Americanah
Capítulo 37
Ifemelu tinha a impressão de que havia desviado o olhar por um momento e, ao virar de novo o rosto, encontrara Dike transformado; seu priminho desaparecera e no lugar dele estava um menino que não parecia um menino, com um metro e oitenta de altura, um corpo esguio e musculoso, fazendo parte do time de basquete da Willow High School e namorando uma menina loura e ágil chamada Page, que usava saias minúsculas e tênis Converse. Uma vez, quando Ifemelu perguntou: “Então, como vão as coisas com Page?”, ele respondeu: “A gente ainda não transou, se é isso que você quer saber”.
No fim da tarde, seis ou sete amigos se juntavam no quarto dele, todos brancos, com exceção de Min, um rapaz alto de família chinesa cujos pais eram professores da universidade. Eles jogavam jogos de computador e assistiam a vídeos no YouTube, provocando-se e brincando de lutar uns com os outros, todos envoltos em uma aura brilhante de juventude despreocupada, e seu centro era Dike. Todos riam das piadas de Dike, olhavam-no para ver se concordava com algo e, de uma forma delicada, sem palavras, deixavam que tomasse as decisões coletivas: pedir pizza, ir ao centro comunitário jogar pingue-pongue. Quando estava com eles, Dike mudava; sua voz e seu andar ficavam desafiadores e ele abria os ombros como se estivesse numa competição, pontuando suas falas com gírias.
“Por que você fala desse jeito quando está com seus amigos, Dike?”, perguntou Ifemelu.
“Pô, prima, a galera é assim, tá ligada?”, disse ele, com uma careta engraçada que a fez rir.
Ifemelu imaginou-o na faculdade; ele seria um perfeito guia estudantil, levando um grupo de candidatos e seus pais para passear no campus, mostrando-lhes todas as coisas maravilhosas que havia lá sem se esquecer de acrescentar algo de que não gostasse pessoalmente, mas mantendo o discurso sempre engraçado, alegre e vivaz, e todas as meninas teriam uma paixão instantânea por ele, todos os meninos sentiriam inveja de seu charme e todos os pais desejariam que seus filhos fossem daquele jeito.
Shan estava com uma blusa dourada cintilante que deixava os seios soltos, balançando quando se movia. Ela flertou com todos, tocando um braço aqui, dando um abraço demorado ou um beijo longo ali. Seus elogios pingavam uma extravagância que os fazia parecer falsos, mas seus amigos sorriam e desabrochavam ao ouvi-los. Não importava o que era dito; importava que fosse Shan a dizê-lo. Era a primeira vez de Ifemelu num salon, e ela estava nervosa. Não havia necessidade daquilo, era apenas uma reunião de amigos, mas Ifemelu estava nervosa assim mesmo. Tinha demorado um tempo enorme para decidir o que vestir e experimentado e descartado nove roupas antes de decidir-se por um vestido azul-turquesa que afinava sua cintura.
“Oi!”, disse Shan quando Ifemelu e Blaine chegaram, abraçando os dois.
“Grace vem?”, ela perguntou a Blaine.
“Vem. Ela vai pegar um trem que sai mais tarde.”
“Ótimo. Não a vejo há tempos.” Shan baixou a voz e disse para Ifemelu: “Ouvi dizer que Grace rouba as teses dos alunos”.
“O quê?”
“Grace. Ouvi dizer que ela rouba as teses dos alunos. Você sabia disso?”
“Não”, disse Ifemelu. Ela achou estranho que Shan estivesse lhe dizendo aquilo sobre a amiga de Blaine, mas sentiu-se especial, admitida em sua caverna íntima de fofocas. Então, subitamente envergonhada por não ter sido enfática o suficiente em sua defesa de Grace, de quem gostava, disse: “Acho que isso não pode ser verdade”.
Mas Shan já estava prestando atenção em outra coisa.
“Quero que você conheça o homem mais sensual de Nova York, Omar”, disse Shan, apresentando Ifemelu para um homem tão alto quanto um jogador de basquete, cujo contorno do cabelo era perfeito demais, uma curva fechada traçada na testa e ângulos definidos descendo junto às orelhas. Quando Ifemelu estendeu o braço para apertar sua mão, ele fez uma leve mesura com a mão no peito e sorriu.
“Omar não toca em mulheres de quem não é parente”, explicou Shan. “O que é muito sensual, não é?” E ela inclinou a cabeça para olhá-lo de maneira sugestiva.
“Essa é Maribelle, uma mulher linda e completamente original, e sua namorada Joan, que é tão linda quanto ela. Elas fazem com que me sinta mal!”, disse Shan, provocando uma risadinha em Maribelle e Joan, mulheres brancas franzinas com óculos de aros escuros que eram grandes demais para seu rosto. Ambas estavam de vestido curto, um de bolinhas vermelhas e outro de barra de renda, com a aparência um pouco esmaecida e um pouco mal-ajambrada de peças encontradas num brechó. De certa maneira, eram fantasias. Tinham as características das roupas de um tipo específico de classe média bem informada e de alta escolaridade, que gostava de vestidos que eram mais interessantes do que bonitos, que gostava do que era eclético, que gostava do que supostamente deveria gostar. Ifemelu imaginou aquelas mulheres numa viagem: elas colecionariam coisas estranhas e encheriam a casa com elas, provas não refinadas de seu refinamento.
“Este é Bill!”, disse Shan, abraçando um homem musculoso de pele escura que usava um chapéu de feltro. “Bill é escritor, mas, ao contrário de nós, tem pilhas de dinheiro”, disse Shan, quase arrulhando. “Bill tem uma ideia ótima para um livro chamado Viajar sendo negro.”
“Adoraria saber mais sobre ele”, disse Ashanti.
“Aliás, mulher, adorei seu cabelo”, disse Shan para Ashanti.
“Obrigada!”, agradeceu Ashanti. Ela era linda e tinha conchinhas por todo lado; elas chacoalhavam em seus pulsos, enroscavam-se em seus dreads retorcidos e lhe cingiam o pescoço. Dizia coisas como “mãe África” e “a religião ioruba” com frequência, olhando para Ifemelu como quem quer confirmação, e aquilo era uma paródia da África com a qual Ifemelu se sentia desconfortável, e depois se sentia mal por se sentir tão desconfortável.
“Você finalmente tem uma capa da qual gosta?”, perguntou Ashanti a Shan.
“Gosta é exagero”, disse Shan. “Bem, queridos, é um livro de memórias, certo? É sobre um monte de coisa, sobre ter sido criada numa cidade onde só tinha gente branca, ter sido a única criança negra na minha escola, a morte da minha mãe, essas coisas todas. Meu editor leu o manuscrito e disse: ‘Entendo que a questão racial é importante aqui, mas precisamos ter certeza de que o livro vai transcender a raça, para não ser só sobre isso’. E eu pensando: mas por que tenho que transcender a raça? Sabe, como se a questão racial fosse uma bebida que é melhor se for servida diluída, temperada com outros líquidos, ou os brancos não vão conseguir engolir.”
“Isso é engraçado”, disse Blaine.
“Ele toda hora assinalava os diálogos no manuscrito e escrevia nas margens: ‘As pessoas falam assim mesmo?’. E eu pensando: ei, quantos negros você conhece? Estou falando de conhecer como iguais, como amigos. Não estou falando da recepcionista do escritório e talvez daquele único casal negro cujo filho estuda na mesma escola que o seu e a quem você cumprimenta. Estou falando de conhecer de verdade. Nenhum. Então como é que você pode me dizer como os negros falam?”
“Não é culpa dele. Não existem negros de classe média o suficiente para todo mundo”, disse Bill. “Muitos brancos liberais estão procurando amigos negros. É quase tão difícil quanto encontrar uma doadora de óvulo loura e alta que tem dezoito anos e estuda em Harvard.”
Todos riram.
“Escrevi uma cena sobre algo que aconteceu quando eu estava na pós-graduação, sobre uma mulher da Gâmbia que conheci. Ela adorava comer chocolate em pó. Sempre tinha um pacote na bolsa. Bom, ela foi morar em Londres e se apaixonou por um inglês branco que ia largar a mulher por causa dela. Fomos a um bar e ela estava contando isso para mim, para outra menina e para um cara chamado Peter. Um cara baixinho de Wisconsin. E vocês sabem o que Peter disse para ela? ‘A esposa dele deve se sentir pior ainda porque você é negra.’ Disse isso como se fosse óbvio. Não que a esposa fosse se sentir mal porque havia outra mulher e ponto, mas que ia se sentir mal porque ela era negra. Aí eu coloquei isso no livro e meu editor quis mudar porque não era sutil. Como se a vida fosse sutil, porra. E aí escrevi sobre o fato de que minha mãe era frustrada no trabalho, porque sentia que tinha chegado a um teto e que eles não a deixavam avançar porque era negra, e meu editor disse: ‘Será que a gente pode incluir um pouco de nuance? Será que sua mãe se dava mal com alguém no trabalho, de repente? Ou já havia recebido o diagnóstico de que tinha câncer?’. Ele achou que a gente devia complicar, para não ser só sobre raça. E eu disse: mas era a raça. Ela era frustrada porque achava que, se tudo fosse igual, com exceção de sua raça, teria sido promovida a vice-presidente. E falou bastante sobre isso até morrer. Mas, de alguma maneira, a experiência da minha mãe subitamente não tinha nuance. Nuance significa não incomode as pessoas para que todos possam se considerar indivíduos e achar que todos chegaram aonde estão devido ao mérito.”
“Talvez você devesse transformar seu livro num romance”, disse Maribelle.
“Está brincando?”, disse Shan, um pouco bêbada, um pouco dramática, agora sentada em posição de lótus no chão. “Você não pode escrever um romance honesto sobre a questão racial neste país. Se escrever sobre a maneira como as pessoas realmente são afetadas por sua raça, vai ser muito óbvio. Os escritores negros que produzem ficção literária neste país, que são ao todo três, não os dez mil que escrevem aquelas bostas daqueles livros de gueto com capa colorida, têm duas opções: podem escrever de forma afetada ou pretensiosa. Se você não faz nem uma coisa nem outra, ninguém sabe em que categoria te colocar. Então, se você for escrever sobre raça, precisa ter certeza de que vai ser tão lírico e sutil que o leitor que não lê nas entrelinhas nem vai saber que aquilo é sobre raça. Sabe, uma meditação proustiana diluída e desfocada que, no fim, deixa a gente se sentindo diluído e desfocado.”
“Ou arranje um escritor branco. Os escritores brancos podem ser francos em relação à questão racial e ser muito ativistas, porque a raiva deles não ameaça ninguém”, disse Grace.
“E esse livro recente, Memórias de um monge?”, disse Maribelle.
“É um livro covarde e desonesto. Você já leu?”, perguntou Shan.
“Li uma crítica.”
“Esse é o problema. Você lê mais sobre livros do que livros propriamente ditos.”
Maribelle corou. Ifemelu sentiu que ela só poderia ouvir aquilo de Shan calada.
“Neste país, somos muito ideológicos em relação à ficção. Se um personagem não nos é familiar, então ele se torna inverossímil”, disse Shan. “Você não pode nem ler ficção americana para ter uma noção de como a vida real é vivida hoje. Lê-se ficção americana para ver brancos malucos fazendo coisas consideradas estranhas por brancos normais.”
Todo mundo riu. Shan ficou deliciada, como uma menininha exibindo sua habilidade de cantar para os amigos importantes dos pais.
“O mundo simplesmente não se parece com esta sala”, disse Grace.
“Mas pode parecer”, disse Blaine. “Provamos que o mundo pode ser como esta sala. Pode ser um lugar seguro e igual para todos. Só precisamos derrubar as paredes do privilégio e da opressão.”
“Lá vai meu irmão hippie”, disse Shan.
Mais risos.
“Você devia escrever sobre isso no seu blog, Ifemelu”, disse Grace.
“Sabe por que Ifemelu pode escrever aquele blog, aliás?”, disse Shan. “Porque ela é africana. Está escrevendo do lado de fora. Na realidade, ela não sofre tudo aquilo sobre o que está escrevendo. São coisas excêntricas, curiosas para ela. Então ela pode escrever sobre isso, receber todos esses elogios e ser chamada para dar palestras. Se fosse afro-americana, ia ser considerada uma pessoa cheia de raiva e condenada ao ostracismo.”
A sala, por um segundo, encheu-se de silêncio.
“Acho que você tem alguma razão”, disse Ifemelu, irritada com Shan e consigo mesma por se dobrar ao seu feitiço. Era verdade que a questão racial não estava bordada no tecido de sua história pessoal, não fora gravada em sua alma. Ainda assim, teria preferido que Shan tivesse dito aquilo para ela quando estivessem sozinhas, em vez de dizê-lo agora, com tanto júbilo, diante de seus amigos, deixando Ifemelu com um nó amargo no peito que era uma espécie de luto.
“Grande parte disso é relativamente recente. Identidades negras e pan-africanas na verdade eram fortes no início do século XIX. A Guerra Fria obrigou as pessoas a escolherem, ou você se tornava um internacionalista, que, é claro, para os americanos significava comunista, ou passava a fazer parte do capitalismo americano, que foi a escolha que a elite afro-americana fez”, disse Blaine, como quem tentava defender Ifemelu, mas ela achou aquilo abstrato demais, débil demais, tardio demais.
Shan olhou para Ifemelu e sorriu, e naquele sorriso havia a possibilidade de uma enorme crueldade. Quando, meses depois, Ifemelu brigou com Blaine, ela se perguntou se Shan havia alimentado a raiva dele, uma raiva que nunca compreendeu completamente.
Obama é alguma coisa além de negro?
Muita gente — principalmente quem não é negro — diz que Obama não é negro, é birracial, multirracial,
mestiço, qualquer coisa menos simplesmente negro. Porque a mãe dele era branca. Mas raça não é biologia;
raça é sociologia. Raça não é genótipo; é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é
absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom
da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo. Booker T. Washington e Frederick Douglass
tinham pais brancos. Imagine-os dizendo que não eram negros.
Imagine Obama, que tem a pele cor de amêndoa torrada e o cabelo crespo, dizendo para uma
pesquisadora do censo que é meio branco. Tudo bem, então, responderia ela. Muitos negros americanos
têm um ancestral branco, pois os donos brancos de escravos gostavam de estuprar as mulheres nos
alojamentos de escravos à noite. Mas, se você sair com a pele negra, acabou. (Por isso, se você é aquela
mulher loura de olhos azuis que diz “Meu avô era nativo-americano e também sou vítima de discriminação”
quando os negros estão falando da merda que sofrem, por favor, pare com isso.) Nos Estados Unidos, você
não decide de que raça é. Isso é decidido por você. Barack Obama, com a aparência que tem, teria que
sentar na parte de trás do ônibus há cinquenta anos. Se um negro qualquer cometer um crime hoje, Barack
Obama poderia ser detido pela polícia e interrogado por se encaixar no perfil do suspeito. E qual é esse
perfil? Homem Negro.