Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 36 de 55

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Americanah

Capítulo 36

 

Era uma festa surpresa de aniversário em Hamden, para Marcia, amiga de Blaine.

“Feliz aniversário, Marcia!”, disse Ifemelu em coro com os outros amigos, de pé ao lado de Blaine. Sua língua estava um pouco pesada na boca e sua animação era um pouco forçada. Ela estava com Blaine fazia mais de um ano, mas não se integrava perfeitamente em seu círculo de amigos.

“Seu filho da mãe!”, disse Marcia para o marido, Benny, rindo com lágrimas nos olhos.

Tanto Marcia quanto Benny eram professores de história e vinham do sul dos Estados Unidos; os dois até eram parecidos, com seu corpo franzino, sua pele cor de mel e suas longas madeixas que iam até o pescoço. Exibiam seu amor como quem usava um perfume forte, exalando um envolvimento óbvio, tocando-se, um sempre citando o outro. Ao observá-los, Ifemelu imaginava aquela vida para ela e Blaine numa pequena casa numa rua tranquila, com batiques pendurados nas paredes, esculturas africanas mal-encaradas pelos cantos e ambos existindo num constante zumbido de felicidade.

Benny estava servindo drinques. Marcia andava de um lado para o outro, ainda atônita, olhando para as travessas de comida de bufê sobre a mesa de jantar e para os diversos balões batendo contra o teto. “Quando você fez tudo isso, amor? Só saí durante uma hora!”

Ela abraçou todo mundo, enxugando os olhos. Antes de abraçar Ifemelu, uma ruga de preocupação passou rapidamente por seu rosto e Ifemelu soube que Marcia havia esquecido seu nome. “Que bom ver você de novo, obrigada por ter vindo”, disse ela com uma dose extra de sinceridade, enfatizando o “bom” como quem queria compensar por ter esquecido seu nome.

“Chile!”, disse Marcia para Blaine, que deu um abraço nela e ergueu-a um pouco acima do chão enquanto ambos riam.

“Você está mais leve do que no seu último aniversário!”, disse Blaine.

“E parece cada vez mais jovem!”, disse Paula, ex-namorada de Blaine.

“Marcia, você vai engarrafar e vender seu segredo?”, perguntou uma mulher que Ifemelu não conhecia, com cabelos descoloridos e bufantes que pareciam um capacete de platina.

“O segredo dela é sexo bom”, disse com seriedade Grace, uma americana de ascendência coreana que dava aula de estudos afro-americanos e era minúscula e esguia, sempre usando estilosas roupas frouxas de modo que parecia flutuar em meio a um farfalhar de sedas. “Sou uma coisa rara, uma pessoa religiosa que também é uma esquerdista apaixonada”, dissera ela a Ifemelu quando foram apresentadas.

“Você ouviu isso, Benny?”, disse Marcia. “Nosso segredo é sexo bom.”

“É isso aí!”, disse Benny, piscando para ela. “Ei, alguém viu a declaração de Barack Obama esta manhã?”

“Vi, passou nos noticiários o dia todo”, disse Paula. Era baixa e loura com uma pele bonita, rosada e saudável de quem praticava esportes ao ar livre, o que fazia Ifemelu se perguntar se ela andava a cavalo.

“Nem tenho televisão”, disse Grace num tom de quem zombava de si mesma. “Outro dia me rendi e comprei um celular.”

“Vão passar de novo”, disse Benny.

“Vamos comer!” Era Stirling, o amigo rico, que Blaine lhe disse ser de uma antiga família abastada de Boston; ele e o pai haviam entrado em Harvard com mais facilidade por serem descendentes de diversos graduandos da universidade. Tinha tendências esquerdistas e boas intenções, e se sentia tolhido pela consciência de seus diversos privilégios. Jamais se permitia ter uma opinião. “É, eu entendo o que você quer dizer”, falava sempre.

A comida foi devorada com muitos elogios e muito vinho, o frango frito, a couve, as tortas. Ifemelu pegou porções minúsculas, feliz por ter comido algumas nozes e amêndoas antes de saírem; não gostava da comida do sul dos Estados Unidos.

“Não como um pão de milho bom assim há anos”, disse Nathan, que estava sentado ao lado dela. Ele era professor de literatura, um homem neurótico de óculos que piscava muito e que Blaine um dia dissera ser a única pessoa em Yale em quem tinha confiança absoluta. Alguns meses antes, Nathan tinha lhe dito, numa voz repleta de altivez, que não lia nenhuma obra de ficção publicada depois de 1930. “Foi tudo ladeira abaixo depois dos anos 1930.”

Ifemelu tinha contado isso a Blaine mais tarde, e havia uma impaciência em seu tom, quase uma acusação, quando acrescentou que acadêmicos não eram intelectuais; não eram pessoas curiosas, apenas construíam tendas de conhecimento especializado e se mantinham dentro delas, seguros.

Blaine disse: “Ah, Nathan tem umas questões. Não é por ele ser acadêmico”. Um tom defensivo havia começado a surgir na voz de Blaine quando ele falava dos amigos, talvez por perceber que Ifemelu não se sentia confortável com eles. Quando ia a uma palestra com Ifemelu, Blaine nunca deixava de dizer que ela poderia ter sido melhor ou que os primeiros dez minutos tinham sido chatos, como se quisesse se antecipar às suas críticas. A última palestra à qual eles tinham assistido fora de sua ex-namorada Paula, numa universidade em Middletown; Paula havia se postado diante da turma, num vestido envelope verde-escuro e de botas, falando de forma fluida e segura, provocando e encantando a plateia ao mesmo tempo, a cientista política jovem e bonita que sem dúvida ia conseguir entrar para o corpo docente fixo. Ela olhava com frequência para Blaine, como uma aluna para o professor, avaliando seu desempenho pela expressão dele. Enquanto ela falou, Blaine assentiu continuamente e em dada ocasião até suspirou, como se suas palavras o tivessem levado a ter uma epifania familiar e maravilhosa. Paula e Blaine tinham continuado bons amigos, mantendo-se no mesmo círculo depois de ela o ter traído com uma mulher, também chamada Paula, e que agora ganhara o apelido de Pee para distingui-la. “Nosso namoro andava mal havia tempos. Ela disse que estava só fazendo uma experiência com Pee, mas eu pude ver que era bem mais do que isso e estava certo, pois elas ainda estão juntas”, Blaine tinha explicado a Ifemelu, e aquilo tudo lhe parecera tranquilo demais, educado demais. Até mesmo a simpatia de Paula com ela parecia algo que fora esfregado até ficar limpo.

“Que tal a gente largar esse cara e ir tomar um drinque?”, disse Paula a Ifemelu aquela noite após sua palestra, com as faces coradas de empolgação e de alívio por ter se saído bem.

“Estou exausta”, disse Ifemelu.

“E eu preciso me preparar para dar aula amanhã. Vamos fazer alguma coisa neste fim de semana, tá?” Eles se despediram com um abraço.

“Não foi muito ruim, foi?” Blaine perguntou a Ifemelu quando eles estavam voltando para New Haven.

“Achei que você fosse ter um orgasmo”, respondeu ela, e Blaine riu. Ifemelu tinha pensado, ao ver Paula falar, que ela se sentia confortável com os ritmos de Blaine de uma maneira que não acontecia com Ifemelu, e pensou a mesma coisa agora, ao ver Paula comer seu terceiro prato de couve, sentada ao lado de sua namorada, Pee, e rindo de algo que Marcia dissera.

A mulher com o cabelo de capacete estava comendo a couve com os dedos.

“Nós, humanos, não fomos feitos para comer com utensílios”, disse ela.

Michael, que estava sentado ao lado de Ifemelu, deu uma risada alta de desdém. “Por que você não vai morar numa caverna de uma vez?”, ele perguntou e todos riram, mas Ifemelu não teve certeza se estava ou não brincando. Michael não tinha paciência para papos excêntricos. Ifemelu gostava dele, com as tranças que lhe cobriam o couro cabeludo e a expressão sempre irônica, desprezando o sentimentalismo. “Michael é legal, mas ele se esforça tanto para ser autêntico que pode passar muita energia negativa”, disse Blaine quando ela o conheceu. Michael fora preso por roubar um carro quando tinha dezenove anos e gostava de dizer: “Alguns negros não dão valor à educação até passarem um tempo na cadeia”. Ele era um fotógrafo que recebia bolsa de uma universidade e, na primeira vez em que Ifemelu vira suas fotos, em preto e branco, em danças de sombras, sua delicadeza e vulnerabilidade a haviam deixado surpresa. Ela tinha esperado imagens mais rudes. Agora, uma dessas fotos estava pendurada numa das paredes do apartamento de Blaine, diante de sua escrivaninha.

Do outro lado da mesa, Paula perguntou: “Falei para você que estou pedindo para meus alunos que leiam seu blog, Ifemelu? É interessante como eles têm uma maneira limitada de pensar. Quero tirá-los de sua zona de conforto. Amei o último post, ‘Dicas amigáveis para o Não Negro Americano: como reagir a um Negro Americano falando sobre negritude’”.

“Que curioso!”, disse Marcia. “Eu adoraria ler isso.”

Paula pegou o celular, apertou alguns botões e começou a ler em voz alta:

 

Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser

negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”.

Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro

Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na

verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não

é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja

uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem

que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se

você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e

eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada, meio roxa, meio cinza e meio

cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros

Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas

continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”,

porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer

merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a

de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode

ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não

mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava

estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas

havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável,

porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época

da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva

tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos

negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos

judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo,

esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa

inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja — eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão

burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de

problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente

se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei

um vestido de um brechó no eBay que é da década de 1960. Ele estava em perfeito estado e eu o uso

bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez

a dona original fosse uma daquelas mulheres que se veem nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do

lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não

queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas

dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de

Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos

preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o

racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm

esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe

alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os

júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o

mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as

empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca,

os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem

médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos

através da manipulação dos distritos eleitorais, e as agências publicitárias não dizem que não podem usar

modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo

“mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez.

Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não

estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem

vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil

perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as

pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

 

Marcia disse: “Adorei a parte sobre o vestido!”.

“É engraçado e constrangedor ao mesmo tempo”, comentou Nathan.

“Você deve estar fazendo uma grana com as palestras que dá por causa desse blog”, disse Michael.

“Só que a maior parte vai para meus parentes famintos na Nigéria”, disse Ifemelu.

“Deve ser bom ter isso”, disse ele.

“Ter o quê?”

“Saber de onde você é. Ter tantas gerações de ancestrais, esse tipo de coisa.”

“Bem”, respondeu ela, “é, sim.”

Michael encarou Ifemelu com uma expressão que a deixou incomodada, porque não teve certeza do que havia ali em seus olhos, e em seguida desviou o olhar.

Blaine estava dizendo à amiga de Marcia com o cabelo em forma de capacete: “A gente precisa deixar para trás esse mito. Não houve nada de judaico-cristão na história americana. Ninguém gostava dos católicos nem dos judeus. São valores anglo-protestantes, não judaico-cristãos. Até Maryland parou muito rapidamente de ser tão acolhedora com os católicos”. Ele parou de falar de repente, tirou o celular do bolso e se levantou. “Com licença, pessoal”, disse, acrescentando numa voz mais baixa para Ifemelu: “É Shan. Já volto”, e entrou na cozinha para atender.

Benny ligou a televisão e eles assistiram a Barack Obama, um homem magro num casaco preto que parecia ser um número maior, com uma postura levemente incerta. Enquanto falava, baforadas de vapor saíam de sua boca no ar frio, como se fossem fumaça. E é por isso que, à sombra do antigo Capitólio estadual, onde Lincoln certa vez apelou a um Congresso dividido pedindo-lhe que se unisse, onde esperanças comuns e sonhos comuns ainda vivem, estou diante de vocês hoje para anunciar minha candidatura à presidência dos Estados Unidos da América.

“Não acredito que eles o convenceram a fazer isso. O cara tem potencial, mas precisa crescer primeiro. Precisa ganhar peso. Ele vai estragar tudo para os negros, porque não vai nem chegar perto, e um negro não vai poder se candidatar pelos próximos cinquenta anos neste país”, disse Grace.

“Ele me passa uma sensação boa!”, disse Marcia, rindo. “Amo isso, a ideia de construir uma América mais cheia de esperança.”

“Acho que ele tem uma chance”, disse Benny.

“Ah, ele não vai ganhar. Vão dar um tiro nele primeiro”, disse Michael.

“É tão bom ver um político que entende o que são nuances, para variar”, disse Paula.

“Sim”, disse Pee. Ela tinha braços firmes demais, finos e com músculos proeminentes, o cabelo cortado bem curto e um ar de intensa ansiedade; era o tipo de pessoa cujo amor sufocava. “Ele parece tão inteligente, tão articulado.”

“Já você parece minha mãe falando”, disse Paula, no tom áspero de uma briga privada que ainda estava acontecendo, de palavras que significavam outras coisas. “Por que é tão extraordinário que ele seja articulado?”

“Você está de TPM, Paula?”, perguntou Marcia.

“Está!”, exclamou Pee. “Viu que ela comeu todo o frango frito?”

Paula ignorou Pee e, num gesto desafiador, esticou o braço para pegar outra fatia de torta de abóbora.

“O que você acha de Obama, Ifemelu?”, perguntou Marcia, e Ifemelu imaginou que Benny ou Grace haviam sussurrado o nome dela em seu ouvido e agora Marcia estava ansiosa para demonstrar que guardara a informação.

“Gosto da Hillary Clinton”, disse Ifemelu. “Não sei nada sobre esse tal de Obama.”

Blaine voltou para a sala. “Sobre o que vocês estavam falando?”

“Shan está bem?”, perguntou Ifemelu. Blaine assentiu.

“Não importa o que as pessoas pensam do Obama. A grande pergunta é se os brancos estão preparados para ter um presidente negro”, disse Nathan.

“Eu estou preparada para ter um presidente negro, mas acho que o país não está”, disse Pee.

“Falando sério, você andou conversando com minha mãe?”, perguntou Paula. “Ela falou a mesmíssima coisa. Se você está preparada para ter um presidente negro, então quem exatamente é esse país vago que não está? As pessoas dizem isso quando não conseguem dizer que elas não estão preparadas. E até mesmo a ideia de estar preparado é ridícula.”

Ifemelu pegou essas palavras emprestadas meses depois, num post escrito durante a frenética fase final da campanha presidencial. “Até mesmo a ideia de estar preparado é ridícula.” Será que ninguém vê o quanto é absurdo perguntar às pessoas se elas estão preparadas para ter um presidente negro? Você está preparado para ter o Mickey Mouse na presidência? E o Caco, dos Muppets? E a rena do nariz vermelho?

“Minha família tem o perfil liberal perfeito, fizemos todas as opções certas”, disse Paula com um muxoxo de ironia, girando a base de sua taça de vinho vazia. “Mas meus pais sempre se apressavam em dizer aos amigos que Blaine dava aula em Yale. Como se estivessem dizendo que ele é um dos bons.”

“Você está sendo dura demais com eles, Pauly”, disse Blaine.

“Não, falando sério, você não achava?”, perguntou ela. “Lembra aquele Dia de Ação de Graças horrível na casa dos meus pais?”

“Aquele dia em que eu quis comer macarrão?”

Paula riu. “Não, não é disso que estou falando.” Mas ela não disse do que estava falando e a memória não foi arejada, permaneceu guardada na privacidade que eles compartilhavam.

Quando estavam de volta ao apartamento de Blaine, Ifemelu disse a ele: “Fiquei com ciúmes”.

Era mesmo ciúmes, aquela pontada de insegurança, o enjoo. Paula tinha o ar de ser uma ideóloga de verdade; ela podia, imaginou Ifemelu, deixar-se levar com facilidade até a anarquia, ficar na linha de frente de um protesto, desafiando os cassetetes dos policiais e as provocações de quem não acreditava. Sentir que Paula era assim era sentir-se deficiente em comparação a ela.

“Não há motivo para ciúme, Ifem”, disse Blaine.

“O frango frito que você come não é o frango frito que eu como, mas é o que Paula come.”

“O quê?”

“Para você e para Paula, frango frito é frango empanado. Para mim, é frango feito no óleo, sem farinha. Eu só estava pensando que vocês têm muita coisa em comum.”

“Nós temos frango frito em comum? Você entende a significância de ter escolhido logo o frango frito, um alimento associado aos negros americanos, como metáfora?” Blaine estava rindo, uma risada doce e afetuosa. “Seu ciúme é bonitinho, mas não há a menor chance de acontecer alguma coisa entre mim e ela.”

Ifemelu sabia que não havia nada acontecendo; Blaine jamais a trairia. Tinha fibra moral demais. A fidelidade era fácil para ele; não se virava para olhar para as mulheres bonitas na rua porque não lhe ocorria fazer isso. Mas Ifemelu tinha ciúmes dos resquícios emocionais que havia entre ele e Paula e por pensar que Paula era como ele, boa como ele.

 

Viajar sendo negro

O amigo de uma amiga, um Negro Americano moderno e cheio da grana, está escrevendo um livro chamado

Viajar sendo negro. Não só negro, diz ele, mas visivelmente negro, porque existe todo tipo de negro e, com

todo o respeito, ele não está falando daqueles que parecem ser porto-riquenhos ou brasileiros ou sei lá o

quê, está falando de quem é visivelmente negro. Porque o mundo trata você de um jeito diferente. Nas

palavras dele: “Tive a ideia de fazer o livro no Egito. Cheguei ao Cairo e um árabe egípcio me chamou de

bárbaro negro. Eu pensei: ‘Ei, achei que eu estava na África!’. Então comecei a pensar em outras partes do

mundo e em como seria viajar para lá quando se é negro. Tenho a pele bastante escura. Os brancos do sul

de hoje, se me vissem, me chamariam de negão. Os guias de viagem dizem o que você deve esperar se for

gay ou mulher. Precisam fazer isso com quem é visivelmente negro. Expliquem para os negros que viajam

como são as coisas. Não é que alguém vai atirar em você nem nada, mas é muito bom saber os lugares em

que vão te olhar com espanto. Na Floresta Negra, na Alemanha, é um olhar de espanto bastante hostil. Em

Tóquio e Istambul, ninguém ligou para minha aparência. Em Shangai, os olhares foram intensos; em Delhi,

raivosos. Eu pensei: ‘Ei, nós não estamos meio que juntos nesse barco? Tipo, pessoas de cor?’. Eu tinha lido

que o Brasil é a meca das raças, mas, quando fui ao Rio, ninguém que estava nos restaurantes e hotéis caros

se parecia comigo. As pessoas reagem de forma estranha quando eu vou para a fila da primeira classe no

aeroporto. É uma reação de simpatia, como quem diz você está cometendo um erro, não pode ter essa

aparência e viajar de primeira classe. Fui ao México, e eles ficaram me olhando. Não foi nem um pouco hostil,

mas faz você se dar conta de que chama atenção, é como se gostassem de você, mas mesmo assim você é

o King Kong”. Nesse ponto, meu Professor Bonitão disse: “A América Latina como um todo tem um

relacionamento muito complicado com a negritude, que é ofuscada por toda aquela história de ‘somos

todos mestiços’ que eles contam para si mesmos. O México não é tão ruim quanto lugares como a

Guatemala e o Peru, onde os privilégios dos brancos são tão mais óbvios, mas esses países têm uma

população negra muito maior”. E então outro amigo disse: “Os negros nativos são sempre tratados de

maneira pior do que os de outros países em todo lugar do mundo. Minha amiga, que tem pais togoleses e

nasceu e foi criada na França, finge ser anglófona quando vai às compras em Paris, pois as vendedoras são

mais simpáticas com os negros que não falam francês. Assim como os negros americanos são bastante

respeitados nos países africanos”. O que vocês acham? Contem suas histórias de viagem nos comentários.