Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 14 de 55

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Capítulo 14

 

Mas também havia Cristina Tomas. Cristina Tomas com sua cara lavada, seus olhos azuis aguados, seu cabelo desbotado e sua pele pálida. Cristina Tomas sentada na mesa de recepção com um sorriso. Cristina Tomas usando uma meia-calça esbranquiçada que fazia suas pernas parecerem de uma mulher morta. Era um dia quente, Ifemelu havia passado por alunos esparramados em gramados verdes; havia um punhado de balões de cores alegres abaixo de um cartaz que dizia BEM-VINDOS CALOUROS.

“Boa tarde. É aqui que a gente se matricula?”, perguntou ela a Cristina Tomas, cujo nome ainda não sabia.

“Isso. Você. É. Uma. Aluna. Estrangeira?”

“Sou.”

“Você. Primeiro. Precisa. Pegar. Uma. Carta. Do. Departamento. De. Alunos. Estrangeiros.”

Ifemelu deu um meio sorriso de pena, porque Cristina Tomas certamente tinha alguma espécie de doença que a fazia falar tão devagar, com os lábios espremidos fazendo um beicinho para ensinar o caminho até o departamento de alunos estrangeiros. Mas, quando ela voltou com a carta, Cristina Tomas disse “Eu. Preciso. Que. Você. Preencha. Alguns. Formulários. Você. Entende. Como. Preencher. Estes. Aqui?”, e Ifemelu entendeu que a menina estava falando desse jeito por causa dela, de seu sotaque, e durante um instante sentiu-se como uma criança pequena, de braços e pernas moles, babando.

“Eu falo inglês”, disse Ifemelu.

“Aposto que fala”, disse Cristina Tomas. “Só não sei se fala bem.”

Ifemelu se encolheu. Naquele segundo de silêncio difícil em que ficou olhando nos olhos de Cristina Tomas antes de pegar os formulários, ela se encolheu. Como uma folha seca. Falava inglês desde pequena, fora a capitã da equipe de debate no ensino médio e sempre achara a pronúncia anasalada dos americanos um pouco rudimentar; não deveria ter se acovardado e encolhido, mas o fez. E, nas semanas seguintes, conforme o frio do outono ia surgindo, começou a treinar um sotaque americano.

As aulas nos Estados Unidos eram fáceis, com deveres enviados por e-mail, salas com ar-condicionado, professores que aceitavam dar uma prova extra para aumentar a nota do aluno. Mas Ifemelu sentia-se constrangida com o que os professores chamavam de “participação” e não via por que tinha de ser parte da nota final: aquilo apenas fazia os alunos falarem sem parar, desperdiçando o tempo de aula com comentários óbvios, ocos, às vezes sem sentido. Tinha de ser porque os americanos eram ensinados, desde o ensino fundamental, a sempre dizer alguma coisa na aula, não importava o quê. E assim ela ficava com a língua travada, rodeada por alunos confortavelmente sentados, estourando de sabedoria não sobre a matéria das aulas, mas sobre como ser naquelas aulas. Eles nunca diziam “Não sei”, diziam “Não tenho certeza”, o que não transmitia nenhuma informação, mas ainda sugeria a possibilidade de conhecimento. E aqueles americanos andavam a passos de cavalo, sem ritmo. Evitavam dar instruções diretas. Não diziam “Pergunte a alguém do andar de cima”; diziam “Talvez você devesse perguntar a alguém do andar de cima”. Quando você tropeçava e caía, quando se engasgava, quando algum infortúnio o acometia, eles não diziam “Sinto muito”, mas perguntavam “Tudo bem?”, quando era óbvio que não estava tudo bem. E quando você dizia “Sinto muito” para eles quando se engasgavam, tropeçavam ou sofriam algum infortúnio, eles respondiam, com os olhos arregalados de surpresa: “Ah, não foi culpa sua”. E usavam demais a palavra “animado”, um professor animado com um livro novo, um aluno animado com uma aula, um político na televisão animado com uma lei; era animação demais. Algumas das expressões que Ifemelu ouvia todos os dias a deixavam atônita, chocada, e ela se perguntava o que a mãe de Obinze acharia delas. São uma hora. Tenho umas maçã. Que isso? “Esses americanos não sabem falar inglês, ô”, disse Ifemelu a Obinze. No primeiro dia de aula, ela fora ao centro médico e passara um pouco de tempo demais olhando fixamente para a lata cheia de camisinhas grátis que ficava num canto. Depois que fez o exame, a recepcionista disse “Tudo pronto!” e Ifemelu, sem entender, se perguntou o que “Tudo pronto” significava até presumir que já tinha feito tudo o que precisava fazer.

Todos os dias, ela acordava preocupada com dinheiro. Se comprasse todos os livros de que precisava para as aulas, não teria o suficiente para pagar o aluguel, por isso pegava-os emprestados durante as aulas e fazia anotações febris que às vezes, ao ler depois, a deixavam confusa. A amiga que fizera nas aulas, Samantha, uma mulher magra que evitava o sol, dizendo “Fico vermelha logo”, às vezes a deixava levar um livro para casa. “Fique com ele até amanhã e faça anotações se precisar”, dizia. “Sei como pode ser difícil, por isso larguei a faculdade anos atrás para trabalhar.” Samantha era mais velha e Ifemelu ficou aliviada ao tornar-se sua amiga, pois ela não era uma bobalhona de dezoito anos como tantos outros alunos de comunicação. Ifemelu nunca passava mais de um dia com os livros e às vezes se recusava a levá-los para casa. Feria seu orgulho ter de depender da boa vontade alheia. Às vezes, depois das aulas, ela se sentava num banco e ficava olhando os alunos passarem pela grande escultura cinzenta que havia no meio do pátio; todos pareciam ter a vida que queriam, podiam ter um emprego se quisessem e, acima de suas cabeças, bandeirinhas se moviam serenamente ao sabor do vento.

 

Ifemelu ansiava por compreender tudo sobre os Estados Unidos, por imediatamente ficar por dentro das coisas: torcer por um time no Super Bowl, entender o que era um Twinkie e o que significavam um lockout na temporada esportiva, medir tudo em onças e pés quadrados, pedir um muffin e dizer “Eu me dei bem” sem se sentir boba.

Obinze sugeriu que ela lesse livros americanos, romances, livros sobre história e biografias. Em seu primeiro e-mail para ela — um cibercafé havia acabado de abrir em Nsukka — passou-lhe uma lista. The Fire Next Time estava no topo. Ifemelu leu por alto o primeiro capítulo de pé diante da estante da biblioteca, preparada para achá-lo chato, mas, devagar, foi até um sofá, sentou e continuou a ler até terminar três quartos do livro, quando parou e pegou emprestados todos os livros de James Baldwin disponíveis. Ela passava seu tempo livre na biblioteca, lindamente iluminada; os diversos computadores, as salas de leitura grandes, limpas e arejadas, o ar alegre e acolhedor de tudo pareciam-lhe de uma extravagância pecaminosa. Afinal, Ifemelu estava acostumada a ler livros com páginas faltando que haviam caído por terem sido passadas por mãos demais. E, agora, estava em meio àquela sucessão de livros com lombadas inteiras. Escrevia para Obinze contando sobre o que estava lendo, cartas cuidadosas e suntuosas que abriram uma nova intimidade entre eles; finalmente, começara a compreender o poder que os livros tinham sobre ele. Ifemelu tinha ficado intrigada por Obinze querer ir a Ibadan por causa do poema; como algumas palavras podiam fazer uma pessoa ansiar por um lugar que não conhecia? Mas naquelas semanas em que descobriu fileiras e fileiras de livros com seu cheiro parecido ao do couro e sua promessa de prazeres desconhecidos, quando ficava sentada com as pernas dobradas abaixo do corpo numa poltrona no andar de baixo ou numa mesa do andar de cima com a luz fluorescente refletindo nas páginas, finalmente entendeu. Ela leu os livros da lista de Obinze, mas também escolheu alguns de forma aleatória, pegando-os sem parar das estantes, lendo um capítulo antes de decidir quais leria de uma só vez na biblioteca e quais levaria para casa. Conforme lia, as mitologias dos Estados Unidos começaram a ganhar significado e seus tribalismos — de raça, ideologia e região —, a se tornar claros. E Ifemelu se sentiu consolada pelas coisas novas que aprendeu.

 

“Você sabia que falou ‘animada’?”, perguntou Obinze certo dia, com um tom divertido na voz. “Disse que estava animada com sua nova aula de mídia.”

“Disse?”

Palavras novas estavam lhe escapulindo da boca. Colunas de névoa se desfaziam. Na Nigéria, ela lavava suas calcinhas e sutiãs todas as noites e pendurava-os num canto discreto do banheiro. Agora que os empilhava numa cesta e os jogava numa máquina de lavar, passara a ver aquilo, o empilhamento de roupas de baixo sujas, como algo normal. Falava nas aulas, sustentada pelos livros que lia, animada por poder discordar dos professores e ganhar por isso não uma bronca por não ter respeito, mas um movimento encorajador de cabeça.

“Assistimos a filmes nas aulas”, ela contou a Obinze. “Eles falam dos filmes aqui como se fossem tão importantes quanto os livros. Então vemos filmes, escrevemos uma redação sobre eles e todo mundo ganha dez ou nove. Dá para imaginar? Esses americanos não são sérios, ô.”

Em seu seminário de história a professora Moore, uma mulher minúscula e hesitante com o ar de desnutrição emocional de alguém que não tem amigos, mostrou algumas cenas do seriado Raízes, imagens vívidas sobre o quadro da sala às escuras. Quando ela desligou o projetor, uma mancha branca e fantasmagórica ficou circulando na parede por um instante antes de desaparecer. Ifemelu vira Raízes pela primeira vez em VHS com Obinze e a mãe dele, os três enfiados no sofá da casa em Nsukka. Quando Kunta Kinte estava sendo açoitado para aceitar seu nome de escravo, a mãe de Obinze se levantou de repente, tão de repente que quase tropeçou num pufe de couro, e saiu do cômodo, mas não antes de Ifemelu ver seus olhos vermelhos. Ela ficou espantada de ver que a mãe de Obinze, tão contida, reservada em sua intensa privacidade, podia chorar durante um filme. Agora, quando as persianas foram erguidas e a sala de aula mais uma vez foi inundada de luz, Ifemelu se lembrou daquela tarde de sábado e de como tinha sentido que algo lhe faltava, de como desejou poder chorar também.

“Vamos falar da representação histórica no cinema”, disse a professora Moore.

Uma voz firme de mulher vinda do fundo da sala, com um sotaque não americano, perguntou: “Por que a palavra crioulo foi censurada?”.

Um suspiro coletivo varreu a sala como uma brisa.

“Bom, isso foi gravado para a televisão e uma das coisas sobre as quais eu queria que conversássemos era como representamos a história na cultura popular. O uso dessa palavra certamente é uma parte importante disso”, explicou a professora.

“Não faz sentido para mim”, disse a voz firme. Ifemelu se voltou. O cabelo natural da menina que falava era cortado tão curto quanto o de um menino, e seu rosto bonito, testa larga e faces encovadas, a fez lembrar os habitantes do leste da África que sempre ganhavam maratonas na televisão.

“O que eu quero dizer é que crioulo é uma palavra que existe. As pessoas usam, ela faz parte dos Estados Unidos. Já causou muita dor às pessoas e eu acho um insulto censurar.”

“Bem”, disse a professora Moore, olhando em volta como quem busca ajuda.

A ajuda veio de uma voz rascante no meio da sala. “Bem, é por causa da dor que essa palavra causou que não se deve usá-la!” Aquele não alçou voo com aspereza, saído da boca de uma negra americana usando argolas de bambu.

“A questão é que toda vez que você fala essa palavra, isso machuca os afro-americanos”, disse um menino pálido de cabelos bagunçados na frente da sala.

Ifemelu ergueu a mão; Luz em agosto, de Faulkner, que ela havia acabado de ler, estava em sua mente. “Não acho que machuque sempre. Acho que depende da intenção e também de quem está usando.”

Uma menina ao seu lado ficou com o rosto muito vermelho e falou abruptamente: “Não! A palavra é a mesma, não importa quem diz”.

“Isso é uma bobagem”, disse a voz firme de novo. Uma voz sem medo. “Se minha mãe usa um galho para me bater e um estranho usa um galho para me bater, não é a mesma coisa.”

Ifemelu olhou para a professora Moore para ver como a palavra “bobagem” havia sido recebida. Ela não parecia ter notado; um terror vago congelava suas feições num sorriso ao mesmo tempo simpático e irônico.

“Concordo que seja diferente quando são os afro-americanos que dizem, mas não acho que devia ser usada nos filmes, pois assim pessoas que não devem vão querer usar e machucar os outros”, disse uma menina negra de pele clara, a última dos quatro negros da sala, que usava um suéter num tom fúcsia perturbador.

“Mas isso é negar a realidade. Se a palavra foi usada dessa maneira, então deve ser representada assim nos filmes. Esconder isso não vai mudar nada.” A voz firme.

“Bom, se vocês não tivessem vendido a gente, não íamos estar discutindo nada disso”, falou a afro-americana de voz rascante num tom mais baixo que foi, no entanto, perfeitamente audível.

A sala ficou envolta em silêncio. Então a voz surgiu de novo. “Desculpe, mas mesmo que nenhum africano tivesse sido vendido por africanos, o tráfico transatlântico de escravos ainda teria acontecido. Foi uma empreitada europeia. Os europeus estavam buscando mão de obra para as plantações.”

A professora Moore interrompeu com timidez: “Muito bem, agora vamos falar das maneiras como a história pode ser sacrificada em nome do entretenimento”.

Depois da aula, Ifemelu e a menina de voz firme se aproximaram.

“Oi. Sou Wambui. Sou do Quênia. Você é nigeriana, não é?” Ela tinha um aspecto impressionante; uma pessoa que passava a vida corrigindo tudo e todos no mundo.

“Sou. Meu nome é Ifemelu.”

Apertaram as mãos. Nas semanas seguintes, surgiria entre as duas uma amizade fácil e duradoura. Wambui era a presidente da Associação de Estudantes Africanos.

“Você não conhece a Associação? Precisa vir na próxima reunião, na quinta”, disse ela.

As reuniões aconteciam no porão do Wharton Hall, um cômodo sem janelas com luzes fortes onde havia pratos de papel, caixas de pizza e garrafas de refrigerante empilhadas numa mesa de metal e cadeiras dobráveis organizadas num semicírculo bagunçado. Nigerianos, ugandenses, quenianos, ganeses, sul-africanos, tanzanianos, zimbabuanos, um congolês e um guineano ficavam ali comendo, conversando, incentivando uns aos outros, e seus sotaques diferentes formavam redes de sons consoladores. Eles contavam, brincando, o que os americanos lhes falavam: Você fala inglês tão bem. Tem muita aids no seu país? É tão triste que as pessoas vivam com menos de um dólar por dia na África. E eles próprios caçoavam da África, trocando histórias de absurdos, de tolice, e sentiam-se seguros para caçoar, porque era algo que nascia de uma saudade, de um desejo desesperado de ver aquele lugar de novo. Ali, Ifemelu tinha uma leve sensação acalentadora de renovação. Ali, ela não precisava se explicar.

 

Wambui havia contado para todo mundo que Ifemelu estava procurando um emprego. Dorothy, a ugandesa bem feminina de longas tranças que trabalhava como garçonete na Center City, disse que o restaurante estava precisando de gente. Mas primeiro Mwombeki, o tanzaniano que estava se formando em engenharia e ciências políticas, deu uma olhada no currículo de Ifemelu e pediu-lhe que apagasse os três anos de universidade na Nigéria: os empregadores americanos não gostavam de contratar pessoas com uma educação boa demais para fazer os trabalhos mais simples. Mwombeki a fez se lembrar de Obinze, aquela segurança dele, aquela força silenciosa. Nas reuniões, fazia todo mundo rir. “Estudei em uma escola boa de ensino fundamental por causa do socialismo de Nyerere”, dizia Mwombeki sempre. “Se não fosse por isso eu agora estaria em Dar fazendo girafas de madeira para os turistas.” Quando dois alunos novos apareceram pela primeira vez, um de Gana e outro da Nigéria, Mwombeki fez para eles o que chamava de discurso de boas-vindas.

“Por favor, não vão ao Kmart comprar vinte calças jeans só porque custam cinco dólares cada. Os jeans não vão fugir. Vão estar lá amanhã, com um preço ainda menor. Vocês agora estão nos Estados Unidos: não esperem comer alimentos quentes no almoço. Esse gosto africano deve ser abolido. Quando visitarem a casa de um americano que tenha algum dinheiro, eles vão se oferecer para mostrar a casa. Esqueçam que, na casa de vocês, seu pai ia ter um ataque se alguém se aproximasse do quarto. Todo mundo aqui sabe que lugar de visita é na sala e, quando absolutamente necessário, no banheiro. Mas, por favor sorriam, vão atrás do americano, vejam a casa e não deixem de dizer que adoraram tudo. E não fiquem chocados com a maneira indiscriminada como os casais americanos se tocam. Quando houver um na fila na lanchonete, a menina vai tocar o braço do menino e o menino vai pôr o braço em volta dos ombros dela e eles vão esfregar os ombros e as costas, esfregar, esfregar, esfregar, mas, por favor, não imitem esse comportamento.”

Todo mundo estava rindo. Wambui gritou algo em suaíli.

“Logo, logo vocês vão adotar um sotaque americano, pois não vão querer que as pessoas do serviço de atendimento ao consumidor fiquem falando ‘O quê? O quê?’ no telefone. Vão começar a admirar africanos que têm um sotaque americano perfeito, como nosso irmão Kofi aqui. Os pais de Kofi vieram para cá de Gana quando ele tinha dois anos, mas não se enganem com o sotaque dele. Se forem à sua casa, verão que comem kenkey todos os dias. O pai deu uma bofetada nele quando tirou C numa matéria. Não tem bobagem de americano naquela casa. Ele vai a Gana todos os anos. Chamamos pessoas como Kofi de africanos americanos, não afro-americanos, que é como chamamos nossos irmãos e irmãs cujos ancestrais eram escravos.”

“Foi B menos, não C”, brincou Kofi.

“Tentem ficar amigos dos nossos irmãos e irmãs afro-americanos, num verdadeiro espírito de pan-africanismo. Mas não deixem de permanecer amigos de outros africanos, pois isso vai ajudar vocês a manter a perspectiva. Sempre participem das reuniões da Associação de Estudantes Africanos, mas, se quiserem muito, também podem experimentar a União dos Estudantes Negros. Por favor, notem que em geral os afro-americanos entram na União dos Estudantes Negros e os africanos entram na Associação de Estudantes Africanos. Às vezes alguém participa das duas, mas é raro. Os africanos que participam da União são aqueles sem autoconfiança que logo dizem ‘Eu originalmente sou do Quênia’, embora o Quênia lhes saia pela boca assim que eles a abrem. Os afro-americanos que vêm às nossas reuniões são aqueles que escrevem poemas sobre a Mãe África e que pensam que toda africana é uma rainha. Se um afro-americano o chamar de mandingo, ele está insultando você por ser africano. Alguns deles vão fazer perguntas irritantes sobre a África, mas outros vão se entender melhor com você. Também vão ver que pode ser mais fácil ficar amigo de outros estudantes estrangeiros, como coreanos, indianos, brasileiros, sei lá, do que com americanos, tanto negros quanto brancos. Muitos estudantes estrangeiros entendem o trauma de tentar obter um visto americano, e esse é um bom jeito de iniciar uma amizade.”

Houve mais risos, com o próprio Mwombeki rindo alto, como se não houvesse ouvido as próprias piadas antes.

Mais tarde, quando Ifemelu saiu da reunião, ela pensou em Dike e se perguntou de qual organização participaria na faculdade, da Associação de Estudantes Africanos ou da União dos Estudantes Negros, e como seria considerado, afro-americano ou africano americano. Ele teria de escolher o que seria, ou melhor, o que ele seria ia ser escolhido pelos outros.

 

Ifemelu achou que a entrevista no restaurante onde Dorothy trabalhava tinha ido bem. A vaga era de hostess e ela tinha usado sua melhor camisa, sorrido calorosamente e dado um aperto de mão firme. A gerente, uma mulher sorridente que parecia repleta de uma felicidade incontrolável, disse-lhe: “Ótimo! Foi maravilhoso conversar com você! A gente se fala em breve!”. Assim, quando o telefone tocou naquela noite, Ifemelu agarrou-o com força, torcendo para ser uma oferta de emprego.

“Ifem, kedu?”, disse tia Uju.

Tia Uju ligava vezes demais para perguntar se ela tinha conseguido um emprego. “Tia, você vai ser a primeira pessoa para quem vou ligar quando isso acontecer”, dissera Ifemelu no último telefonema, na noite anterior, mas tia Uju já estava ligando de novo.

“Bem”, disse Ifemelu, e estava prestes a acrescentar: “Ainda não consegui nada” quando tia Uju disse: “Aconteceu algo com Dike”.

“O quê?”, perguntou Ifemelu.

“A srta. Brown me disse que o viu dentro do closet com uma menina. Ela está no terceiro ano. Parece que estavam mostrando as partes íntimas um para o outro.”

Fez-se um silêncio.

“Só isso?”, perguntou Ifemelu.

“Como assim, só isso? Ele não tem nem sete anos! O que é isso? É para isso que eu vim para os Estados Unidos?”

“Lemos algo sobre isso em uma das minhas aulas outro dia. É normal. As crianças têm curiosidade em relação a essas coisas quando são bem novinhas, mas não entendem bem o que elas são.”

“Normal, kwa? Não é normal de jeito nenhum.”

“Tia, nós todos tínhamos curiosidade quando éramos crianças.”

“Não com sete anos! Tufiakwa! Onde ele aprendeu isso? O problema é essa babá que fica com ele. Desde que a Alma parou de trabalhar aqui e ele começou a ficar na casa da srta. Brown, as coisas mudaram. Está aprendendo besteiras de todas aquelas crianças sem educação. Vou me mudar para Massachusetts no fim do semestre.”

“Hum!”

“Vou terminar minha residência lá e Dike vai poder estudar numa escola melhor e ter uma babá melhor. Bartholomew vai se mudar de Boston para uma cidade pequena, Warrington, para abrir o negócio dele, então vai ser um novo começo para nós dois. O ensino fundamental de lá é muito bom. E o médico local está procurando um sócio, porque o número de pacientes tem aumentado. Já conversamos e ele está interessado em trabalhar comigo quando eu terminar a residência.”

“Você vai sair de Nova York para ir para uma cidadezinha no interior de Massachusetts? E pode interromper a residência assim?”

“Claro. Minha amiga Olga, sabe, aquela da Rússia? Ela vai embora também, mas vai ter que refazer um ano no programa novo. Quer ser dermatologista e a maior parte dos nossos pacientes aqui é negra, e ela disse que as doenças de pele são diferentes na pele negra. Ela sabe que não vai acabar numa área de maioria de população negra e por isso quer ir para um lugar onde os pacientes são brancos. Eu não a culpo. É verdade que meu programa é mais bem conceituado, mas às vezes as oportunidades de emprego são maiores em lugares menores. Além disso, não quero que Bartholomew pense que não levo nosso relacionamento a sério. Estou ficando velha. Quero começar a tentar engravidar.”

“Você vai mesmo se casar com ele.”

Tia Uju disse, com exasperação fingida: “Ifem, achei que já tínhamos passado dessa fase. Quando eu me mudar, vamos a um cartório casar, assim ele vai poder adotar Dike legalmente”.

Ifemelu ouviu o telefone bipando, o aviso de que outra pessoa estava ligando. “Tia, depois eu ligo para você”, disse, atendendo a outra chamada antes que tia Uju pudesse responder. Era a gerente do restaurante.

“Sinto muito, Ngozi”, disse ela. “Mas decidimos contratar uma pessoa mais qualificada. Boa sorte!”

Ifemelu desligou o telefone e pensou na mãe e na maneira como ela, muitas vezes, culpava o demônio. O demônio é um mentiroso. Ele quer pôr obstáculos no nosso caminho. Ficou olhando para o telefone e para as contas sobre a mesa, sentindo uma pressão sufocante aumentando no peito.