Americanah
Capítulo 10
Aquele primeiro verão foi o verão da espera para Ifemelu; a verdadeira América, pensava ela, estaria logo na próxima esquina. Até os dias, deslizando um para dentro do outro, lânguidos e límpidos, com o sol se demorando até bem tarde, pareciam estar aguardando. Havia uma desolação em sua vida, uma aridez em brasa, sem pais, amigos ou um lar, os marcos familiares que faziam com que fosse quem era. Por isso esperava, escrevendo cartas longas e detalhadas para Obinze, telefonando para ele de vez em quando — telefonemas curtos, porque tia Uju dizia que não podia gastar o cartão telefônico — e passando seu tempo com Dike. Ele era só uma criança, mas Ifemelu sentia, com ele, uma cumplicidade próxima da amizade; assistiam juntos aos desenhos preferidos dele, Os anjinhos e Franklin, liam juntos, e ela o levava para brincar com os filhos de Jane, que morava no apartamento ao lado. Ela e o marido, Marlon, eram de Granada e tinham um sotaque lírico; parecia que estavam sempre prestes a começar a cantar. “Eles são como nós; ele tem um bom emprego, tem ambição, e batem nos filhos”, dissera tia Uju, num tom de aprovação.
Ifemelu e Jane riram quando descobriram quão parecida fora a infância de ambas em Granada e na Nigéria, com livros de Enid Blyton, professores anglófilos e pais que idolatravam a BBC World Service. Ela era apenas alguns anos mais velha que Ifemelu. “Eu era muito nova quando me casei. Todas queriam Marlon, então como eu podia dizer não?”, disse, meio brincando. As duas ficavam sentadas nos degraus diante do prédio vendo Dike e os filhos de Jane, Elizabeth e Junior, andando de bicicleta até o fim da rua e voltando, Ifemelu muitas vezes dizendo a Dike para não ir mais longe, as crianças brincando, as calçadas de concreto brilhando à luz do sol e a tranquilidade do verão interrompida pela música alta que surgia e desaparecia conforme os carros passavam.
“As coisas ainda devem estar muito estranhas para você”, disse Jane.
Ifemelu assentiu. “Estão.”
Um caminhão de sorvete entrou na rua, emitindo uma melodia que parecia o tilintar de sinos.
“Sabe, esse é meu décimo ano aqui e ainda sinto que estou me acostumando”, disse Jane. “A coisa mais difícil é criar meus filhos. Veja Elizabeth, eu tenho que tomar muito cuidado com ela. Se não tomar cuidado neste país, seus filhos se tornam alguém que você não conhece. É diferente de onde vim, porque lá você consegue controlá-los. Aqui, não.” Jane parecia inofensiva, com seu rosto desinteressante e seus braços flácidos, mas por trás do sorriso frequente havia uma vigilância gélida.
“Quantos anos ela tem? Dez?”, perguntou Ifemelu.
“Nove, e já quer começar a fazer drama. Pagamos um bom dinheiro para ela estudar numa escola particular, porque as escolas públicas daqui são péssimas. Marlon disse que vamos nos mudar para uma cidade menor logo, assim eles vão poder estudar em escolas melhores. Senão, ela vai começar a se comportar como esses negros americanos.”
“Como assim?”
“Não se preocupe, com o tempo você vai entender”, disse Jane, levantando-se para ir pegar dinheiro para comprar sorvete para as crianças.
Ifemelu gostava de ficar sentada diante do prédio com Jane, até a noite em que Marlon voltou do trabalho e disse-lhe, num murmúrio apressado, depois de Jane entrar para pegar limonada para as crianças: “Tenho pensado em você. Quero conversar com você”. Ifemelu não contou a Jane. Jane jamais culparia Marlon, o marido de pele clara e olhos castanho-esverdeados que todas as outras queriam. Então, começou a evitar ambos, inventando jogos de tabuleiro elaborados que ela e Dike podiam jogar dentro do apartamento.
Certa vez, Ifemelu perguntou a Dike o que ele tinha feito na escola antes das férias e ele disse: “Círculos”. As crianças se sentavam no chão num círculo e contavam quais eram suas coisas preferidas.
Ela ficou abismada. “Você já sabe fazer conta de dividir?”
Dike olhou-a com estranheza. “Ainda estou no primeiro ano, prima.”
“Quando eu era da sua idade, já fazia divisões simples.”
Ifemelu enfiou na cabeça que as crianças americanas não aprendiam nada na escola primária e ficou ainda mais convencida disso quando Dike lhe contou que sua professora às vezes distribuía cupons de lição de casa; se você ganhasse um cupom, podia deixar de fazer a lição de casa por um dia. Círculos, cupom de lição de casa, que outra bobagem ela ia escutar? Assim, começou a ensinar matemática a Dike. Ifemelu não conseguia mais lembrar aquele verão sem pensar em contas de dividir, neles sentados lado a lado à mesa de jantar, Dike com a testa enrugada, sem entender nada, e na maneira como ela alternava suborno com gritos. Tá, tente mais uma vez e você pode tomar um sorvete. Você não vai brincar se não acertar. Mais tarde, quando Dike ficou mais velho, ele diria que achava matemática fácil por Ifemelu ter passado aquele verão sendo sua torturadora. “Você quer dizer aquele verão em que eu fui sua tutora”, dizia ela, numa piada que se tornou familiar e à qual eles recorriam sempre, como se faz com uma comida reconfortante.
Aquele também foi seu verão da comida. Ifemelu tinha prazer no desconhecido — nos hambúrgueres do McDonald’s com o toque crocante e azedo do picles, coisa de que ela gostava num dia e não gostava no outro, dos wraps que tia Uju trazia para casa, com molho picante, e da mortadela e do pepperoni que deixavam uma leve camada de sal em sua boca. Ficava desorientada com a falta de sabor das frutas, como se a natureza tivesse se esquecido de pôr tempero nas laranjas e bananas, mas gostava de olhar para elas e tocá-las; as bananas eram tão grandes e perfeitamente amarelas que perdoava sua falta de gosto. Um dia, Dike disse: “Por que você está fazendo isso? Comendo uma banana com amendoim?”.
“É assim que a gente come na Nigéria. Quer experimentar?”
“Não”, disse ele com firmeza. “Acho que não gosto da Nigéria, prima.”
O sorvete, por sorte, tinha um sabor que permanecia igual. Ela comia direto das embalagens gigantes, compradas duas pelo preço de uma, que havia no congelador, engolindo bolas de baunilha e chocolate enquanto via televisão. Acompanhava os programas que via na Nigéria — Um maluco no pedaço, A Different World — e descobria novos — Friends, Os Simpsons —, mas eram os comerciais que a encantavam. Ifemelu ansiava pela vida que mostravam, cheia de alegria, onde todos os problemas tinham soluções cintilantes na forma de xampus, carros e comidas embaladas. Em sua mente, eles se tornaram a América real, a América que ela só conheceria quando se mudasse no outono para a faculdade. A princípio o noticiário da noite a confundia, uma ladainha de incêndios e tiroteios, porque estava acostumada ao noticiário da NTA, em que oficiais do Exército arrogantes cortavam fitas de inauguração ou faziam discursos. Mas, conforme foi assistindo todas as noites às imagens de homens algemados sendo arrastados, de famílias desesperadas diante de casas queimadas, dos destroços de carros que haviam batido durante perseguições da polícia, de vídeos fora de foco de assaltos a lojas, a confusão se transformou em preocupação. Ela entrava em pânico quando ouvia um som vindo de fora, quando Dike se afastava demais de bicicleta pela rua. Parou de tirar o lixo depois de escurecer, porque poderia haver um homem com uma arma lá fora. Tia Uju dizia, com uma risada breve: “Se você continuar a ver televisão, vai achar que essas coisas acontecem o tempo todo. Você sabe quantos crimes acontecem na Nigéria? É só que a gente não noticia como eles fazem aqui”.