Americanah
Capítulo 26
Obinze-Vincent informou a agência, após a experiência com a merda enrolada na tampa da privada, que não ia voltar para aquele emprego. Ele leu com avidez os classificados, deu telefonemas e torceu, até que a agência lhe ofereceu outro, limpando corredores largos num depósito de embalagem de detergente. Um brasileiro macilento de cabelos escuros limpava o prédio ao lado. “Meu nome é Vincent”, disse Obinze quando eles se conheceram na sala dos fundos.
“Sou o Dee.” Ele fez uma pausa. “Bom, você não é inglês. Vai saber falar. Meu nome mesmo é Duerdinhito, mas os ingleses não conseguem pronunciar, então me chamam de Dee.”
“Duerdinhito”, disse Obinze.
“Isso!” Um sorriso radiante. Um pequeno laço entre estrangeiros. Enquanto esvaziavam os aspiradores de pó, conversaram sobre as Olimpíadas de 1996, Obinze se gabando de como a seleção de futebol da Nigéria tinha vencido o Brasil e depois a Argentina.
“Kanu era bom, isso eu reconheço”, disse Duerdinhito. “Mas a Nigéria deu sorte.”
Toda noite, Obinze ficava coberto por uma poeira química branca. Coisas arenosas ficavam presas em seus ouvidos. Ele tentava não respirar fundo demais enquanto limpava, temendo os perigos que flutuavam no ar, até que o gerente lhe disse que ia ser demitido devido a cortes no pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que montava cozinhas, semana após semana sentado ao lado de motoristas brancos que o chamavam de “operário”, indo a obras repletas de barulhos e capacetes, tendo de subir longas escadas carregando ripas de madeira, sem ajuda e sem incentivo. Pelo silêncio que mantinham enquanto dirigiam e pelo tom com que diziam “operário!”, Obinze sentia a antipatia dos motoristas. Uma vez, quando ele tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão séria que voltou para o caminhão mancando, o motorista disse aos outros no depósito: “Não ficou roxo porque já é preto!”. Eles riram. Sua hostilidade o irritava, mas apenas ligeiramente; o que lhe importava é que ganhava quatro libras por hora, mais quando fazia hora extra. Quando foi mandado para um novo depósito de entrega em West Thurrock, temeu não ter tempo para fazer hora extra.
O gerente do novo depósito parecia o arquétipo do inglês que Obinze tinha na mente, alto e esguio, com cabelos cor de areia e olhos azuis. Mas ele era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os ingleses não eram sorridentes. Seu nome era Roy Snell. Apertou vigorosamente a mão de Obinze.
“Então, Vincent, você é da África?”, perguntou, enquanto mostrava a Obinze o depósito, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior que o último, e cheio de caminhões sendo carregados, de caixas de papelão desmontadas sendo dobradas num buraco fundo, de homens conversando.
“Sim, nasci em Birmingham e voltei para a Nigéria quando tinha seis anos.” Era a história que ele e Iloba tinham concordado ser a mais convincente.
“Por que você voltou? As coisas estão muito ruins na Nigéria?”
“Eu só queria tentar uma vida melhor aqui.”
Roy Snell assentiu. Parecia ser o tipo de pessoa que poderia ser descrita como “risonha”. “Você vai trabalhar com Nigel hoje, ele é o mais novo”, disse, mostrando com um gesto um homem branquelo e gorducho, cabelos escuros espetados e um rosto quase de querubim. “Acho que vai gostar de trabalhar aqui, Vinny!” Ele tinha levado cinco minutos para ir de Vincent a Vinny e, nos meses seguintes, quando eles jogavam tênis de mesa durante o horário do almoço, Roy dizia aos outros: “Preciso ganhar do Vinny para variar!”. Eles davam risadinhas e repetiam “Vinny”.
Obinze achava divertido o entusiasmo com que os homens folheavam o jornal todas as manhãs, parando na foto da mulher de seios grandes, examinando-a como se fosse um artigo de grande interesse e como se fosse diferente da foto da mesma página no dia anterior ou na semana anterior. Suas conversas, conforme esperavam que os caminhões fossem carregados, eram sempre sobre futebol e, principalmente, mulheres, com cada homem contando histórias que pareciam apócrifas demais e parecidas demais com uma história contada no dia anterior, na semana anterior, e a cada vez que eles mencionavam calcinhas — a garota mostrou as calcinhas — Obinze achava ainda mais divertido, porque calcinhas, na Nigéria, eram só calças pequenas, e ele imaginava aquelas mulheres núbeis de calças curtas e largas, do tipo que ele usava na escola.
O cumprimento matinal de Roy Snell era uma cutucada na barriga. “Vinny! Tudo indo? Tudo indo?”, perguntava. Ele sempre colocava o nome de Obinze na lista de quem ia fazer os trabalhos externos que pagavam mais, sempre perguntava se ele queria trabalhar no fim de semana, quando pagavam o dobro, sempre perguntava sobre meninas. Era como se Roy tivesse uma afeição especial por ele, ao mesmo tempo protetora e gentil.
“Você não trepa desde que chegou no Reino Unido, não é, Vinny? Posso te dar o telefone de uma garota”, disse ele certa vez.
“Tenho uma namorada na Nigéria”, disse Obinze.
“E o que tem de mau numa trepadinha?”
Alguns homens que estavam por ali riram.
“Minha namorada tem poderes mágicos.”
Roy achou isso mais engraçado do que Obinze. Riu sem parar. “Ela gosta de bruxaria, é isso? Muito bem, nada de trepadinha para você. Sempre quis ir à África, Vinny. Acho que vou tirar férias e ir visitar você na Nigéria quando estiver lá. Pode me mostrar tudo, me arrumar umas nigerianas… Mas nada de bruxaria, Vinny!”
“Claro, pode ser.”
“Ah, pode ser mesmo! Você parece um cara que sabe o que fazer com as garotas!”, disse Roy, com mais uma cutucada na barriga de Obinze.
Roy sempre colocava Obinze para trabalhar com Nigel, talvez por serem os mais novos do depósito. Naquela primeira manhã, Obinze notou que, enquanto bebiam café em copos de papel e olhavam o quadro para ver quem ia trabalhar com quem, os outros estavam rindo de Nigel. Ele estava sem as sobrancelhas, e os pedaços de pele levemente rósea onde elas deviam estar davam a seu rosto uma aparência inacabada e fantasmagórica.
“Enchi a cara num pub e meus amigos rasparam minhas sobrancelhas”, Nigel explicou a Obinze quase se desculpando quando eles deram um aperto de mão.
“Nada de sexo para você até suas sobrancelhas crescerem, velho”, gritou um dos homens quando Nigel e Obinze andavam até o caminhão. Obinze prendeu as máquinas de lavar na boleia, apertando as amarras até elas ficarem bem juntas, e então entrou e olhou o mapa para encontrar o caminho mais curto até os endereços de entrega. Nigel fazia curvas bruscamente e murmurava sobre como as pessoas dirigiam hoje. Num sinal, ele pegou um frasco de perfume de uma bolsa que tinha posto aos seus pés, passou-o no pescoço e ofereceu-o a Obinze.
“Não, obrigado”, disse Obinze. Nigel deu de ombros. Dias depois, ofereceu de novo. A atmosfera no interior do caminhão ficava densa com o cheiro do perfume e Obinze, de tempos em tempos, respirava fundo o ar fresco que vinha pela janela.
“Você acabou de chegar da África. Não viu os pontos turísticos de Londres, viu, velho?”, perguntou Nigel.
“Não”, disse Obinze.
Assim, depois que eles faziam entregas antes da hora no centro de Londres, Nigel o levava para passear, mostrando o Palácio de Buckingham, o Palácio de Westminster, a Tower Bridge, enquanto falava sobre a artrite da mãe e os peitos da namorada, Haley. Levava um tempo para entender o que Nigel dizia por causa do sotaque dele, que era apenas uma versão mais aguda do sotaque das pessoas com quem Obinze já tinha trabalhado, cada palavra retorcida e esticada ao sair da boca, até o ponto em que virava outra coisa. Uma vez, Nigel disse “macho” e Obinze achou que ele tinha dito “maço” e, quando Obinze finalmente entendeu o que Nigel queria dizer, Nigel riu e disse: “Você fala de um jeito meio metido, não é? Metido estilo africano”.
Um dia, quando Obinze já estava no trabalho fazia meses, depois de entregarem uma geladeira num endereço em Kensington, Nigel disse, falando do homem idoso que entrara na cozinha: “É um cavalheiro de verdade, mesmo”. O tom de Nigel era de admiração e certa intimidação. O homem parecera desmazelado e de ressaca, com os cabelos desgrenhados, o roupão aberto na altura do peito, e dissera com altivez: “Vocês sabem montar tudo, não sabem?”, como se achasse que não sabiam. Obinze ficou espantado com o fato de que, por Nigel achar que o homem era “um cavalheiro de verdade”, não ter reclamado da cozinha suja, como teria feito normalmente. E se o homem tivesse um sotaque diferente, Nigel o teria chamado de pão-duro por não ter dado uma gorjeta.
Eles estavam se aproximando do endereço seguinte de entrega no sul de Londres e Obinze tinha acabado de ligar para a dona da casa para dizer que estavam quase lá quando Nigel disse, de supetão: “O que você diz para uma menina quando gosta dela?”.
“Como assim?”, perguntou Obinze.
“A verdade é que não estou transando com Haley. Gosto dela, mas não sei como dizer isso. Outro dia, fui à casa dela e tinha outro cara lá.” Nigel fez uma pausa. Obinze tentou manter o rosto impávido. “Você parece o tipo de cara que sabe o que dizer pras garotas, velho”, acrescentou Nigel.
“Diga que gosta dela, só isso”, disse Obinze, pensando em como Nigel, quando estava no depósito com os outros homens, agia como eles, contribuindo com histórias sobre como trepava com Haley e, certa vez, sobre como trepara com a amiga dela quando Haley estava viajando. “Sem joguinhos, sem cantadas. Só diga: olha, eu gosto de você e te acho linda.”
Nigel lhe lançou um olhar magoado. Era como se ele tivesse se convencido de que Obinze tinha habilidade na arte das mulheres e esperasse algo profundo, algo que, enquanto colocava a máquina de lavar louça num carrinho e levava até a porta, Obinze desejou possuir. A porta foi aberta por uma mulher indiana, uma dona de casa gorducha e gentil que lhes ofereceu chá. Muitas pessoas ofereciam chá ou água. Certa vez, uma mulher de ar triste oferecera a Obinze um pote de geleia e ele hesitara, mas sentiu que, qualquer que fosse a tristeza profunda que ela sentia, seria aumentada se ele recusasse, e assim levou para casa a geleia que ainda estava na geladeira, fechada.
“Obrigada, obrigada”, disse a indiana quando Obinze e Nigel instalaram a máquina nova e levaram a velha.
Na porta, ela deu uma gorjeta a Nigel. Ele era o único motorista que dividia as gorjetas meio a meio com Obinze; os outros fingiam não lembrar que deviam dividir. Certa vez, quando Obinze estava trabalhando com outro, uma velha jamaicana enfiara dez libras em seu bolso quando o motorista não estava vendo. “Obrigada, irmão”, disse ela, e Obinze sentiu vontade de ligar para sua mãe em Nsukka e lhe contar o que tinha acontecido.