Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 27 de 55

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Americanah

Capítulo 27

 

Um crepúsculo sombrio pairava sobre Londres quando Obinze entrou no café da livraria e se sentou com um mocha e um bolinho de mirtilo. Sentia uma dor agradável na sola dos pés. Não fazia muito frio; ele estava suando com o casaco de Nicholas, que agora estava pendurado no espaldar da cadeira. Aquele era o presente que se dava todas as semanas; ir à livraria, comprar um café caro demais, ler o máximo que pudesse de graça e se tornar Obinze de novo. Às vezes, pedia para ser deixado no centro de Londres depois de uma entrega e ali vagava até parar numa livraria, onde se sentava num canto no chão, longe dos grupos de pessoas. Lia ficção americana contemporânea, porque esperava encontrar uma afinidade, um formato para seus anseios, uma ideia dos Estados Unidos do qual se imaginara parte. Queria saber como era o cotidiano na América, o que as pessoas comiam e o que as consumia, o que as envergonhava e o que as atraía, mas lia romance atrás de romance e se decepcionava: nada era grave, nada era sério, nada era urgente, e a maior parte se dissolvia num vazio irônico. Obinze lia os jornais e as revistas americanas, mas apenas folheava os jornais britânicos, porque havia cada vez mais artigos sobre imigração, que avivavam o pânico em seu peito. ESCOLAS TOMADAS DE GENTE PEDINDO ASILO. Ele ainda não tinha conseguido uma pessoa. Na semana anterior, havia se encontrado com dois nigerianos, amigos distantes de um amigo, que disseram conhecer uma mulher do Leste Europeu, e deu-lhes cem libras. Agora, os homens não retornavam suas ligações e os celulares caíam direto na caixa postal. Obinze só tinha comido metade do bolinho. Não havia percebido a rapidez com que o café ficara cheio. Estava confortável, aconchegado, e absorto em um artigo de revista quando uma mulher e um menininho se aproximaram e perguntaram se podiam se sentar à mesa com ele. Tinham a pele cor de amêndoa e os cabelos escuros. Ele imaginou que fossem de Bangladesh ou do Sri Lanka.

“Claro”, disse Obinze, tirando sua pilha de livros e revistas do lugar, embora não estivesse do lado da mesa que eles iam usar. O menino parecia ter oito ou nove anos de idade, usava um suéter do Mickey e tinha um Game Boy azul. A mulher tinha um brinco no nariz, uma minúscula pedra parecida com vidro que cintilava quando mexia a cabeça para um lado e para o outro. Ela perguntou se ele tinha espaço suficiente para suas revistas ou se queria que ela movesse um pouco a cadeira. Depois disse ao filho, num tom risonho que era claramente dirigido a Obinze, que nunca tivera certeza se aqueles pauzinhos que ficavam ao lado dos pacotes de açúcar eram para mexer a bebida.

“Não sou um bebê!”, disse o menino quando a mulher tentou cortar seu muffin.

“Só achei que ia ser mais fácil para você.”

Obinze ergueu os olhos e viu que a mulher estava conversando com o filho, mas olhando para ele com desejo e melancolia nos olhos. Esse encontro fortuito com uma estranha encheu-o de expectativa e Obinze pensou a que caminhos poderia levá-lo.

O menino tinha um rosto adorável e curioso. “Você mora em Londres?”, ele perguntou a Obinze.

“Sim”, disse Obinze, mas aquele sim não contava sua história, o fato de que morava em Londres mesmo, mas era invisível, sua existência era como um rascunho feito a lápis e apagado; cada vez que via um policial ou qualquer pessoa de uniforme, qualquer pessoa com o mais leve ar de autoridade, tinha de controlar-se para não sair correndo.

“O pai dele faleceu no ano passado”, disse a mulher numa voz mais baixa. “Essas são nossas primeiras férias em Londres sem ele. Costumávamos vir aqui todo ano antes do Natal.” A mulher não parava de assentir enquanto falava e o menino pareceu irritado, como se não quisesse que Obinze soubesse daquilo.

“Sinto muito”, disse Obinze.

“Fomos à Tate”, disse o menino.

“Você gostou?”, perguntou Obinze.

Ele fez uma careta. “Foi chato.”

A mãe dele se levantou. “Está na hora de ir. Vamos assistir a uma peça.” Ela voltou-se para o filho e acrescentou: “Você sabe muito bem que não vai entrar no teatro com esse Game Boy”.

O menino ignorou-a, disse tchau para Obinze e se virou na direção da porta. A mãe lançou a Obinze um olhar demorado, ainda mais melancólico do que antes. Talvez tivesse amado o marido profundamente e aquilo, a primeira vez que tinha consciência de se sentir atraída de novo, fosse uma revelação perturbadora. Ele ficou observando-os enquanto iam embora, conjecturando se devia se levantar e pedir o telefone dela, mas sabendo que não faria isso. Havia algo naquela mulher que o fez pensar no amor. Então, de repente, um impulso sexual o dominou. Uma maré de desejo. Ele queria transar. Ia mandar uma mensagem de texto para Tendai. Eles tinham se conhecido numa festa a que Nosa o levara e Obinze fora parar na cama dela aquela noite. Tendai, a sábia zimbabuana de quadris largos que tinha o hábito de passar tempo demais de molho na banheira. Olhou-o atônita da primeira vez em que ele limpou seu apartamento e fez arroz jollof para ela. Estava tão pouco acostumada a ser bem tratada por um homem que o observava sem parar, ansiosa, com os olhos velados, como se estivesse prendendo a respiração e esperando a violência começar. Ela sabia que ele não tinha documentos. “Se tivesse, ia ser um daqueles nigerianos que trabalham com TI e dirigem uma BMW”, disse. Ela tinha um visto temporário, ia conseguir um passaporte britânico em um ano e dera a entender que talvez estivesse disposta a ajudá-lo. Mas Obinze não queria a complicação de casar com Tendai para obter cidadania; um dia, ela ia acordar e se convencer de que não tinha sido só por causa disso.

Antes de sair da livraria, mandou-lhe uma mensagem: Está em casa? Estava pensando em passar aí. Caía uma chuva fina e gelada enquanto caminhava até a estação do metrô, com gotículas molhando seu casaco. Ao chegar lá, ficou absorto ante o número de cusparadas que havia nos degraus. Por que as pessoas não esperavam sair da estação para cuspir? Obinze se sentou no assento manchado do metrô barulhento, diante de uma mulher que estava lendo a edição vespertina do jornal. A manchete era FALEM INGLÊS EM CASA, DIZ BLUNKETT A IMIGRANTES . Ele imaginou o artigo. Havia tantos assim nos jornais e apenas repetiam o que era dito no rádio e na televisão e até na conversa de alguns homens do depósito. O vento que soprava nas Ilhas Britânicas estava impregnado do cheiro do medo de quem pedia asilo, infectando a todos com o pânico de uma catástrofe iminente. Assim, esses artigos eram escritos e lidos, de forma simples e histérica, como se seus autores vivessem num mundo onde o presente não tinha ligação com o passado e nunca tivessem considerado que esse era o curso normal da história: a chegada em massa à Inglaterra de negros vindos de países criados pelo Reino Unido. Mas Obinze entendia. Só podia ser reconfortante negar a história daquela maneira. A mulher fechou o jornal e olhou para ele. Tinha cabelos castanhos esparsos e olhos mesquinhos e desconfiados. Ele se perguntou o que ela estaria pensando. Será que estava imaginando se ele seria um daqueles imigrantes ilegais que entupiam uma ilha já cheia de gente? Mais tarde, no trem para Essex, notou que todas as pessoas ao redor eram nigerianas, que vozes altas falando em ioruba e pidgin tomavam o vagão e, por um momento, viu o estrangeirismo não branco desabrido daquela cena através dos olhos desconfiados da mulher branca do metrô. Pensou mais uma vez na mulher de Bangladesh ou do Sri Lanka e na sombra de tristeza da qual só agora estava emergindo, pensou em sua mãe, em Ifemelu, na vida que havia imaginado para si e na vida que tinha agora, com suas camadas de trabalho e leitura, pânico e esperança. Nunca se sentira tão sozinho.