Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 7 de 55

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Capítulo 7

 

Obinze queria estudar na Universidade de Ibadan por causa de um poema.

Ele leu o poema para Ifemelu, “Ibadan”, de J. P. Clark, demorando-se a pronunciar o verso “mancha corrente de ferrugem e ouro”.

“Está falando sério?”, perguntou ela. “Por causa desse poema?”

“É tão lindo.”

Ifemelu balançou a cabeça numa incredulidade fingida e exagerada. Também queria estudar em Ibadan, mas porque tia Uju estudara lá. Eles preencheram juntos os formulários de admissão, sentados à mesa de jantar enquanto a mãe de Obinze andava de um lado para o outro e espiava, dizendo: “Estão usando o lápis certo? Não deixem de reler tudo. Já ouvi falar dos erros mais improváveis, vocês não iam acreditar”.

“Mamãe, vai ser mais fácil a gente não cometer nenhum erro se você parar de falar”, disse Obinze.

“Você devia pelo menos manter Nsukka como segunda opção”, disse a mãe dele. Mas Obinze não queria estudar em Nsukka, queria fugir da vida que sempre tivera, e Nsukka, para Ifemelu, soava remota e empoeirada. Assim, ambos concordaram em deixar a Universidade de Lagos como segunda opção.

No dia seguinte, a mãe de Obinze desmaiou na biblioteca. Um estudante encontrou-a esparramada no chão como um trapo, com um pequeno galo na cabeça, e Obinze disse a Ifemelu: “Graças a Deus a gente ainda não entregou os formulários de admissão”.

“Como assim?”

“Minha mãe vai voltar a Nsukka no fim do semestre. Tenho que ficar perto dela. O médico disse que isso vai continuar a acontecer.” Ele fez uma pausa. “Podemos nos ver nos feriados. Eu vou a Ibadan e você vem a Nsukka.”

“Você é bobo”, disse ela. “Biko, eu também vou mudar minha escolha para Nsukka.”

A mudança agradou ao pai de Ifemelu. Era encorajador, disse ele, que fosse fazer faculdade dentro da região de maioria igbo, já que passara a vida toda no oeste. Já a mãe de Ifemelu ficou chateada. Ibadan era a apenas uma hora de distância, enquanto para chegar a Nsukka era preciso viajar um dia inteiro de ônibus.

“Não é um dia inteiro, mamãe, só sete horas”, disse Ifemelu.

“E qual a diferença entre isso e um dia?”, perguntou ela.

Ifemelu estava ansiosa por morar longe de casa, pela independência de ser dona de seu próprio tempo, e era confortante pensar que Ranyinudo e Tochi iam para Nsukka também. Assim como Emenike, que perguntou a Obinze se eles podiam ser companheiros de quarto no alojamento masculino. Obinze concordou. Ifemelu lamentou isso. “Tem alguma coisa no Emenike”, disse ela. “Bom, desde que ele suma quando a gente estiver fazendo teto…”

Mais tarde, Obinze perguntou, sem estar totalmente brincando, se Ifemelu achava que o desmaio de sua mãe fora deliberado, um truque para mantê-lo por perto. Durante um longo tempo ele falou de Ibadan num tom de quem lamentava não ter ido para lá, até que visitou o campus para participar de um torneio de tênis de mesa e, ao voltar, disse para Ifemelu com certa vergonha: “Ibadan me fez lembrar de Nsukka”.

 

Ir a Nsukka era finalmente ver a casa de Obinze, uma casa térrea num terreno repleto de flores. Ifemelu imaginou-o na infância, andando de bicicleta na ladeira, voltando para casa da escola fundamental com sua mochila e sua garrafa de água. Ainda assim, Nsukka a desorientava. Ela achou a cidade lenta demais, a poeira vermelha demais, as pessoas satisfeitas demais com a pequenez de suas vidas. Mas passaria a amar o lugar, um amor hesitante a princípio. Da janela do quarto da residência em que morava, onde quatro camas ficavam espremidas num espaço onde só cabiam duas, podia ver a entrada do Bello Hall. Pés altos de gamelina balançavam ao sabor do vento e, abaixo deles, ambulantes tomavam conta de bandejas com bananas e castanhas moídas, e os okadas, os mototáxis, estacionavam bem perto uns dos outros, conversando e rindo, mas sempre alertas aos fregueses. Ifemelu colocou um papel de parede azul de um tom bem alegre em seu canto e, como ouvira falar de brigas entre colegas de quarto — uma aluna do último ano, diziam, despejara querosene na gaveta de uma do primeiro por ser desaforada demais —, achou que dera sorte com as suas. Eram meninas simpáticas, e em pouco tempo ela estava emprestando e pegando emprestadas as coisas que acabavam rápido, como pasta de dente, leite em pó, macarrão instantâneo e gel. Quase todas as manhãs, acordava ouvindo um murmúrio de vozes no corredor, com as alunas católicas rezando o terço, e corria para o banheiro, para pegar um balde de água antes que acabasse e usar a privada antes que ficasse insuportavelmente entupida. Às vezes, quando se atrasava e as privadas já estavam repletas, ela ia à casa de Obinze, mesmo que ele não estivesse lá. Quando a empregada, Augustina, abria a porta, dizia: “Tina-Tina, como vai? Vim usar o banheiro”.

Ifemelu muitas vezes almoçava na casa de Obinze, ou então os dois iam para a cidade, para o restaurante Onyekaozulu, e ficavam sentados nos bancos de madeira em meio à penumbra do lugar comendo, em pratos esmaltados, a mais tenra das carnes e o mais saboroso dos cozidos. Ela passava algumas noites no alojamento masculino em que ficava Obinze, relaxando no colchão dele, que ficava no chão, e ouvindo música. Às vezes, dançava só de calcinha, mexendo os quadris, enquanto Obinze caçoava dela por ter a bunda pequena. “Eu ia mandar você sacudir, mas não tem nada aí para sacudir.”

A universidade era maior e mais espaçosa, havia lugares, muitos lugares, onde se esconder; Ifemelu não se sentia deslocada, porque havia muitas opções de grupos aos quais pertencer. Obinze achava graça de quão popular ela já era, com um quarto cheio de gente durante a agitação do começo do primeiro ano e meninos do último ano passando ali, ansiosos para ver se davam sorte, embora houvesse uma grande foto de Obinze acima de sua cama. Os meninos a divertiam. Eles vinham, sentavam em sua cama e se ofereciam, com um ar solene, para “te mostrar o campus”, e Ifemelu imaginava-os dizendo as mesmas palavras com o mesmo tom para a menina nova do quarto seguinte. Um deles, no entanto, era diferente. Seu nome era Odein. Ele foi ao quarto dela não como parte do agito, mas para conversar com suas colegas de quarto sobre a união estudantil e, depois disso, aparecia para fazer uma visita, dizer oi, às vezes trazendo um pacote de suya, quente e apimentado, embrulhado em jornal manchado de óleo. Seu ativismo surpreendia Ifemelu — ele parecia um pouco sofisticado demais, um pouco esperto demais, para fazer parte da direção da união dos estudantes —, mas também a impressionava. Odein tinha lábios grossos e perfeitos, o inferior do mesmo tamanho que o superior, lábios que eram ao mesmo tempo sonhadores e sensuais. Conforme ele falava — “Se os estudantes não se unirem, ninguém vai nos escutar” —, Ifemelu se imaginava beijando-o, da maneira como se imaginava fazendo algo que sabia que jamais faria. Foi por causa dele que participou do protesto e convenceu Obinze a participar também. Eles gritaram “Não tem luz! Não tem água!” e “O vice-reitor é um tolo!” e viram-se sendo arrastados pela multidão até a frente da casa do vice-reitor. Garrafas foram quebradas, um carro foi incendiado e então o vice-reitor apareceu, diminuto, cercado por seguranças, falando num tom apaziguador.

Mais tarde, a mãe de Obinze disse: “Entendo as reivindicações dos estudantes, mas nós não somos o inimigo. Os militares são o inimigo. Eles não pagam nosso salário há meses. Como podemos dar aula se não podemos comer?”. Mais tarde ainda, espalhou-se pelo campus a notícia de que os professores iam fazer greve e os alunos se reuniram no saguão da residência, ouriçados com o que sabiam e com o que não sabiam. Era verdade, a representante da residência confirmou a notícia e todos eles suspiraram, contemplando esse feriado súbito e indesejado, e voltaram para seus quartos para fazer as malas; a residência ia ser fechada no dia seguinte. Ifemelu ouviu uma menina dizendo ali ao lado: “Eu não tenho nem dez kobos para pagar a passagem para casa”.

 

A greve durou tempo demais. As semanas se arrastaram. Ifemelu estava inquieta, impaciente; escutava o noticiário no rádio todos os dias, esperando ouvir que a greve havia acabado. Obinze telefonava para a casa de Ranyinudo para falar com ela; Ifemelu chegava minutos antes do horário em que ele havia combinado de ligar e ficava sentada ao lado do telefone de disco cinza, esperando que tocasse. Sentia-se separada de Obinze, cada um vivendo e respirando numa esfera diferente, ele entediado e desanimado em Nsukka, ela entediada e desanimada em Lagos, e tudo o mais numa letargia rançosa. A vida se tornara um filme imenso e pausado. Sua mãe lhe perguntou se ela queria assistir às aulas de costura na igreja para mantê-la ocupada e seu pai afirmou que aquilo, aquela greve interminável nas universidades, era o motivo pelo qual os jovens se tornavam bandidos armados. A greve era nacional e todos os amigos de Ifemelu estavam nas casas dos pais, até Kayode, de férias da universidade americana. Ela visitava os amigos e ia a festas, lamentando que Obinze não morasse em Lagos. Às vezes Odein, que tinha carro, ia buscá-la e a levava aonde quer que ela precisasse ir. “Aquele seu namorado tem sorte”, disse Odein e Ifemelu riu, flertando com ele. Ainda imaginava como seria beijar aquele menino de olhos castanho-escuros e lábios grossos.

Certo fim de semana, Obinze foi fazer uma visita e ficou hospedado na casa de Kayode.

“O que está acontecendo com você e esse tal de Odein?”, perguntou ele.

“O quê?”

“Kayode disse que ele levou você para casa depois da festa de Osahon. Você não me contou.”

“Eu esqueci.”

“Entendi.”

“Contei que ele veio me buscar no outro dia, não contei?”

“Ifem, o que está acontecendo?”

Ela suspirou. “Teto, não é nada. Ele me deixa curiosa. Não vai acontecer nada, nunca. Mas ele me deixa curiosa. Tem outras meninas que deixam você curioso, não tem?”

Ele estava observando-a com medo nos olhos. “Não”, respondeu com frieza. “Não tem.”

“Seja honesto.”

“Estou sendo honesto. O problema é que você pensa que todo mundo é igual a você. Pensa que o normal é ser como você, mas não é.”

“O que você quer dizer?”

“Nada. Esquece.”

Obinze não quis mais falar no assunto, mas a atmosfera entre eles foi afetada e permaneceu perturbada por dias, mesmo depois de ele ir para casa, de modo que, quando a greve acabou (“Os professores encerraram a greve! Graças a Deus!”, gritou Chetachi do apartamento dela certa manhã) e Ifemelu voltou, eles ficaram vacilantes um com o outro nos primeiros dias, pisando em ovos quando conversavam, dando abraços mais curtos.

Ifemelu ficou surpresa ao constatar o quanto sentira falta da própria Nsukka, do ritmo lento da rotina, dos amigos reunidos em seu quarto até depois da meia-noite, das fofocas tolas que eram contadas e repetidas, das escadas pelas quais ela subia e descia devagar, como num despertar gradual, e de todas as manhãs embranquecidas pelo harmatão. Em Lagos, o harmatão era um véu de bruma, mas em Nsukka era uma presença furiosa, mercurial; as manhãs eram frescas, as tardes eram cinzentas de calor e as noites, nunca se sabia. Redemoinhos de poeira tinham início ao longe, muito bonitos de ver desde que estivessem distantes, e rodopiavam até cobrir tudo de marrom. Até os cílios. Por todo lado, a umidade era sorvida sofregamente; o laminado de madeira das mesas descascava e se enrolava, as páginas dos livros de exercícios ficavam quebradiças, as roupas secavam minutos após serem penduradas, os lábios rachavam e sangravam, e todos mantinham Robb e Mentholatum à mão, nos bolsos e nas bolsas. As pessoas passavam vaselina na pele para fazê-la brilhar e as partes esquecidas — entre os dedos ou nos cotovelos — assumiam um aspecto acinzentado e opaco. Os galhos das árvores ficavam nus e, sem as folhas, cobriam-se numa espécie de desolação orgulhosa. Os bazares das igrejas deixavam o ar fragrante e enfumaçado devido aos muitos pratos preparados. Em algumas noites, o calor era tão espesso quanto uma toalha. Em outras, um vento frio e cortante surgia e Ifemelu abandonava seu quarto e se aninhava ao lado de Obinze no colchão dele, ouvindo as casuarinas emitindo assobios lá fora, num mundo subitamente frágil e quebrável.

 

Os músculos de Obinze doíam. Ele estava deitado de barriga para baixo com Ifemelu montada atrás, massageando suas costas, seu pescoço e suas coxas com os dedos, as mãos, os cotovelos. Seu corpo estava dolorosamente contraído. Ela ficou de pé em cima dele e colocou primeiro um pé, depois o outro, com cuidado, sobre uma coxa. “Isso é bom?”

“É.” Ele gemeu com uma mistura de prazer e dor. Ifemelu fez uma pressão devagar, sentindo sua pele quente sob a sola dos pés, os músculos tensos se soltando. Ela se firmou com uma das mãos na parede e enfiou os calcanhares mais fundo, avançando um centímetro de cada vez enquanto Obinze grunhia: “Ah! Isso, Ifem, aí. Ah!”.

“Você devia se alongar depois de jogar bola, rapazinho”, disse ela, e num segundo estava deitada sobre suas costas, fazendo cócegas em suas axilas e beijando seu pescoço.

“Tenho uma sugestão para uma massagem melhor”, disse Obinze. Ao tirar a roupa de Ifemelu, ele não parou, como sempre fazia, ao chegar na calcinha. Tirou-a também, e Ifemelu ergueu as pernas para ajudar.

“Teto”, disse ela, incerta. Não queria que ele parasse, mas imaginara aquilo de um jeito diferente, presumindo que iam fazer da ocasião algo mais formal, mais planejado.

“Eu gozo fora”, disse ele.

“Você sabe que isso nem sempre dá certo.”

“Se não der certo, a gente cuida bem do Júnior.”

“Pare com isso.”

Obinze encarou-a. “Mas, Ifem, a gente vai se casar de qualquer jeito.”

“Quem disse? Posso conhecer um homem rico e bonito e largar você.”

“Impossível. Vamos para os Estados Unidos quando nos formarmos criar nossos lindos filhos.”

“Você vai dizer qualquer coisa agora, pois seu cérebro está entre as pernas.”

“Meu cérebro sempre está lá!”

Ambos estavam rindo, mas a risada estagnou e deu lugar a uma seriedade nova e estranha, uma união escorregadia. Para Ifemelu, era como uma cópia malfeita, uma imitação desajeitada de como ela imaginara que seria. Depois que Obinze saiu de dentro dela, tendo espasmos, ofegando e segurando o pênis, ela ficou com uma sensação de desconforto. Tinha passado o tempo todo tensa, sem conseguir relaxar. Imaginara a mãe dele observando-os; a imagem havia se forçado para dentro de sua mente e, o que era mais esquisito, fora uma imagem dupla, da mãe de Obinze e de Onyeka Onwenu, ambas fitando-a sem piscar. Ifemelu sabia que não podia contar de jeito nenhum à mãe de Obinze o que tinha acontecido, embora tivesse prometido e acreditado que ia mesmo fazê-lo. Mas, agora, não via como seria possível. O que ela diria? Que palavras usaria? Será que esperaria detalhes? Os dois deviam ter planejado aquilo melhor; assim, ela saberia como contar à mãe dele. A falta de planejamento a deixara um pouco abalada, desapontada. De alguma maneira parecia não ter valido a pena, no final das contas.

Uma semana depois, quando Ifemelu acordou com dor, uma dor fina e aguda na lateral do corpo e uma náusea enorme que se espalhava por ele todo, entrou em pânico. Então vomitou e o pânico cresceu.

“Aconteceu”, ela disse a Obinze. “Fiquei grávida.” Eles haviam se encontrado, como sempre, diante do refeitório Ekpo depois da aula da manhã. Outros alunos jogavam conversa fora. Um grupo de meninos estava fumando e rindo perto deles e, por um instante, pareceram-lhe estar rindo dela.

Obinze franziu o cenho. Não pareceu entender o que Ifemelu estava dizendo. “Mas, Ifem, não pode ser. Foi rápido demais. Além do mais, eu gozei fora.”

“Eu disse para você que isso não funciona!”, exclamou ela. Subitamente ele lhe pareceu jovem, um menininho confuso fitando-a, indefeso. Seu pânico cresceu. Num impulso, ela chamou um okada que passava, pulou na garupa e disse ao motorista que queria ir para a cidade.

“Ifem, o que você está fazendo?”, perguntou Obinze. “Aonde você vai?”

“Ligar para tia Uju”, disse ela.

Obinze subiu no okada seguinte e logo estava à toda atrás dela, passando pelos portões da universidade e pelo edifício da Nitel, onde Ifemelu deu ao homem atrás do balcão descascado um pedaço de papel com o telefone de tia Uju. Ela falou em código no telefone, inventando-o na hora, por causa das pessoas paradas ali, algumas esperando para fazer seus próprios telefonemas, outras apenas sem fazer nada, mas todas escutando com um interesse aberto e descarado a conversa de quem falava.

“Tia, acho que o que aconteceu com você logo antes de Dike vir aconteceu comigo”, disse Ifemelu. “Comemos semana passada.”

“Só na semana passada? Quantas vezes?”

“Uma.”

“Ifem, fique calma. Não acho que esteja grávida. Mas precisa fazer um teste. Não vá ao centro médico do campus. Vá até a cidade, onde ninguém conhece você. Mas se acalme antes. Vai dar tudo certo, inugo?”

Mais tarde, Ifemelu se sentou numa cadeira bamba da sala de espera do laboratório, gélida e silenciosa, ignorando Obinze. Estava com raiva dele. Era injusto, sabia, mas estava com raiva dele. Quando entrara no banheiro sujo com o potinho que a funcionária do laboratório lhe dera, ele perguntara, já se levantando: “Quer que eu vá com você?”, e ela respondera, irritada: “Vir comigo para quê?”. E tinha sentido vontade de dar um tapa na funcionária. Uma menina de cara amarelada, magra feito um poste, que fez um muxoxo de desprezo e balançou a cabeça quando Ifemelu disse: “Teste de gravidez”, como se não acreditasse estar diante de mais uma prova de imoralidade. Agora, estava observando os dois com um sorrisinho superior, cantarolando insolentemente.

“Estou com o resultado”, disse a menina depois de algum tempo, segurando o papel aberto com uma expressão de decepção, pois dera negativo. Ifemelu sentiu-se atônita demais para ficar aliviada a princípio e depois teve que urinar de novo.

“As pessoas deviam se respeitar e viver como cristãos para evitar problemas”, disse a menina quando estavam indo embora.

Naquela noite, Ifemelu vomitou de novo. Estava deitada no quarto de Obinze, lendo, ainda fria com ele, quando um jato de saliva salgada lhe encheu a boca e ela deu um salto e correu para o banheiro.

“Deve ter sido alguma coisa que comi”, disse ela. “Aquele caldo de inhame que comprei da Mama Owerre.”

Obinze foi à secretaria dos alojamentos e voltou dizendo que sua mãe ia levá-la ao médico. Era de noitinha, a mãe de Obinze não gostava do jovem que ficava de plantão no centro médico no fim da tarde e, por isso, dirigiu até a casa do dr. Achufusi. Quando passaram pela escola de ensino fundamental com sua sebe de casuarina aparada, Ifemelu subitamente imaginou que estava mesmo grávida e que a menina usara elementos químicos fora da data de validade no laboratório sujo. Num impulso, ela disse: “A gente fez sexo, tia. Uma vez”. Ifemelu sentiu Obinze ficar tenso ao seu lado. A mãe dele olhou-a pelo retrovisor. “Vamos ver o médico primeiro”, disse ela. O dr. Achufusi, um homem avuncular e simpático, apertou a lateral do corpo de Ifemelu e disse: “É seu apêndice, está muito inflamado. Precisamos fazer uma cirurgia de retirada logo”. Ele se voltou para a mãe de Obinze. “Posso marcar para amanhã à tarde.”

“Muito obrigada, doutor”, disse ela.

No carro, Ifemelu disse: “Eu nunca fiz uma cirurgia, tia”.

“Não é nada”, disse a mãe de Obinze imediatamente. “Os médicos daqui são muito bons. Ligue para seus pais e diga para eles não se preocuparem. Vamos cuidar de você. Depois de receber alta, pode ficar lá em casa até sarar.”

Ifemelu ligou para a colega de sua mãe, tia Bunmi, e mandou-lhe uma mensagem e o telefone da casa de Obinze. Naquela noite, sua mãe ligou; parecia ofegante.

“Deus está no controle, querida”, disse. “Graças a Deus por essa sua amiga. Deus vai abençoar a ela e à mãe dela.”

“É ele. Um menino.”

“Ah.” A mãe fez uma pausa. “Por favor, agradeça a eles. Deus os abençoe. Vamos pegar o primeiro ônibus amanhã de manhã para Nsukka.”

Ifemelu se lembraria de uma enfermeira raspando alegremente seus pelos púbicos, da aspereza da gilete, do cheiro de antisséptico. Então veio um vazio, um apagão, e, quando ela saiu dele, grogue e ainda cambaleando à beira da memória, ouviu seus pais conversando com a mãe de Obinze. A mãe estava segurando sua mão. Depois, a mãe de Obinze pediria que eles ficassem em sua casa, pois não fazia sentido desperdiçar dinheiro num hotel. “Ifemelu é como uma filha para mim”, disse.

Antes de os pais de Ifemelu voltarem para Lagos, seu pai disse, com a reverência intimidada que sentia diante de quem havia estudado muito: “Ela tem um bacharelado de primeira classe em Londres”. E sua mãe disse: “É um menino muito respeitoso, esse Obinze. Foi bem-educado. E a aldeia deles não é longe da nossa”.

 

A mãe de Obinze esperou alguns dias, talvez aguardando até que Ifemelu estivesse se sentindo mais forte, antes de chamá-los e pedir que se sentassem e desligassem a televisão.

“Obinze e Ifemelu, as pessoas cometem erros, mas alguns deles podem ser evitados.”

Obinze ficou em silêncio. Ifemelu disse: “Sim, tia”.

“Vocês precisam usar camisinha sempre. Se quiserem ser irresponsáveis, esperem até não serem mais responsabilidade minha.” O tom dela estava mais duro, passara a ser de repreensão. “Se escolherem ter uma vida sexual ativa, então devem se proteger. Obinze, você deve usar sua mesada para comprar camisinhas. Ifemelu, você também. Não quero saber se tem vergonha. Tem de entrar na farmácia e comprar. Nunca, nunca deixe o menino ficar a cargo de sua proteção. Se ele não quiser usar, é porque não gosta o suficiente de você, e você não devia estar ali. Obinze, você pode não ser a pessoa que corre o risco de ficar grávida, mas, se isso acontecer, vai mudar sua vida toda e nunca mais vai poder voltar atrás. E, por favor, façam isso apenas um com o outro. As doenças estão em todo lugar. A aids é real.”

Eles ficaram em silêncio.

“Vocês me ouviram?”, perguntou a mãe de Obinze.

“Sim, tia”, disse Ifemelu.

“Obinze?”

“Ouvi, mamãe”, disse Obinze, acrescentando, irritado: “Eu não sou criança!”. Então se levantou e saiu, altivo, da sala.