Americanah
Capítulo 46
Ifemelu passou semanas com seus pais no velho apartamento, feliz simplesmente por estar sentada olhando para as paredes que haviam sido testemunhas de sua infância; só quando começou a comer o cozido da mãe, com uma camada de óleo flutuando em cima dos tomates batidos, percebeu o quanto tinha sentido saudades dele. Os vizinhos passaram lá para cumprimentá-la, a filha que havia voltado dos Estados Unidos. Muitos deles eram novos e desconhecidos, mas ela sentiu um carinho sentimental por eles, porque a faziam se lembrar de outros que conhecera, como Mama Bomboy do andar de baixo, que certa vez, quando Ifemelu estava no ensino fundamental, tinha puxado sua orelha e dito: “Você não cumprimenta os mais velhos”; Oga Tony, do andar de cima, que fumava na varanda; o comerciante do apartamento ao lado, que, sem que ela conseguisse compreender o motivo, a chamava de “campeã”.
“Só vieram ver se você vai dar alguma coisa para eles”, disse sua mãe num sussurro, como se os vizinhos que tinham saído pudessem ouvir se falasse mais alto. “Todos esperavam que eu comprasse alguma coisa para eles quando fomos aos Estados Unidos, por isso fui ao mercado e comprei vidros de perfume pequenininhos e disse que eram de lá!”
Seus pais gostavam de falar sobre a visita a Baltimore — a mãe sobre as liquidações e o pai sobre como não conseguia entender o noticiário porque os americanos usavam expressões informais no noticiário sério.
“É a infantilização e a informalização final dos Estados Unidos! Sinaliza o fim do império americano! Eles estão se autodestruindo!”, declarou ele.
Ifemelu não os contrariava, ouvindo suas observações e lembranças, e torcia para que nenhum dos dois mencionasse Blaine; ela havia dito que um problema no trabalho o obrigara a atrasar a visita.
Não precisava mentir para suas velhas amigas sobre ele, mas o fez mesmo assim, dizendo que estava num relacionamento sério e que Blaine logo iria para Lagos encontrá-la. Ela se surpreendeu com a rapidez com que a questão do casamento surgia durante seus encontros com essas velhas amigas, fazendo com que as solteiras usassem um tom defensivo e as casadas, um de presunção. Ifemelu queria falar sobre o passado, sobre os professores de quem elas zombavam e os meninos de quem gostavam, mas o casamento era sempre o assunto preferido — quem era casada com um safado, quem estava desesperada para agarrar alguém, postando muitas fotos de si mesma toda produzida no Facebook, quem tivera um homem que a decepcionara depois de quatro anos e a abandonara por uma mulherzinha a quem podia controlar. (Quando Ifemelu contou a Ranyinudo que tinha esbarrado com Vivian, uma velha colega, no banco, a primeira coisa que Ranyinudo perguntou foi “Ela está casada?”.) Assim, ela usava Blaine como uma armadura. Se soubessem dele, as amigas casadas não diriam: “Não se preocupe, você vai arrumar alguém, é só rezar por isso”, e as que não eram casadas não presumiriam que pertencia ao clube da autocomiseração das solteiras. Havia também uma nostalgia falsa nesses encontros, que às vezes ocorriam no apartamento de Ranyinudo, às vezes no dela e às vezes em restaurantes, pois Ifemelu precisava se esforçar para encontrar, naquelas mulheres adultas, alguns resquícios do passado que muitas vezes não estavam mais lá.
Tochi estava irreconhecível, tão gorda que até seu nariz tinha mudado de formato, com um queixo duplo que pendia abaixo do rosto, parecendo um pão. Ela foi ao apartamento de Ifemelu com seu bebê numa das mãos, o BlackBerry na outra e uma babá atrás segurando uma bolsa de lona repleta de mamadeiras e babadores. Tochi chamou Ifemelu de “Madame América” e passou o resto da visita falando em tiradas defensivas, como se estivesse decidida a lutar contra sua americanidade.
“Só compro roupas britânicas para o bebê, porque as americanas desbotam depois de uma lavagem”, disse ela. “Meu marido queria que nos mudássemos para os Estados Unidos, mas eu me recusei, porque o sistema educacional é muito ruim. Uma agência internacional colocou-o na última posição entre os países desenvolvidos, sabia?”
Tochi sempre fora perceptiva e ponderada; era ela quem intervinha com argumentos calmos sempre que Ifemelu e Ranyinudo discutiam no ensino médio. Na personalidade diferente dela, em sua necessidade de se defender contra ofensas imaginárias, Ifemelu viu uma grande infelicidade pessoal. Por isso ela apaziguou Tochi, desdenhando dos Estados Unidos, falando apenas sobre as coisas que também não gostava no país, exagerando seu sotaque não americano, até que a conversa se tornou uma fraude exaustiva. Finalmente o bebê vomitou, um líquido amarelo que a babá rapidamente limpou, e Tochi disse: “Precisamos ir, o bebê quer dormir”. Ifemelu viu-a ir embora, aliviada. As pessoas mudavam, às vezes demais.
Priye não estava exatamente diferente, apenas mais dura, com uma camada de cromo lhe cobrindo a personalidade. Ela chegou ao apartamento de Ranyinudo com um monte de jornais cheios de fotografias do casamento caro que acabara de planejar. Ifemelu imaginou a maneira como as pessoas deviam falar de Priye. Ela está indo bem, deviam dizer, está indo muito bem.
“Meu telefone não para de tocar desde a semana passada!”, disse Priye num tom triunfal, jogando para trás uma mecha de seus cabelos ruivos e lisos que havia lhe caído sobre um olho; toda vez que erguia uma das mãos para ajeitar o cabelo atrás da orelha, que caía invariavelmente para a frente de novo, já que fora aplicado dessa maneira, Ifemelu se distraía com o rosa vívido de suas unhas. Priye tinha o comportamento seguro e levemente assustador de uma pessoa que conseguia convencer os outros a fazerem o que queria. E ela brilhava — os brincos de ouro, as tachinhas de metal da bolsa de marca, o batom bronze brilhante.
“Foi um casamento muito bem-sucedido, sete governadores compareceram, sete!”, disse ela.
“E nenhum conhecia o casal, tenho certeza”, disse Ifemelu secamente.
Priye fez um gesto, dando de ombros e espanando o ar com uma das mãos, para mostrar o quanto isso era irrelevante.
“Desde quando o sucesso de um casamento é medido por quantos governadores compareceram?”, insistiu Ifemelu.
“Isso mostra que você conhece as pessoas certas. Dá prestígio. Você sabe como os governadores são poderosos neste país? O Poder Executivo não é pouca coisa”, disse Priye.
“Quero o maior número possível de governadores no meu casamento. Isso mostra que você é de alto nível”, disse Ranyinudo. Ela estava analisando as fotos, virando devagar as páginas dos jornais. “Priye, você ouviu que Mosope vai se casar daqui a duas semanas?”
“Sim. Ela veio falar comigo, mas o orçamento deles era baixo demais para mim. Essa menina nunca entendeu a regra número um da vida aqui em Lagos. Você não casa com o homem que ama. Casa com o homem que pode sustentar você.”
“Amém!”, disse Ranyinudo, rindo. “Mas, às vezes, um homem pode ser as duas coisas, ô. É a temporada dos casamentos. Quando vai chegar a minha vez, Deus Nosso Senhor?” Ela olhou para cima e ergueu as mãos, como quem rezava.
“Eu disse para a Ranyinudo que faço o casamento dela sem cobrar comissão”, disse Priye para Ifemelu. “E faço o seu também, Ifem.”
“Obrigada, mas acho que Blaine vai preferir um evento sem governadores”, disse Ifemelu, e elas todas riram. “Provavelmente vamos fazer uma cerimônia pequena numa praia.”
Às vezes, ela acreditava nas próprias mentiras. Até podia ver a cena, ela e Blaine de roupas brancas numa praia no Caribe, cercados por poucos amigos, correndo até um altar improvisado feito de areia e flores, com Shan observando e torcendo para que um deles tropeçasse e caísse.