? Será que não tinha visto? Será que, quando a bola caiu na pia, ele pôs mais pasta na escova de dente? Ou simplesmente escovou os dentes daquele jeito mesmo, com uma escova quase seca, o que significaria que os dentes dele não estavam limpos? Mas o problema de tia Uju não eram os dentes de Bartholomew. Era a bola de pasta de dente na pia. Em tantas outras manhãs ela havia limpado a pasta de dente, lavado a pia. Mas naquela manhã, não. Naquela manhã, estava farta. Gritou o nome de Bartholomew sem parar. Ele perguntou o que havia de errado. Tia Uju disse que o errado era a pasta de dente na pia. Bartholomew olhou para ela e murmurou que escovara os dentes apressado, que já estava atrasado para o trabalho, e tia Uju disse que ela também tinha que ir trabalhar e que ganhava mais, caso ele tivesse esquecido. Ela estava pagando pelo carro dele, afinal de contas. Bartholomew virou as costas, furioso, e foi para baixo. Nesse ponto da história tia Uju fez uma pausa e Ifemelu imaginou Bartholomew com sua camisa de gola de cor diferente e suas calças altas demais com pregas feias na frente, imaginou-o indo embora cheio de raiva, com os joelhos virados para dentro. A voz de tia Uju estava estranhamente calma no telefone.
“Encontrei uma casa numa cidade chamada Willow. Num condomínio muito bonito, com portão, perto da universidade. Dike e eu vamos embora no próximo fim de semana”, disse tia Uju.
“Hum! Tão rápido, tia?”
“Eu tentei. Já chega.”
“O que Dike disse?”
“Disse que nunca tinha gostado de morar no meio do mato. Não disse nem uma palavra sobre Bartholomew. Willow vai ser muito melhor para ele.”
Ifemelu gostou do nome da cidade, Willow; pareceu-lhe ter o frescor de um novo começo.
Para outros Negros Não Americanos:
Nos Estados Unidos você é negro, baby
Querido Negro Não Americano, quando você escolhe vir para os Estados Unidos, vira negro. Pare de
argumentar. Pare de dizer que é jamaicano ou ganense. A América não liga. E daí se você não era negro no
seu país? Está nos Estados Unidos agora. Nós todos temos nosso momento de iniciação na Sociedade dos
Ex-Crioulos. O meu foi numa aula da faculdade, quando me pediram para dar a visão negra de algo, só que
eu não tinha ideia do que aquilo significava. Então, simplesmente inventei. Além do mais, admita: você diz “Eu
não sou negro” só porque sabe que os negros são o último degrau da escada de raças americana. E você
não quer estar ali. Não negue. E se ser negro trouxesse todos os privilégios de ser branco? Você ainda diria
“Não me chame de negro, eu sou de Trinidad?”. É, eu sabia que não. Você é negro, baby. E essa é a questão
de se tornar negro: você tem de se mostrar ofendido quando palavras como “farofeiro” e “tiziu” são usadas
de brincadeira, mesmo que não tenha a menor ideia do que está sendo dito — e, como você é um Negro
Não Americano, é provável que não saiba o que elas significam. (Na faculdade, um colega branco me
perguntou se eu gostava de melancia, eu disse que sim e outra colega disse: “Meu Deus, que coisa racista”.
Fiquei confusa e disse: “Espere, por quê?”.) Quando outro negro te cumprimenta com a cabeça num bairro
de maioria branca, você tem de retribuir. Eles chamam isso de cumprimento negro. É uma maneira que os
negros têm de dizer: “Você não está sozinho, eu estou aqui também”. Ao descrever as mulheres negras que
você admira, sempre use a palavra forte, porque, nos Estados Unidos, é isso que as mulheres negras devem
ser. Se você for mulher, por favor, não fale o que pensa como está acostumada a fazer em seu país. Porque,
nos Estados Unidos, mulheres negras de personalidade forte dão medo. E, se você for homem, seja
supertranquilo, nunca se irrite demais, ou alguém vai achar que está prestes a sacar uma arma. Quando
estiver vendo televisão e ouvir um “insulto racial” sendo usado, fique ofendido na mesma hora. Apesar de
estar pensando: “Mas por que eles não me explicam exatamente o que foi dito?”. Apesar de querer decidir
sozinho quão ofendido ficar, ou mesmo se está ofendido, ainda assim você precisa ficar muito ofendido.
Quando um crime for noticiado, reze para que não tenha sido cometido por um negro e, se por acaso
tiver sido, fique bem longe da área do crime durante semanas, ou vai acabar sendo parado pela polícia por
se encaixar no perfil dos suspeitos. Se uma caixa negra não for eficiente com a pessoa não negra que está na
fila à sua frente, elogie os sapatos ou alguma outra coisa dessa pessoa para compensar a ineficiência, pois
você é tão culpado do crime da caixa quanto ela. Se estudar numa faculdade de prestígio e um jovem
membro do Partido Republicano te disser que você só conseguiu entrar lá por causa da ação afirmativa, não
mostre seu boletim do ensino médio cheio de notas dez. Em vez isso, comente gentilmente que os maiores
beneficiários da ação afirmativa são as mulheres brancas. Se for comer num restaurante, por favor, dê
gorjetas generosas. Se não fizer isso, a próxima pessoa negra que chegar vai ser muito mal servida, porque
os garçons gemem quando veem uma mesa cheia de negros. Entenda, os negros têm um gene que faz com
que não deem gorjetas, então, por favor, lute contra esse gene. Se estiver falando com uma pessoa que não
for negra sobre alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não
reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não
demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles. Isso
se aplica apenas a liberais brancos, aliás. Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu
com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que você é o verdadeiro racista e
sua boca vai ficar aberta de espanto.