Americanah
Capítulo 35
Certa noite, Ifemelu acordou para ir ao banheiro e ouviu Blaine falando ao telefone na sala com um tom gentil e consolador. “Desculpe, acordei você? Era minha irmã Shan”, disse ele ao voltar para a cama. “Ela voltou para Nova York, estava na França. Vai publicar seu primeiro livro e está tendo um pequeno colapso nervoso por causa disso.” Ele ficou em silêncio por um instante. “Outro pequeno colapso nervoso. Shan tem muitos colapsos nervosos. Vamos a Nova York neste fim de semana visitá-la?”
“Claro. O que ela faz mesmo?”
“O que ela não faz? Trabalhava num fundo de investimento. Então saiu de lá, viajou pelo mundo todo e trabalhou um pouco como jornalista. Conheceu um cara do Haiti e se mudou para Paris para ir morar com ele. Então o cara ficou doente e morreu. Aconteceu muito rápido. Shan ficou lá por mais um tempo e, mesmo depois de decidir voltar para os Estados Unidos, manteve um apartamento em Paris. Está com esse cara novo, Ovidio, há mais ou menos um ano agora. Ele é o primeiro relacionamento real que ela tem desde que Jerry morreu. Ele é legal. Foi para a Califórnia a trabalho esta semana e por isso Shan está sozinha. Ela gosta de dar umas reuniões que chama de salons. Tem um grupo incrível de amigos, quase todos são artistas plásticos ou escritores, e eles se reúnem no apartamento dela e têm conversas muito legais.” Blaine fez uma pausa. “Ela é uma pessoa muito especial.”
Quando Shan entrava num ambiente, todo o ar desaparecia. Ela não respirava fundo, e não precisava: o ar simplesmente flutuava em sua direção, atraído por sua autoridade natural, até que não houvesse mais nada para os outros. Ifemelu imaginou a infância sem ar de Blaine, correndo atrás de Shan para impressioná-la, para lembrá-la de sua existência. Mesmo agora, que já era um adulto, ainda era o irmão mais novo repleto de um amor desesperado, tentando receber uma aprovação que temia jamais conseguir. Eles chegaram ao apartamento de Shan no início da tarde e Blaine parou para conversar com o porteiro, assim como havia conversado com o motorista de táxi que os trouxera da Penn Station daquela maneira natural que tinha, formando alianças com zeladores, faxineiros, motoristas de ônibus. Ele sabia quanto ganhavam, quantas horas trabalhavam; sabia que não tinham plano de saúde.
“Ei, Jorge, como vai?”, Blaine pronunciou o nome do homem à maneira espanhola, com o som de erre no jota e no gê.
“Bem. Como estão seus alunos lá em Yale?”, perguntou o porteiro, parecendo feliz em vê-lo e feliz por Blaine dar aula em Yale.
“Estão me deixando maluco, como sempre.” Então Blaine apontou para a mulher que estava diante do elevador e de costas para eles, abraçada a um tapete de ioga rosa. “Ah, olhe Shan ali.” Shan era minúscula e linda, tinha um rosto oval com maçãs do rosto altas que lhe davam uma aparência aristocrática.
“Olá!”, disse ela, abraçando Blaine. Nem olhou para Ifemelu. “Estou tão feliz de ter ido ao pilates. A prática abandona você se você abandonar a prática. Foi correr hoje?”
“Fui.”
“Acabei de falar com David de novo. Ele disse que vai me mandar uma capa alternativa esta noite. Finalmente parecem estar me escutando.” Shan revirou os olhos. As portas do elevador se abriram e ela entrou primeiro, ainda conversando com Blaine, que agora parecia constrangido, como se estivesse esperando pelo momento de apresentar as duas, um momento que Shan não estava disposta a dar.
“A diretora de marketing me ligou esta manhã. Ela tinha aquela polidez insuportável que é pior que qualquer insulto, sabe? E então me disse que os livreiros já tinham amado a capa e blá-blá-blá. É ridículo”, disse Shan.
“É o instinto de manada das grandes editoras. Elas fazem o que todo mundo faz”, disse Blaine.
O elevador parou no andar e Shan se virou para Ifemelu. “Ah, sinto muito, estou tão estressada”, disse. “É um prazer conhecê-la. Blaine não para de falar em você.” Ela olhou para Ifemelu, numa avaliação aberta que não temia admitir ser uma avaliação aberta. “Você é muito bonita.”
“Você é muito bonita”, disse Ifemelu para sua própria surpresa, pois essas não eram palavras que teria dito normalmente, mas ela já se sentia apropriada por Shan; seu elogio a deixara estranhamente feliz. Shan é especial, dissera Blaine, e agora Ifemelu entendia o que ele quisera dizer. Shan tinha o ar de uma pessoa que era, de alguma maneira, uma escolhida. Os deuses a haviam tocado com uma varinha de condão. Quando fazia coisas comuns, elas se tornavam enigmáticas.
“Gostou da sala?”, perguntou Shan a Ifemelu com um gesto largo que abarcava a decoração ousada: um tapete vermelho, um sofá azul, um sofá laranja, uma poltrona verde.
“Sei que supostamente quer dizer alguma coisa, mas não entendi o quê.”
Shan riu, sons curtos que pareciam cortados cedo demais, como se mais devesse vir mas não viesse, e, como ela apenas riu, sem dizer mais nada, Ifemelu acrescentou: “É interessante”.
“Sim, interessante.” Shan postou-se ao lado da mesa de jantar e ergueu a perna sobre ela, inclinando-se para pegar o pé com uma das mãos. Seu corpo era uma coleção de curvas leves e graciosas, suas nádegas, seus seios, suas batatas da perna, e, no movimento que fez, havia a certeza dos escolhidos; ela podia esticar a perna sobre a mesa de jantar sempre que quisesse, mesmo quando havia uma convidada em seu apartamento.
“Blaine me mostrou o Raceteenth. É um ótimo blog”, disse ela.
“Obrigada”, disse Ifemelu.
“Tenho um amigo nigeriano que é escritor. Você conhece Kelechi Garuba?”
“Já li algumas coisas dele.”
“Conversamos sobre seu blog outro dia e ele disse que tinha certeza de que a Negra Não Americana era do Caribe, porque os africanos não ligam para raça. Ele vai ficar chocado quando conhecer você!” Shan parou de falar para mudar a perna que estava sobre a mesa, inclinando-se para pegar o outro pé. “Ele está sempre preocupado com o fato de seus livros não venderem bem. Eu disse que ele precisa escrever coisas terríveis sobre seu povo se quiser vender. Precisa dizer que somente os africanos têm culpa dos problemas africanos e que os europeus ajudaram mais do que prejudicaram a África, e então vai ficar famoso e as pessoas vão dizer que ele é tão honesto!”
Ifemelu riu.
“Que foto interessante”, disse ela, indicando uma fotografia num aparador que mostrava Shan segurando duas garrafas de champanhe bem no alto, cercada por crianças morenas esfarrapadas e sorridentes no que parecia ser uma favela latino-americana, com barracos de paredes de metal remendadas atrás. “Eu quis dizer literalmente interessante.”
“Ovidio não queria que nós a deixássemos à mostra, mas eu insisti. A intenção é irônica, obviamente.”
Ifemelu imaginou como Shan havia insistido: uma única frase que não precisaria ter sido ser repetida e que teria deixado Ovidio catando seus cacos.
“E você vai com frequência à Nigéria?”, perguntou Shan.
“Não. Na verdade, não voltei desde que vim para os Estados Unidos.”
“Por quê?”
“No início, não tinha dinheiro. Depois, estava trabalhando e não tinha tempo.”
Shan estava de frente para ela agora, com os braços esticados para trás como se fossem asas.
“Os nigerianos nos chamam de acata, não é? Isso significa animal selvagem?”
“Não tenho certeza se significa animal selvagem. Na realidade, não sei o que significa e não uso essa palavra.” Ifemelu percebeu que estava quase gaguejando. O que disse era verdade, mas sob o olhar direto de Shan, sentiu-se culpada. Ela transbordava poder, um poder sutil e devastador.
Blaine surgiu da cozinha com dois copos de um líquido avermelhado.
“Coquetel sem álcool!”, disse Shan com um deleite infantil, pegando o copo de Blaine.
“Romã, água com gás e um pouco de oxicoco”, disse Blaine, dando o outro copo a Ifemelu. “E quando você vai fazer o próximo salon, Shan? Eu estava falando deles para Ifemelu.”
Quando Blaine dissera a Ifemelu que Shan chamava suas reuniões de “salons”, ele havia enfatizado a palavra com um tom de zombaria, mas agora a disse com uma esforçada pronúncia francesa: sa-lon.
“Ah, em breve, acho”, disse Shan, dando de ombros, carinhosa e casual, e então deu um gole no copo e inclinou-se para o lado como uma árvore dobrada pelo vento.
O celular de Shan tocou. “Onde coloquei o telefone? Deve ser David.”
O celular estava sobre a mesa. “Ah, é Luc. Eu ligo para ele depois.”
“Quem é Luc?”, perguntou Blaine, saindo da cozinha.
“Um cara francês, rico. É engraçado, eu o conheci no aeroporto, porra! Disse que tenho namorado e ele respondeu: ‘Então vou admirar você de longe e dar tempo ao tempo’. Disse assim mesmo: ‘dar tempo ao tempo’.” Shan deu um gole no coquetel. “É legal como na Europa os homens brancos veem você como uma mulher, não uma mulher negra. Não que eu queira sair com eles, Deus me livre. Mas gosto de saber que tenho a possibilidade.”
Blaine assentia, concordando. Se qualquer outra pessoa tivesse dito o que Shan dissera, ele imediatamente analisaria as palavras em busca de nuances e discordaria de sua abrangência e simplicidade. Certa vez, quando eles estavam assistindo a uma notícia sobre o divórcio de uma celebridade, Ifemelu tinha lhe dito que não entendia as honestidades rígidas e inequívocas que os americanos exigiam em seus relacionamentos. “Como assim?”, perguntara ele, com um tom que mostrava que estava pronto para discordar; Blaine acreditava em honestidades rígidas e inequívocas.
“É diferente para mim, e eu acho que é porque sou do Terceiro Mundo”, dissera Ifemelu. “Ser uma filha do Terceiro Mundo é ter consciência de diversas instâncias e de como a honestidade e a verdade sempre vão depender do contexto.” Tinha se sentido inteligente ao pensar nessa explicação, mas Blaine sacudira a cabeça mesmo antes de ela terminar de falar e dissera: “Que coisa preguiçosa, usar o Terceiro Mundo desse jeito”.
Agora, ele estava assentindo enquanto Shan dizia: “Os europeus simplesmente não são tão conservadores e travados nos relacionamentos quanto os americanos. Na Europa, os homens brancos pensam: ‘Quero uma mulher gostosa, só isso’. Nos Estados Unidos, os homens brancos pensam: ‘Eu me recuso a tocar numa mulher negra, mas posso pensar no caso da Halle Berry’.”
“Isso é engraçado”, disse Blaine.
“É claro que existe um nicho de homens brancos que só namoram mulheres negras neste país, mas é tipo um fetiche, e é nojento”, disse Shan, virando seu olhar brilhante para Ifemelu.
Ela quase relutou em discordar; era estranho o quanto queria que Shan gostasse dela. “Na verdade, minha experiência foi oposta. Atraio muito mais o interesse de homens brancos do que de afro-americanos.”
“É mesmo?” Shan fez uma pausa. “Acho que é porque você é exótica, tem essa coisa de ser uma africana autêntica.”
Ifemelu ficou magoada com o impacto de ser rechaçada por Shan e depois passou a se ressentir de Blaine, desejando que ele não concordasse com a irmã de maneira tão absoluta.
O celular de Shan tocou de novo. “Ah, acho bom que seja David!” Ela levou o aparelho para dentro do banheiro.
“David é o editor dela. Querem pôr uma imagem sensual, um torso negro, na capa, e Shan é contra”, disse Blaine.
“É mesmo?”, disse Ifemelu, dando um gole no coquetel e folheando uma revista de arte, ainda irritada com ele.
“Você está bem?”, perguntou Blaine.
“Estou ótima.”
Shan voltou. Blaine olhou para ela. “Tudo bem?”
Ela assentiu. “Eles não vão usar aquela imagem. Parece que está todo mundo se entendendo agora.”
“Que bom”, disse Blaine.
“Você pode escrever no blog como minha convidada durante algumas semanas quando o livro sair”, disse Ifemelu. “Seria maravilhoso. Eu ia amar.”
Shan ergueu as sobrancelhas, numa expressão que Ifemelu não conseguiu decifrar, e ela temeu ter sido entusiástica demais.
“É, pode ser”, disse.
Obama só vai ganhar se continuar sendo o Negro Mágico
O pastor dele é amedrontador porque o que ele diz talvez signifique que Obama não é o Negro Mágico, afinal
de contas. Aliás, esse pastor é bem melodramático, mas você já foi a alguma igreja de Negros Americanos
dessas tradicionais? É puro teatro. Mas o ponto central do que esse cara diz é verdade: os Negros
Americanos (e certamente os negros da idade dele) conhecem uma América que é diferente daquela dos
Brancos Americanos; eles conhecem uma América mais dura, mais feia. Mas você não deve dizer isso,
porque na América tudo está ótimo e todos são iguais. Então, agora que o pastor disse isso, talvez Obama
ache a mesma coisa, e se Obama acha a mesma coisa, ele não é o Negro Mágico, e apenas um Negro
Mágico pode ganhar uma eleição americana. E o que é um Negro Mágico?, você pode perguntar. Aquele
homem negro que é sempre sábio e gentil. Ele nunca reage diante de um sofrimento terrível, nunca fica com
raiva, nunca é ameaçador. Sempre perdoa todas as merdas racistas. Ensina o branco a entender o
preconceito triste, porém compreensível, que há em seu coração. Esse personagem existe em muitos filmes.
E Obama é perfeito para o papel.