Americanah
Capítulo 48
Ifemelu pediu que Ranyinudo fosse com ela e Doris à reunião dos Nigerpolitas.
“Pelo amor de Deus, não tenho energia para esse povo que voltou do exterior”, disse Ranyinudo. “Além do mais, Ndudi finalmente voltou de todas essas viagens que fez para cima e para baixo e nós vamos sair.”
“Que bonito, preferir um homem à sua amiga, sua bruxa.”
“Isso, ô. É você que vai casar comigo? Aliás, eu disse a Don que vou sair com você, então não vá a nenhum lugar onde ele possa estar.” Ranyinudo ria. Ela ainda estava saindo com Don, esperando para ter certeza de que Ndudi era “sério” antes de parar, e também torcia para que Don lhe comprasse um carro novo antes de isso acontecer.
A reunião do Clube Nigerpolita: um pequeno grupo de pessoas bebendo champanhe em copos de papel, à beira da piscina de uma casa em Osborno Estate, pessoas chiques, todas transbordando savoir-faire, todas acalentando o que chamavam de excentricidade — um afro ruivo, uma camiseta com uma estampa do rosto de Thomas Sankara, imensos brincos feitos à mão que pareciam peças de arte moderna. Suas frases eram carregadas de expressões estrangeiras. Não se acha um smoothie decente nesta cidade! Meu Deus do céu, você participou dessa conferência? O que este país precisa é de uma sociedade civil ativa. Ifemelu conhecia alguns deles. Ela conversou com Bisola e Yagazie, ambas de cabelo natural usado em madeixas retorcidas, com uma auréola de cachinhos em volta do rosto. Falaram sobre os salões do país, onde as cabeleireiras se atrapalhavam para pentear cabelos naturais como se fossem erupções alienígenas, como se seu próprio cabelo não tivesse sido assim antes de ser derrotado por produtos químicos.
“As meninas do salão sempre dizem: ‘Tia, você não quer relaxar o cabelo?’. É ridículo que os africanos não valorizem cabelo natural na África”, disse Yagazie.
“Concordo”, disse Ifemelu, e ela percebeu a superioridade em sua voz, na voz deles todos. Eram os santificados, os que tinham voltado, aqueles que haviam chegado com uma camada de brilho extra. Ikenna se aproximou delas, uma advogada que tinha morado perto da Filadélfia e que Ifemelu conhecera na convenção Blogging While Brown. Fred se aproximou também. Ele havia se apresentado para Ifemelu mais cedo, um homem gorducho e bem cuidado. “Eu morava em Boston até o ano passado”, dissera num tom de falsa modéstia, porque “Boston” significava Harvard (ou ele teria dito que morava no MIT, na Tufts ou em qualquer outro lugar), assim como outra mulher dissera “Eu morava em New Haven”, daquele jeito que afetava timidez e que significava que ela havia estudado em Yale. Outras pessoas vieram participar da conversa, todas encerradas numa familiaridade, porque podiam usar as mesmas referências com tanta facilidade. Logo, estavam todos rindo e listando as coisas americanas das quais sentiam falta.
“Leite de soja zero, NPR, internet rápida”, disse Ifemelu.
“Bom atendimento ao cliente, bom atendimento ao cliente, bom atendimento ao cliente”, disse Bisola. “O pessoal daqui se comporta como se estivesse fazendo um favor em servir você. Os lugares caros são bons, não são ótimos, mas os restaurantes normais? Pode esquecer. Outro dia perguntei ao garçom se podia pedir o inhame cozido com um molho diferente do que estava no cardápio e ele simplesmente ficou me olhando e disse que não. Hilário.”
“Mas a ideia de atendimento dos americanos pode ser tão irritante. Alguém que fica rodeando e incomodando você o tempo todo. Ainda está trabalhando nesse prato? Desde quando comer virou um trabalho?”, disse Yagazie.
“Sinto falta de um bom restaurante vegetariano?”, disse Doris, e então começou a falar sobre sua nova empregada, que não sabia fazer um simples sanduíche e sobre como tinha pedido um rolinho primavera vegetariano num restaurante em Victoria Island, dado uma mordida e sentido gosto de frango, e o garçom, ao ser chamado, tinha apenas sorrido e dito: “Talvez eles tenham colocado frango hoje”. Os outros riram. Fred disse que um bom restaurante vegetariano ia abrir em breve, agora que havia tantos novos investimentos no país; alguém descobriria que existia um mercado vegetariano a ser atendido.
“Um restaurante vegetariano? Impossível. Só existem quatro vegetarianos neste país, incluindo Doris”, disse Bisola.
“Você não é vegetariana, é?”, Fred perguntou a Ifemelu. Disse isso só para lhe dirigir a palavra. Ela erguia os olhos de tempos em tempos e o via encarando-a.
“Não”, disse ela.
“Tem esse lugar novo que abriu em Akin Adesola”, disse Bisola. “O brunch é muito bom. Eles servem o tipo de coisa que a gente gosta de comer. Devíamos ir lá domingo que vem.”
Eles servem o tipo de coisa que a gente gosta de comer. Ifemelu sentiu uma inquietação. Ela estava confortável aqui, mas não gostaria de estar. Também gostaria de não estar tão interessada nesse restaurante novo, de não ter se empertigado, imaginando saladas verdes frescas e legumes no vapor que permanecessem firmes. Amava comer todas as coisas das quais sentira saudades quando estava fora, como arroz jollof feito com bastante óleo, banana-da-terra frita e inhame cozido, mas também ansiava pelas coisas com as quais se acostumara nos Estados Unidos, até quinoa, a especialidade de Blaine, feita com queijo feta e tomate. Era isto que ela torcia para não ter se tornado, mas temia que tivesse: o tipo de pessoa que dizia “eles servem o tipo de coisa que a gente gosta de comer”.
Fred estava falando sobre Nollywood, com a voz um pouco alta demais. “Nollywood na verdade é um teatro público e, se você vir a coisa dessa maneira, ela se torna mais tolerável. É para consumo público, até para participação de massa, não para uma experiência individual.” Ele estava olhando para Ifemelu, pedindo sua concordância com os olhos: pessoas como eles supostamente não deveriam assistir aos filmes de Nollywood e, se assistissem, seria apenas como uma experiência antropológica divertida.
“Eu gosto de Nollywood”, disse Ifemelu, embora também achasse que se tratava mais de teatro do que de cinema. Sua vontade de contrariar os outros ali era forte. Se ela se diferenciasse, talvez não fosse tanto a pessoa que temia ter se tornado. “Nollywood pode ser melodramática, mas a vida na Nigéria é muito melodramática.”
“Jura?”, disse a mulher de New Haven, amassando seu copo de papel, como se achasse muito estranho que alguém ali gostasse de Nollywood. “É tão ofensivo à minha inteligência. Os produtos são simplesmente ruins. O que isso diz de nós?”
“Mas Hollywood faz filmes que são tão ruins quanto. É só a iluminação que é melhor”, disse Ifemelu.
Fred riu com entusiasmo demais, para que ela soubesse que estava do seu lado.
“Não é só o lado técnico”, disse a mulher de New Haven. “A indústria é regressiva. E a maneira como eles retratam as mulheres? Os filmes são mais misóginos que a sociedade.”
Ifemelu viu um homem do outro lado da piscina cujos ombros largos a fizeram se lembrar de Obinze. Mas era alto demais para ser ele. Ela se perguntou o que Obinze acharia de uma reunião como aquela. Será que iria a uma? Tinha sido deportado da Inglaterra, afinal, então talvez não considerasse que era um dos que haviam voltado, como eles.
“Ei, volte para a gente”, disse Fred, aproximando-se dela e invadindo seu espaço pessoal. “Sua cabeça está longe.”
Ela deu um sorriso sem graça. “Agora não está mais.”
Fred sabia das coisas. Ele tinha a autoconfiança de uma pessoa dotada de conhecimento prático. Provavelmente tinha um MBA em Harvard e usava palavras como “capacidade” e “valor” em suas conversas. Seus sonhos não deviam ter imagens vívidas, mas fatos e números.
“Tem um concerto amanhã no Muson. Você gosta de música clássica?”, perguntou ele.
“Não.” Ifemelu imaginava que ele também não gostasse.
“Está disposta a gostar de música clássica?”
“Disposta a gostar de algo, essa é uma ideia estranha”, disse ela, agora curiosa em relação a ele, vagamente interessada. Conversaram. Fred mencionou Stravinski e Strauss, Vermeer e Van Dyck, fazendo referências desnecessárias, citando demais, com o ânimo em sintonia com o outro lado do Atlântico, transparente demais em sua performance, ansioso demais por mostrar o quanto sabia do mundo ocidental. Ifemelu ouviu, dando um enorme bocejo interno. Havia se enganado em relação a ele. Não era o tipo que fazia MBA e achava que o mundo era um negócio. Era um empreendedor, untuoso e bem treinado, o tipo de homem que sabia imitar bem o sotaque americano e o britânico, que sabia o que dizer para estrangeiros, como deixá-los confortáveis, e que teria facilidade em conseguir investimentos estrangeiros para projetos duvidosos. Ela se perguntou como seria por debaixo daquela camada ensaiada.
“Você vai tomar um drinque com a gente?”, perguntou Fred.
“Estou exausta. Acho que vou para casa. Mas me ligue.”