Americanah
Parte 2
3.
Mariama terminou o penteado da cliente, aplicou-lhe um produto para dar brilho ao cabelo e, depois que ela foi embora, disse: “Vou comprar comida chinesa”.
Aisha e Halima lhe disseram o que queriam — frango superpicante, asinhas, frango com laranja — com a facilidade e a rapidez de quem dizia aquilo todos os dias.
“Quer alguma coisa?”, perguntou Mariama a Ifemelu.
“Não, obrigada.”
“Seu cabelo vai demorar. Tem de comer”, disse Aisha.
“Tudo bem. Eu tenho uma barrinha”, disse Ifemelu. Ela também tinha cenourinhas, embora até então só tivesse comido seu chocolate derretido.
“Barrinha de quê?”, perguntou Aisha.
Ifemelu mostrou-lhe a barrinha orgânica, integral e com pedaços de fruta de verdade.
“Isso não é comida!”, disse Halima com desprezo, tirando os olhos da televisão.
“Ela está aqui há quinze anos, Halima”, disse Aisha, como se o tempo que Ifemelu estava nos Estados Unidos explicasse o fato de comer barras de cereal.
“Quinze? Bastante”, disse Halima.
Aisha esperou Mariama sair para tirar o celular do bolso. “Desculpe, vou ligar rapidinho”, disse ela, indo para fora. Seu rosto estava alegre quando voltou; nele, havia uma beleza sorridente e de feições regulares que Ifemelu não vira ali antes.
“Emeka trabalha até tarde hoje. Então você só vai ver Chijioke antes de a gente terminar”, disse Aisha, como se ela e Ifemelu tivessem planejado aquilo juntas.
“Olhe, você não precisa pedir para passarem aqui. Não vou nem saber o que dizer”, disse Ifemelu.
“Você diz a Chijioke que igbo casa com quem não é igbo.”
“Aisha, não posso mandar o rapaz casar com você. Ele vai casar se quiser.”
“Eles querem casar comigo. Mas eu não sou igbo!” Os olhos de Aisha emitiram faíscas; ela devia ser um pouco instável.
“Foi isso que disseram?”, perguntou Ifemelu.
“Emeka disse que a mãe falou que, se ele casar com americana, ela se mata”, explicou Aisha.
“Isso não é bom.”
“Mas eu sou africana.”
“Então quem sabe ela não se mate se ele casar com você.”
Aisha olhou para ela sem expressão. “A mãe do seu namorado quer que ele case com você?”
Ifemelu primeiro pensou em Blaine e depois se deu conta de que Aisha, é claro, estava falando de seu namorado inventado.
“Quer. Ela sempre pergunta quando vamos nos casar.” Ela ficou impressionada com a própria fluidez; era como se tivesse convencido até a si mesma de que não estava vivendo de lembranças emboloradas pela passagem de treze anos. Mas poderia ter sido verdade; a mãe de Obinze gostava dela, afinal.
“Ah!”, disse Aisha, com uma inveja bem-intencionada.
Um homem de pele ressecada e fartos cabelos brancos entrou com uma bandeja de plástico repleta de ervas para vender.
“Não, não, não”, disse Aisha, com a palma da mão erguida como que para repeli-lo. O homem retirou-se. Ifemelu sentiu pena dele, com seu ar faminto e seu dashiki puído, e se perguntou quanto conseguiria ganhar com aquilo. Ela devia ter comprado alguma coisa.
“Você fala igbo com Chijioke. Ele ouve você”, disse Aisha. “Você fala igbo?”
“É claro que falo igbo”, disse Ifemelu na defensiva, enquanto se perguntava se Aisha mais uma vez estava sugerindo que os Estados Unidos a tinham mudado. “Cuidado!”, acrescentou, porque Aisha tinha passado um pente de dentes minúsculos por uma madeixa.
“Seu cabelo é duro”, disse Aisha.
“Não é duro”, retrucou Ifemelu. “Você está usando o pente errado.” Ela tirou o pente das mãos de Aisha e colocou-o sobre a mesa.
Ifemelu tinha crescido à sombra do cabelo de sua mãe. Era preto retinto, tão grosso que sugava dois frascos de relaxante no salão, tão cheio que tinha de passar duas horas sob o secador e, quando finalmente era libertado dos bobes rosa, saltava, livre e vasto, cascateando pelas costas como uma celebração. Seu pai dizia que era uma coroa de glória. “É seu cabelo de verdade?”, perguntavam estranhos, esticando o braço para tocá-lo com reverência. Outros indagavam “Você é jamaicana?” como se apenas o sangue estrangeiro pudesse explicar cabelos tão abundantes que não rareavam nas têmporas. Durante toda a infância, Ifemelu muitas vezes olhava no espelho e puxava seu cabelo, esticava os cachinhos, desejando que ficasse como o da mãe; mas ele permaneceu crespo e crescia com relutância; as cabeleireiras que o trançavam diziam que os fios cortavam que nem faca.
Um dia, no ano em que Ifemelu comemorou seu décimo aniversário, sua mãe chegou do trabalho com um ar diferente. Suas roupas eram as mesmas, um vestido marrom cingido por um cinto, mas ela estava corada e com os olhos desfocados. “Onde está a tesoura grande?”, perguntou, e, quando Ifemelu a trouxe, ela ergueu-a e, mecha por mecha, cortou o cabelo todo. Ifemelu ficou observando de olhos arregalados, atônita. O cabelo ficou jogado no chão como grama morta. “Traga uma sacola grande”, disse a mãe. Ifemelu obedeceu, sentindo que estava em transe, sem compreender o que acontecia. Ela observou-a andar pelo apartamento, pegando todos os objetos católicos, os crucifixos pendurados nas paredes, os terços aninhados nas gavetas, os missais exibidos nas prateleiras. A mãe enfiou tudo na sacola de plástico e levou-a até o quintal com passos rápidos, mantendo o olhar distante. Fez uma fogueira ao lado da lata de lixo, no mesmo lugar onde queimava seus absorventes usados, e primeiro jogou o cabelo, embrulhado em jornal velho, e depois, um por um, os objetos de fé. Uma fumaça cinza-escuro subiu formando caracóis. Da varanda, Ifemelu começou a chorar, porque sentiu que algo acontecera e que a mulher diante do fogo, jogando mais querosene quando ele ameaçava apagar e se afastando quando as chamas ficavam mais fortes, aquela mulher careca e sem expressão, não era sua mãe, não podia ser.
Quando sua mãe entrou, Ifemelu deu um passo para trás, mas ela abraçou a filha com força.
“Eu fui salva”, disse. “A sra. Ojo pregou para mim esta tarde durante o recreio das crianças e eu recebi Cristo. As coisas velhas passaram e tudo se tornou novo. Deus seja louvado. No domingo, vamos começar a ir à Igreja dos Santos Renascidos. É uma igreja que acredita na Bíblia, uma igreja viva, diferente da St. Dominic.” Aquelas palavras não eram da sua mãe. Ela as falou de maneira rígida demais, agindo como outra pessoa. Mesmo sua voz, que em geral era aguda e feminina, tornara-se mais grossa e pesada. Naquela tarde, Ifemelu viu a essência da mãe se esvair. Antes disso, a mãe rezava o terço de vez em quando, fazia o sinal da cruz antes de comer, usava imagens bonitas de santos no pescoço, cantava músicas em latim e ria quando o pai de Ifemelu caçoava de sua pronúncia terrível. Ela também ria sempre que ele dizia: “Sou um agnóstico que respeita a religião”, e afirmava que ele tinha sorte de ter se casado com ela, pois, embora fosse à igreja só quando havia um velório ou um casamento, ele entraria no céu nas asas da sua fé. Mas, depois daquela tarde, seu Deus mudou. Tornou-se exigente. O cabelo alisado O ofendia. A dança O ofendia. Ela barganhava com Deus, oferecendo a fome em troca da prosperidade, de uma promoção, de boa saúde. Jejuou tanto que ficou só pele e osso: não comia nem bebia nada nos fins de semana e, nos dias úteis, só bebia água até o início da noite. O pai de Ifemelu a observava, inquieto, implorando-lhe que comesse um pouco mais, jejuasse um pouco menos, sempre falando com cuidado para que ela não o chamasse de agente do demônio e o ignorasse, assim como fizera com uma prima que estava hospedada com eles. “Estou jejuando pela conversão de seu pai”, dizia sempre a Ifemelu. Durante meses, a atmosfera no apartamento parecia vidro rachado. Todos pisavam em ovos perto da mãe, que se tornara uma estranha, magra, ossuda e severa. Ifemelu temia que um dia ela simplesmente quebrasse ao meio e morresse.
Então, no Sábado de Aleluia, um dia soturno, o primeiro Sábado de Aleluia calmo da vida de Ifemelu, sua mãe saiu correndo da cozinha e disse: “Eu vi um anjo!”. Antigamente, eles estariam cozinhando, animados, com muitas panelas na cozinha e muitos parentes no apartamento, e Ifemelu e a mãe teriam ido à missa da noite e erguido velas acesas, cantando em meio a um mar de chamas bruxuleantes, depois voltado para casa para continuar a fazer o enorme almoço de Páscoa. Mas o apartamento estava em silêncio. Os parentes não tinham ido vê-los e o almoço ia ser arroz e cozido, como sempre. Ifemelu estava na sala com o pai e, quando a mãe disse “Eu vi um anjo!”, reparou na exasperação nos olhos dele, um breve lampejo que logo desapareceu.
“O que aconteceu?”, perguntou o pai, no tom apaziguador de quem fala com uma criança, como se não contrariar a loucura da mulher fosse fazê-la desaparecer depressa.
A mãe falou de uma visão que acabara de ter, uma aparição flamejante que surgira ao lado do fogão, de um anjo segurando um livro debruado de fio vermelho, dizendo-lhe que deixasse a Santos Renascidos porque o pastor era um bruxo que todas as noites participava de encontros demoníacos no fundo do mar.
“Você devia dar ouvidos a esse anjo”, disse o pai de Ifemelu.
Assim, sua mãe abandonou a igreja e começou a deixar o cabelo crescer de novo, mas parou de usar colares e brincos porque as joias, de acordo com o pastor da Fonte de Milagres, não eram de Deus nem eram apropriadas para uma mulher virtuosa. Pouco depois, no dia do golpe fracassado, quando os comerciantes que viviam no andar de baixo estavam chorando porque aquilo teria salvado a Nigéria e as mulheres do mercado teriam virado ministras, sua mãe teve outra visão. Dessa vez o anjo apareceu em seu quarto, em cima do guarda-roupa, e disse-lhe que deixasse a Fonte de Milagres e fosse para a Assembleia dos Guias. No meio do primeiro culto a que Ifemelu assistiu com a mãe, num salão de convenções de chão de mármore, cercada por pessoas perfumadas e pelo ricocheteio de vozes exaltadas, Ifemelu olhou para a mãe e viu que ela estava chorando e rindo ao mesmo tempo. Nessa igreja de esperanças profundas, onde as pessoas batiam os pés no chão e aplaudiam, onde Ifemelu imaginava haver um redemoinho de anjos afluentes pairando acima deles, o espírito de sua mãe encontrara seu lugar. A igreja era repleta de novos-ricos; o pequeno carro de sua mãe era o mais velho do estacionamento, com sua pintura fosca e seus inúmeros arranhões. Se ela louvasse com os prósperos, dissera, Deus a abençoaria como os abençoara. Voltou a usar joias e a beber sua Guinness preta; jejuava apenas uma vez por semana e muitas vezes dizia “Meu Deus me disse” e “Minha Bíblia diz”, como se o Deus e a Bíblia das outras pessoas não fossem apenas diferentes, mas equivocados. Respondia a “Bom dia” e “Boa tarde” dizendo alegremente “Deus te abençoe!”. Seu Deus se tornou alegre e não se importava em receber ordens. Toda manhã, ela acordava as pessoas da casa para rezar; eles todos se ajoelhavam no carpete áspero da sala, cantando, batendo palmas, cobrindo o dia que começava com o sangue de Jesus, e as palavras de sua mãe trespassavam o silêncio do amanhecer: “Deus, meu Pai Todo-Poderoso, eu ordeno que encha esse dia de bênçãos e prove para mim que é o Deus! Senhor, estou esperando por minha prosperidade! Não permita que o demônio vença, não permita que meus inimigos triunfem!”. O pai de Ifemelu certa vez disse que essas preces eram batalhas alucinadas com enganadores imaginários, mas fazia questão de que ela sempre acordasse cedo para participar. “Isso deixa sua mãe feliz”, dizia.
Na igreja, quando chegava a hora de os fiéis darem seu testemunho, sua mãe era a primeira a correr para o altar. “Eu estava com catarro esta manhã”, dizia ela. “Mas, quando o pastor Gideon começou a rezar, ele sumiu. Agora, não estou sentindo mais nada. Louvado seja Deus!” A congregação gritava “Aleluia!” e outras pessoas davam seus testemunhos. Eu não estudei porque estava doente, mas passei na prova com nota máxima! Eu estava com malária, mas rezei e fui curado! Minha tosse sumiu quando o pastor começou a rezar! Mas sua mãe sempre ia primeiro, deslizando, sorridente, envolta na aura da salvação. Mais tarde, quando chegava o momento do culto em que o pastor Gideon se levantava de um salto com seu terno com ombreiras e seus sapatos pontudos e dizia: “Nosso Deus não é um Deus pobre! Amém! É nosso destino prosperar! Amém!”, a mãe de Ifemelu erguia o braço bem alto, na direção do paraíso, e dizia: “Amém, Senhor meu Pai, amém”.
Ifemelu não achava que Deus dera aquela casa enorme e todos aqueles carros ao pastor Gideon, mas que, é claro, ele os comprara com o dinheiro das três coletas que eram feitas a cada culto, e não achava que Deus faria por todos o que fizera pelo pastor, porque isso era impossível, mas gostava do fato de a mãe ter passado a comer regularmente. O calor dos olhos dela voltara, havia uma nova alegria em sua atitude, e ela ficava sentada à mesa com o marido após as refeições e cantava bem alto quando estava na banheira. Sua nova igreja a absorvia, mas não a destruía. Tornou-a previsível e fácil de enganar. Dizer “Vou à aula de Estudos Bíblicos” e “Vou à Irmandade” eram as maneiras mais fáceis de Ifemelu sair sem ter de responder muitas perguntas durante a adolescência. Ifemelu não se interessava pela igreja e era indiferente a fazer qualquer esforço religioso, talvez porque sua mãe já fizesse tantos. Mas a fé da mãe a confortava; em sua mente, era uma nuvem branca que ficava acima de sua cabeça e ia aonde quer que ela fosse. Até o General surgir na vida deles.
Todas as manhãs, a mãe de Ifemelu rezava pelo General. Ela dizia: “Meu Pai, ordeno que abençoe o mentor de Uju. Que os inimigos dele nunca triunfem!”. Ou dizia: “Cobrimos o mentor de Uju com o sangue precioso de Jesus!”. E Ifemelu murmurava algo sem sentido em vez de dizer amém. Sua mãe dizia a palavra “mentor” de modo desafiador, com um tom de voz pesado, como se a potência de sua expressão fosse realmente transformar o General num mentor e fazer o mundo virar um lugar onde jovens médicas podiam pagar pelo Mazda da tia Uju, aquele automóvel verde-cintilante de linhas feitas para intimidar.
Chetachi, que morava no andar de cima, perguntou a Ifemelu: “Sua mãe disse que o mentor da sua tia Uju emprestou dinheiro para ela comprar o carro, é verdade?”.
“É.”
“Ê! Sua tia Uju é sortuda, ô!”, disse Chetachi.
Ifemelu não deixou de perceber o sorrisinho irônico dela. Chetachi e a mãe dela já deviam ter fofocado sobre o carro; eram pessoas invejosas e faladeiras que faziam visitas apenas para ver o que os outros tinham, avaliando móveis e aparelhos eletrônicos novos.
“Que Deus abençoe esse homem, ô. Tomara que eu também consiga um mentor quando me formar”, disse Chetachi. Ifemelu ficou furiosa com as provocações dela. Mas a culpa era de sua mãe, por contar tão avidamente aos vizinhos a história do mentor. Não devia fazer aquilo; não era da conta de ninguém o que tia Uju fazia. Ifemelu havia escutado a mãe dizendo a alguém no quintal do prédio: “O General queria ser médico quando era jovem, por isso agora ele ajuda jovens médicos. Deus o usa muito para interferir na vida das pessoas”. E ela parecia sincera, alegre, convincente. Acreditava nas próprias palavras. Ifemelu não conseguia entender isso, a capacidade de a mãe contar a si mesma histórias sobre a realidade que não guardavam nenhuma semelhança com os fatos. Quando tia Uju lhes contou sobre o novo emprego — as palavras dela foram: “O hospital não tinha uma vaga para médico, mas o General fez com que abrissem uma para mim” —, a mãe de Ifemelu dissera prontamente: “É um milagre!”.
Tia Uju sorria, um sorriso silencioso que não revelava nada; é claro que ela não achava que era um milagre, mas se recusava a dizê-lo. Ou talvez houvesse sim algo de milagroso em seu novo emprego de consultora no hospital militar em Victoria Island, em sua nova casa em Dolphin Estate, um conjunto de casas de dois andares que tinham um frescor estrangeiro, algumas delas pintadas de rosa e outras de um azul de céu cálido, cercadas por um parque de grama viçosa como o tecido de um tapete novo e bancos onde as pessoas podiam se sentar — uma raridade, mesmo na Ilha de Lagos. Semanas antes ela era uma recém-formada e todos os seus colegas estavam falando em sair do país e fazer a prova para obter a licença médica nos Estados Unidos ou no Reino Unido, porque a opção era desabar sobre um deserto de desemprego. O país estava sedento de esperança, com carros parados durante dias em longas e suarentas filas para comprar gasolina, aposentados carregando placas esmaecidas em que exigiam receber sua pensão, professores se reunindo para anunciar mais uma greve. Mas tia Uju não queria sair do país; Ifemelu sabia que ela sempre desejara ser dona de uma clínica privada e agarrava-se firmemente a esse sonho.
“A Nigéria não vai continuar assim para sempre. Tenho certeza de que vou encontrar um emprego de meio período, e vai ser difícil, sim, mas um dia vou abrir minha clínica, e vai ser na Ilha de Lagos!”, dizia tia Uju para Ifemelu. Então ela foi ao casamento de uma amiga. O pai da noiva era vice-marechal do ar, por isso havia um boato de que o chefe de Estado estaria presente. Tia Uju brincou, dizendo que ia pedir que lhe desse o cargo de médica oficial de sua residência. Ele não foi, mas muitos de seus generais foram, e um deles mandou seu ajudante chamar tia Uju e pedir que fosse até o carro dele no estacionamento após a recepção. Quando ela se aproximou do Peugeot escuro com uma bandeirinha presa na frente e disse “Boa tarde, senhor” para o homem no banco de trás, ele afirmou: “Gostei de você. Quero cuidar de você”. Talvez houvesse algo de milagroso nessas palavras. Gostei de você. Quero cuidar de você. Mas não no sentido em que a mãe de Ifemelu acreditava. “Um milagre! Deus é fiel!”, disse ela nesse dia, com os olhos úmidos de fé.
Num tom parecido, quando o marido perdeu o emprego na agência federal, a mãe de Ifemelu disse: “O demônio é um mentiroso. Ele quer começar a bloquear nossas bênçãos, mas não vai conseguir”. Ele foi demitido por se recusar a chamar sua nova chefe de Mamãe. Chegou em casa mais cedo do que o normal, destroçado por um espanto amargo, com a carta de demissão na mão, reclamando do absurdo que era um homem adulto chamar uma mulher adulta de Mamãe porque ela decidira que aquela era a melhor maneira de demonstrar respeito. “Dez anos de trabalho dedicado. É inescrupuloso”, disse ele. A mãe de Ifemelu deu-lhe tapinhas nas costas, disse-lhe que Deus providenciaria outro emprego e que, até lá, eles se arranjariam com o salário de vice-diretora de escola dela. Ele saía para procurar emprego todos os dias, com os dentes cerrados e um nó firme na gravata, e Ifemelu se perguntou se simplesmente entrava em empresas aleatórias para tentar a sorte; mas logo começou a ficar em casa usando uma canga e uma camiseta sem manga, esparramado no sofá, ao lado do som. “Você não tomou banho hoje de manhã?”, a mulher perguntou-lhe certa tarde ao chegar do trabalho com um ar exausto, segurando pastas contra o peito e com manchas de suor nas axilas. E depois acrescentou, irritada: “Se você precisa chamar alguém de Mamãe para ganhar um salário, devia ter feito isso!”.
Ele não disse nada; por um momento pareceu perdido, encolhido e perdido. Ifemelu sentiu pena dele. Perguntou-lhe sobre o livro que estava aberto sobre seu colo, um livro familiar que sabia que ele lera antes. Esperou que o pai fosse fazer um de seus longos discursos sobre algo como a história da China, e ela ouviria sem prestar muita atenção, como sempre, alegrando-o. Mas ele não estava com vontade de conversar. Deu de ombros, como quem dizia que ela podia pegar o livro se quisesse. As palavras da mulher o machucavam com facilidade demais; sua atenção estava sempre nela, seus ouvidos permaneciam esperando sua voz, os olhos constantemente pousados nela. Não fazia muito tempo, antes de ser demitido, ele havia dito a Ifemelu: “Quando eu for promovido, comprarei para sua mãe algo memorável de fato”. Ifemelu tinha perguntado o que seria, e ele sorriu e disse, num tom de mistério: “Será revelado em breve”.
Olhando-o ali, mudo no sofá, Ifemelu pensou no quanto ele parecia ser o que era, um homem repleto de anseios desbotados, um funcionário público com ambições intelectuais que desejara uma vida diferente da que tinha, desejara ter estudado mais. Seu pai sempre contava que não pudera fazer faculdade porque precisara arrumar um emprego para sustentar os irmãos, e que pessoas menos inteligentes que ele no ensino médio tinham feito doutorado. Expressava-se num inglês polido e formal. As empregadas deles mal o entendiam, mas ainda assim ficavam bastante impressionadas. Certa vez, uma empregada antiga, Jecinta, entrara na cozinha e começara a bater palmas baixinho, dizendo a Ifemelu: “Você devia ter escutado a palavra bonita que seu pai falou agora! O di egwu!”. Às vezes, Ifemelu o imaginava numa sala de aula dos anos 1950, um colonizado entusiasmado demais num uniforme escolar de algodão barato do tamanho errado, esforçando-se para impressionar os professores missionários. Até a caligrafia dele era afetada, cheia de curvas e floreios, com uma elegância uniforme que parecia impressa. Quando Ifemelu era criança, levava bronca dele por ser recalcitrante, irascível, intransigente, palavras que faziam suas pequenas ações parecerem épicas e quase dignas de orgulho. Mas o inglês rebuscado do pai começou a incomodá-la quando ela ficou mais velha, pois era uma fantasia, seu escudo contra a insegurança. Ele era assombrado pelo que não tinha — um diploma, uma vida de classe média alta — e, por isso, suas palavras empoladas se tornaram uma armadura. Ifemelu preferia quando o pai falava igbo; eram as únicas ocasiões em que parecia não ter consciência de suas ansiedades.
Perder o emprego deixou-o mais silencioso, e surgiu uma parede fina entre ele e o mundo. Já não resmungava “país de melífluos incuráveis” quando começava o noticiário da noite na NTA, não fazia longos monólogos sobre como o governo de Babangida reduzira os nigerianos a idiotas imprudentes, não brincava com a mulher. E, o que era pior, começara a participar das orações matinais. Nunca tinha feito isso antes; certa vez, a esposa insistira que o fizesse antes de saírem para visitar a aldeia dos dois. “Vamos rezar e cobrir as estradas com o sangue de Jesus”, dissera ela, e ele respondera que as estradas iam ficar mais seguras e menos escorregadias se não estivessem cobertas de sangue. O que fez a mulher franzir o cenho e Ifemelu desatar a rir.
Pelo menos ele continuava não indo à igreja. Antes, Ifemelu costumava chegar da igreja com a mãe e encontrá-lo no chão da sala, mexendo numa pilha de LPs e cantando com a música que vinha do aparelho de som. Sempre parecia renovado, descansado, como se ficar sozinho com seus discos o nutrisse. Mas quase não ouvia mais música depois de perder o emprego. Elas chegavam em casa e o encontravam na mesa de jantar, debruçado sobre folhas soltas de papel, escrevendo cartas para jornais e revistas. E Ifemelu soube que, se ele tivesse outra chance, chamaria sua chefe de Mamãe.
Era uma manhã de domingo, bem cedo, e alguém estava batendo na porta da frente. Ifemelu gostava das manhãs de domingo, da maneira lenta como o tempo se movia quando ela, vestida para ir à igreja, ficava sentada na sala com o pai enquanto a mãe se arrumava. Às vezes eles dois conversavam, às vezes ficavam em silêncio, um silêncio compartilhado e satisfatório, como o daquela manhã. Da cozinha, o zumbido da geladeira era o único som que se ouvia até começarem as pancadas na porta. Uma interrupção desagradável. Ifemelu abriu a porta e viu o proprietário do apartamento deles ali, um homem rotundo com olhos esbugalhados e vermelhos, que diziam começar o dia com um copo de gim puro. Ele nem olhou para Ifemelu, cravando os olhos no pai dela e berrando: “Já se passaram três meses! Ainda estou esperando meu dinheiro!”. A voz dele era conhecida de Ifemelu, os gritos estridentes que sempre vinham dos apartamentos dos vizinhos, do outro lugar. Mas agora ele estava ali e a cena chocou-a, o proprietário gritando na porta deles, seu pai fitando-o com uma expressão gélida e silenciosa. Sua família nunca devera o aluguel antes. Moravam naquele apartamento desde antes de ela nascer; era apertado, tinha as paredes da cozinha enegrecidas de fumaça de querosene, e Ifemelu sentia vergonha quando as amigas da escola iam visitá-la; mas sua família nunca devera o aluguel antes.
“Um bazofiador”, disse o pai dela quando o proprietário foi embora, e depois não disse mais nada. Não havia nada a dizer. Eles não tinham pagado o aluguel.
A mãe de Ifemelu apareceu, cantando e muito perfumada, com o rosto seco e brilhante de pó um tom mais claro do que deveria. Ela estendeu um pulso para o marido, com uma pulseira fina de ouro aberta.
“Uju vai passar aqui depois da igreja para nos levar para ver a casa em Dolphin Estate”, disse ela. “Você vai com a gente?”
“Não”, respondeu ele secamente, como se a nova vida de tia Uju fosse um assunto que preferia evitar.
“Devia ir”, disse ela. Mas o pai de Ifemelu não respondeu, apenas fechou a pulseira com cuidado e disse-lhe que vira o nível de água do motor do carro.
“Deus é fiel. Olhem só para Uju, comprando uma casa na Ilha!”, disse a mãe de Ifemelu, alegre.
“Mas, mamãe, você sabe que tia Uju não pagou um kobo para morar ali”, disse Ifemelu.
A mãe olhou-a. “Você passou esse vestido?”
“Ele não precisa ser passado.”
“Está amassado. Ngwa, vá passá-lo. Pelo menos tem luz. Ou vista outra coisa.”
Ifemelu se levantou com relutância. “Não está amassado.”
“Vá passá-lo. Não há necessidade de mostrar ao mundo que as coisas estão difíceis para nós. Nosso caso não é o pior. Hoje você tem aula com a irmã Ibinabo, por isso ande logo.”
Irmã Ibinabo era poderosa e, como fingia não sentir o peso desse poder, parecia mais poderosa ainda. Dizia-se que o pastor fazia tudo que ela pedia. A razão não era clara; alguns diziam que ela fundara a igreja com ele; outros, que sabia um segredo terrível de seu passado; e outros, que simplesmente tinha mais poder espiritual do que ele, mas não podia ser pastor porque era mulher. Ela podia impedir a aprovação pastoral de um casamento se quisesse. Conhecia tudo e todos, e parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, com seu ar de quem fora curtida pelo tempo, como se a vida a tivesse jogado de um lado para o outro durante um longo período. Era difícil saber quantos anos tinha, cinquenta ou sessenta, com seu corpo rijo e o rosto fechado como uma concha. Irmã Ibinabo nunca ria, mas com frequência dava o sorriso leve dos devotos. As mães a encaravam com reverência; levavam-lhe presentes e entregavam-lhe ansiosamente as filhas para a aula dominical. Irmã Ibinabo, a salvadora das jovens. Pediam-lhe que conversasse com meninas que estavam com problemas ou davam trabalho. Algumas mães perguntavam se as filhas podiam morar com ela no apartamento atrás da igreja. Mas Ifemelu sempre sentira na irmã uma hostilidade fervorosa e enraizada contra as meninas. Irmã Ibinabo não gostava delas, apenas as vigiava e amedrontava, como se ficasse ofendida por aquilo que ainda possuíam de fresco e que nela já secara havia muito.
“Vi você usando calças justas no sábado passado”, disse irmã Ibinabo para uma menina, Christie, num sussurro exagerado, baixo o bastante para fingir ser um sussurro, mas alto o bastante para que todos ouvissem. “Tudo é permissível, mas nem tudo é benéfico. Toda menina que usa calças justas deseja cair em tentação. É melhor evitar isso.”
Christie assentiu, humilde, agradecida, demonstrando sua vergonha.
Na sala dos fundos da igreja, as duas janelas minúsculas não deixavam entrar muita luz, por isso a lâmpada sempre ficava acesa durante o dia. Envelopes para angariar fundos estavam empilhados sobre a mesa e, ao lado deles, havia um monte de papéis coloridos que pareciam pedaços de tecido fino. As meninas começaram a se organizar. Logo, algumas estavam escrevendo nos envelopes e outras cortando e enrolando os papéis, dobrando-os em formato de flor e passando-os por um fio para formar grinaldas fofas. No domingo seguinte, num culto especial de Ação de Graças, as guirlandas seriam colocadas em torno do pescoço grosso do chefe Omenka e do pescoço menor dos membros de sua família. Ele havia doado duas vans novas para a igreja.
“Sente naquele grupo, Ifemelu”, disse irmã Ibinabo.
Ifemelu cruzou os braços e, como muitas vezes acontecia quando estava prestes a dizer algo que sabia ser melhor não dizer, as palavras lhe subiram correndo pela garganta. “Por que eu deveria fazer enfeites para um ladrão?”
Irmã Ibinabo arregalou os olhos, atônita. Fez-se um silêncio. As outras meninas ficaram observando, expectantes.
“O que você disse?”, perguntou irmã Ibinabo baixinho, dando a Ifemelu uma chance de pedir desculpas, de botar as palavras de novo na boca. Mas Ifemelu se sentiu incapaz de parar, com o coração aos pulos, precipitando-se por um caminho acelerado.
“O chefe Omenka é um estelionatário e todo mundo sabe disso”, disse ela. “Esta igreja está cheia de estelionatários. Por que a gente tem de fingir que este prédio não foi construído com dinheiro sujo?”
“Este trabalho é de Deus”, disse irmã Ibinabo baixinho. “Se não pode fazer o trabalho de Deus, é melhor ir embora. Vá.”
Ifemelu saiu às pressas da sala, passando correndo pelo portão na direção do ponto de ônibus, sabendo que em questão de minutos a história chegaria aos ouvidos da mãe, que estava dentro do prédio principal da igreja. Ela havia arruinado o dia. Tinham planejado ir ver a casa de tia Uju e fazer um belo almoço. Agora, a mãe ficaria irritada, mal-humorada. Ifemelu quis não ter dito nada. Afinal, já fizera guirlandas para outros estelionatários no passado, homens que tinham lugares especiais na primeira fila, que doavam carros com a facilidade de quem dava um chiclete. Tinha participado alegremente das recepções dadas em sua homenagem e comido arroz, carne e salada de repolho, comida contaminada pela fraude. Comera sabendo de tudo isso e não engasgara, nem pensara em engasgar. Mas havia algo de diferente naquele dia. Quando irmã Ibinabo falara com Christie, com aquele desprezo venenoso que afirmava ser orientação religiosa, Ifemelu tinha olhado para ela e visto um traço de sua própria mãe. Ela era uma pessoa mais doce e mais simples, mas, assim como irmã Ibinabo, negava que as coisas eram como eram. Uma pessoa que tinha de estender o manto da religião sobre seus desejos mesquinhos. De repente, a última coisa que Ifemelu queria era estar dentro daquela sala apertada e repleta de sombras. Tudo havia lhe parecido benigno antes, a fé da mãe, empapada de graça, mas, subitamente, não parecia mais. Por um segundo, desejou que ela não fosse sua mãe, e não sentiu culpa e tristeza, mas uma emoção única, uma mistura de culpa e tristeza.
O ponto de ônibus estava estranhamente vazio, e ela imaginou que todas as pessoas que sempre encontrava ali deviam estar dentro das igrejas, cantando e rezando. Esperou pelo ônibus, conjecturando se deveria ir para casa ou para outro lugar, esperar um pouco. Era melhor ir para casa enfrentar o que viesse.
A mãe puxou-lhe a orelha, um puxão quase delicado, como que relutando em lhe causar uma dor real. Fazia isso desde que Ifemelu era criança. “Vou bater em você!”, dizia quando a filha fazia algo de errado, mas nunca batia, só dava um puxão frouxo de orelha. Dessa vez puxou duas vezes, a segunda para enfatizar as palavras. “O demônio está usando você. Tem de rezar. Não julgue. Quem julga é Deus!”
O pai disse: “Você deve se abster de sua propensão natural à provocação, Ifemelu. Já é conhecida por insubordinação na escola, o que maculou seu singular currículo acadêmico. Não há necessidade de criar um padrão similar na igreja”.
“Pode deixar, papai.”
Quando tia Uju chegou, a mãe de Ifemelu lhe contou o que tinha acontecido. “Vá dar uma bronca naquela menina. Você é a única pessoa que ela ouve. Pergunte o que eu lhe fiz para querer me envergonhar desse jeito na igreja. Ela insultou a irmã Ibinabo! É como insultar o pastor! Por que essa menina tem de dar tanto trabalho? Sempre digo que, se era para se comportar assim, melhor se tivesse nascido menino.”
“Minha irmã, você sabe que o problema de Ifemelu é nem sempre saber quando deve ficar de boca fechada. Não se preocupe, vou conversar com ela”, disse tia Uju em seu papel de pacificadora, acalmando a esposa do primo. Ela sempre se dera bem com a mãe de Ifemelu, com quem tinha o relacionamento fácil de duas pessoas que evitam cuidadosamente ter conversas com alguma profundidade. Talvez tia Uju se sentisse grata por ela tê-la acolhido, aceitado seu status de parente residente especial. Quando Ifemelu era criança, ela não se sentia filha única por causa dos primos, tias e tios que moravam com eles. Sempre havia malas e bolsas no apartamento; às vezes, um ou dois parentes passavam semanas dormindo no chão da sala. A maioria era da família do pai, gente que fora a Lagos para aprender um ofício, estudar ou procurar emprego, para que as pessoas da aldeia não falassem mal do irmão que só tinha uma filha, mas não queria ajudar a criar os outros. O pai sentia que tinha uma obrigação com eles, insistia que todos estivessem em casa às oito da noite, certificava-se de que havia comida suficiente e trancava a porta do quarto até quando ia ao banheiro, porque qualquer um poderia entrar ali e roubar alguma coisa. Mas tia Uju era diferente. Inteligente demais para ficar perdida naquela roça, dizia ele. O pai de Ifemelu a chamava de irmã mais nova, embora ela fosse filha do irmão de seu pai, e fora mais protetor e menos distante com ela. Sempre que via Ifemelu e tia Uju enroscadas na cama, conversando, dizia carinhosamente: “Vocês duas, hein?”. Depois que tia Uju fora fazer faculdade em Ibadan, ele dissera para Ifemelu, quase com nostalgia: “Uju tinha uma influência calmante sobre você”. Parecia ver na proximidade das duas uma prova da boa escolha que fizera, como se tivesse sido sua intenção trazer um presente para a família, alguém para amortecer a relação entre a mulher e a filha.
Assim, no quarto, tia Uju disse a Ifemelu: “Você devia ter feito a guirlanda e pronto. Já te disse que não tem que dizer tudo. Precisa aprender isso. Não tem que dizer tudo”.
“Por que a mamãe não pode gostar das coisas que você ganha do General sem fingir que elas vêm de Deus?”
“Quem disse que elas não vêm de Deus?”, perguntou tia Uju, puxando os lábios para baixo e fazendo uma careta. Ifemelu riu.
De acordo com a lenda da família, Ifemelu era uma garotinha emburrada aos três anos, que gritava se um estranho se aproximasse. Mas, da primeira vez em que viu tia Uju, que na época tinha treze anos e um rosto cheio de espinhas, pulou em seu colo e não saiu mais. Ela não sabia se isso tinha acontecido mesmo ou se virara verdade após ser contado inúmeras vezes, uma história encantada sobre o início de sua cumplicidade. Era tia Uju quem costurava os vestidinhos de Ifemelu e, quando ela foi ficando mais velha, folheavam juntas as revistas de moda, escolhendo roupas juntas. Tia Uju lhe ensinara a amassar um abacate e espalhá-lo no rosto, a dissolver pó Robb em água quente e colocar a cara no vapor, a secar uma espinha com pasta de dente. Tia Uju lhe trazia livros de James Hadley Chase embrulhados em jornal para esconder as mulheres seminuas na capa, alisou seu cabelo com ferro quente quando ela pegou piolho dos vizinhos, conversou com ela quando da sua primeira menstruação, suplementando o sermão da mãe, cheio de citações da Bíblia sobre a virtude, mas sem detalhes úteis sobre cólicas e absorventes. Quando Ifemelu conheceu Obinze, disse a tia Uju que ele era o amor de sua vida, e tia Uju lhe disse que o deixasse beijar e tocar, mas não penetrar.