Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 38 de 55

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Capítulo 38

 

Blaine não gostava de Boubacar, e isso talvez tivesse ou não importância na história da briga deles, mas Blaine não gostava de Boubacar, e o dia de Ifemelu havia começado com uma visita à aula de Boubacar. Ela e Blaine tinham conhecido Boubacar num jantar que a universidade dera em sua homenagem; ele era um professor senegalês de pele castanho-escura que havia acabado de se mudar para os Estados Unidos para dar aula em Yale. Ele transbordava inteligência e amor-próprio. Ficou na cabeceira da mesa, bebendo vinho tinto e falando secamente sobre os presidentes franceses que já havia conhecido e as universidades francesas que tinham lhe oferecido emprego.

“Vim para os Estados Unidos porque quero escolher meu próprio mestre”, disse Boubacar. “Já que tenho de ter um mestre, melhor os Estados Unidos do que a França. Mas jamais comerei um cookie ou irei ao McDonald’s. Que coisa mais bárbara!”

Ifemelu achou-o encantador e divertido. Gostou de seu sotaque, de seu inglês pingando wolof e francês.

“Eu o adorei”, disse ela para Blaine depois.

“É interessante a maneira como ele fala coisas comuns e acha que são profundas”, disse Blaine.

“Ele é bastante cheio de si, mas todas as outras pessoas naquela mesa também eram”, disse Ifemelu. “Vocês de Yale têm de ser cheios de si para ser contratados, não têm?”

Blaine normalmente teria rido, mas daquela vez não riu. Ifemelu sentiu, em sua reação, uma antipatia territorial que era alheia à sua natureza; aquilo a surpreendeu. Blaine fingia ter um sotaque francês exagerado e imitava Boubacar. “Os africanos francófonos param para tomar um café, os anglófonos param para tomar um chá. É impossível encontrar um café au lait de verdade neste país!”

Talvez Blaine se ressentisse da rapidez com que Ifemelu se aproximara de Boubacar naquele dia depois de as sobremesas terem sido servidas, como se ele fosse uma pessoa que falava a mesma língua silenciosa que ela. Ifemelu havia provocado Boubacar a propósito dos africanos francófonos, sobre como sua mente tinha sido subjugada pelos franceses e como eles haviam se tornado frágeis, conscientes demais das desfeitas dos europeus, mas apaixonados demais por sua condição de europeus. Boubacar rira de uma maneira que demonstrava intimidade; ele não riria assim com um americano, seria mordaz se um americano ousasse dizer a mesma coisa. Talvez Blaine se ressentisse desse sentimento em comum, de algo primariamente africano do qual se sentia excluído. Mas o que Ifemelu sentia por Boubacar era fraternal, livre de desejo. Eles se encontravam com frequência para tomar chá na Livraria Atticus e conversavam — ou ela escutava, já que quase só ele falava, sobre a política no oeste da África, sua família, sua terra —, e ela sempre ia embora com a sensação de estar fortalecida.

 

Quando Boubacar lhe falou sobre a nova bolsa de estudos na área de humanas em Princeton, Ifemelu começou a olhar para seu passado. Uma inquietude havia tomado conta dela. Suas dúvidas sobre o blog aumentaram.

“Você precisa se candidatar. Seria perfeito para você”, disse ele.

“Não sou acadêmica. Nem fiz pós-graduação.”

“Quem recebe a bolsa atualmente é um músico de jazz brilhante, que só tem diploma de ensino médio. Eles querem pessoas que estão fazendo coisas novas, pioneiras. Você precisa se candidatar e, por favor, dê meu nome como referência. Nós precisamos entrar nesses lugares, entende? É a única maneira de mudar o rumo da conversa.”

Ifemelu ficou tocada, sentada ali diante de Boubacar num café e sentindo, entre eles, a afinidade calorosa de algo que é compartilhado.

Boubacar muitas vezes a tinha convidado para assistir à sua aula, que era um seminário sobre questões africanas contemporâneas. “Talvez renda um post para o blog”, disse. Assim, no dia em que começou sua briga com Blaine, ela foi à aula de Boubacar. Ficou sentada nos fundos, perto da janela. Lá fora, as folhas caíam de árvores velhas e majestosas, e pessoas com lenço protegendo o pescoço caminhavam rapidamente pela calçada com copos de papel na mão, sendo que as mulheres, em particular as asiáticas, pareciam bonitas com suas saias retas e suas botas de salto alto. Todos os alunos de Boubacar tinham laptops abertos à frente do rosto, com telas brilhantes mostrando páginas de e-mail, pesquisas no Google, fotos de celebridades. De tempos em tempos, abriam um arquivo do Word e escreviam algumas palavras do professor. Os casacos estavam pendurados nas costas das cadeiras e sua linguagem corporal jogada, levemente impaciente, dizia: nós já sabemos as respostas. Depois da aula, eles iam ao café da biblioteca comprar um sanduíche com zhou do norte da África ou curry da Índia e, quando estivessem a caminho de outra aula, um grupo de estudantes lhes daria camisinhas e pirulitos, e à noite eles iriam a um chá na casa de um professor, onde um presidente latino-americano ou um ganhador do prêmio Nobel responderia a suas perguntas como se fossem importantes.

“Seus alunos estavam todos vendo coisas na internet”, disse Ifemelu a Boubacar quando eles caminhavam para o escritório dele.

“Esses alunos não duvidam de sua presença aqui. Acreditam que deviam estar aqui, que mereceram isso e que pagam por isso. Au fond, eles nos compraram a todos. É a chave da grandeza dos Estados Unidos, essa arrogância”, disse Boubacar com uma boina de feltro preta na cabeça e as mãos enfiadas nos bolsos do paletó. “É por isso que não entendem que deviam ser gratos por eu estar diante deles.”

Eles tinham acabado de chegar ao escritório dele quando alguém bateu na porta semicerrada.

“Entre”, disse Boubacar.

Kavanagh entrou. Ifemelu já conversara com ele algumas vezes; era um professor assistente de história que tinha morado no Congo quando era criança. Tinha os cabelos encaracolados e um mau humor terrível, e parecia ser mais adequado a cobrir guerras perigosas em países distantes do que a ensinar história na faculdade. Ficou sob o umbral da porta e disse a Boubacar que ia sair em licença sabática e que o departamento ia comprar uns sanduíches no dia seguinte para fazer um almoço de despedida para ele — sanduíches chiques, tinham dito, com coisas como broto de alfafa.

“Se eu estiver entediado o suficiente, dou uma passada lá”, disse Boubacar.

“Venha também”, disse Kavanagh para Ifemelu. “Falando sério.”

“Vou, sim”, disse ela. “Almoço grátis é sempre uma boa ideia.”

Quando Ifemelu estava saindo do escritório de Boubacar, Blaine lhe mandou uma mensagem de texto. Você soube o que aconteceu com o sr. White, da biblioteca?

A primeira coisa que ela pensou foi que o sr. White tinha morrido; não sentiu uma tristeza muito grande, e sentiu-se culpada por isso. O sr. White era um segurança da biblioteca que ficava sentado ao lado da saída e olhava a contracapa de todos os livros, um homem com bolsas sob os olhos e uma pele tão escura que tinha um tom de mirtilo. Ifemelu estava tão acostumada a vê-lo sentado, apenas um rosto e um torso, que, a primeira vez que o viu caminhando, seu andar a entristeceu: tinha os ombros curvados, como que sob o peso de perdas prolongadas. Blaine havia ficado amigo do sr. White anos antes e às vezes, na hora do intervalo, ficava lá fora conversando com ele. “Ele é um livro de história”, dissera Blaine. Ifemelu já havia falado com o sr. White algumas vezes. “Ela tem uma irmã?”, perguntava ele a Blaine, apontando Ifemelu. Ou dizia “Você parece cansado, meu chapa. Alguém não deixou você dormir?” de uma maneira que Ifemelu considerava grosseira. Sempre que eles se cumprimentavam, o sr. White apertava seus dedos num gesto muito sugestivo e Ifemelu arrancava sua mão da dele e evitava olhá-lo nos olhos. Naquele aperto de mão havia uma atitude de posse, de lascívia, e por causa disso ela sempre sentira certa antipatia por ele, mas jamais contara isso a Blaine porque também lamentava por isso. Afinal, o sr. White era um velho homem negro maltratado pela vida e Ifemelu gostaria de conseguir passar por cima das liberdades que ele tomava.

“É engraçado como nunca ouvi você falar tantas gírias afro-americanas antes”, disse ela a Blaine na primeira vez em que o ouviu conversando com o sr. White. A sintaxe dele estava diferente, sua cadência, mais cheia de ritmo.

“Acho que me acostumei demais com minha voz de quando os brancos estão olhando”, disse ele. “E os negros mais jovens não conseguem mais fazer essa mudança, sabia? Os meninos de classe média não conhecem essa maneira de falar e os meninos dos bairros pobres de cidade grande só falam desse jeito, ninguém tem a fluência da minha geração.”

“Vou escrever sobre isso no blog.”

“Sabia que você ia dizer isso.”

Ifemelu mandou uma mensagem em resposta. Não, o que aconteceu? O sr. White está bem? Você já saiu do trabalho? Quer ir comer um sanduíche?

Blaine ligou para ela e pediu-lhe que esperasse na esquina da Whitney, e logo ela o viu se aproximando, um homem esbelto de suéter cinza que caminhava rapidamente.

“Oi”, disse Blaine, dando-lhe um beijo.

“Você está cheiroso”, disse Ifemelu, e ele beijou-a de novo.

“Você sobreviveu à aula de Boubacar? Apesar de não haver croissants nem pains au chocolat que prestassem?”

“Pare com isso. O que aconteceu com o sr. White?”

Enquanto eles caminhavam de mãos dadas para a loja que vendia sanduíches no bagel, Blaine lhe contou que um amigo do sr. White, que era negro, tinha ido visitá-lo no fim da tarde anterior e os dois tinham ficado parados diante da biblioteca. O sr. White dera as chaves de seu carro ao amigo, porque ele queria pegar o carro emprestado, e o amigo dera algum dinheiro ao sr. White, porque ele havia lhe emprestado dinheiro em outra ocasião. Um funcionário branco da biblioteca que estava observando os dois presumiu que os dois negros estavam vendendo drogas e chamou um supervisor. O supervisor chamou a polícia. A polícia veio e levou o sr. White para ser interrogado.

“Ai, meu Deus”, disse Ifemelu. “Ele está bem?”

“Está. Já voltou para o posto.” Blaine ficou em silêncio por um instante. “Acho que ele espera que esse tipo de coisa aconteça.”

“Essa é a verdadeira tragédia”, disse Ifemelu, percebendo que estava usando as palavras de Blaine; às vezes, ouvia em sua voz um eco da voz dele. A verdadeira tragédia de Emmett Till, dissera-lhe Blaine certa vez, não foi o assassinato de um menino negro por assoviar para uma mulher branca, mas o fato de que alguns negros pensaram: Mas por que você assoviou?

“Conversei com ele um tempo. Ele quis deixar aquilo para lá, disse que não tinha importância e preferiu falar sobre a filha, com quem está muito preocupado. Ela tem falado em largar o ensino médio. Então vou dar aulas particulares para ela. Vou conhecê-la na segunda-feira.”

“Blaine, essa é a sétima criança para quem você vai dar aula particular”, disse Ifemelu. “Vai dar aula para todas as crianças das áreas pobres de New Haven?”

Ventava e Blaine estava apertando os olhos; carros passavam por eles na Whitney Avenue, e ele virou o rosto para fitá-la com os olhos pequenos.

“Gostaria de poder fazer isso”, disse, baixinho.

“Eu queria poder te ver mais, só isso”, disse Ifemelu, colocando o braço em torno da cintura dele.

“A reação da universidade é o maior papo furado. Um simples erro que não teve nenhum cunho racial? Jura? Estou pensando em organizar um protesto amanhã, fazer as pessoas saírem na rua e dizer que isso não é aceitável. Não aqui, no nosso quintal.”

Ifemelu percebeu que Blaine já havia se decidido, que não estava só pensando em fazer aquilo. Ele se sentou numa mesa perto da porta enquanto ela foi ao balcão fazer o pedido, tão acostumada com ele, com o que gostava. Quando voltou com uma bandeja de plástico — com seu sanduíche de peru e o wrap vegetariano dele ao lado de dois saquinhos de batatas chips assadas e sem sal —, Blaine estava com a cabeça inclinada, falando ao telefone. Quando chegou a noite, ele já dera telefonemas e enviara e-mails e mensagens de texto, a notícia já havia sido passada adiante e seu telefone tocava e vibrava e soava com as respostas de pessoas dizendo que iam participar. Um aluno ligou para pedir sugestões do que escrever nos cartazes, outro estava entrando em contato com as estações de televisão locais.

Na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, Blaine disse: “Vou dar aula direto hoje, então vejo você na biblioteca, está bem? Mande uma mensagem de texto quando estiver indo para lá”.

Eles não haviam discutido aquilo. Blaine simplesmente presumira que Ifemelu estaria lá, e por isso ela disse: “Tudo bem”.

Mas ela não foi. E não tinha esquecido. Talvez Blaine a tivesse perdoado com mais facilidade se Ifemelu tivesse simplesmente esquecido; se estivesse tão absorta lendo ou escrevendo no blog que o protesto tivesse desaparecido de sua mente. Mas ela não esqueceu. Apenas preferiu ir ao almoço de despedida de Kavanagh em vez de ficar parada diante da biblioteca da universidade segurando um cartaz. Blaine não ia se importar muito, disse para si mesma. Se sentiu algum desconforto, não teve consciência dele até estar sentada numa sala de aula com Kavanagh, Boubacar e outros professores, bebericando uma garrafa de suco de oxicoco e ouvindo uma jovem falar sobre a revisão iminente de seu contrato, quando as mensagens de Blaine inundaram seu celular. Onde você está? Tudo bem? Veio bastante gente, estou procurando você. Shan apareceu de surpresa! Tudo bem? Ifemelu saiu mais cedo da festa, voltou para o apartamento e, deitada na cama, mandou uma mensagem para Blaine dizendo que sentia muito, mas tinha acabado de acordar de uma soneca que havia se estendido por tempo demais. Certo. Estou indo para casa.

Blaine chegou e a envolveu em seus braços, com uma força e uma empolgação que haviam entrado junto com ele na casa.

“Senti sua falta. Queria tanto que você tivesse ido. Fiquei tão feliz de Shan vir”, disse ele, um pouco emocionado, como se aquilo tivesse sido um triunfo pessoal seu. “Parecia um mini-Estados Unidos. Crianças negras, brancas, asiáticas, hispânicas. A filha do sr. White estava lá, tirando fotografias das fotos dele nos cartazes, e eu senti que finalmente havia devolvido um pouco de dignidade para ele.”

“Que bonito”, disse ela.

“Shan mandou um beijo. Ela está pegando um trem para voltar a Nova York agora.”

Teria sido fácil para Blaine descobrir, talvez uma menção casual de alguém que fora ao almoço, mas Ifemelu nunca soube como foi que aconteceu. Ele chegou no dia seguinte e fitou-a, um olhar cheio de raiva que parecia metálico, e disse: “Você mentiu”. A frase foi dita com um horror que a deixou perplexa, como se Blaine nunca tivesse considerado a possibilidade de ela mentir. Ifemelu teve vontade de dizer: “Blaine, as pessoas mentem”. Mas disse: “Desculpe”.

“Por quê?” Ele estava olhando-a como se ela tivesse esticado o braço e lhe arrancado a inocência e, por um segundo, Ifemelu o odiou, aquele homem que comia o miolo das maçãs e transformava até isso num ato moral.

“Não sei por quê, Blaine. Eu não estava com vontade, só isso. Não achei que você fosse se importar muito.”

“Não estava com vontade, só isso?”

“Desculpe. Eu devia ter falado do almoço.”

“Por que esse almoço subitamente ficou tão importante? Você mal conhece esse amigo de Boubacar!”, disse Blaine, incrédulo. “Você sabe que não basta escrever um blog, tem de viver como se acreditasse nisso. Aquele blog é um jogo que você não leva a sério de verdade, é como escolher uma optativa noturna interessante para completar seus créditos.” Ifemelu reconheceu, no tom de Blaine, uma acusação sutil, não apenas de preguiça, de falta de zelo e convicção, mas também de africanidade; ela não tinha ficado furiosa o suficiente porque era africana, não afro-americana.

“É injusto você dizer isso”, protestou ela. Mas Blaine tinha virado as costas para ela, gélido, em silêncio.

“Por que você não conversa comigo?”, perguntou Ifemelu. “Não entendo por que isso é tão importante.”

“Como você pode não entender? É o princípio da coisa”, disse Blaine e, naquele momento, ele se tornou um estranho para ela.

“Sinto muito mesmo”, disse Ifemelu.

Ele havia andado até o banheiro e fechado a porta.

Ela sentiu que se contorcia sob a raiva sem palavras dele. Como podia o princípio, algo abstrato que flutuava no ar, se colocar de forma tão sólida entre eles e transformar Blaine em outra pessoa? Ifemelu teria preferido que fosse uma emoção não civilizada, algo apaixonado como o ciúme ou a traição.

Ligou para Araminta. “Estou me sentindo como uma esposa confusa que liga para a cunhada para que ela lhe explique seu marido”, disse.

“No ensino médio, eu lembro que eles estavam tentando angariar fundos para alguma coisa e montaram uma mesa com biscoitos e sei lá mais o quê, e você tinha de colocar um pouco de dinheiro no pote e pegar um biscoito, e, você sabe como é, eu estava me sentindo rebelde, então peguei um biscoito e não coloquei nenhum dinheiro e Blaine ficou furioso comigo. Eu me lembro de pensar: Ei, é só um biscoito. Mas acho que, para ele, foi o princípio da coisa. Ele pode ser ridiculamente moralista às vezes. Espere um ou dois dias, Blaine vai superar isso.”

Mas passou-se um dia e depois dois, e Blaine permaneceu enclausurado em seu silêncio enregelado. No terceiro dia em que não disse nem uma palavra para Ifemelu, ela fez uma pequena mala e foi embora. Não podia voltar para Baltimore — tinha alugado seu apartamento e colocado os móveis num guarda-móveis. Por isso, foi para Willow.

 

O que os acadêmicos querem dizer quando falam em privilégio dos

brancos, ou Sim, é um saco ser pobre e branco, mas experimente

ser pobre e não ser branco

 

Bom, um cara falou para o Professor Bonitão: “Essa história de privilégio dos brancos é besteira. Como

posso ser privilegiado? Passei uma infância pobre pra cacete em West Virgínia. Sou um caipira dos

Apalaches. Minha família recebe ajuda do governo”. Tudo bem. Mas o privilégio é sempre comparado a outra

coisa. Agora imagine alguém como ele, alguém que seja tão pobre e fodido quanto ele, só que negro. Se

ambos fossem presos por, digamos, posse de drogas, seria mais provável que o cara branco fosse mandado

para um tratamento e mais provável que o cara negro fosse mandado para a cadeia. Todo o resto é igual,

exceto a raça. Veja as estatísticas. O cara que é caipira dos Apalaches é um fodido, o que não é legal, mas,

se ele fosse negro, ia ser fodido ao quadrado. Ele também disse para o Professor Bonitão: “Por que a gente

sempre tem de falar em raça, aliás? Não podemos simplesmente ser humanos?”. E o Professor Bonitão

respondeu: “É exatamente isso que é o privilégio dos brancos, o fato de você poder dizer isso. A raça não

existe realmente para você, pois nunca foi uma barreira. Os negros não têm essa escolha. O negro que mora

em Nova York não quer pensar em raça, até que tenta chamar um táxi, e não quer pensar em raça quando

está dirigindo sua Mercedes dentro do limite de velocidade, até que um policial o manda parar. Por isso, o

caipira dos Apalaches não tem privilégio de classe, mas tem privilégio de raça com certeza”. O que você

acha? Dê sua opinião, leitor, e compartilhe sua experiência, principalmente se não for negro.

P.S. O Professor Bonitão sugeriu que eu postasse isso, é um teste para ver se você tem o privilégio dos

brancos, inventado por uma mulher muito legal chamada Peggy McIntosh. Se você responder não para a

maioria das perguntas, então parabéns, você tem o privilégio dos brancos. Quer saber para que serve isso?

Quer saber a verdade? Não tenho ideia. Acho que é bom saber, só isso. Para você poder se gabar de

tempos em tempos, para melhorar seu ânimo quando estiver deprimido, esse tipo de coisa. Aí vai:

Quando você quer entrar para um clube exclusivo, se pergunta se sua raça vai dificultar a entrada? Quando você vai fazer compras sozinho numa loja cara, tem medo de ser seguido ou assediado? Quando você liga numa emissora de televisão importante ou abre um jornal importante, encontra pessoas

que são, em sua maioria, de outra raça?

Você se preocupa com o fato de que seus filhos não vão ter livros e material escolar que falem de pessoas

da raça deles?

Quando você pede um empréstimo no banco, teme que, por causa de sua raça, vá ser considerado

pouco confiável financeiramente?

Quando você xinga alguém ou se veste com roupas velhas, acha que as pessoas talvez digam que fez isso

por causa da falta de moral, da pobreza ou da ignorância de sua raça?

Quando você se sai bem em alguma situação, espera que considerem uma honra para sua raça? Ou ser

descrito como “diferente” da maioria das pessoas da sua raça?

Se você critica o governo, teme ser visto como um marginal cultural? Ou teme que alguém te diga para

“voltar para X”, X sendo um lugar fora dos Estados Unidos?

Se você é mal atendido numa loja cara e pede para ver um gerente, espera que essa pessoa seja de outra

raça que não a sua?

Se um policial de trânsito manda você parar seu carro, você se pergunta se é por causa de sua raça? Se você aceitar um emprego numa empresa que tenha uma cota de vagas para pessoas de cor, teme

que seus colegas pensem que não é qualificado e que foi contratado apenas por causa de sua raça?

Se você quer se mudar para um bairro caro, teme não ser bem recebido por causa de sua raça? Se precisar de ajuda legal ou médica, teme que sua raça possa prejudicá-lo? Quando vê roupa de baixo ou curativos “cor da pele”, já sabe que eles não vão ser da cor da sua pele?