Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 31 de 55

Páginas do PDF

Americanah

Parte 4

31.

 

Depois que Ifemelu terminou o namoro com Curt, ela disse a Ginika: “Tinha algo que eu queria sentir e não sentia”.

“Como assim? Você traiu o cara!” Ginika sacudiu a cabeça como se Ifemelu fosse maluca. “Ifem, sinceramente, às vezes não entendo você.”

Era verdade, ela havia traído Curt com um homem mais novo que morava em seu prédio em Charles Village e tinha uma banda. Mas também era verdade que, ao longo do namoro, ansiara por ter nas mãos emoções que jamais tivera. Ifemelu não acreditara por completo em si mesma enquanto estava com Curt — aquele homem alegre e bonito, com sua habilidade de moldar a vida da maneira que queria. Ela o amava e amava a vida fácil e animada que ele lhe proporcionava, mas muitas vezes tinha de se controlar para não criar arestas, não esmigalhar o espírito solar dele, ainda que um pouco.

“Acho que você se sabota”, disse Ginika. “É por isso que cortou relações com Obinze daquele jeito. E agora traiu Curt porque, de certa forma, acha que não merece a felicidade.”

“Agora você vai sugerir um remédio para Distúrbio da Autossabotagem”, disse Ifemelu. “É absurdo.”

“Então, por que fez o que fez?”

“Foi um erro. As pessoas cometem erros. Elas fazem coisas idiotas.”

Na verdade, Ifemelu tinha feito aquilo porque estava curiosa, mas não ia dizer isso a Ginika, pois pareceria frívolo; ela não ia entender, ia preferir um motivo grave e importante como autossabotagem. Ifemelu nem tinha certeza se gostava do rapaz, que se chamava Rob e usava jeans rasgado e sujo, botas enlameadas e camisas de flanela amassadas. Ela não entendia o grunge, a ideia de andar todo esfarrapado porque você tinha dinheiro o suficiente para não precisar se vestir daquele jeito; aquilo zombava de quem era esfarrapado de verdade. A maneira como Rob se vestia o fez parecer superficial para Ifemelu, mas ela sentiu uma curiosidade por ele, por como ele seria nu na cama com ela. O sexo foi bom da primeira vez, ela ficou por cima, deslizando, gemendo e agarrando o pelo em seu peito, sentindo-se levemente teatral de uma maneira glamorosa enquanto o fazia. Mas, da segunda vez, depois que Ifemelu chegou ao apartamento de Rob e ele a puxou para agarrá-la, um grande torpor se abateu sobre ela. Ele já estava respirando pesado e ela se livrou de seus abraços e pegou a bolsa para ir embora. No elevador, foi tomada pela sensação assustadora de que estava procurando por algo sólido que se debatia em suas mãos, e tudo o que tocava se dissolvia. Foi para o apartamento de Curt e contou tudo.

“Não significou nada. Aconteceu uma vez e eu estou muito arrependida.”

“Pare de brincadeira”, disse Curt, mas Ifemelu viu, pelo horror incrédulo que escurecia o azul de seus olhos, que ele sabia que ela não estava brincando. Eles levaram horas se evitando, tomando chá, colocando música para tocar e lendo e-mails, Curt deitado no sofá olhando para o teto, imóvel e silencioso, antes de perguntar: “Quem é ele?”.

Ifemelu disse o nome do homem. Rob.

“Ele é branco?”

Ela ficou surpresa por ele fazer aquela pergunta, e tão cedo. “Sim.” Ifemelu vira Rob pela primeira vez meses antes, no elevador, com suas roupas desalinhadas e seu cabelo não lavado, e ele sorrira para ela e dissera: “Até mais”. Depois disso, sempre que o via, ele a olhava com uma espécie de interesse preguiçoso, como se ambos soubessem que algo ia acontecer entre eles e fosse apenas questão de quando.

“Quem é ele, porra?”

Ifemelu lhe contou que Rob morava no andar acima do dela, que eles se cumprimentavam e que mais nada tinha acontecido até a noite em que ela o viu chegando com bebidas, ele perguntou se ela queria beber algo e ela fez algo impulsivo e idiota.

“Você deu o que ele queria”, disse Curt. Suas feições estavam se endurecendo. Era uma coisa estranha para Curt dizer, o tipo de coisa que tia Uju, que pensava em sexo como algo que a mulher dava ao homem para prejuízo dela própria, diria.

Num súbito acesso estonteante de temeridade, ela corrigiu Curt. “Eu tomei o que queria. Se dei qualquer coisa a ele foi por acaso.”

“Ouça o que você está dizendo! Ouça o que você está dizendo, porra!”, disse Curt, com a voz rouca. “Como pôde fazer isso comigo? Fui tão bom com você.”

Ele já estava olhando para o relacionamento deles pelas lentes do pretérito. Aquilo a intrigava, a capacidade do amor romântico de se transformar, a rapidez com que uma pessoa amada podia se tornar uma estranha. Para onde o amor ia? Talvez o amor verdadeiro fosse o da família, ligado de alguma maneira ao sangue, já que o amor pelos filhos não morria como o amor romântico.

“Você não vai me perdoar”, disse ela, numa meia pergunta.

“Vaca”, disse Curt.

Ele brandiu a palavra como uma faca; ela saiu de sua boca afiada de ódio. Ouvir Curt dizer “vaca” com tanta frieza parecia surreal e Ifemelu ficou com os olhos marejados de lágrimas por saber que ela o havia transformado num homem que podia dizer “vaca” de maneira tão fria e por desejar que fosse um homem que não diria “vaca”, não importava a situação. Sozinha em seu apartamento, ela chorou e chorou, enroscada no tapete da sala que era tão raramente usado e ainda tinha cheiro de novo. Seu relacionamento com Curt era o que desejava, a crista de uma onda em sua vida, mas ela pegara um machado e o fizera em pedaços. Por que havia destruído aquilo? Imaginou sua mãe dizendo que tinha sido o demônio. Lamentou não acreditar no demônio, um ser exterior a você que invadia sua mente e fazia com que destruísse aquilo que amava.

Ifemelu passou semanas ligando para Curt, esperando diante do prédio dele até que ele saísse, dizendo sem parar o quanto estava arrependida e o quanto queria resolver aquilo. No dia em que acordou e finalmente aceitou que Curt não retornaria suas ligações, não abriria a porta do apartamento, não importava o quanto ela batesse, foi sozinha para o bar preferido deles dois no centro da cidade. A bartender, aquela que conhecia os dois, deu-lhe um sorriso gentil, um sorriso de pena. Ifemelu sorriu de volta e pediu outro mojito, pensando que a moça talvez fosse mais adequada para Curt, com seu cabelo castanho escovado até parecer cetim, seus braços finos, suas roupas pretas e justas e sua habilidade de conversar de forma natural e inofensiva. Ela também seria fiel de forma natural e inofensiva; se tivesse um homem como Curt, não ficaria interessada numa cópula de curiosidade com um estranho que tocava música barulhenta. Ifemelu olhou para dentro do copo. Havia algo de errado com ela. Não sabia o que era, mas havia algo de errado com ela. Uma fome, uma inquietação. Um conhecimento incompleto de si mesma. A sensação de algo distante, fora do alcance. Ela se levantou e deixou uma boa gorjeta sobre o balcão. Durante um bom tempo, sua lembrança do término com Curt foi isto: descer a toda a Charles Street num táxi, um pouco bêbada, um pouco aliviada e um pouco só, com um motorista panjabi que lhe contava orgulhosamente que seus filhos tiravam notas melhores que as das crianças americanas na escola.

 

Alguns anos depois, num jantar em Manhattan, um dia depois de Barack Obama se tornar o candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, um homem branco e calvo, rodeado de convidados, todos pessoas que apoiavam Obama com fervor e estavam com os olhos úmidos devido ao vinho e à vitória, disse: “Obama vai acabar com o racismo nesse país”, e uma estilosa poeta haitiana de quadris largos concordou, assentindo com um afro maior que o de Ifemelu, e disse que tinha namorado um homem branco durante três anos na Califórnia e que a raça nunca fora um problema para eles.

“Isso é mentira”, disse Ifemelu.

“O quê?”, perguntou a mulher, como se não tivesse ouvido direito.

“É mentira”, repetiu Ifemelu.

A mulher arregalou os olhos. “Você está me dizendo como foi minha própria experiência?”

Embora Ifemelu àquela altura já tivesse compreendido que pessoas como aquela mulher diziam o que diziam para manter os outros confortáveis e para mostrar que eram gratas pelo Quanto Nós Evoluímos; embora àquela altura estivesse alegremente aninhada no círculo de amigos de Blaine, um dos quais era o novo namorado da mulher; e embora devesse ter deixado aquilo para lá, não deixou. Não conseguiu. As palavras, mais uma vez, foram mais rápidas que ela; tomaram sua garganta e se derramaram para fora.

“O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso. Nem falamos com nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando ou que nos ofendemos com facilidade demais. E não queremos que diga: ‘Olhe como evoluímos, há apenas quarenta anos seria ilegal sermos um casal’, porque sabe o que a gente está pensando quando ele diz isso? Por que foi ilegal um dia, porra? Mas não dizemos nada disso. Deixamos que se acumule dentro da nossa cabeça, e quando vamos a jantares de gente liberal e legal como este, dizemos que a raça não importa porque é isso que se espera que digamos, para manter nossos amigos liberais e legais confortáveis. É verdade. Estou falando porque já vivi isso.”

A anfitriã, uma francesa, deu uma olhada rápida para seu marido americano com um sorriso furtivo e satisfeito no rosto; os jantares mais inesquecíveis aconteciam quando os convidados diziam coisas inesperadas e potencialmente ofensivas.

A poeta sacudiu a cabeça e disse para a anfitriã: “Eu adoraria levar um pouco daquela pastinha deliciosa para casa, se tiver sobrado”, e olhou para os outros como se não conseguisse acreditar que estavam dando atenção a Ifemelu. Mas estavam, todos em silêncio, com os olhos fixos em Ifemelu como se ela estivesse prestes a revelar um segredo picante que os excitaria e comprometeria ao mesmo tempo. Ifemelu havia bebido vinho branco demais; de tempos em tempos, sentia uma zonzeira, e mais tarde mandaria e-mails pedindo desculpas à anfitriã e à poeta. Mas todos estavam observando-a, até Blaine, cuja expressão, pela primeira vez, ela não conseguia decifrar claramente. E, então, Ifemelu começou a falar em Curt.

Não era que eles evitassem a questão da raça, ela e Curt. Falavam sobre isso daquela forma escorregadia que não admitia nada e não aprofundava nada e que terminava com a palavra “maluquice”, como um objeto curioso que deveria ser examinado e depois deixado de lado. Ou num tom de brincadeira que sempre a deixava com uma leve dormência desconfortável que ela nunca admitiu para ele. E não era que Curt fingisse que ser negro e ser branco era a mesma coisa nos Estados Unidos; ele sabia que não era. Na verdade, o problema era que Ifemelu não entendia como ele podia compreender uma coisa e ser completamente cego para outra parecida, como conseguia colocar-se no lugar do outro de forma tão fácil em uma instância e ter tanta dificuldade em outra. Antes do casamento de Ashleigh, por exemplo, uma prima de Curt, ele deixara Ifemelu num pequeno salão próximo da casa onde passara a infância, para ela fazer as sobrancelhas. Ifemelu entrou e deu um sorriso para a mulher asiática que estava na recepção.

“Oi, eu queria fazer a sobrancelha com cera.”

“A gente não trabalha com cabelo crespo”, disse a mulher.

“Vocês não trabalham com cabelo crespo?”

“Não. Sinto muito.”

Ifemelu lançou um olhar demorado à mulher; não valia a pena discutir. Se eles não trabalhavam com cabelo crespo, então não trabalhavam com cabelo crespo, fosse lá o que isso significava. Ela ligou para Curt e lhe pediu que fosse buscá-la, porque o salão não trabalhava com cabelo crespo. Curt entrou lá, com os olhos mais azuis que o normal, e disse que queria falar com o gerente imediatamente. “Vocês vão fazer a sobrancelha da minha namorada ou eu vou mandar fechar esta porra de lugar. Vocês não merecem ter um alvará.”

A mulher se transformou numa coquete sorridente e solícita. “Sinto muito, foi um mal-entendido”, disse ela. Sim, eles podiam fazer as sobrancelhas. Ifemelu não quis, temendo que a mulher fosse queimá-la, arrancar sua pele, beliscá-la, mas Curt estava ultrajado demais por ela, soltando fumaça no ambiente abafado do salão, e por isso ela sentou-se, tensa, e aguardou enquanto a mulher passava cera em suas sobrancelhas.

Quando eles estavam no carro de novo, Curt perguntou: “Em que mundo os pelos da sua sobrancelha são crespos? E por que seria difícil passar cera num cabelo crespo, porra?”.

“Talvez eles nunca tenham feito a sobrancelha de uma mulher negra e pensem que é diferente, pois nosso cabelo é mesmo diferente, mas acho que agora ela sabe que as sobrancelhas não são tão diferentes.”

Curt deu uma risada de desdém, esticando o braço para pegar a mão dela, com a palma da mão morna. Durante a festa do casamento, ele manteve os dedos entrelaçados aos de Ifemelu. Jovens em minúsculos vestidos, com a barriga sugada para dentro, iam em hordas cumprimentá-lo e flertar com ele, perguntando se Curt lembrava delas, a amiga de Ashleigh do colégio, a colega de quarto de Ashleigh na faculdade. Quando Curt dizia: “Essa é minha namorada, Ifemelu”, elas a olhavam com surpresa, uma surpresa que algumas disfarçavam e outras não, e em sua expressão surgia a pergunta: “Por que ela?”. Aquilo divertia Ifemelu. Ela já vira aquele olhar antes, no rosto de mulheres brancas, estranhas por quem passavam na rua, que viam sua mão na de Curt e imediatamente tinham o rosto anuviado por aquele olhar. Era o olhar de pessoas encarando uma imensa perda da tribo. Não era apenas por Curt ser branco, mas pelo tipo de branco que era, com os cabelos dourados e revoltos e o rosto bonito, o corpo de atleta, o charme solar, exalando dinheiro. Se ele fosse gordo, mais velho, pobre, feio, excêntrico ou tivesse dreads, aquilo seria menos espantoso e as guardiãs da tribo seriam amansadas. E não ajudava o fato de que, embora Ifemelu fosse uma mulher negra bonita, não era o tipo de mulher negra que elas, com algum esforço, conseguiriam imaginar com alguém como ele: não tinha a pele clara, não era mulata. Naquela festa, Curt continuou segurando sua mão, beijou-a diversas vezes e apresentou-a para todo mundo. Seu divertimento foi azedando e se transformando em exaustão. Os olhares haviam começado a penetrar sua pele. Ela estava cansada até da proteção de Curt, cansada de precisar dela.

Curt se inclinou para perto de Ifemelu e sussurrou: “Está vendo aquela ali, com o bronzeado artificial feio? Ela nem viu que a porra do namorado não para de olhar para você desde que chegamos”.

Então ele havia notado e compreendido os olhares de “Por que ela?”. Ifemelu ficou surpresa. Às vezes, mesmo enquanto flutuava em sua exuberância borbulhante, ele tinha um lampejo de intuição, de uma percepção surpreendente, e ela se perguntava se havia outras coisas, mais fundamentais, que não discernia nele. Como na ocasião em que sua mãe tinha passado os olhos no jornal de domingo e murmurado que algumas pessoas ainda estavam procurando motivos para reclamar, embora os Estados Unidos agora fossem cegos para a cor, e ele respondera: “Ah, mamãe. E se dez pessoas com a aparência de Ifemelu de repente entrassem aqui para comer? Você entende que os outros clientes não iam ficar nada satisfeitos?”.

“Talvez”, dissera a mãe dele, sem entrar muito no assunto e erguendo as sobrancelhas com uma expressão de acusação para Ifemelu, como quem dizia que sabia muito bem quem havia transformado seu filho num patético defensor dos negros. Ifemelu dera um pequeno sorriso vitorioso.

Mas, certa vez, eles foram visitar a tia de Curt, Claire, em Vermont, uma mulher que tinha uma fazenda de produtos orgânicos, andava descalça e falava sobre o quanto aquilo a fazia sentir-se conectada com a terra. Por acaso Ifemelu tinha tido uma experiência parecida na Nigéria?, perguntara ela, fazendo uma cara de decepção quando Ifemelu respondeu que sua mãe lhe daria um tapa se ela saísse sem sapatos. Durante toda a visita, Claire falou sobre seu safári no Quênia, sobre a elegância de Mandela, sobre sua adoração por Harry Belafonte, e Ifemelu temeu que fosse começar a usar as gírias dos negros americanos ou a falar suaíli. Depois que eles deixaram sua enorme casa, ela disse: “Aposto que ela seria uma mulher interessante se fosse ela mesma. Não preciso que se esforce tanto para me assegurar que gosta de pessoas negras”.

E Curt disse que a questão não era a raça, mas o fato de que sua tia tinha uma consciência aguda da diferença, qualquer diferença.

“Ela teria feito exatamente a mesma coisa se eu tivesse aparecido lá com uma russa loura.”

É claro que a tia dele não teria feito a mesma coisa com uma russa loura. Uma russa loura era branca, e a tia não teria sentido a necessidade de provar que gostava de pessoas com a aparência da russa loura. Mas Ifemelu não disse isso a Curt, porque lamentou que não fosse óbvio para ele.

Quando eles entraram num restaurante com mesas cobertas por toalhas de linho e o recepcionista olhou-os e perguntou a Curt: “Mesa para um?”, Curt rapidamente disse a Ifemelu que o recepcionista não tinha dito aquilo “por isso”. E ela quis perguntar: “Por qual outro motivo seria?”. Quando a mulher com cabelos cor de morango que era dona de uma pousada em Montreal se recusou a demonstrar que tinha registrado a presença de Ifemelu enquanto eles faziam o check-in, numa cegueira determinada, sorrindo e olhando apenas para Curt, ela quis lhe dizer o quanto se sentia negligenciada, mais ainda porque não sabia se a mulher não gostava de negros ou se gostava de Curt. Mas não disse, pois Curt lhe diria que ela estava se ofendendo por nada, ou que estava cansada, ou ambos. Era simples: havia momentos em que ele via e momentos em que não conseguia ver. Ifemelu sabia que devia mencionar esses pensamentos, que não contar lançava uma sombra sobre eles dois. Ainda assim, escolhia o silêncio. Até o dia em que eles discutiram sobre a revista dela. Curt pegou uma edição da Essence da pilha que havia em sua mesa de centro, numa das raras manhãs que passaram no apartamento dela, quando o ar ainda estava espesso com o aroma das omeletes que ela fizera.

“Esta revista é meio racialmente tendenciosa”, disse ele.

“O quê?”

“Admita. Só tem mulheres negras aqui.”

“Você está falando sério?”, disse ela.

Curt ficou intrigado. “Estou.”

“Vamos à livraria.”

“O quê?”

“Preciso te mostrar uma coisa. Não discuta.”

“Tudo bem”, disse ele, sem saber direito o que era aquela nova aventura, mas ansioso, com seu deleite infantil, por participar dela.

Ifemelu dirigiu até a livraria na Inner Harbor, pegou edições de todas as revistas femininas que estavam dispostas na prateleira e levou-o até o café.

“Quer um latte?”, perguntou ele.

“Quero, obrigada.”

Depois que eles sentaram e puseram os copos de papel sobre a mesa, ela disse: “Vamos começar com as capas”. Espalhou as revistas sobre a mesa, colocando algumas sobre as outras. “Veja, todas são mulheres brancas. Essa aqui supostamente é hispânica, a gente sabe porque eles escreveram duas palavras em espanhol aqui, mas ela é igualzinha a esta mulher branca, não tem nenhuma diferença no tom da pele, no cabelo, nas feições. Agora vou folhear página por página e você vai me dizer quantas mulheres negras vê.”

“Ai, amor”, disse Curt, divertido, recostando-se na cadeira e levando o copo de papel aos lábios.

“Faça isso por mim”, pediu ela.

Então, ele contou. “Três mulheres negras”, disse, finalmente. “Ou talvez quatro. Ela talvez seja negra.”

“Ou seja, três mulheres negras em cerca de duas mil páginas de revistas femininas, e todas são mestiças ou racialmente ambíguas, de modo que também poderiam ser italianas, porto-riquenhas ou sei lá. Nenhuma tem a pele escura. Nenhuma se parece comigo, então eu não posso pegar dicas de maquiagem nestas revistas. Olhe, este artigo diz que você deve beliscar as bochechas para ficar corada, porque supõe que todas as leitoras da revista têm uma pele que fica corada desse jeito. Este aqui fala em produtos para o cabelo de todas — e ‘todas’ significa louras, morenas e ruivas. Eu não sou nada disso. E este fala dos melhores condicionadores — para cabelo liso, cacheado e encaracolado. Não crespo. Está vendo o que eles chamam de cabelo encaracolado? Meu cabelo nunca fica assim. Este aqui fala de combinar a cor de seus olhos com a cor da sombra — olhos azuis, verdes e castanho-esverdeados. Mas meus olhos são negros, então eu não sei que sombras funcionam para mim. Este diz que este batom rosa é universal, mas eles querem dizer universal se você for branca, porque eu ia parecer uma palhaça se tentasse usar esse tom. Ah, veja, aqui temos algum progresso. Um anúncio de base para o rosto. Tem sete tons diferentes para pele branca e um tom genérico de chocolate, mas isso já é um progresso. Agora vamos conversar sobre racialmente tendencioso. Está entendendo por que uma revista como a Essence existe?”

“Tudo bem, amor. Tudo bem. Eu não sabia que ia virar essa história toda”, disse ele.

Naquela noite, Ifemelu escreveu um longo e-mail para Wambui sobre a livraria, as revistas, as coisas que não dizia a Curt, o não dito e não terminado. Era um e-mail longo, que inquiria, questionava, revirava. Wambui respondeu, dizendo: “Tudo isso é tão cru e verdadeiro. Mais pessoas deveriam ler. Você devia fazer um blog”.

Os blogs eram algo novo, não familiar para Ifemelu. Mas dizer a Wambui o que tinha acontecido não fora satisfatório o suficiente; ela ansiava por ouvintes e ansiava por ouvir as histórias alheias. Quantas outras pessoas escolhiam o silêncio? Quantas tinham se tornado negras nos Estados Unidos? Quantas sentiam que seu mundo era envolto em gaze? Ifemelu terminou com Curt algumas semanas depois, fez um cadastro no WordPress e criou seu blog. Mais tarde ela mudaria o nome, mas no início ele chamava Raceteenth, ou Observações Curiosas de uma Negra Não Americana sobre a Questão da Negritude nos Estados Unidos. Seu primeiro post era uma versão do e-mail que tinha mandado para Wambui, só corrigindo a pontuação. Ela se referiu a Curt como “O Ex-Namorado Branco e Gostoso”. Algumas horas depois, foi ver as estatísticas do blog. Nove pessoas tinham lido. Em pânico, Ifemelu apagou o post. No dia seguinte, publicou-o de novo, modificado e editado, terminando-o com palavras das quais ainda se lembrava muito bem. E recitou essas palavras agora, na mesa de jantar da francesa e do americano, enquanto a poeta haitiana a observava com os braços cruzados.

Sabe qual é a solução mais simples para o problema da raça nos Estados Unidos? O amor romântico. Não a

amizade. Não o tipo de amor tranquilo e superficial cujo objetivo é manter as duas pessoas confortáveis. Mas

o amor romântico profundo e real, do tipo que retorce e estica você e faz com que respire através das

narinas da pessoa que ama. E como esse tipo de amor romântico profundo e real é tão raro e como a

sociedade americana é feita de modo a torná-lo ainda mais raro entre um negro americano e um branco

americano, o problema da raça nos Estados Unidos nunca vai ser resolvido.

 

“Ah! Que história maravilhosa!”, disse a anfitriã francesa, com a palma da mão pousada de forma dramática sobre o peito, olhando para os outros em volta da mesa como quem buscava uma reação. Mas todos os outros permaneceram em silêncio, desviando os olhares incertos.

 

Um agradecimento público a Michelle Obama

e o cabelo como metáfora da raça

 

A Amiga Branca e eu somos fãs de Michelle Obama. Por isso, outro dia, eu disse ela: “Será que a Michelle

Obama pôs mega-hair? O cabelo dela está mais cheio hoje e fazer escova todos os dias deve danificá-lo”. E

ela disse: “Quer dizer que o cabelo dela não é daquele jeito naturalmente?”. Só eu que acho, ou isso aí é a

metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos? Cabelo. Já viu como, nesses programas de televisão que

transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado,

pixaim) na foto feia do “antes” e como, na foto bonita do “depois”, alguém pegou um pedaço de metal

quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas como não

americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem,

não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal. (Por favor, pessoal dos comentários, não

diga que é a mesma coisa que uma mulher branca que não tinge o cabelo.) Quando você tem cabelo natural

de negro, as pessoas acham que você “fez” alguma coisa com ele. Na verdade, as pessoas com os afros e

os dreads são as que não “fizeram” nada com o cabelo. Você devia era perguntar à Beyoncé o que ela fez.

(Nós todos amamos Bey, mas que tal ela mostrar, só uma vez, como é o cabelo que sai natural de seu couro

cabeludo?) Eu tenho cabelo crespo natural. Que uso em afros, tranças, trança de raiz. Não, não é uma coisa

política. Não, eu não sou artista plástica, poeta ou cantora. Também não sou natureba. Só não quero relaxar

o cabelo — já estou em contato com muitas outras substâncias cancerígenas no meu cotidiano. (Aliás, será

que a gente pode banir as perucas afro no Halloween? O afro não é uma fantasia, pelo amor de Deus.)

Imagine se Michelle Obama se cansasse de toda aquela escova, decidisse usar o cabelo natural e aparecesse

na televisão com o cabelo parecendo algodão, ou com ele bem crespo? (Nunca se sabe como a textura do

cabelo de alguém vai ser. Não é incomum para uma mulher negra ter três texturas diferentes no cabelo.) Ela

ia ficar linda, mas o pobre do Obama sem dúvida ia perder o voto dos independentes e até dos democratas

indecisos.

atualização: ZoraNeale22, que está voltando ao cabelo natural agora, me pediu para postar como cuido

do meu. Manteiga de carité como condicionador sem enxágue funciona em muitos cabelos naturais. Mas

não para mim. Qualquer produto com manteiga de carité deixa meu cabelo acinzentado e ressecado. E ser

seco é o maior problema dele. Eu lavo uma vez por semana com um xampu hidratante sem silicone. Uso um

condicionador hidratante. Não seco com toalha. Deixo molhado, separo em seções, coloco um produto

cremoso sem enxágue (meu preferido atualmente é o Qhemet Biologics, mas também gosto das marcas

Oyin Handmade, Shea Moisture, Bask Beauty e Darcy’s Botanicals). Então, faço três ou quatro tranças

grandes começando na raiz e amarro meu lenço de cetim na cabeça (o cetim é bom, ele preserva a umidade.

Algodão é ruim, suga a umidade). Vou dormir. Na manhã seguinte, desfaço as tranças e voilà, estou com um

lindo afro macio! O mais importante é passar o produto enquanto o cabelo estiver molhado. E eu nunca,

nunca penteio o cabelo quando ele está seco. Só penteio quando está molhado, úmido ou cheio de

condicionador bem cremoso. Essa técnica de fazer trança com o cabelo molhado também pode funcionar

com as Amigas Brancas de Cabelo Seriamente Encaracolado que estão cansadas da chapinha e dos

tratamentos com queratina. Tem mais alguma negra americana ou não americana por aí que usa o cabelo

natural e quer contar como cuida dele?