Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 4 de 55

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Americanah

Capítulo 4

 

Os deuses, as divindades que pairam no ar e criam e destroem os amores juvenis, haviam decidido que Obinze ia namorar Ginika. Ele era o menino novo na escola, bonito, apesar de baixo. Fora transferido do ensino médio da Universidade de Nsukka e, poucos dias depois, todos já sabiam dos boatos sobre sua mãe. Ela havia brigado com um homem, outro professor da universidade, uma briga de verdade, com socos e golpes, e ainda por cima tinha ganhado, chegando até a rasgar as roupas dele, e por isso havia sido suspensa durante dois anos e se mudado para Lagos, onde ficaria até poder voltar. Era uma história estranha; as mulheres do mercado brigavam, as loucas brigavam, mas não as professoras universitárias. Obinze, com seu ar tranquilo e introvertido, tornava tudo ainda mais intrigante. Ele logo foi admitido no clã de rapazes malandros e admirados da escola, Os Caras; eles jogavam conversa fora nos corredores e ficavam nos fundos do salão principal quando todos os alunos estavam ali para a reunião matinal. Nenhum deles enfiava a camisa para dentro da calça e, por isso, sempre tinham problemas com os professores, o que lhes dava ainda mais prestígio, mas Obinze aparecia todos os dias com a camisa bem-arrumada e para dentro. Logo, todos Os Caras passaram a imitá-lo, até Kayode DaSilva, que era o mais admirado de todos.

Kayode passava todas as férias na casa dos pais na Inglaterra, que parecia enorme e assustadora nas fotos que Ifemelu já vira. Sua namorada Yinka era como ele — ela também ia à Inglaterra com frequência, morava em Ikoyi e falava com sotaque britânico. Era a menina mais popular do ano e tinha uma mochila de couro grosso com monogramas e sandálias sempre diferentes das de todas as outras. A segunda menina mais popular era Ginika, que era muito amiga de Ifemelu. Ela não viajava para fora do país com frequência e por isso não tinha aquele ar de quem era de outro lugar que Yinka tinha, mas sua pele era caramelo e seus cabelos, quando não estavam presos em tranças, desciam em ondas até o pescoço em vez de continuar em pé num afro. Todo ano ela era escolhida a menina mais bonita do ano e sempre dizia, irônica: “É só porque sou mestiça. Como posso ser considerada mais bonita que Zainab?”.

Por isso, era a ordem natural das coisas que os deuses juntassem Obinze e Ginika. Kayode ia dar uma festa organizada às pressas na casa de hóspedes enquanto seus pais estavam em Londres. Ele disse a Ginika: “Vou apresentar você para o Zed na festa”.

“Ele até que não é mau”, disse Ginika, sorrindo.

“Tomara que não seja briguento que nem a mãe, ô”, provocou Ifemelu. Era bom ver Ginika interessada num menino; quase todos Os Caras da escola tinham tentado conquistá-la, mas nenhum conseguira muito; Obinze parecia ser tranquilo, um bom partido.

Ifemelu e Ginika chegaram juntas quando a festa ainda estava nos seus primórdios, a pista vazia, os meninos correndo de um lado para o outro com cassetes, a timidez e o constrangimento ainda intactos. Toda vez que Ifemelu ia à casa de Kayode imaginava como seria morar ali, em Ikoyi, numa propriedade bonita com solo de cascalho e empregados de roupas brancas.

“Olhe ali o Kayode com aquele cara novo”, disse ela.

“Não quero olhar”, disse Ginika. “Eles estão vindo para cá?”

“Estão.”

“Meus sapatos estão tão apertados.”

“Dá para dançar com o sapato apertado”, disse Ifemelu.

Os meninos estavam ali, diante delas. Obinze se vestira de maneira formal demais, com uma jaqueta pesada de veludo cotelê, enquanto Kayode estava apenas de jeans e camiseta.

“Oi, gatinhas!”, disse Kayode. Ele era alto, esguio e tinha os modos descontraídos dos privilegiados. “Ginika, esse é meu amigo Obinze. Zed, essa é Ginika, a rainha que Deus fez para você se estiver disposto a trabalhar por isso!” Ele deu um sorrisinho safado, já um pouco bêbado, o menino de ouro unindo um casal de ouro.

“Oi”, Obinze disse para Ginika.

“Esta é Ifemelu”, disse Kayode. “Também conhecida como Ifemsco. Ela é o braço direito de Ginika. Se você se comportar mal, ela vai te dar uma surra de chicote.”

Todos riram prontamente.

“Oi”, disse Obinze. Seus olhos encontraram os de Ifemelu e permaneceram ali, demorando-se.

Kayode estava batendo papo, dizendo a Obinze que os pais de Ginika também eram professores universitários. “Ou seja, vocês dois são gente dos livros.” Obinze devia ter tomado as rédeas e começado a falar com Ginika, Kayode devia ter ido embora, Ifemelu devia ter ido atrás e o destino dos deuses teria sido cumprido. Mas Obinze falou pouco e Kayode teve que sustentar a conversa, com a voz ficando cada vez mais exuberante, e de tempos em tempos ele olhava de soslaio para Obinze, como quem desejasse incentivá-lo. Ifemelu não soube quando exatamente, mas, naqueles instantes, enquanto Kayode falava, algo estranho aconteceu. Um tremor dentro dela, uma revelação. Ifemelu se deu conta, de repente, de que queria respirar o mesmo ar que Obinze. Além disso, tornou-se profundamente consciente do presente, do agora. A voz de Toni Braxton saindo do cassete, cantando be it fast or slow, it doesn’t let go, or shake me, o cheiro do conhaque do pai de Kayode, que fora surrupiado, e a camisa branca justa que lhe apertava as axilas. Tia Uju a obrigara a dar um nó nela na altura do umbigo e naquele instante Ifemelu se perguntou se aquilo de fato estava na moda ou era só bobo.

A música parou abruptamente. Kayode disse “Já vou” e saiu para descobrir o que dera errado. No silêncio que se seguiu, Ginika ficou brincando com o aro de metal que tinha em volta do pulso.

Obinze encarou Ifemelu de novo.

“Você não está com calor com essa jaqueta?”, perguntou ela. A pergunta saiu de sua boca antes que pudesse se controlar, de tanto que estava acostumada a afiar as palavras, a buscar o terror nos olhos dos meninos. Mas ele sorriu. Parecia ter achado aquilo engraçado. Não estava com medo dela.

“Muito”, disse Obinze. “Mas sou um caipira da roça e esta é minha primeira festa na cidade grande, então você vai ter que me perdoar.” Ele tirou devagar a jaqueta, que era verde e tinha remendo de couro nos cotovelos. Estava com uma camisa de manga comprida por baixo. “Agora, vou ter de ficar carregando uma jaqueta para todo lado.”

“Posso segurar para você”, ofereceu Ginika. “E não ligue para Ifem, a jaqueta é bonita.”

“Obrigado, mas pode deixar, vou segurar como punição por ter decidido usá-la.” Ele olhou para Ifemelu com uma expressão divertida.

“Não foi isso que eu quis dizer”, corrigiu Ifemelu. “É só que esta sala está tão quente e essa jaqueta parece bem pesada.”

“Gostei da sua voz”, disse ele, quase a interrompendo.

Ela, que nunca ficava sem saber o que dizer, balbuciou roucamente: “Minha voz?”.

“É.”

A música havia voltado. “Quer dançar?”, perguntou ele.

Ifemelu assentiu.

Obinze pegou a mão dela e sorriu para Ginika, como se ela fosse uma acompanhante simpática que não seria mais necessária. Ifemelu achava bobos aqueles romances água com açúcar que são vendidos nas bancas de jornal, e ela e as amigas às vezes representavam as histórias. Ifemelu ou Ranyinudo faziam o homem e Ginika ou Priye, a mulher — o homem agarrava a mulher, que se debatia sem muita convicção e depois desabava sobre ele com gemidos agudos, e todas caíam na gargalhada. Mas na pista de dança cada vez mais cheia da festa de Kayode, ela percebeu, com um susto, que havia um traço de realidade nesses romances. Era mesmo verdade que, por causa de um homem, seu estômago se comprimia e se recusava a relaxar, as juntas de seu corpo pareciam ficar frouxas, seus membros não conseguiam se mover ao som da música e todas as coisas fáceis de repente se tornavam penosas. Enquanto dançava, hirta, Ifemelu viu Ginika pelo canto dos olhos observando-os com uma expressão intrigada e a boca um pouco aberta, como se não conseguisse acreditar no que acontecera.

“Você disse caipira da roça”, mencionou Ifemelu, falando alto para ser ouvida apesar da música.

“O quê?”

“Ninguém diz caipira da roça. É o tipo de coisa que a gente lê num livro.”

“Você precisa me dizer quais livros lê.”

Ele estava brincando com ela, que não entendeu bem a piada, mas riu mesmo assim. Mais tarde, lamentou não lembrar cada palavra que eles disseram um para o outro enquanto dançavam. Lembrava apenas que se sentira à deriva. Quando as luzes se apagaram e começou a tocar uma música lenta, Ifemelu desejou estar num canto escuro nos braços de Obinze, mas ele disse: “Vamos lá para fora conversar”.

Eles se sentaram em blocos de cimento atrás da casa de hóspedes, ao lado do que parecia ser o banheiro do porteiro, uma cabine estreita que emitia um cheiro desagradável quando o vento soprava. Os dois falaram sem parar, famintos por se conhecer. Obinze lhe contou que seu pai morrera quando ele tinha sete anos e que se lembrava claramente dele o ensinando a andar de triciclo numa rua cheia de árvores próxima à casa onde moravam no campus, mas que às vezes descobria, em pânico, que não conseguia se recordar de como era seu rosto e que então se sentia tomado por uma sensação de traição e corria para examinar a foto pendurada na parede da sala.

“Sua mãe nunca quis casar de novo?”

“Mesmo que quisesse, acho que não teria feito isso, por minha causa. Quero que ela seja feliz, mas não quero que se case de novo.”

“Eu ia me sentir assim também. É verdade que ela brigou com outro professor?”

“Então você ouviu essa história.”

“Dizem que é por isso que ela teve de sair da Universidade de Nsukka.”

“Não, ela não brigou. Fazia parte de um comitê e eles descobriram que esse professor havia usado os fundos de forma indevida. Minha mãe acusou o homem publicamente e ele ficou furioso e deu-lhe um tapa, dizendo que não ia aceitar que uma mulher falasse com ele daquele jeito. Então minha mãe se levantou, trancou a porta da sala de conferências e pôs a chave no sutiã. Ela disse a ele que não podia retribuir o tapa, pois ele era mais forte, mas que ele teria de pedir desculpas publicamente, na frente de todo mundo que o vira dando o tapa nela. Ele pediu. Mas minha mãe sabia que era da boca para fora. Contou que ele se desculpou dizendo algo como ‘Tudo bem, desculpe, já que é isso que você quer ouvir, agora me dê essa chave’. Naquele dia, chegou em casa com muita raiva e ficou falando sobre como as coisas haviam mudado e o que significava alguém poder chegar e esbofetear outra pessoa sem mais nem menos. Escreveu circulares e artigos sobre isso e a união estudantil se envolveu. As pessoas diziam ‘Como ele pôde dar um tapa numa viúva?’, e isso a deixou ainda mais irritada. Disse que não devia ter levado um tapa por ser um ser humano completo, não por não ter um marido para defendê-la. Então algumas das alunas dela fizeram camisetas com os dizeres ‘ser humano completo’. Ela ficou meio famosa. Em geral é discreta e não tem muitos amigos.”

“É por isso que ela veio para Lagos?”

“Não. Ela já estava para tirar essa licença sabática. Eu me lembro da primeira vez em que ela me disse que ia tirar uma licença sabática de dois anos e de como fiquei animado porque achei que ia ser nos Estados Unidos, porque o pai de um amigo meu tinha acabado de ir para lá. Ela me explicou que íamos para Lagos e eu perguntei, então para que fazer isso? Melhor ficar em Nsukka.”

Ifemelu riu. “Mas pelo menos você pode pegar um avião para vir para Lagos.”

“É, mas a gente veio de carro”, disse Obinze, rindo. “Mas agora estou feliz por termos vindo para Lagos, ou não teria conhecido você.”

“Nem Ginika”, provocou ela.

“Pare com isso.”

“Seus amigos vão te matar. Era para você estar correndo atrás dela.”

“Vou correr atrás de você.”

Ifemelu sempre lembraria esse momento, essas palavras. Vou correr atrás de você.

“Vi você na escola há um tempo. Até perguntei ao Kay a seu respeito”, disse Obinze.

“Está falando sério?”

“Você estava segurando um romance do James Hadley Chase perto do laboratório. Eu pensei: ‘Muito bem, ainda há esperança. Ela gosta de ler’.”

“Acho que já li todos dele.”

“Eu também. Qual é seu preferido?”

“A srta. Shumway usa a varinha.”

“O meu é Quer continuar vivo?; passei uma noite em claro para terminar.”

“É, eu gosto desse também.”

“E os outros livros? Quais clássicos você gosta?”

“Clássicos, kwa? Eu só gosto de romances policiais. Sidney Sheldon, Robert Ludlum, Jeffrey Archer.”

“Mas você também precisa ler livros de verdade.”

Ela olhou para ele, achando sua seriedade engraçada. “Menino elitista! Criado na universidade! Foi sua mãe professora quem te ensinou isso?”

“Não, falando sério.” Ele parou de falar por um instante. “Vou te emprestar alguns para você experimentar. Adoro os americanos.”

“Você precisa ler livros de verdade”, imitou Ifemelu.

“E poesia?”

“Como foi aquele último que a gente leu na aula? A balada do velho marinheiro? Que coisa chata.”

Obinze riu e Ifemelu, sem interesse em continuar a falar de poesia, perguntou: “Então, o que foi que Kayode disse sobre mim?”.

“Nada de ruim. Ele gosta de você.”

“Você não quer dizer o que foi.”

“Ele disse: ‘Ifemelu é linda, mas dá trabalho demais. Sabe discutir. Sabe falar. Nunca concorda com ninguém. Mas Ginika é um doce de menina’.” Obinze fez uma pausa e acrescentou: “Ele não sabia que era exatamente isso que eu queria escutar. Não estou interessado em meninas boazinhas demais”.

“Hum! Você está me insultando?”, perguntou ela, cutucando-o com raiva fingida. Gostava dessa imagem de si mesma como sendo alguém que dava trabalho, que era diferente, e às vezes encarava aquilo como uma carapaça que a mantinha segura.

“Você sabe que não estou te insultando.” Obinze colocou um braço em seus ombros e puxou-a gentilmente para si; era a primeira vez que os corpos deles se tocavam, e Ifemelu sentiu-se retesar. “Achei você linda, mas não foi só isso. Você pareceu ser o tipo de pessoa que faz algo porque quer, não porque os outros estão fazendo.”

Ifemelu pousou a cabeça contra a de Obinze e sentiu, pela primeira vez, o que sentiria em muitas outras ocasiões com ele: uma autoafeição. Ele fazia com que ela gostasse de si mesma. Com Obinze, Ifemelu se sentia confortável; era como se sua pele fosse do tamanho certo. Contou a ele como queria muito que Deus existisse, mas temia que não existisse, como se preocupava com o fato de que devia saber o que queria fazer da vida, mas nem sabia o que queria fazer na faculdade. Parecia tão natural conversar com ele sobre o que lhe viesse à cabeça. Ifemelu nunca tinha feito isso antes. A confiança tão súbita, mas tão completa, e a intimidade a assustavam. Eles não sabiam nada um do outro apenas algumas horas antes e, no entanto, houvera um saber compartilhado naqueles momentos antes de dançarem juntos, e agora ela só conseguia pensar em todas as coisas que ainda queria dizer, nas coisas que queria fazer com ele. As semelhanças na vida deles se tornaram bons presságios: ambos eram filhos únicos, comemoravam aniversário com apenas dois dias de diferença, e as aldeias de suas famílias ficavam no estado de Anambra. Ele era de Abba e ela de Umunnachi, a minutos de carro uma da outra.

“Hum! Um dos meus tios vai à sua aldeia o tempo todo!”, ele contou. “Já fui com ele algumas vezes. As estradas de vocês são horríveis.”

“Eu conheço Abba. As estradas de lá são piores.”

“De quanto em quanto tempo você visita sua aldeia?”

“Todo Natal.”

“Só uma vez por ano! Eu vou sempre com a minha mãe, pelo menos cinco vezes por ano.”

“Mas aposto que falo igbo melhor que você.”

“Impossível”, afirmou Obinze, passando a falar igbo. “Ama m atu inu. Eu sei até os provérbios.”

“Claro. O mais básico, que todo mundo sabe. Um sapo não corre à tarde por nada.”

“Não Eu conheço provérbios sérios. Akota ife ka ubi, e lee oba. Se algo maior que a fazenda é desenterrado, o celeiro é vendido.”

“Ah, você quer me testar?”, perguntou ela, rindo. “Acho afu adi ako n’akpa dibia. O saco do homem dos remédios tem todo tipo de coisa.”

“Nada mau”, disse ele. “E gbuo dike n’ogu uno, e luo na ogu agu, e lote ya. Se você matar um guerreiro numa briga local, vai se lembrar dele quando estiver lutando contra seus inimigos.”

Trocaram provérbios. Ifemelu só lembrava mais dois quando desistiu, mas Obinze continuava em ponto de bala.

“Como você sabe tudo isso?”, perguntou ela, impressionada. “Muitos meninos não querem nem falar igbo, quanto mais saber provérbios.”

“Fico escutando a conversa dos meus tios, só isso. Acho que meu pai gostaria disso.”

Eles ficaram em silêncio. Uma fumaça de cigarro chegou até os dois vinda da entrada da casa de hóspedes, onde alguns meninos tinham se reunido. Havia sons de festa no ar: música alta, vozes animadas e riso estridente de meninos e meninas, todos mais relaxados e mais livres do que estariam no dia seguinte.

“A gente não vai se beijar?”, perguntou ela.

Ele tomou um susto. “De onde veio isso?”

“Só estou perguntando. Estamos sentados aqui há tanto tempo.”

“Não quero que você pense que só quero isso.”

“E quanto ao que eu quero?”

“O que você quer?”

“O que você acha?”

“Minha jaqueta?”

Ifemelu riu. “É, sua famosa jaqueta.”

“Você me deixa tímido.”

“Está falando sério? Porque você me deixa tímida.”

“Acho que nada deixa você tímida.”

Eles se beijaram, pressionaram uma testa contra a outra, ficaram de mãos dadas. O beijo dele era gostoso, deixou-a quase tonta; não era nada parecido com o do seu ex-namorado, Mofe, que ela achava cheio de saliva.

Ifemelu contou isso a Obinze algumas semanas mais tarde, dizendo: “E onde você aprendeu a beijar? Seu beijo não é nada igual à inabilidade salivar do meu ex-namorado!”. Ele rira, repetira “Inabilidade salivar!” e dissera-lhe que aquilo não era técnica, mas emoção. Tinha feito o mesmo que o ex-namorado dela, mas a diferença, no caso deles, era o amor.

“Você sabe muito bem que para nós dois foi amor à primeira vista”, disse Obinze.

“Para nós dois? Forçosamente? Por que você está falando em meu nome?”

“Estou apenas relatando um fato. Pare de lutar contra isso.”

Eles estavam sentados lado a lado numa mesa nos fundos da sala de aula dele, que estava quase vazia. O sinal que anunciava o fim do recreio começou a tocar, agudo e dissonante.

“É, é um fato.”

“O quê?”

“Eu te amo.” As palavras saíram tão fáceis, tão altas. Ifemelu quis que Obinze escutasse e que o menino sentado ali na frente, um menino estudioso que usava óculos, escutasse, e que as meninas reunidas no corredor escutassem.

“Fato”, disse Obinze, sorrindo.

Obinze entrou no clube de debate por causa de Ifemelu e, quando ela acabava de falar, era quem aplaudia mais forte e por mais tempo, até os amigos dela dizerem: “Chega, Obinze, por favor”. Ela entrou no clube de esportes por causa dele e ficava vendo-o jogar futebol do lado de fora do campo, segurando sua garrafa de água. Mas era tênis de mesa que ele amava, suando e gritando enquanto jogava, molhado de energia, batendo na bolinha branca, e ela se admirava com sua habilidade, com como ele parecia se posicionar longe demais da mesa, mas mesmo assim conseguia bater na bola. Obinze era o campeão invicto da escola, assim como fora, segundo contara, na escola anterior. Quando Ifemelu e Obinze jogavam, ele ria e dizia: “Você não ganha batendo na bola com raiva, ô!”. Por causa de Ifemelu, os amigos dele o chamavam de “invólucro de mulher”. Certa vez, quando os meninos estavam combinando de se encontrar depois da escola para jogar futebol, um deles perguntou: “Ifemelu deu permissão para você ir?”. E Obinze respondeu, sem pestanejar: “Deu, mas ela disse que só posso ficar uma hora”. Ela gostava do fato de ele ostentar o namoro como se fosse uma camisa de cor vívida. Às vezes, temia estar feliz demais. Ficava mal-humorada, ou se irritava com Obinze, ou se mantinha distante. E sua alegria se tornava inquieta, batendo as asas dentro dela, como quem busca uma chance de sair voando.