Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 41 de 55

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Americanah

Capítulo 41

 

Aisha tirou o celular do bolso e enfiou-o lá de novo com um suspiro de frustração.

“Não sei por que Chijioke não liga pra dizer que vem”, disse ela.

Ifemelu não respondeu nada. Ela e Aisha estavam sozinhas no salão. Halima tinha acabado de ir embora. Ifemelu estava cansada, suas costas latejavam e o salão havia começado a deixá-la enjoada, com seu ar abafado e seu teto podre. Por que aquelas africanas não conseguiam manter o salão limpo e ventilado? Seu cabelo estava quase feito e sobrara apenas uma pequena madeixa parecendo o rabo de um coelho na parte da frente da cabeça. Ela estava louca para ir embora.

“Como você conseguiu seus documentos?”, perguntou Aisha.

“O quê?”

“Como conseguiu seus documentos?”

Ifemelu tomou um susto tão grande que ficou em silêncio. Era um sacrilégio, aquela pergunta; imigrantes não perguntavam a outros imigrantes como tinham conseguido seus documentos, não invadiam aquele lugar profundo e privado; era suficiente apenas sentir admiração pelo fato de que os documentos haviam sido obtidos e um status legal adquirido.

“Tentei casar com um americano quando vim. Mas ele tinha muito problema, sem emprego, e todo dia pedia dinheiro, dinheiro, dinheiro”, disse Aisha, balançando a cabeça. “Como você conseguiu?”

Subitamente, a irritação de Ifemelu se dissolveu e, em seu lugar, surgiu a sensação de uma teia de afinidade, pois Aisha não teria perguntado se ela não fosse africana e, nesse novo laço, ela viu mais um augúrio de sua volta para casa.

“Consegui através do trabalho”, disse. “A empresa para a qual eu trabalhava deu entrada no meu processo de cidadania.”

“Ah”, disse Aisha, como se houvesse acabado de perceber que Ifemelu pertencia a um grupo de pessoas cuja cidadania americana simplesmente caía do céu. Pessoas como ela não podiam, é claro, obter a cidadania através de um empregador.

“Chijioke conseguiu os documentos na loteria”, disse Aisha. Devagar, quase com ternura, ela penteou a madeixa de cabelo que estava prestes a torcer.

“O que aconteceu com a sua mão?”, perguntou Ifemelu.

Aisha deu de ombros. “Não sei. Vem e depois vai.”

“Minha tia é médica. Vou tirar uma foto do seu braço e perguntar o que ela acha.”

“Obrigada.”

Aisha terminou de torcer uma mecha em silêncio.

“Meu pai morreu e eu não fui”, disse ela.

“O quê?”

“Ano passado. Meu pai morreu e eu não fui. Por causa dos documentos. Mas, se Chijioke casar comigo, quando minha mãe morrer, quem sabe eu possa ir? Ela está doente agora. Mas eu mando dinheiro.”

Por um momento, Ifemelu não soube o que dizer. O tom melancólico de Aisha, seu rosto sem expressão aumentavam sua tragédia.

“Eu sinto muito, Aisha”, disse ela.

“Não sei por que Chijioke não vem. Para você falar com ele.

“Não se preocupe, Aisha. Vai dar tudo certo.”

Então, da mesma maneira súbita como revelara aquilo, Aisha começou a chorar. Seus olhos foram inundados, sua boca ruiu e algo aterrador aconteceu com seu rosto: ele desmoronou de desespero. Ela continuou a torcer o cabelo de Ifemelu, sem mudar o movimento das mãos, enquanto seu rosto, como se não pertencesse a seu corpo, continuava a se contrair, com lágrimas escorrendo de seus olhos e seu peito arfando.

“Onde Chijioke trabalha?”, perguntou Ifemelu. “Eu passo lá e converso com ele.”

Aisha olhou-a com espanto, ainda com lágrimas descendo pelas faces.

“Eu passo lá amanhã e converso com Chijioke”, repetiu Ifemelu. “É só você me dizer onde ele trabalha e a que horas tem um intervalo.”

O que ela estava fazendo? Devia levantar e sair dali, e não ser arrastada mais para o fundo do pântano de Aisha, mas não conseguiu fazer isso. Estava prestes a voltar para a Nigéria e ia ver os pais, poderia voltar para os Estados Unidos se quisesse, e ali estava Aisha, torcendo para um dia ver sua mãe de novo, mas sem de fato acreditar nisso. Ela conversaria com esse tal Chijioke. Era o mínimo que podia fazer.

Ifemelu espanou os cabelos que tinham caído em sua roupa e deu a Aisha um rolinho fino de dólares. Ela os espalhou na palma da mão, contando as notas depressa, e Ifemelu se perguntou quanto iria para Mariama e quanto para Aisha. Ifemelu esperou que Aisha enfiasse o dinheiro no bolso antes de lhe dar a gorjeta. Aisha pegou a nota de vinte dólares, com os olhos já sem lágrimas e seu rosto mais uma vez sem expressão. “Obrigada.”

O salão estava impregnado de constrangimento e Ifemelu, como que para diluí-lo, examinou de novo o cabelo no espelho, dando tapinhas leves nele ao virar a cabeça para um lado e para o outro.

“Vou ver Chijioke amanhã e depois ligo para você”, disse Ifemelu. Ela espanou as roupas para tirar qualquer fio que houvesse sobrado e olhou em torno para ver se tinha pegado tudo.

“Obrigada.” Aisha deu um passo na direção de Ifemelu como quem ia abraçá-la, mas então parou, hesitante. Ifemelu apertou seu ombro com carinho antes de se virar na direção da porta.

No trem, ela se perguntou como exatamente ia persuadir um homem que não parecia muito ansioso para se casar a fazê-lo. Sua cabeça estava doendo e a parte de seu cabelo que ficava na altura das têmporas, embora Aisha não houvesse torcido com força, repuxava de forma desconfortável, originando uma sensação ruim no pescoço e nos nervos. Ifemelu queria muito chegar em casa e tomar um longo banho frio, colocar o cabelo numa touca de cetim e deitar no sofá com seu laptop. O trem havia acabado de chegar à estação de Princeton quando seu telefone tocou. Ela parou de andar na plataforma para remexer a bolsa em busca dele e, a princípio, como tia Uju estava incoerente, falando e soluçando ao mesmo tempo, Ifemelu pensou que dissera que Dike estava morto. Mas o que tia Uju estava dizendo era o nwuchagokwa, Dike anwuchagokwa. Dike quase tinha morrido.

“Ele tomou uma overdose de remédios, foi para o porão e deitou no sofá de lá!”, disse tia Uju, com a voz embargada pela incredulidade. “Nunca vou ao porão quando chego. Só faço ioga lá de manhã. Foi Deus quem me mandou descer hoje e tirar a carne do congelador. Foi Deus! Eu o vi deitado ali, tão suado, com suor no corpo todo, e entrei em pânico imediatamente. Eu disse: essa gente deu drogas ao meu filho.”

Ifemelu estava tremendo. Um trem passou a toda a velocidade e ela enfiou o dedo no outro ouvido para poder ouvir melhor a voz de tia Uju; ela estava dizendo, “indícios de intoxicação do fígado”, e Ifemelu sentiu-se engasgada com aquelas palavras, intoxicação do fígado, com sua confusão, com a escuridão súbita à sua volta.

“Ifem?”, disse tia Uju. “Você está ouvindo?”

“Sim.” A palavra teve de subir por um longo túnel. “O que aconteceu? O que exatamente aconteceu, tia? O que você está me dizendo?”

“Ele engoliu um vidro inteiro de Tylenol. Está no CTI agora e vai ficar bem. Deus não estava pronto para ele morrer”, disse tia Uju. Ifemelu ouviu pelo telefone o som alto de seu nariz sendo assoado. “Você sabia que ele também tomou um remédio para enjoo para as pílulas ficarem no estômago dele? Deus não estava pronto para ele morrer.”

“Vou para aí amanhã”, disse Ifemelu. Ela ficou na plataforma por um longo tempo e se perguntou o que estava fazendo no momento em que Dike engolira um vidro inteiro de remédios.