Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 19 de 55

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Capítulo 19

 

A mãe de Curt tinha uma elegância pálida, cabelos brilhantes, uma pele jovem e roupas caras e de bom gosto que haviam sido feitas para parecer caras e de bom gosto; ela parecia ser o tipo de rica que não dava boas gorjetas. Curt a chamava de “minha mãe”, o que tinha certa formalidade, um som arcaico. Nos domingos eles tomavam brunch com ela. Ifemelu gostava do ritual dessas refeições no salão de jantar ornamentado do hotel repleto de pessoas bem vestidas, casais grisalhos com seus netos, mulheres de meia-idade com broche na lapela. O único outro negro era um garçom de uniforme engomado. Ela comia ovos macios, finas lascas de salmão e meias-luas de melão fresco observando Curt e a mãe, ambos de ofuscante cabelo dourado. Curt falava enquanto a mãe ouvia, enlevada. Ela idolatrava o filho — aquele temporão nascido quando ela não sabia se ainda podia engravidar, o charmoso, aquele cujas manipulações sempre a faziam aquiescer. Ele era seu aventureiro, aquele que lhe trazia espécies exóticas — já namorara uma japonesa e uma venezuelana —, mas que um dia se casaria com uma moça adequada. Ela toleraria qualquer uma de quem ele gostasse, mas não sentia obrigação de ter afeição por elas.

“Sou republicana, toda a nossa família é. Somos contra o Estado do bem-estar social, mas apoiamos muito o movimento de direitos civis. Só queria que você soubesse o tipo de republicanos que somos”, disse ela a Ifemelu da primeira vez em que a viu, como se aquilo fosse a coisa mais importante a ser esclarecida.

“E a senhora gostaria de saber que tipo de republicana eu sou?”, perguntou Ifemelu.

A mãe de Curt a princípio pareceu surpresa e depois sua boca se esticou num sorriso forçado. “Você é engraçada”, declarou ela.

Certa vez, ela disse a Ifemelu: “Seus cílios são bonitos”, palavras abruptas e inesperadas, e então ficou bebericando seu bellini como se não tivesse ouvido o “Obrigada” surpreso dela.

Quando estavam no carro voltando para Baltimore, Ifemelu disse: “Cílios? Ela deve ter se esforçado bastante para encontrar alguma coisa para elogiar!”.

Curt riu. “Laura diz que minha mãe não gosta de mulheres bonitas.”

Morgan foi passar um fim de semana com Curt.

Kimberly e Don queriam levar os filhos para a Flórida, mas ela se recusou a ir. Por isso, Curt convidou-a para passar o fim de semana em Baltimore. Ele planejou um passeio de barco e Ifemelu achou que ele devia ficar algum tempo sozinho com a menina. “Você não vai, Ifemelu?”, perguntou Morgan, com uma expressão murcha. “Achei que íamos todos juntos.” A palavra “juntos” foi dita com mais animação do que Ifemelu jamais ouvira em Morgan. “É claro que eu vou”, disse ela. Morgan ficou observando enquanto Ifemelu passava rímel e gloss.

“Venha aqui, Morg”, disse ela, e passou uma leve camada do gloss nos lábios de Morgan. “Junte os lábios. Muito bem. Por que está tão linda assim, srta. Morgan?” A menina riu. No píer, Ifemelu e Curt andaram ao lado dela, segurando uma de suas mãos cada um, com Morgan feliz por ter suas mãos seguradas daquele jeito, e Ifemelu pensou, como às vezes fazia brevemente, em como seria ser casada com Curt, ter uma vida gravada em conforto, ele se dando bem com sua família e seus amigos e ela com os dele, com exceção da mãe. Eles falavam em casamento sem muita seriedade. Desde que Ifemelu contara para Curt sobre as cerimônias em que se pagava o preço da noiva, algo que os igbo faziam antes do carregamento do vinho e da cerimônia na igreja, ele brincava, dizendo que ia à Nigéria pagar o preço dela, chegar a sua aldeia ancestral, sentar-se com seu pai e seus tios e insistir em levá-la de graça. E Ifemelu, em troca, brincava que ia entrar numa igreja na Virgínia ao som da Marcha nupcial enquanto os parentes dele olhassem horrorizados e se perguntassem, aos sussurros, por que a criada estava com o vestido da noiva.

 

Eles estavam enroscados no sofá, ela lendo um romance e ele vendo um jogo na televisão. Ifemelu achava bonitinha a maneira como ele ficava absorto em seus jogos, com os olhos apertados e imóveis de concentração. Durante os anúncios, ela o provocava. Por que o futebol americano não tinha uma lógica inerente, só homens gordos pulando uns em cima dos outros? E por que os jogadores de beisebol passavam tanto tempo cuspindo e de repente davam umas corridas incompreensíveis? Ele riu e tentou explicar, mais uma vez, o significado de home runs e touchdowns, mas Ifemelu não estava interessada, porque compreender significaria não poder mais provocá-lo, e por isso olhou de novo para seu romance, pronta para brincar com ele de novo no comercial seguinte.

O sofá era macio. A pele dela estava brilhando. Na faculdade, Ifemelu tinha feito créditos extras e aumentado sua média. Pelas janelas altas da sala via-se a Inner Harbor espraiando-se lá embaixo, com águas cintilantes e luzes tremeluzentes. Uma sensação de contentamento tomou conta dela. Fora isso que Curt lhe dera, a dádiva do contentamento, do conforto. Como Ifemelu tinha se acostumado depressa com a vida deles, com o passaporte repleto de vistos, a solicitude das aeromoças nas cabines de primeira classe, os edredons de plumas dos hotéis em que se hospedavam e as pequenas coisas que ela guardava com avidez: potinhos de geleia da bandeja de café da manhã, vidrinhos de condicionador, pantufas de tricô, até toalhas de rosto, caso fossem especialmente macias. Tinha deixado sua antiga pele para trás. Quase havia passado a gostar do inverno, da camada brilhante de gelo em cima dos carros, da quentura luxuosa dos suéteres de cashmere que Curt lhe dava. Quando estavam numa loja, ele não olhava os preços das coisas primeiro. Fazia o supermercado dela, dava-lhe livros didáticos, mandava-lhe vales-presente de lojas de departamento, levava-a ele mesmo para fazer compras. Curt pediu-lhe que deixasse de ser babá: eles iam poder passar mais tempo juntos se ela não tivesse que trabalhar todos os dias. Mas Ifemelu se recusou. “Preciso ter um emprego”.

Ela economizou dinheiro e mandou mais para casa. Queria que seus pais se mudassem para um apartamento novo. Tinha havido um assalto à mão armada no prédio ao lado do deles.

“Vocês podem ir para um lugar maior num bairro melhor”, disse Ifemelu.

“Estamos bem aqui”, respondeu sua mãe. “Não é tão ruim. Eles construíram um novo portão na rua e baniram okadas depois das seis da tarde, então é seguro.”

“Um portão?”

“É, perto do quiosque.”

“Que quiosque?”

“Você não se lembra do quiosque?” Ifemelu hesitou. Suas lembranças tinham um tom sépia. Ela não se lembrava do quiosque.

Seu pai havia, finalmente, arrumado um emprego, como vice-diretor de recursos humanos de um dos novos bancos. Ele comprou um telefone celular. Comprou pneus novos para o carro da mãe de Ifemelu. Devagar, estava voltando a fazer seus monólogos sobre a Nigéria.

“Não se poderia descrever Obasanjo como um bom homem, mas precisamos admitir que ele fez algumas coisas boas neste país; há um espírito de empreendedorismo desabrochando”, dizia.

Era estranho ligar direto para eles, ouvir o “Alô?” de seu pai após o segundo toque e, quando ele ouvia a voz dela, erguia a sua, quase gritando, como sempre fazia com ligações internacionais. Sua mãe gostava de levar o telefone para a varanda, para ter certeza de que os vizinhos iam ouvir. Ifem, como está o tempo nos Estados Unidos?

A mãe de Ifemelu fazia perguntas superficiais e aceitava respostas superficiais. “Está tudo indo bem?”, dizia, e Ifemelu não tinha escolha senão responder que sim. Seu pai se lembrava das aulas que ela mencionava e pedia detalhes. Ifemelu escolhia as palavras, tomando cuidado para não dizer nada sobre Curt. Era mais fácil não falar dele.

“Quais são suas perspectivas de emprego?”, perguntou o pai. Sua formatura estava se aproximando e seu visto de estudante ia vencer.

“Eles designaram uma consultora de carreira para mim e vou me encontrar com ela na semana que vem”, disse Ifemelu.

“Todos os alunos que vão se formar têm um consultor designado?”

“Têm.”

Seu pai emitiu um som de respeito admirado. “Os Estados Unidos são um lugar organizado e as oportunidades de emprego são abundantes aí.”

“Sim. Eles conseguiram bons empregos para muitos alunos”, disse Ifemelu. Não era verdade, mas era o que seu pai esperava ouvir. A sala de consultoria de carreira, um espaço abafado com pilhas desoladas de arquivos sobre as mesas, era conhecida por ser repleta de consultores que liam currículos, pediam que você mudasse a fonte ou a formatação e lhe davam contatos antigos que nunca ligavam de volta. Na primeira vez em que Ifemelu foi lá, sua consultora, Ruth, uma afro-americana com a pele caramelo, perguntou: “O que você quer fazer de verdade?”.

“Quero um emprego.”

“Sim, mas de que tipo?”, perguntou Ruth, com certa incredulidade.

Ifemelu olhou seu currículo sobre a mesa. “Eu me formei em comunicação, então qualquer coisa nessa área, na mídia.”

“Você tem uma paixão, um emprego dos sonhos?”

Ifemelu balançou a cabeça. Sentiu-se fraca por não ter uma paixão, por não ter certeza do que queria fazer. Seus interesses eram vagos e variados: edição de revistas, moda, política, televisão, nenhum tinha uma forma definida. Ela foi à feira de empregos da faculdade, aonde os alunos chegavam com ternos mal-ajambrados e expressão séria, tentando parecer adultos que mereciam um emprego de verdade. Os recrutadores, eles próprios pessoas que tinham se formado fazia pouco tempo, os jovens mandados ali para capturar outros jovens, lhe falaram em “oportunidade de crescimento”, “adequação” e “benefícios”, mas nenhum fazia uma oferta mais definitiva quando se davam conta de que Ifemelu não era cidadã americana e de que, se a contratassem, teriam de enveredar pelo túnel escuro que era a papelada da Imigração. “Eu devia ter me formado em engenharia ou alguma coisa assim”, disse ela para Curt. “Formandos em comunicação tem de sobra.”

“Conheço algumas pessoas com quem meu pai fazia negócios, talvez eles possam ajudar”, disse Curt. E, pouco tempo depois, anunciou que ela fora chamada para uma entrevista num escritório no centro de Baltimore, para uma vaga na área de relações públicas. “Você só precisa arrebentar na entrevista e o emprego é seu”, disse ele. “Conheço um pessoal numa outra empresa maior, mas o bom dessa é que eles vão conseguir um visto de trabalhador temporário para você e dar início ao processo de obtenção do green card.”

“O quê? Como você conseguiu isso?”

Ele deu de ombros. “Liguei para algumas pessoas.”

“Curt. Meu Deus. Não sei como agradecer.”

“Tenho algumas sugestões”, disse ele, com uma satisfação infantil.

Era uma boa notícia, mas uma sobriedade a envolveu. Wambui estava trabalhando em três empregos ilegais para levantar os cinco mil dólares de que precisava para pagar a um afro-americano que ia se casar com ela para lhe dar o green card, Mwombeki estava tentando desesperadamente encontrar uma empresa que o contratasse apesar de seu visto temporário, e ali estava ela, um balão rosa, sem peso, flutuando até o topo, impelida por fatores exteriores a si mesma. Ifemelu sentiu, em meio à sua gratidão, um pequeno ressentimento. Curt podia, com alguns telefonemas, rearranjar o mundo e obrigar tudo a entrar no lugar em que desejava que estivesse.

Quando ela falou da entrevista em Baltimore, Ruth disse: “Meu conselho? Tire essas tranças e alise o cabelo. Ninguém fala nessas coisas, mas elas importam. A gente quer que você consiga esse emprego”.

Tia Uju havia dito algo parecido no passado e, na época, Ifemelu rira. Agora, sabia que não devia rir. “Obrigada”, disse.

Desde que tinha chegado aos Estados Unidos, ela trançava o cabelo com longos apliques, sempre espantada com o custo para fazê-lo. Usava cada penteado por três, até quatro meses, até seu couro cabeludo coçar de um jeito insuportável e as tranças começarem a sair de uma massa fofa de fios novos. Por isso, relaxar o cabelo seria uma nova aventura. Ifemelu tirou as tranças, tomando cuidado para não machucar o couro cabeludo, para não mexer na camada que o protegeria. Havia uma variedade imensa de relaxantes, caixas e mais caixas na seção de “cabelo étnico” da farmácia, com fotos de mulheres negras sorrindo com cabelos impossíveis de tão lisos e brilhantes ao lado de palavras como “botânico” e “aloe vera”, que prometiam um processo suave. Ela comprou um numa caixa verde. No banheiro, passou com cuidado o gel protetor entre as raízes e a testa antes de começar a besuntar o cabelo com o relaxante cremoso, madeixa por madeixa, com as mãos em luvas plásticas. O cheiro a fez lembrar o laboratório de química e, por isso, Ifemelu forçou a janela do banheiro, que muitas vezes emperrava. Prestou bastante atenção no relógio, tirando o relaxante após exatamente vinte minutos, mas seu cabelo continuou crespo, com a mesma densidade. O relaxante não pegou. Essa foi a palavra — “pegou” — que a cabeleireira da zona oeste da Filadélfia usou. “Menina, você precisa de uma profissional”, disse enquanto passava outro relaxante. “As pessoas acham que vão economizar se fizerem em casa, mas não é verdade.”

Ifemelu sentiu apenas uma leve ardência no começo, mas quando a cabeleireira estava tirando o relaxante enquanto ela mantinha a cabeça apoiada em uma pia de plástico, agulhadas de dor profunda surgiram em diversas partes de seu couro cabeludo e se refletiram em partes diferentes do corpo, ricocheteando de volta para a cabeça.

“Arde um pouco”, disse a cabeleireira. “Mas olha como está bonito. Uau, menina, você está com um balanço de branca!”

O cabelo de Ifemelu pendia em vez de se manter armado. Estava liso e cintilante, dividido na lateral e virando levemente para dentro na altura do queixo. Não tinha mais cachos. Ela não se reconheceu. Saiu do salão quase de luto; enquanto a cabeleireira alisava as pontas com um ferro, o cheiro de queimado, de algo orgânico morrendo, causou nela uma sensação de perda. Curt pareceu incerto ao vê-la.

“Você gostou, amor?”, perguntou ele.

“Estou vendo que você não gostou”, disse Ifemelu.

Curt não disse nada. Esticou a mão para acariciar seu cabelo, como se isso fosse fazê-lo gostar.

Ela afastou a mão dele. “Ai. Cuidado. O relaxante me queimou um pouco.”

“O quê?”

“Não é tão grave assim. Acontecia comigo o tempo todo na Nigéria. Dê uma olhada nisso.”

Ifemelu mostrou a Curt um queloide atrás de sua orelha, um pequeno inchaço vermelho que surgira depois de tia Uju ter passado um ferro de alisar em seu cabelo na época da escola. “Puxe a orelha para trás”, dizia tia Uju sempre, e Ifemelu segurava a orelha, tensa e sem respirar, apavorada com a ideia de o ferro, que acabara de vir do fogão, queimando, mas também animada com a perspectiva de cabelos lisos que balançavam. E, um dia, o ferro a queimou mesmo, quando ela se mexeu um pouco e a mão de tia Uju se moveu um pouco, fazendo o metal quente chamuscar a pele atrás da orelha.

“Meu Deus”, disse Curt, com os olhos arregalados. Ele insistiu em examinar gentilmente seu couro cabeludo para ver o quanto ela estava machucada. “Meu Deus.”

Seu horror deixou Ifemelu mais preocupada do que normalmente ficaria. Ela nunca havia se sentido tão próxima de Curt quanto naquele momento, sentada imóvel na cama com o rosto enfiado na camisa dele, inalando o cheiro de amaciante enquanto ele passava os dedos devagar por seus novos cabelos lisos.

“Por que você tem que fazer isso? Seu cabelo era lindo trançado. E aquela última vez, quando você tirou as tranças e deixou meio natural? Ficou ainda mais lindo, tão cheio e incrível.”

“Meu cabelo cheio e incrível ia dar certo se eu estivesse fazendo uma entrevista para ser backing vocal numa banda de jazz, mas preciso parecer profissional nessa entrevista, e profissional quer dizer liso, mas se for encaracolado, que seja um cabelo encaracolado de gente branca, cachos suaves ou, na pior das hipóteses, cachinhos espirais, mas nunca crespo.”

“É errado você ter que fazer isso, porra.”

À noite, ela demorou para encontrar uma posição confortável no travesseiro. Dois dias depois, partes de seu couro cabeludo estavam em carne viva. Três dias depois, havia pus ali. Curt queria que Ifemelu fosse ao médico e ela riu dele. As feridas iam sarar, disse, o que aconteceu. Mais tarde, quando passou sem problemas pela entrevista de emprego e a mulher apertou sua mão e disse que “se encaixaria maravilhosamente” na empresa, Ifemelu se perguntou se a mulher teria achado a mesma coisa se ela tivesse entrado naquele escritório com a coroa espessa e crespa que Deus lhe dera, seu afro.

Ela não contou aos pais como conseguiu o emprego. Seu pai disse: “Não tenho dúvidas de que você alcançará a excelência. Os Estados Unidos criam oportunidades para as pessoas prosperarem. A Nigéria pode, de fato, aprender muito com eles”. Sua mãe começou a cantar quando ela disse que, em alguns anos, poderia se tornar uma cidadã americana.

 

Entendendo a América para o Negro Não Americano:

O que os wasps querem?

 

O Professor Gato recebeu uma visita de outro professor, um judeu com um sotaque forte do tipo de país

europeu onde a maioria das pessoas bebe um copo de antissemitismo no café. O Professor Gato estava

falando sobre direitos civis e o judeu disse: “Os negros não sofreram como os judeus”. O Professor Gato

respondeu: “O que é isso, a olimpíada da opressão?”.

O judeu não sabia, mas “olimpíada da opressão” é o que os liberais americanos inteligentes dizem para

fazer você se sentir burro e calar a boca. Existe mesmo uma olimpíada da opressão acontecendo. As

minorias raciais americanas — negros, hispânicos, asiáticos e judeus — todas sofrem merda na mão dos

brancos, merdas diferentes, mas merda mesmo assim. Cada uma secretamente acredita que sua merda é a

pior. Então, não, não existe uma Liga Unida dos Oprimidos. No entanto, todos os outros acham que são

melhores do que os negros porque, bem, eles não são negros. Um exemplo é Lili, uma mulher de pele café,

cabelos negros e língua espanhola que limpava a casa da minha tia numa cidade da Nova Inglaterra. Ela era

muito altiva. Era desrespeitosa, trabalhava mal, fazia exigências. Minha tia acreditava que Lili não gostava de

trabalhar para negros. Antes de finalmente demiti-la, minha tia disse: “Que mulher idiota, ela pensa que é

branca”. Ou seja, a brancura é algo a que se aspira. Nem todo mundo é assim, claro (por favor, não precisam

afirmar o óbvio nos comentários), mas muitas minorias têm um anseio conflituoso pela brancura dos wasps

ou, para ser mais exata, pelos privilégios da brancura dos wasps. Eles não devem gostar de pele branca, mas

certamente gostam de entrar numa loja sem que um segurança os acompanhe. Fazer uma omelete sem

quebrar os góis, como disse o grande Philip Roth. Então, se todos nos Estados Unidos querem ser wasps, o

que os wasps querem? Alguém sabe?