Americanah
Capítulo 20
Ifemelu passaria a amar Baltimore — por seu charme desafiador, suas ruas de um esplendor esvaecido e as feiras orgânicas realizadas nos fins de semana sob a ponte, com barracas repletas de hortaliças verdejantes, frutas carnudas e almas virtuosas — embora nunca tanto quanto seu primeiro amor, a Filadélfia, aquela cidade que segurava delicadamente a história nas mãos. Mas, quando chegou a Baltimore sabendo que ia morar lá e que não estava apenas visitando Curt, achou-a desolada e impossível de amar. Os prédios eram grudados uns nos outros em fileiras murchas e, nas esquinas sujas, havia pessoas encurvadas usando casacos acolchoados, pessoas negras e tristes que esperavam os ônibus com uma névoa lúgubre pairando à sua volta. Muitos dos taxistas parados diante da estação de trem eram etíopes ou panjabi.
O motorista etíope disse: “Não consigo descobrir de onde é seu sotaque. Você é de onde?”.
“Da Nigéria.”
“Nigéria? Não parece africana, nem um pouco.”
“Por que não pareço africana?”
“Porque sua blusa é justa demais.”
“Não é, não.”
“Achei que você era de Trinidad ou um lugar assim.” Ele olhava para ela pelo retrovisor com uma expressão de censura e preocupação. “Precisa tomar muito cuidado ou os Estados Unidos vão corromper você.” Quando, anos mais tarde, Ifemelu publicou o post “Sobre as divisões entre os grupos de negros não americanos nos Estados Unidos”, escreveu sobre o taxista, mas falou que quem passara por aquilo fora outra pessoa, para não revelar aos leitores o que ela era.
Ifemelu falou do taxista para Curt, contando como sua sinceridade a tinha enfurecido e como ela fora ao banheiro da estação para ver se sua blusa rosa de mangas compridas era mesmo justa demais. Curt morreu de rir. Aquela se tornou uma das muitas histórias que ele gostava de contar para os amigos. E ela foi mesmo ao banheiro ver a blusa! Seus amigos eram como ele, pessoas ricas e solares que existiam na superfície cintilante das coisas. Ifemelu gostava deles e sentia que gostavam dela. Para eles, ela era interessante e diferente devido à maneira como dizia sem rodeios o que estava pensando. Eles esperavam certas coisas dela e perdoavam certas coisas nela por ser estrangeira. Certa vez, quando estava com eles num bar, Ifemelu ouviu Curt conversando com Brad, e Curt disse a palavra “fanfarrão”. Ela ficou impressionada com aquela palavra, com o quanto ela era típica de um americano. Fanfarrão. Era uma palavra que jamais lhe ocorreria. Entender isso era se dar conta de que Curt e seus amigos nunca seriam completamente compreensíveis para ela.
Ifemelu alugou um apartamento em Charles Village de um quarto com um assoalho antigo de madeira, embora estivesse quase morando com Curt; a maior parte de suas roupas estava no closet cheio de espelhos dele. Agora que o via todos os dias, não apenas no fim de semana, percebia novas camadas nele, como o quanto era difícil para Curt ficar parado, simplesmente ficar parado, sem pensar no que ia fazer a seguir, ou como estava acostumado a simplesmente tirar a calça e deixá-la no chão durante dias até a faxineira vir. A vida dos dois era repleta dos planos que ele fazia — passar um dia em Cozumel, um feriado em Londres — e, às vezes, ela saía do trabalho na sexta à noite e pegava um táxi para ir encontrá-lo no aeroporto.
“Não é legal?”, perguntava Curt e Ifemelu respondia que sim, que era legal. Ele não parava de pensar no que mais fazer, e Ifemelu lhe disse que isso era raro para ela, pois fora criada não fazendo, mas sendo. Logo acrescentou que gostava de tudo aquilo, porque realmente gostava, e porque sabia o quanto Curt precisava ouvi-lo. Na cama, ele era ansioso.
“Você gosta disso? Acha bom o que eu faço?”, perguntava sempre. E Ifemelu dizia que sim, o que era verdade, mas sentia que ele nem sempre acreditava, ou só acreditava durante algum tempo e depois tinha de ouvir a afirmação de novo. Havia algo em Curt que era mais iluminado que o ego, mas mais sombrio que a insegurança, algo que precisava estar sempre sendo polido, lustrado, encerado.
Então, o cabelo de Ifemelu começou a cair na altura das têmporas. Ela o encharcava com condicionadores espessos e cremosos e postava-se embaixo de secadores profissionais a vapor até gotículas de água começarem a lhe escorrer pelo pescoço. Ainda assim, seu cabelo foi ficando mais ralo a cada dia.
“São os produtos químicos”, disse-lhe Wambui. “Você sabe o que tem num relaxante? Essas coisas matam. Tem de cortar o cabelo e deixá-lo natural.”
Wambui estava usando o cabelo em caracóis curtos dos quais Ifemelu não gostava; pareciam esparsos e sem graça, e não valorizavam o rosto bonito de sua amiga.
“Não quero usar dread”, disse ela.
“Não precisa ser dread. Você pode usar um afro ou tranças, como costumava fazer. Pode usar seu cabelo natural de muitos jeitos.”
“Não posso simplesmente cortar meu cabelo.”
“Relaxar o cabelo é que nem ser preso. Você fica numa jaula. Seu cabelo manda em você. Não foi correr com o Curt hoje porque não quer suar e ficar com o cabelo crespo. Naquela foto em que me mandou, estava com ele coberto no barco. Está sempre lutando para fazer seu cabelo ficar de um jeito que não é o normal dele. Se o deixar natural e cuidar bem dele, vai parar de cair. Posso ajudá-la a cortá-lo agora mesmo. Não precisa pensar muito.”
Wambui parecia tão certa e foi tão convincente que Ifemelu procurou uma tesoura. Wambui cortou seu cabelo, deixando apenas dois dedos, as pontas que haviam crescido desde que ela o relaxara da última vez. Ifemelu olhou no espelho. Ela estava com os olhos enormes e uma cabeça enorme. Na melhor das hipóteses, parecia um menino; na pior, um inseto.
“Estou tão feia. Dá até medo.”
“Você está linda. Dá para ver muito bem sua estrutura óssea agora. Não está acostumada a se ver assim, só isso. Vai se acostumar”, afirmou Wambui.
Ifemelu ainda estava olhando, espantada, para seu cabelo. O que ela tinha feito? Parecia inacabada, como se o próprio cabelo, curto e espetado, estivesse pedindo atenção, pedindo que algo fosse feito com ele, pedindo mais. Depois que Wambui foi embora, ela foi à farmácia com o boné de Curt enfiado na cabeça. Comprou óleos e géis, aplicando um depois do outro, primeiro no cabelo molhado e depois no seco, desejando que um milagre indefinido acontecesse. Alguma coisa, qualquer coisa, que fizesse seu cabelo parecer cabelo. Pensou em comprar uma peruca, mas as perucas traziam ansiedade, a possibilidade sempre presente de saírem voando. Pensou num texturizador para soltar os cachinhos crespos, esticar um pouco o pixaim, mas um texturizador na verdade era um relaxante, só mais suave, e ela ainda teria de evitar a chuva.
Curt lhe disse: “Pare de se estressar, meu amor. É um estilo incrível e muito corajoso”.
“Não quero que meu cabelo seja corajoso.”
“Eu quis dizer que é estiloso, chique.” Ele hesitou. “Você está linda.”
“Pareço um menino.”
Curt não disse nada. Havia, em sua expressão, um divertimento velado, como se ele não entendesse por que ela estava tão chateada, mas achasse melhor não dizer isso.
No dia seguinte Ifemelu ligou para o trabalho dizendo que estava doente e voltou para a cama.
“Você não faltou no trabalho para a gente ficar um dia a mais nas Bermudas, mas vai faltar por causa do cabelo?”, perguntou Curt, apoiado nos travesseiros e tentando reprimir o riso.
“Não posso sair assim.” Ela estava se enfiando embaixo das cobertas como quem quer se esconder.
“Não é tão ruim quanto você pensa”, disse ele.
“Pelo menos você finalmente admitiu que está ruim.”
Curt riu. “Você entendeu o que eu quis dizer. Venha aqui.”
Ele a abraçou, beijou-a e então deslizou para o chão e começou a massagear seus pés; Ifemelu gostava da pressão cálida, do toque dos dedos dele. Mas não conseguiu relaxar. Quando se vira no espelho do banheiro, tomara um susto com seu cabelo, sem brilho e encolhido pelo sono, como um emaranhado de lã sobre sua cabeça. Ela pegou o celular e mandou uma mensagem para Wambui: Odiei meu cabelo. Não consegui ir trabalhar hoje.
Wambui respondeu minutos depois: Entre na internet. FelizComEnroladoCrespo.com. É uma comunidade sobre cabelo natural. Você vai se inspirar.
Ifemelu mostrou a mensagem a Curt. “Que nome bobo eles deram para o site”, disse.
“É, mas me parece uma boa ideia. Você devia dar uma olhada um dia desses.”
“Ou agora”, disse Ifemelu, levantando-se. O laptop de Curt estava aberto em cima da escrivaninha. Quando ela se aproximou dele, notou uma mudança em Curt. Uma rapidez súbita e tensa. Uma palidez, um gesto de pânico na direção do laptop.
“O que foi?”, perguntou.
“Eles não significam nada. Esses e-mails não significam nada.”
Ifemelu olhou atônita para ele, forçando sua mente a funcionar. Curt não tinha esperado que ela usasse o laptop, porque quase nunca o fazia. Ele a estava traindo. Que estranho que ela nunca tivesse imaginado essa possibilidade. Apanhou o laptop e segurou-o com força, mas Curt não tentou pegá-lo. Apenas ficou parado, olhando. A página com o e-mail do Yahoo estava minimizada ao lado de uma página sobre basquete universitário. Ela leu alguns dos e-mails. Olhou as fotografias anexadas. Os e-mails da mulher — o e-mail dela era PaolaCintilante123 — eram fortemente sugestivos, enquanto os de Curt eram apenas sugestivos o suficiente para ter certeza de que ela não desistiria. Eu vou fazer um jantar para você usando um vestido vermelho bem justo e sapatos de salto altíssimo, escreveu ela, e basta você chegar e trazer uma garrafa de vinho. Curt respondeu: Você ia ficar ótima de vermelho. A mulher tinha mais ou menos a idade dele, mas havia, nas fotos que mandava, um ar de grande desespero, por causa do cabelo tingido de um louro platinado, dos olhos sobrecarregados de sombra azul, de um decote profundo demais. Ifemelu ficou surpresa por Curt achá-la atraente. Sua ex-namorada branca tinha um ar de sofisticação e frescor.
“Eu a conheci em Delaware”, disse Curt. “Lembra aquela conferência à qual quis que você fosse? Ela começou a dar em cima de mim no primeiro minuto. Está atrás de mim desde então. Não me deixa em paz. Mas ela sabe que eu tenho namorada.”
Ifemelu olhou fixamente para uma das fotos, uma em preto e branco tirada de perfil, com a cabeça da mulher jogada para trás e seus longos cabelos cascateando nas costas. Era uma mulher que gostava de seu cabelo e achava que Curt gostaria também.
“Não aconteceu nada”, disse ele. “Nada mesmo. Só os e-mails. Ela está correndo muito atrás de mim. Falei de você, mas ela não desiste.”
Ifemelu olhou para Curt, ali parado de camiseta e short, muito certo de suas justificativas. Ele era mimado da mesma maneira que uma criança o era: cegamente.
“Você também escreveu para ela”, disse Ifemelu.
“Mas foi só porque ela não parava.”
“Não, foi porque você quis.”
“Não aconteceu nada.”
“Não é essa a questão.”
“Sinto muito. Sei que você já está chateada e que estou piorando as coisas.”
“Todas as suas namoradas tinham cabelos longos que cascateavam”, disse ela, com o tom carregado de acusação.
“O quê?”
Ifemelu estava sendo absurda, mas saber disso não adiantou nada. Ela se lembrou das fotos que vira das ex-namoradas dele e sentiu sua raiva aumentar: a japonesa esguia com cabelos lisos pintados de vermelho, a venezuelana morena com cabelo cacheado que pendia até os ombros, a menina branca com madeixas e mais madeixas de cabelo ruivo. E agora essa mulher, que ela não achava muito bonita, mas que tinha cabelos compridos e lisos. Ifemelu fechou o laptop. Sentiu-se pequena e feia. Curt estava falando. “Eu vou pedir a ela para nunca mais entrar em contato comigo. Isso nunca mais vai acontecer, amor, eu juro.” Ifemelu achou que ele parecia acreditar que aquilo, de alguma maneira, era responsabilidade da mulher, não dele.
Ela deu meia-volta, enfiou o boné de Curt na cabeça, atirou algumas coisas numa sacola e foi embora.
Curt veio visitá-la mais tarde, levando tantas flores que Ifemelu mal conseguiu ver seu rosto quando abriu a porta. Ela sabia que ia perdoá-lo, porque acreditava nele. Paola Cintilante tinha sido apenas mais uma de suas pequenas aventuras. Ele não teria levado o caso com ela adiante, mas teria continuado a encorajar a atenção que lhe dava até perder o interesse. Paola Cintilante era como as estrelas prateadas que os professores colavam nas páginas da lição de casa da escola, fontes de um prazer superficial e breve.
Ifemelu não queria sair, mas não queria ficar com ele na intimidade de seu apartamento; a mágoa ainda era recente demais. Por isso, cobriu o cabelo com um lenço e deram uma caminhada, Curt solícito e cheio de promessas, eles andando lado a lado, mas sem se tocar, até a esquina da Charles com a University Parkway e depois voltando até o apartamento dela.
Ela fingiu que estava doente e faltou ao trabalho por três dias. Finalmente foi trabalhar com um afro muito curto, penteado demais e com óleo demais. “Você está diferente”, disseram seus colegas, todos com certa hesitação.
“Significa alguma coisa? Tipo, alguma coisa política?”, perguntou Amy, que tinha um cartaz de Che Guevara na parede de seu cubículo.
“Não”, respondeu Ifemelu.
Na cafeteria, a srta. Margaret, a afro-americana peituda que servia as refeições — e que, além de dois seguranças, era a única outra negra na empresa —, perguntou: “Por que você cortou o cabelo, meu bem? É lésbica?”.
“Não, srta. Margaret, pelo menos não por enquanto.”
Alguns anos depois, no dia em que Ifemelu pediu demissão, ela foi à cafeteria para seu último almoço. “Está indo embora?”, perguntou a srta. Margaret, chateada. “Que droga, meu bem. Eles precisam tratar o povo melhor aqui. Acha que seu cabelo foi parte do problema?”
O site FelizComEnroladoCrespo.com tinha um fundo amarelo-gema e muita gente comentando, pessoas cujas fotos de identificação eram de mulheres negras piscando. Elas tinham longos dreads, afros curtos, afros grandes, cabelos torcidos, tranças, cachos imensos e chamativos. Chamavam relaxante de “crack cremoso”. Estavam cansadas de fingir que seu cabelo não era o que era, cansadas de correr da chuva e fugir do suor. Elogiavam as fotos umas das outras e terminavam os comentários mandando “abraços”. Reclamavam que as revistas feitas para os negros nunca tinham mulheres de cabelo natural em suas páginas, falavam de produtos de farmácia tão contaminados de óleo mineral que não conseguiam aumentar a umidade dos cabelos naturais. Trocavam receitas. Esculpiam para si mesmas um mundo virtual onde seu cabelo enrolado, crespo, pixaim e lanudo era normal. E Ifemelu caiu nesse mundo transbordando gratidão. Mulheres com o cabelo tão curto quanto o dela diziam ter um miniafro. Ela aprendeu, com mulheres que postavam longas instruções, a evitar xampus com silicone, a passar condicionador sem enxágue no cabelo molhado, a dormir com um lenço de cetim em volta do cabelo. Encomendou produtos de mulheres que os fabricavam em sua cozinha e os enviavam com instruções precisas: MELHOR REFRIGERAR IMEDIATAMENTE, NÃO CONTÉM CONSERVANTES . Curt abria a geladeira, pegava um frasco com um rótulo que dizia MANTEIGA DE CABELO e perguntava: “Posso passar isso na torrada?”. Ele estava fascinado por tudo aquilo. Leu posts no FelizComEnroladoCrespo.com. “Eu acho ótimo!”, disse. “É um movimento de mulheres negras!”
Um dia, quando passeavam na feira e Ifemelu estava de mãos dadas com Curt diante de uma barraca de maçãs, um homem negro passou e murmurou: “Já se perguntou por que ele gosta de você assim, com essa cara de selva?”. Ela parou, por um momento sem ter certeza se havia imaginado aquelas palavras, e então se voltou e olhou para o homem. Ele andava com uma cadência exagerada nos passos, o que lhe sugeria um caráter volúvel. Um homem em quem não valia a pena prestar atenção. Mas suas palavras a incomodaram, forçaram uma porta que deixou entrar novas dúvidas.
“Você ouviu o que aquele cara disse?”, Ifemelu perguntou a Curt.
“Não, o que ele disse?”
Ela balançou a cabeça. “Nada.”
Sentiu-se desanimada e, naquela noite, enquanto Curt via um jogo, dirigiu até uma loja de produtos de beleza e passou os dedos por pequenas amostras de apliques lisos e sedosos. Então se lembrou de um comentário de Jamilah1977 — Eu amo minhas irmãs que amam seus apliques lisos, mas nunca mais vou botar crina de cavalo na minha cabeça — e saiu da loja, ansiosa por voltar, entrar no site e escrever sobre isso nos comentários. Ela escreveu: As palavras de Jamilah me fizeram lembrar que não há nada mais bonito do que o que Deus me deu. Outras mulheres responderam, postando sinais de polegar para cima, dizendo o quanto gostavam da foto que ela havia postado no site. Ifemelu nunca havia falado tanto em Deus. Comentar naquele site era como dar testemunho na igreja: suas palavras eram recebidas com um alarido de aprovação, e reviviam.
Num dia comum do início da primavera — não havia nenhuma luz especial, nada de significante aconteceu, e talvez fosse apenas porque o tempo havia transfigurado suas dúvidas, como muitas vezes acontece —, ela enfiou os dedos em seu cabelo, denso, esponjoso e glorioso, e não conseguiu imaginá-lo de outro jeito. Ifemelu simplesmente se apaixonou por seu cabelo.
Por que as mulheres negras de pele escura — tanto americanas quanto não americanas — amam
Barack Obama
Muitos negros americanos se orgulham de dizer que têm antepassados índios. O que significa Graças a Deus,
Não Somos Totalmente Negros. O que significa que não têm a pele muito escura. (Só para esclarecer,
quando os brancos falam em pele escura eles querem dizer gregos ou italianos, mas quando os negros falam
isso eles estão se referindo a Grace Jones.) Os homens negros americanos gostam que suas mulheres
tenham uma parcela de exotismo, que sejam meio chinesas ou tenham um ancestral cheroqui. Gostam que
as mulheres tenham a pele clara. Mas tome cuidado com o que os negros americanos consideram “pele
clara”. Algumas dessas pessoas de “pele clara”, nos países dos negros não americanos, seriam
simplesmente chamadas de brancas. (Ah, e os negros americanos de pele escura se ressentem dos negros
de pele clara, pois acham que é fácil demais para eles atrair as mulheres.)
Mas, meus colegas negros não americanos, não fiquem se achando. Porque essa merda também
acontece nos nossos países caribenhos e africanos. Não é tão ruim quanto com os negros americanos, você
acha mesmo? Talvez. Mas ainda assim acontece. Aliás, que história é essa de os etíopes acharem que não
são tão negros? E por que os caribenhos se apressam tanto em dizer que têm ancestrais de várias raças?
Enfim, chega de divagações. O fato é que a pele clara é valorizada na comunidade dos negros americanos.
Mas todo mundo finge que não é mais assim. Eles dizem que o dia do teste do saco de papel já passou
(façam uma pesquisa sobre isso) e que devemos seguir em frente. Mas, hoje, os negros americanos que são
figuras públicas e fazem entretenimento de sucesso têm, em sua maioria, a pele clara. Principalmente as
mulheres. Muitos homens negros americanos têm esposa branca. Os que se dignam a ter esposa negra se
casam com negras de pele clara (também conhecidas como amarelo-escuras). E é por isso que as mulheres
de pele escura amam Barack Obama. Ele quebrou o padrão! Casou-se com uma delas. Ele sabe o que o
mundo parece não saber: negras de pele escura são o máximo. Elas querem que Obama ganhe porque
talvez, finalmente, alguém contrate uma mulher linda cor de chocolate para ser a estrela de uma comédia
romântica de orçamento alto que vai estrear em cinemas no país inteiro, não apenas em três cineminhas de
arte de Nova York. Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis. (Outro grupo
que é tão invisível quanto é o de homens asiáticos. Mas, pelo menos, eles são considerados
superinteligentes.) Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou
da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar um
apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas
nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. Então, as mulheres de pele
escura esperam que Obama mude isso. Ah, e elas também são a favor de tirar essa gente podre de
Washington, de sair do Iraque e de todo o resto.