Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 30 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 28

Pouco tempo depois da comitiva de SUV's apressados ter deixado o estádio, Lilly já tinha

feito tudo o que precisava. As roupas estavam organizadas, telefonemas foram feitos e até uma torta de frango para o jantar, encaminhada. Foi reconfortante poder cozinhar para todos, aquilo a fizera lembrar-se da mãe.

Ficou aliviada porque a filha de Marie e os netos foram visitá-la. Não gostava da ideia dela sozinha na casa nova, mesmo com toda a restrição de acesso a Ava e ao Will. Divertiu-se com as histórias das crianças animadas por terem o mar no quintal de casa.

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Brian — Oi, moça teimosa.

Lilly — Oi, moço famoso.

Brian — Não brinca... Estou muito agoniado... essa merda de entrevista vai durar uma eternidade.

Lilly — Que bom... sinal de que gostam de vocês.

Brian — Eu não deveria ter cedido... Meu coração está apertado com você sozinha aí.

Lilly — Isso é saudade?

Brian — Seria muito rápido se eu dissesse que estou morrendo de saudades? Eu queria estar aí, nossa manhã foi incrível.

Lilly — Foi mais que incrível. Também estou com saudades.

Brian — Isso é bom... Tenho que entrar no estúdio. Tente se divertir, mas não dê mole para estranhos.

Lilly — Só tem um estranho que me instiga a dar mole... Ficarei aqui ansiosa, esperando por ele.

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Esperou por mais recadinhos de Brian, mas esses não chegaram. Animou-se com as notícias de seu agente. A galeria de Londres confirmara o vernissage e nenhum houve efeito negativo em relação ao escândalo do casamento.

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— Fique tranquila, minha pequena Picasso. Se houvesse alguma rejeição, já saberíamos. Só recebi e-mails de apoio e de curiosos.

— Que bom, Antoine.

— Faça um favor a nós. Aproveite esse tempo para inspirar-se!

Inspiração?

Sim!

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A cabeça de Lilly estava cheia de ideias. E todas elas relacionadas às lembranças de um certo guitarrista moreno, que estavam bem vivas em sua mente.

Irritou-se que o número do seu celular tivesse vazado para a imprensa. Mais de cem ligações não atendidas! Era ligar o aparelho e encontrar um monte de besteiras. Será que nunca a deixariam em paz? Em meia hora, Will tentou ligar de quatro números diferentes.

Inferno!

Tinha que dar um jeito naquilo! Aqueles recados a faziam mal.

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Will – Até quando vai desligar na minha cara? Não pode me ignorar para sempre. Já disse, o que aconteceu com Ava foi um erro, um ato impensado.

Ava – Belo teatro! Parabéns, diante de trinta mil pessoas? Uau! Esse circo vai durar até quando?

Will – Me atenda. Me perdoe. Precisamos conversar, docinho. Tem que reconsiderar a administração de seus bens.

Ava – Que mundo pequeno! Sabia que uma amiga minha é amante do seu roqueiro? Ela pareceu bastante empolgada com o fogo dele. Homens assim precisam de ação constante, duvido que possa dar isso a ele.

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Que droga!

Ava e suas mentiras!

Desligar iPhone.

Lilly aproveitou que uma equipe de limpeza tinha invadido o Palazzo, para dar uma volta. Pegou a bolsa e a credencial, e saiu atrás de alguém ou alguma coisa para se distrair. Eram só quatro horas e a tarde estava agradável. Um bando de passarinhos saiu das árvores e revoou ao redor do estádio, movendo-se em um ritmo quase musical.

Brian.

Teria algumas horas pela frente até os meninos voltarem. A passagem de som ficara para mais tarde. Uma hora antes dos portões se abrirem, o que significava que seria ilusão dela acreditar que teria Brian livre, antes do show acabar.

O conselho do músico para que se divertisse era meio furado. Não tinha muito o que se fazer naquela montanha de concreto do estádio. Tentou o museu de esportes, fechado. Ofereceu ajuda para a técnica e Dilon até que se esforçou para tentar arrumar algo para ela fazer, mas qual a utilidade de uma artista plástica, entre caixas pesadas e toda a parafernália de montagem de palco? Relaxar vendo TV? Pintar? Impossível... não com toda a barulheira da turma da faxina e seus aspiradores industriais.

— Vamos descarregar a carreta maior — Dilon disse pensativo, tirou o boné e coçou a cabeça. — Já sei como pode me ajudar. Quer tirar o seu carro?

Lilly animou-se. Estava sentindo falta da sua menina. A solução que Brian arranjara para o carro, era levá-lo junto com eles. A carreta maior tinha espaço de sobra. Geralmente, carregavam o carro do Adan ou do Mark, mas o espaço tinha ficado vago depois que optaram por motos.

— Claro! Onde devo colocá-lo?

— Depois do portão da técnica tem um estacionamento para a diretoria. É fácil, é só contornar o estádio.

— Considere feito! Nos vemos mais tarde então.

— OK. Se precisar de mim, estarei no palco ajudando a Anne e o Josh.

Uma luz acendeu na cabeça criativa e curiosa de Lilly. Por que não? Estava em lua de mel e pessoas costumam passear, nessas ocasiões. Animou-se. Quando chegaram na cidade, tinha visto um shopping a algumas quadras dali e reparado em uma placa indicando o Jardim Botânico. Perfeito! Compras e um passeio pareciam ótimos.

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Tudo bem, Brian. Não entre em pânico. Era a milésima vez que ele tentava o celular de Lilly e nada. Quando voltaram da entrevista, esgotados e com alguns arranhões, tudo o que ele queria era aproveitar os poucos minutos de intervalo ao lado da esposa. Queria. Porque tudo o que encontrou foi um grande nada. Zero. Nenhum sinal de Lilly ou do carro. Só um mísero bilhete.

— Tem certeza, Dilon?

— O cara da guarita confirmou. Ela saiu há algumas horas.

Brian sentou-se na mesa da cozinha, apoiou os cotovelos, enterrando o rosto nas mãos.

— Merda! Ela conhece Phoenix?

— Acho que não. — Big esfregou os cabelos com uma expressão preocupada. — Culpa minha ter insistindo para ela ficar. Devia ter imaginado... Lilly não é do tipo que fica sentada esperando. Precisa de espaço.

— Será que é melhor avisar a polícia? — a voz de Brian era um sussurro.

— Claro que não. A Lilly sempre faz esses passeios.

Penne tentou acalmar Brian. Ligou sem sucesso para o celular de Lilly e pegou mais uma vez o bilhete preso na geladeira.

 

Fui explorar a cidade.

Não se preocupem.

Volto logo.

Lilly

 

Ela largou o bilhete e bloqueou o forno com o pé.

— Pode fechar isso aí! Nem ouse tocar nessa torta, Gabe!

Os olhos de Gabe aumentaram em expressão de surpresa e descrédito.

— Mas…

— Mas nada! Vamos esperar a Lilly chegar para comermos juntos! — Brian olhou firme para ele, que fechou o forno e saiu batendo pé, subindo as escadas como uma criança grande e contrariada.

— Ela se ofereceu — Dilon ainda tentava se justificar com Brian. — Estava entediada, só pedi para colocar o carro no estacionamento. Como poderia adivinhar que ela iria sair?

— Tudo bem, Dilon, relaxa. — Adan, sentou-se na ilha da cozinha ao lado de Brian. — Lilly faz o quiser. Nós somos os prisioneiros nessa porra de rotina insana. Ela não.

Brian sabia que Adan tinha razão. Se para eles já era um saco ficarem trancados no estádio, imagina para ela. Se ao menos Mark reduzisse um pouco os compromissos. Depois de seis anos, com tantos prêmios e discos de platina, eles poderiam se dar ao luxo de serem mais seletivos. Seria bom terem mais tempo livre. Até para criar melhor, com certeza, até mesmo o Richard agradeceria.

Teriam que conversar novamente com ele. Os caras, acostumados a trocar a noite pelo dia, estavam cansados. Gabe vivia reclamando que mal podia aproveitar a cidade. Penne dizia que precisava de tempo para se cuidar. Momentos de pausa como o UM dia de Vegas, eram raros. De que adiantava trabalhar tanto, acumular uma fortuna e não poder curtir?

— Passagem de som em cinco minutos.

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Nossa, que maravilha!

Lilly estava grata por ter aceito a sugestão da moça no shopping: fazer hora e chegar um pouco mais tarde ao Jardim Botânico. Aproveitou o tempo extra para dar uma passadinha na livraria, na loja de esportes e no supermercado.

Um senhor de cabelos branquinhos e simpático, que trabalhava no Jardim, tinha deixado Lilly acompanhar um grupo de estudantes de botânica. Por algumas horas, ela sentiu-se como eles. Despreocupada! Uma mente livre, longe de tudo. Lembrou-se de quando era apenas uma estudante de artes, explorando as ruas de Paris.

Tão libertador!

— Acho que já te vi em algum lugar. — Uma garota de óculos a encarou sorridente. — É famosa?

Oh, ooooh!

— Famosa, eu? Não. Mais anônima impossível — Lilly brincou, rezando para que a moça não fosse uma daquelas fãs malucas da banda.

A estudante, com os cenhos franzidos, deu mais uma examinada nela. Em seguida, balançou a cabeça decepcionada.

— Devo tê-la confundido com alguém, então.

A jovem afastou-se na trilha de cascalhos, juntando-se aos colegas que seguiam logo à frente. Lilly respirou fundo e achou melhor colocar o boné e os óculos que ainda estavam na bolsa. E se... uma fã homicida surgisse de um arbusto? Apanhar com um cacto espinhento não lhe parecia uma ideia muito atraente.

Uiiii! Muita paranoia!

Lilly tentou não olhar para os arbustos a cada cinco minutos, relaxar e aproveitar o passeio.

O lugar era totalmente único e muito inspirador. Vários tipos de cactos com tamanhos variados e esculturas em vidro de artistas locais. A paisagem árida era fantástica, com uma coleção de plantas superdiferentes de tudo que Lilly já tinha visto antes. Várias ideias surgiram de como explorar em suas obras as cores, formas e texturas tão intrigantes.

— Artistas sempre vêm aqui — o guia vestido de caqui dos pés à cabeça, puxou papo.

Lilly fez um gesto indicando ao redor e sorriu.

— É realmente incrível!

Logo escureceu e milhares de lanternas acenderam, espalhadas pelo jardim. Uauuu! Uma outra dimensão pareceu surgir. Obrigada, moça do shopping! O lugar virou uma teia iluminada e psicodélica. Várias cores brotaram do chão e entre as plantas e esculturas.

O guia continuava ao lado dela, na trilha demarcada. Concentrou-se nela, dando uma avaliada em seu vestido de verão.

— Está de férias?

— Mais ou menos... lua de mel. — Levantou a mão mostrando a aliança.

O homem olhou em volta confuso e a expressão simpática se foi.

— E está aqui, sozinha? Na sua lua de mel?

A névoa de felicidade se desfez do rosto de Lilly.

— Compromissos de trabalho. Esta tarde sou só eu.

E provavelmente em todas as outras tardes também.

— Meu Deus! Que espécie de homem é o seu marido? Esposas devem ser prioridade! — O guia balançou a cabeça violentamente e revirou os olhos, Lilly ficou sem reação. — Isso é mau, é muito mau... na minha época, casais costumavam fazer planos em suas luas de mel. Sonhar com o futuro juntos... filhos, e não trabalhar!

Da espécie de marido de mentirinha!!!

Que não precisa fazer planos, porque isso nem é uma lua de mel de verdade!

Lilly sentiu uma necessidade estranha de defender Brian. Ondas de humilhação percorreram o seu corpo, rígido de tensão. Em que momento o passeio agradável virou uma inquisição sobre a vida deles? E daí que ela estava ali sozinha? Colocou as mãos na cintura, indignada, respirou fundo e fez a melhor cara de minha-vida-não-é-da-sua-conta!

— Não é culpa dele, oook? Meu marido é muito requisitado! Muito requisitado! — alterou a voz.

O guia recuou, demonstrando um tato tardio ou medo. Cabeças de turistas interessados e curiosos viraram em direção a eles. Fez-se um silêncio terrível. Os olhos do velhinho entraram em movimento, como se procurassem uma rota de fuga.

— S-sim... m-me... desculpe. Eu e essa minha boca velha e grande. Esqueça o que lhe falei — disse e saiu apressado, embrenhando-se entre os cactos. — Aiiii! Odeio esses espinhos!

Esquecer como? Se era a mais pura verdade.

A palavras daquele senhor foram como suco de limão na ferida de Lilly. Aquela que ela estava ignorando há quatro dias. Não importava o quanto a companhia do Brian fosse agradável, ela tinha saído de uma mentira para entrar em outra!

Em estado de choque, Lilly observou o guia se afastar.

— Tudo bem? — uma voz feminina vibrou.

Lilly virou até encontrar uma turista com olhar preocupado, depois mexeu a cabeça afirmativamente e piscou algumas vezes, dando alguns passos para trás. A sensação de estar sendo observada era sufocante.

— T-tudo, claro. Só está na minha hora, obrigada.

Saiu apressada e então aconteceu...

Ali, afastada de todos, sentada em um banco que achou em meio às flores selvagens, e sozinha… a consciência de Lilly falou mais alto.

Que diabos estou fazendo?

Não sei! Não sei! Não sei!

E foi incontrolável... a fachada de serenidade despencou... a negação acabou... Lilly nunca foi de dar chiliques, contudo, estava tão sobrecarregada... tão... tão...

Chorou como se não houvesse amanhã. Não de raiva ou pena de si mesma. Chorou porque não sabia que diacho estava fazendo. Chorou pelo que não compreendia. Por estar feliz, quando a lógica das traições pedia que estivesse triste. Por aquele desejo louco e incontrolável por Brian, que fazia dela um ser carnal e inconsequente. Chorou por medo... da perda anunciada. Finalmente, o corpo e a alma de Lilly estavam conhecendo o prazer sem limites e um sentimento profundo e indescritível. A ironia de tudo aquilo era que ela não poderia desfrutar de tais sensações para sempre.

A porcaria do velhinho estava certo!

Certo!

Não havia casamento, nem planos para o futuro, nem filhos com olhos azuis exóticos, nem a guitarrinha irritante no primeiro aniversário do bebê e muito menos o felizes para sempre!

Nada! Zero!

Ai, meu Deus!

— ATENÇÃO! Senhores visitantes... Última chamada... o parque fechará em quinze minutos...

A voz do além fez o coração de Lilly pular como um rato dentro de uma caixa. Deus! Quanto tempo eu fiquei aqui? Ela enxugou as lágrimas com a palma da mão e embora, não tivesse chegado à conclusão nenhuma e continuasse sem saber o que estava fazendo, estava mais calma.

Isso!

Não era obrigada a saber de tudo... A única vez em que teve quase certeza de alguma coisa, estivera redondamente enganada... Então, Lilly respirou fundo e correu, antes que tivesse que passar a noite entre os cactos.

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A noite estava atípica no camarim da Ultimate Bet. A rotineira euforia pré-show fora substituída pela apreensão. Até Gabe, que achou a preocupação com Lilly um exagero, e continuava magoado por causa da torta de frango, preferiu se isolar com os outros integrantes no vestiário.

Brian pegou o telefone, desligou e ligou de novo, para o caso de falta de sinal. Enfiou o aparelho no bolso de trás do jeans, sentou-se ao lado de Big, como sempre fazia antes dos shows, mas nada de Gibson naquela noite. Não estava com ânimo para aquecimento. Os dedos dele já estavam aquecidos de tanto que tentara ligar.

Depois de uma passagem de som tensa, cumpriram o compromisso com os fãs sorteados, cumprimentaram as pessoas no camarim e se trancaram no vestiário. Não estavam com cabeça para as médias sociais de Mark. Até Melissa ficou do lado deles. A jornalista ofereceu-se como bode expiatório. Espalhou para os convidados algo sobre uma inspiração de última hora, para o novo álbum que vinham trabalhando há semanas.

A bunda de Brian vibrou e o coração dele deu um pulo. Atrapalhou-se para pegar o celular. Número desconhecido.

Merda! Que não seja o necrotério, por favor! Nem o Willbosta dizendo que a raptou!

— Oi.

As pernas dele tremeram ao ouvir a voz doce de Lilly. Respirou fundo e se controlou para não gritar. Impossível.

— Onde está? Eu te liguei mais de mil vezes! O mundo te ligou mais de mil vezes! Que número é esse? Foi assaltada? É isso? Roubaram o seu celular? Está na delegacia? Deus! No hospital? Me diga onde está, que irei te buscar!

— Calma! Estou bem! Nada de assalto ou hospital. Desculpa. Perdi completamente a noção do tempo. Vou chegar aí em uns vinte minutos. Só queria te tranquilizar.

— Jesus, Bela, estou quase pirando aqui!

— Não queria te preocupar. Juro. Viu o meu recado na geladeira? Tentei te ligar antes de sair, mas só deu caixa postal.

— Vi, mas, porra! Eu... eu... achei... droga!

Penne arrancou o celular da mão de Brian... Homens nestas horas, não serviam para nada! O amigo estava vermelho e tremendo demais! Ele tentou protestar com a loirinha, mas Adan o abraçou pedindo que se acalmasse.

— Devolve essa merda, Penne.

— Relaxa, cara. Ela está bem. — Adan não o soltou.

— Mas, mas... é a minha mulher, caralho!

Gabe deu uma tapinha no ombro do parceiro e amigo.

— E vai continuar sendo. — Depois olhou para Ethan puxando os cabelos. — Só relaxa, você e o Big vão ter um ataque, daqui a pouco.

Alheia ao que acontecia no outro lado da linha, Lilly continuou se justificando.

— ... Depois... precisava de um celular novo e vocês iriam demorar... não achei que seria um problema eu sair. O jardim era tão lindo...

— Lilly, é a Penne.

Um segundo de silêncio.

— Cadê o Brian?

— Ele precisa se acalmar, temos um show em dez minutos... Por que precisava de um celular novo? Podia ter pedido ao Dilon! Onde está?

— Deus! Não queria atrapalhar o show!

— Onde está?

— A uns cem metros do retorno para o estádio. Nem pensei em pedir isso ao Dilon. Só tive a ideia de trocar de número no shopping. Ava e Will estão me deixando louca, Penne! Fora a porcaria da imprensa que descobriu o meu número... impossível...

— Ouça, Lilly. Temos que ir para o backstage. Assim que chegar, vá para lá. Fique ao lado do palco, nada de pista hoje. Pode fazer isso?

— Posso, mas…

Penne tomou uma respiração profunda.

— Sem, mas... Só vá para o palco e fique ao lado de Brian, ok?

— Ok.

Lilly desligou o viva-voz do carro, sentindo-se culpada. Deu seta para entrar na alça de acesso do estádio, seguindo uma fila de carros que também se encaminhavam para lá.

Droga!

Bateu com as mãos no volante, frustrada com a lentidão do trânsito. Buzinou e tentou ultrapassar. O coração dela apertou com a ideia de Brian nervoso. Caramba! Que confusão! Deixar a todos preocupados era a última coisa que desejava e a sensação era inquietante. Lilly inspirou fundo, afastando o pânico. Ainda estava sensível do seu chilique no parque.

De repente, a ficha caiu e os problemas dela pareceram pequenos diante de tudo o que os seus amigos enfrentavam. Sair e bater pernas por aí era algo natural para ela e para o resto mortal do planeta. Entretanto, coisas simples como ir no shopping ou a um parque pareciam atividades perigosas e absurdas para eles. Não era à toa que preferiam a noite e a discrição das boates ou dos clubes privados.

De fora, quem acompanhava a banda, só conseguia enxergar a fama, a agitação e o glamour. Nem imaginavam o quanto deveria ser sufocante ficar prisioneiro do próprio sucesso. Sem liberdade para sair sozinho, dar satisfação de tudo ou apelar para os disfarces, como a Penne.

— Bom que retornou em segurança, senhora Pierce. Seu marido é um homem bastante ansioso.

Lilly engoliu em seco e riu sem graça.

— Pois é, parece que sim.

Pela expressão cansada do guarda no portão da diretoria, Brian deveria tê-lo feito passar uns maus bocados. De qualquer modo, agradeceu ao pobre homem que parecia querer vê-la longe, liberando a entrada dela sem problemas.

Parou o carro perto do Palazzo. Podia ouvir os acordes da guitarra de Brian, ecoando nos alto-falantes. Uma multidão indo ao delírio. As luzes dos canhões refletindo no céu. O corpo todo de Lilly arrepiou-se e lá estava ela... a luxúria e a vontade louca de ver Brian. Não perdeu tempo, jogou a bolsa e as chaves para Lion que estava por perto, pediu que descarregasse e estacionasse o carro dela e voou em direção à entrada de acesso dos bastidores.

Abriu caminho entre uma multidão de fãs, indo em direção ao portão de acesso aos camarins. Em meio a tantos corpos, permitiu-se ser puxada, esmagada e depois xingada quando agitou a credencial de passe livre. Lilly nem pensou em seu estado desgrenhado. Não havia nem sombra de toda aquela produção da noite anterior, ela continuava com o mesmo vestido larguinho de verão, que colocara ao acordar. Branco estampado com minirosinhas e o All Star verde-exército. Zero maquiagem e rabo de cavalo.

Não estava familiarizada com o labirinto de corredores e escadas para chegar ao palco, mas deu um jeito, e a cada acorde que ouvia sair da guitarra de Brian, o coração acrobata dela pulava mais. Quando pegou o primeiro vislumbre do guitarrista, que zanzava pelo palco dedilhando as cordas grossas de modo frenético, tropeçou na fiação e quase caiu de quatro. Era oficial, aquilo nunca mudaria. Era vê-lo, para a boca salivar e o corpo tremer. O homem era devastadoramente lindo. O rosto de perfil perfeito estava suado e com uma expressão tensa. Alguns fios de cabelo grudados na testa.

Lilly ficou de pé em um cantinho que fosse fácil vê-la. Os braços abraçaram o corpo, apertou as coxas, esfregando um pé no outro, tentando conter o tesão entre as pernas... A tentação de invadir o show, pular sobre ele e arrancar aquela camiseta cinza encharcada a estava rondando. Queria explorar cada centímetro daquele corpo rígido novamente. Gemeu baixinho, quando focou nos dedos frenéticos. Lembrou-se de todas as coisas que eles fizeram pela manhã e quase enfartou, quando o pegou olhando para ela, sorrindo largo e brilhante. Sorriu de volta, dando tchauzinho e pulando feito uma boba.

Gabe sussurrou alguma coisa no ouvido de Brian, que concordou com a cabeça e dedilhou a introdução de seu solo sem tirar os olhos dela. Deus, ele é incrível. Adan começou a canção seguinte e outra, e outra. Os gritos eufóricos da multidão, e o sermão de Mark sobre o sumiço dela não conseguiram quebrar a magia que a imagem de Brian exercia sobre ela. Ficou ali sorrindo para ele solo após solo, música após música.

As luzes do estádio apagaram, a multidão gritou o nome da banda. Uma nova explosão de luzes... Veio um bis... outro... mais gritos e aplausos... O show foi maravilhoso e tecnicamente perfeito, mas não tivera a mesma intensidade de Vegas, eles pareciam cansados.

Brian mal terminou os agradecimentos, virou a guitarra que escorregou chiando em suas costas e correu para Lilly. Segurou o rosto dela com as duas mãos, e o olhar dele beirava ao desespero. O guitarrista inspirou fundo, as narinas inflando.

— Bela! Fiquei louco aqui sem você! Promete que não some mais.

Ela ofegou com a intensidade do toque dele e agarrou-se às mangas da camiseta molhada.

— Pro-pro-meto.