Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 49 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 47

O helicóptero sobrevoou Dreams Beach...

Do alto, Brian e Lilly tiveram uma amostra da tempestade que estava por vir. Sentada entre o piloto e o marido, ela apertou com força a mão do roqueiro.

— Caramba! — Lilly surpreendeu-se e inclinou o corpo na direção de Brian para ter uma visão melhor.

Lá embaixo, um formigueiro de repórteres e fãs tumultuava o acesso aos portões do condomínio. A multidão alvoroçou-se quando viu a aeronave sobrevoar a área.

Uma enorme faixa, com letras gigantescas, começou a balançar.

 

DEIXEM BRIALY EM PAZ ♥

 

Brian assoviou, a aglomeração de pessoas superava a anterior, em número e euforia. Imaginou o inferno que os amigos tinham passado nos últimos dias.

— Uau... que confusão — murmurou contrariado.

Não era para menos, a audiência secreta, marcada para dali a poucas horas, não era mais tão secreta assim... Bem cedo, tio Ed ligara para avisar à sobrinha que, de algum modo inexplicável, alguém tinha vazado para a imprensa que ela havia sido denunciada pela irmã.

A notícia caíra feito uma bomba nos tabloides, noticiários de televisão e sites, causando uma comoção generalizada. O que de certa forma, era bom, segundo o tio Ed... A imprensa tinha colocado BriaLy como vítima de uma irmã sem escrúpulos... Dezenas de personalidades e artistas estavam manifestando apoio e solidariedade e a opinião pública estava mobilizada a favor deles.

— Transformaram a nossa vida em um circo. — Lilly suspirou.

— Uma novela mexicana. — Brian também suspirou e abraçou a esposa.

Desembarcaram no heliporto, na ala leste do condomínio, e pela praia, caminharam para casa. Na sala encontraram apenas Max, Samantha e Mark à espera deles.

Brian estranhou a recepção acanhada.

— Onde estão todos?

O empresário, vestido em um elegante terno risca de giz azul-marinho, alisou a gravata vermelha e não sorriu. Mark estava tenso, mas também esperançoso. Se tudo corresse como o esperado, em poucas horas, a vida de todos retomaria o seu curso.

— Achei melhor tirá-los daqui — Mark cumprimentou Lilly com certa compaixão. — A essa altura, já devem estar no fórum. A Marie também foi. Não houve meios de dissuadi-los a não ir.

Lilly assentiu, já esperava a presença deles no tribunal. Marie jamais lhe deixaria passar por aquilo sem ela. Em seguida, cumprimentou Max e Samantha, que vestiam ternos pretos idênticos.

— Mesmo com vocês nos dando cobertura, não chegaremos nunca.

— Claro que chegaremos e em grande estilo — Mark disse em um tom mais animado. — O mesmo helicóptero que os trouxe, nos levará para o fórum. O tio Ed e os advogados mexeram uns pauzinhos e conseguiram uma autorização especial. Os arredores do prédio estão tomados pela imprensa, nem a polícia está conseguindo organizar aquilo lá. Decidiram antecipar a audiência, temos que nos apressar.

Merda!

Brian esfregou o rosto. Ele estava preocupado, porém confiante. Aqueles dois dias no campo fizeram milagre para o equilíbrio emocional dele. Estava forte e decidido a não se deixar abalar... Lilly precisava dele inteiro.

— Não posso ir assim. — Lilly alisou a saia jeans, que combinara com uma regatinha branca e chinelos.

— Nem eu. Preciso tirar a bermuda. Não acho uma boa aparecer diante do juiz com essa camiseta furada. — Esticou a barra do tecido de algodão branco.

Lilly abriu um sorriso, adorava o estilo dele.

— Tá... tá... claro que não podem. Têm vinte minutos, apressem-se! — Mark entrou no modo organizador de eventos.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Brian foi até a janela e entreabriu as lâminas da persiana com os dedos. Observou o campo de guerra que acontecia na rua e torceu o nariz. Um cordão de isolamento humano protegia a alameda, cercada por palmeiras e bandeiras dos Estados Unidos e Los Angeles, que abria alas para o imponente complexo arquitetônico do Fórum onde estavam.

Atrás dos policiais fortemente paramentados: o circo. Como músico famoso, estava acostumado com o assédio da imprensa, mas aquilo era demais! Se não fossem eles os protagonistas do drama, poderia jurar que era a rainha da Inglaterra na cidade.

Brian desviou o foco dos repórteres, que se digladiavam por um ângulo melhor, e mirou em Lilly. Mais um pouco, e os saltos pretos que ela usava iriam deixar uma trilha no piso de mármore da salinha em que foram confinados. Com os corredores do Fórum bastante agitados, não acharam uma boa deixá-los livres e perambulando por lá, pois só causaria um tumulto maior.

— Tudo bem? — perguntou ele.

— O quê? — Ela sobressaltou-se, parou de andar e abriu um sorriso que transmitia tudo, menos calma.

As mãos delicadas iriam desgastar, de tanto que Lilly as esfregava uma na outra.

Brian estendeu os braços pedindo que ela fosse até ele. A Pequenininha estava um estouro vestida de modo formal, com um vestido preto, no estilo executiva, um palmo abaixo dos joelhos. As golas brancas arredondadas destacavam o pescoço longilíneo em evidência, devido ao coque banana que ela optara por usar.

Linda! Uma boneca!

Ela titubeou, olhou para a janela, na qual ele estava encostado, mordeu os lábios e sorriu com mais vontade. Apesar de tensa como o Diabo, Lilly não conseguia ficar imune à figura masculina à frente dela.

Caramba, que homão!

Brian parecia um daqueles executivos bem-sucedidos dos filmes de [92] Wall Street. Nunca na vida teria cogitado vê-lo daquela maneira... Ele era outra pessoa, metido em um terno de corte italiano justo cinza, camisa branca e gravata chumbo. Do roqueiro mesmo, só restavam os tênis All Stars cinza que usava.

Deus!

Até os cabelos tinham sido domados com gel.

Uma algazarra, vinda da rua, tirou-a da epifania visual e curiosa, foi até o marido que a abraçou de forma superprotetora. O coração de Lilly parou quando olhou para baixo e viu uma loira estonteante saltar de uma Ferrari vermelha. Ladeada por dois seguranças e seguida por homens com ternos caros, Ava girou o corpo, baixou os enormes e caríssimos óculos escuros, e acenou para os repórteres.

Foi vaiada e xingada.

O terninho branco que vestia só não foi atingido por um tomate, porque um dos homens, que Lilly presumiu ser advogado, rebateu o objeto voador com a pasta executiva.

Ava sorriu com a desenvoltura de uma Diva, ensaiou um aceno e voltou a caminhar como uma rainha na direção da entrada principal. Os cabelos dela estavam diferentes... curtos em estilo sexy e provocante.

— É... pelo jeito, a sua irmã acha que já ganhou — Brian murmurou com desgosto.

— Tenho certeza de que acha.

— Pequenininha... aconteça o que acontecer... entre nós, nada muda, ok?

Lilly assentiu e grudou o rosto no peito musculoso. Aquele cheiro de mate verde que ele exalava, tinha poderes medicinais sobre ela.

Toques, não tão suaves, na porta, fizeram com que os dois se separassem.

— Senhora, a juíza ordenou a sua presença. — Protegido pela porta, o meirinho[93] projetou meio corpo para dentro da sala. — Queira me acompanhar, por favor. O senhor, espere aqui, será convocado no devido momento.

Ai, caramba!

O coração de Lilly disparou.

— Meu ma-marido não vai co-comigo? — gaguejou em surpresa.

— Não agora — o homem disse seco. — Como informei, o senhor Pierce será ouvido no devido momento.

Droga! Droga! Droga!

O corpo de Lilly tensionou.

Preciso do Brian comigo!

O músico girou a esposa, segurando-a firmemente pelos ombros.

— Amor... respira. — Os azuis-violeta dominaram os castanhos. — Vai dar tudo certo! Alimente a luz e não as trevas... combinado?

Lilly inspirou profundamente.

— Ok. Aconteça o que acontecer, nada muda — repetiu como um mantra e manteve o foco nos olhos decididos do marido.

— Vamos — o meirinho insistiu impaciente.

Brian beijou Lilly com força.

— Vai, Pequenininha.

— O advogado do Senhor estará aqui em minutos — o oficial informou, assim que Lilly posicionou-se ao lado dele.

— Advogado? Nem sabia que tinha um! — Brian assombrou-se.

O rosto rechonchudo do meirinho expressou certo divertimento.

— É... parece que o Senhor tem um dos bons. Boa sorte com ele — ironizou.

O oficial colocou a mão nas costas de Lilly e conduziu-a para fora, deixando Brian com a pergunta presa na garganta.

Pra que porra eu preciso de uma merda de advogado?

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

O meirinho conduziu Lilly por um caminho alternativo e discreto, depois de descerem uma escada interna e abrirem uma portinhola, os dois despontaram em um extenso corredor. Dezenas de olhos se voltaram para eles. Na maioria, eram mulheres e homens, elegantemente vestidos conforme a moda rígida da advocacia e que, embora procurassem manter um ar de normalidade, logo formaram um burburinho.

A cada passo que dava na direção da gigantesca porta, de mogno talhado escuro da sala de audiência, Lilly explodia em mil sensações. O coração disparou mais, os joelhos ameaçaram falhar, a boca secou e um suor frio lhe cobriu a testa.

Ai, caramba!

Respirou fundo quando a mão peluda do meirinho tocou a maçaneta.

— Senhorita Lilly?

Uma voz atrás deles lhes roubou a concentração e ambos viraram na mesma hora. Um jovem e atraente rapaz sorriu com uma cortesia um tanto quanto nervosa.

— O seu tio teve um imprevisto e pediu que lhe entregasse estes documentos. — Estendeu um envelope pardo sem timbre. — É bom dar uma olhada neles, antes de mostrá-los aos advogados.

Que droga!

Ela precisava do tio junto dela.

Com as mãos trêmulas, Lilly pegou a encomenda.

O rapaz soltou um suspiro, não sorriu e saiu apressado.

Contrariado, o Oficial de Justiça revirou os olhos. Aquele tipo de abordagem de última hora era totalmente inaceitável.

Magnatas!

Sempre dão um jeito de descumprirem as normas!

— Vamos. — Abriu a porta com irritação e segurou firme no braço de Lilly. — A juíza Morgan odeia esperar.

O corpo dela deu um solavanco ao ser, praticamente, lançado dentro da sala de audiência.

Ai, meu Deus!

Ela congelou, e instintivamente colocou o envelope à frente da barriga, fazendo um escudo para os gêmeos. Quando a presença dela foi notada, vozes pipocaram provocando uma algazarra. A juíza começou a martelar e exigir silêncio. O oficial empurrou as costas de Lilly, que por inércia, começou a andar. Estava em pânico. Aquilo lá era enorme e lotado.

Reconheceu os dois advogados do tio, sentados em uma longa mesa posicionada à direita

da juíza, que era a cópia escrita da atriz Whoopi Goldberg [94]. Lilly piscou algumas vezes, só faltava o véu para a jovem senhora parecer a freirinha farsante do cinema.

— Boneca!

Lilly girou o rosto na direção do chamado. Soltou o ar quando viu Marie, Penne e Big sentados ao lado dos seguranças e de Mark. Metido em um terno apertado, o Gladiador fez um sinal esfuziante de positivo. Lilly estranhou a ausência de Gabe, Alan, Daniel e Mel, mas esboçou um sorriso mesmo assim. Era acalentador tê-los ali. A turma dela ocupava um dos mais de vinte bancos de madeira, que faziam as vezes de plateia.

Deus! Isso aqui não era para ser discreto?

A juíza a chamou com certa impaciência e Lilly acelerou o passo, e focou nos advogados. Atravessou o pequeno corredor entre os bancos, sem se atentar às pessoas que lhe lançavam olhares de coragem e força. Ignorou completamente a turma da mesa da esquerda, pois era ali que Ava estava.

Aproximou-se, cumprimentou respeitosamente a mulher de toga, os advogados e sentou-se segurando o envelope no colo.

— Bom, podemos começar? De acordo, senhora Pierce?

A juíza sorriu com certa condescendência para Lilly, que assentiu timidamente. Deu-se então o início de uma ladainha dissertativa, com a leitura de todos os autos do processo de acusação.

Minutos intermináveis de acusações contra Lilly e declarações de sua conduta amoral, ao ter se casado para burlar a determinação do Juiz anterior.

Blá-blá-blá...

A cada linha, protestos eram ouvidos da plateia e a magistrada teve que martelar por diversas vezes, exigindo silêncio.

— Se não me deixarem ler, eu mando retirar todo mundo daqui!

Surreal.

Lilly podia sentir o olhar fixo da irmã sobre ela. Não querendo contato, abaixou a cabeça e só então, lembrou-se do que havia em seu colo. Discretamente, protegida pelo tampo da mesa, tirou o conteúdo para dar uma olhada.

Havia uma dúzia de fotografias sob um bilhete que dizia:

 

Tiraram tudo de mim, agora é a minha vez de tirar tudo de vocês!

 

O mundo de Lilly parou ao examinar uma primeira sequência, bem nítida, de Brian enfurecido socando o rosto de Will. O ex-noivo parecia morto, estirado no chão de alguma estrada isolada.

Meu-Deus-do-Céu!

Não! Não! Não!

O Brian não pode ser um...

Recusou-se a concluir o pensamento e lágrimas ameaçaram cair.

Em outra sequência, a imagem de Gabe... Droga! O baixista estava quase nu, de pé e apoiado em uma parede de banheiro, recebendo um boquete de um homem gorducho, cujo rosto estava distorcido por algum efeito.

Isso aqui vai destruir a vida dos dois! A carreira! A banda! Tudo!

Ciente de que aquelas fotos jamais poderiam vir a público, Lilly socou o conteúdo repulsivo dentro do envelope e olhou com fúria para Ava, que sorriu.

Na mesma hora, a adaptação de um texto de Plutarco [95] , que lera na escola de arte, voltou à sua mente:

“Nada é tão inflexível como a língua de uma mulher invejosa, nada é tão pérfido quanto as suas vinganças e nada é mais terrível do que a sua maldade. ”

Aquilo era tão a Ava.

Uma mão masculina se sobrepôs à de Lilly, que olhou para o lado.

— Tudo bem? — Langdon, um dos advogados do tio, indagou com preocupação. A jovem estava parecendo um fantasma. — Quer que eu peça um intervalo?

Hã?

A cabeça de Lilly entrou no modo: salve-os como puder. A situação era devastadora. Tinha sido muito ingênua, a irmã jamais se daria por vencida.

— Senhora, juíza Morgan... Vossa Excelência! — chamou ela, com firmeza.

Os olhos de todos se voltaram para Lilly, incluindo os da impaciente juíza.

— Sim.

— Será que eu posso dar uma palavrinha com o meu marido?

— Não será necessário — a magistrada respondeu e voltou a ler.

Como não? Era necessário, sim! Supernecessário! Necessário pra caramba!

Lilly abriu a boca para protestar, mas o advogado fez um sinal pedindo que se calasse. Sem saber o que fazer, Lilly afundou na cadeira e escondeu o envelope na bolsa. Por impulso, transpassou a alça de couro pelo corpo, na primeira oportunidade, pretendia sair correndo dali, enquanto arrancava os cabelos.

Precisava contar para Brian sobre as fotos e perguntar para ele o que fazer.

Deus, eu preciso pensar!

“ — Aconteça o que acontecer... nada muda. ”

Lilly tinha que se acalmar, então apegou-se à promessa do roqueiro e começou a rezar.

A juíza terminou a preleção e retirou os óculos de leitura. Em seguida, dividiu a atenção, indo de Lilly para Ava por diversas vezes.

Olhou... olhou... olhou... olhou...

Todos em silêncio.

Depois, a mulher com ar austero e mais conhecida nos tribunais como Águia, apertou o topo do nariz para espantar uma dorzinha de cabeça chata. Algumas audiências eram intoleráveis, ainda mais no dia da estreia da nova temporada de sua série favorita, na TV a cabo.

Simplesmente amava... [96] How to Get Away with Murder.

— Senhoras... os anos nesta cadeira me ensinaram que tudo que começa com a raiva, acaba em vergonha.

A Águia surpreendeu ambas as irmãs ao citar Benjamin Franklin. Como profissional experiente, Morgan havia se preparado, inteirando-se dos fatos e vasculhando a mídia atrás de informações complementares. Após tantos anos de carreira no Direito de família, farejava de longe a real intenção das coisas.

A juíza sorriu. Adorava criar início de impacto, para prender a atenção da plateia.

— Creio que há um equívoco por parte dos colegas de acusação — continuou a juíza. — Segundo o processo anterior, o que deveria estar em jugo é a legitimidade da união entre a senhora Lilly Emanuelle Peterson e o senhor Brian Theodore Lincoln Pierce e não como ela se deu. O motivo do casamento não interessa, é fato consumado que ele existe e os bebês BriaLy estão vindo aí para comprovar. Ao meu ver, essa audiência é um desperdício de tempo e do dinheiro público.

— BriaLy? A senhora é fã deles? — Ava levantou e apontou para a irmã. — Qualquer um pode forjar uma gravidez!

Lilly quase levou a mesa junto, quando ficou de pé.

— Tire os meus filhos disso! — rugiu como uma leoa.

Um burburinho e mais gritos de protestos de Ava eclodiram. Lilly congelou quando as batidas do martelo foram acionadas em um pedido enérgico de silêncio.

— Se a senhora não calar a boca, mando te prender por desacato. — Morgan apontou para Ava, que se encolheu. — Não estamos diante de um pedido por justiça e sim de um ato nefasto entre irmãos! — disse, ignorando a gritaria. — Não preciso de testemunhas para validar a união. A conduta dos cônjuges foi devastada e escancarada pela imprensa, durante os últimos meses. Declaro o caso encerrado! — martelou, louca para ir para casa.

— Que absurdo! — Ava protestou. — Eu não aceito! Isso não vai acabar assim! — a loira protestou mais e olhou fixo nos olhos da irmã. — Eu vou tirar tudo o que tem.

O quê? Não!

Antes que todos começassem a comemorar, Lilly pulou e gesticulou chamando a atenção da

Águia.

— Senhora, não pode encerrar o caso! Ava tem razão! — berrou mais alto que pôde. — O casamento foi uma farsa! Tá gravado!

O plenário foi à loucura.

Nenhum indivíduo na sala permaneceu sentado. Todos ficaram perplexos, incluindo Ava.

— Lilly, não! — Langdon gritou.

— Como? — a juíza berrou.

— Boneca, enlouqueceu? Você ganhou! — Big urrou ao fundo.

O cabo do martelo quebrou quando a magistrada despejou nele toda a frustração pela estreia da série perdida. Aquela jovenzinha só poderia ser louca. Ela tinha lhe dado a causa de bandeja!

Quando as pessoas na plateia ameaçaram pular a cerquinha que os separava da área restrita, foi preciso que a juíza Morgan acionasse um alarme para todos calarem a boca.

Não calaram.

— Ordem no tribunal! — insistiu a Águia.

Nada de silêncio e mais um alarme.

— Eu disse ordem nessa droga de tribunal! — gritou, apertou um botão, sob o tampo da mesa, e em menos de três segundos a porta foi escancarada e diversos policiais entraram.

Estava feito o caos, algumas pessoas saíram correndo, outras entraram e Lilly continuava estática, agarrada à bolsa cheia de evidências.

— Silêncio ou serão todos presos. — A juíza arrancou o cassetete de um dos policiais e começou a violentar a mesa.

Aos poucos, a ordem foi se restabelecendo. Quando achou que tinha tudo mais ou menos sob controle, Morgan olhou firme para Lilly.

— Está ciente do que acaba de dizer e das consequências? — A magistrada ainda tinha esperanças de pegar a série a tempo.

— Tenho — Lilly respondeu com firmeza e olhou para a irmã. — Faço qualquer negócio para que ela nos deixe em paz! — Segurou mais firme a bolsa.

— Sabe o preço. — Ava colocou as mãos na cintura.

— Pense bem, garota... — Morgan interveio, sem entender nada. — Não estamos falando de móveis velhos. São mais de cinquenta milhões de dólares.

— Não se meta, sua velha! — Ava gritou para a juíza e voltou-se para a irmã. — Se me der o dinheiro, tudo acaba!

— Mais uma dessa e sairá daqui, algemada! — A velha Águia revoltou-se.

Lilly parou por um segundo.

— Vai mesmo nos deixar em paz? — murmurou.

— Deixo, mas quero tudo. A participação nos lucros, a casa, as joias, os carros e a herança daquela velha chata.

Não! Isso, não!

— A herança da vovó não! — Lilly agitou-se. — Vai fazer o quê com as coisas dela? A casa que queria eu já doei.

— Provavelmente, jogar no lixo, mas eu quero! — Ava insistiu, petulante.

Os joelhos de Lilly fraquejaram.

Sabia que grande parte do que a irmã receberia da herança dos pais, ou já tinha sido vendido, ou estava comprometido em dívidas.

Ava nem desconfiava que ela tinha recebido um tesouro da avó. Fortuna que era para os gêmeos e não abriria mão dela, de jeito nenhum.

— Não. — Lilly manteve-se firme. — Pode esquecer. Não vou deixar que jogue as coisinhas da vó no lixo. Nem a instituição do câncer quis ficar com elas — arriscou.

Langdon, que estava por dentro das coisas, percebeu a jogada da cliente.

— Protesto! O processo envolve apenas a herança dos pais! — O advogado foi até a juíza. — O espólio da avó materna foi deixado de forma legal para a minha cliente. Há um

tremendo valor... — o homem pigarreou e deixou o lado [97] blefador aflorar — emocional envolvido naquelas quinquilharias enferrujadas. Ava perdeu a requisição de posse em quinze instâncias.

A juíza Morgan sabia daquilo.

— Bom, estamos em um impasse — Morgan também blefou, reconhecendo a jogada do colega. — A lei me impede de incluir a herança da avó de vocês no acordo. Vou dar ganho de causa para a Lilly. Assim encerramos tudo — disse sem muito interesse.

— Ai, tá bom! Podemos acabar logo com isso? — Ava grudou no palanque onde ficava a mesa da juíza. — Dou uma merda para as bugigangas daquela velha. Mas quero todo o resto.

— Anotado. — A Águia fulminou a loira e voltou-se com doçura para Lilly. — Sabe que terei que anular o seu casamento? Ficará proibida de se casar na América, pelos próximos dois

anos[98].

Jesus! É claro que eu não sabia disso!

— Não existe um meio-termo? A herança, pelo casamento? — arriscou Lilly.

Os lábios da juíza contraíram.

— Para validar o acordo tenho que cancelar o matrimônio.

Lilly começou a chorar.

Esperava que pudesse permanecer casada. Brian nunca entenderia.

— Não posso mesmo dar uma palavrinha com o meu marido? — implorou.

— Não, mas se tiver algo que deseja me contar... — Morgan olhou-a com piedade.

Os olhos de Lilly lacrimejaram. Havia um milhão de coisas que ela gostaria de contar, mas não podia... nunca... dizer nada para ninguém.

— Não, nada — sussurrou. — Vamos em frente.

— Venci! — Ava soltou uma gargalhada abafada e foi metralhada pelo olhar mortal de Morgan. A juíza, que estava com aquela loira aguada entalada na garganta, teve uma ideia.

— Posso garantir, sob judice de prisão, que Ava nunca mais se aproxime de qualquer um que seja ligado a você.

— Pode? — Lilly indagou um pouco crédula.

— Ela me desacatou, posso prendê-la.

— Não! — Ava desesperou-se.

— Ou a prisão ou banimento do país — Morgan disse com certo prazer para a loira. — Você escolhe.

Ava gargalhou.

Deixar os Estados Unidos não seria problema algum. Os planos dela incluíam pegar o dinheiro e se mandar para a Europa.

— Pode me banir do país se quiser — ironizou.

— Ah, eu quero, considere feito! — a juíza rosnou para Ava e voltou-se gentilmente para Lilly. — Posso dar o veredito?

Lilly mordeu os lábios.

Sabia que ceder à pressão da irmã não era uma questão financeira... era a moral que estava em jogo e detestaria fazer aquilo, mas por Brian toparia qualquer negócio.

— Eu topo, vamos em frente. Tudo para ter a paz da minha família.

O cassetete bateu na mesa e a sentença foi proferida. Lilly ouviu com tristeza as orientações de que, uma vez tendo assinado o documento, não haveria mais volta e nem seriam aceitas apelações ou pedidos de cancelamento. Assentiu e o meirinho apressou-se até o escrivão para pegar o documento que transcrevia o acordo.

Assim que Ava e Lilly assinaram, a sala veio abaixo.

A juíza sentou esgotada na poltrona, nenhum episódio da sua série comparou-se àquilo. Inconformados, os advogados do tio Ed ligaram para o patrão e Ava comemorou a vitória sob vaias e xingamentos.

Big e Penne empurraram os policiais, invadiram a área restrita e abraçaram a amiga, que chorava sem parar.

Logo, Mark e Marie também a cercaram.

— Que loucura... O meu Lover Boy vai querer morrer — Mark murmurou.

— Por que, minha querida? Por quê? — Marie fez a pergunta que todos queriam fazer. — Os pequeninos não podem crescer sem um pai.

— Eles não... eu... — Lilly afundou o rosto no peito de Big.

— Jesus Cristo, Lilly!

A voz de Brian explodiu em um grito na porta da sala. Ele estava desalinhado, sem ar e muito, muito puto. Quando Gabe invadiu a salinha para contar o que tinha acabado de ouvir pelos corredores, guitarrista e baixista saíram em uma corrida desenfreada até a sala de audiência.

— O que foi que você fez? Enlouqueceu! — ele gritou mais.

Lilly desprendeu-se de Big e escaneou as pessoas até encontrar o recém ex-marido.

— Infelizes para sempre... foi isso que decidiu?

Brian fulminou-a inconformado e começou a se espremer entre as pessoas.

— Não! Juro que não! — Lilly gritou com o coração partido, apesar de saber que tinha feito o certo.

— Você fodeu com tudo! Me traiu! — acusou-a, assim que ficaram cara a cara.

— Estava num mato sem cachorro. Tive que aceitar a anulação e entregar tudo para a Ava.

— Separou-se de mim, porra! — Brian berrou ainda incrédulo.

— Foi o único jeito. — Lilly tentou tocá-lo.

Brian recuou e olhou firme para a juíza.

— Meritíssima! Eu não aceito! Eu protesto! — ele berrou, silenciando a todos. — O cacete que eu aceito essa merda! Me recuso a ser um pai solteiro!

— É, ele protesta, porra! — Gabe gritou, assim que se juntou ao amigo.

— Olhem o palavreado, rapazes! — A sobrancelha da juíza Morgan arqueou. — Protestam, com qual autoridade? — tentou parecer séria.

— De marido! Nem a pau me separo da Lilly!

A juíza olhou para ambos. Eles eram bem atrevidos, além de bonitos.

Gabe olhou para o amigo e sussurrou: Deixa que eu assumo.

— Desculpe, Meritíssima — o baixista fez uma reverência. — Desejo protestar com a autoridade que me foi concedida pelo meu cliente! Sou o advogado do Brian, o marido. — Remexeu nos bolsos e sacou uma carteirinha.

Mark arregalou os olhos e quase engasgou.

— Desde quando é advogado?

— Desde que meu pai me obrigou a ser um. — Gabe olhou para a juíza e sorriu de um jeito, que a fez desejar ter trinta anos a menos. — Sabe como é, meu velho não botava fé na música, Excelência. — Ele levantou os ombros.

— Ah, é? E fez o curso onde, pela internet? Não me parece ter idade para ser um advogado — a mulher proferiu em um tom de curiosidade genuína e um pouco de flerte.

— Não, Excelentíssima, tenho vinte e oito anos. — Piscou. — Fui aceito em Harvard, entrei aos dezesseis.

O queixo da mulher de toga caiu e Gabe sorriu mais. Ele podia não ser um advogado experiente, mas era foda no xaveco.

— Foi a condição do meu pai para sair da Austrália e vir cursar música aqui — o loiro continuou.

— Meu Deus! Advogado? Meu pequeno prostituto é um gênio! — Mark levou a mão à boca.

— Pelo amor de Deus! — Brian puxou os cabelos. — Temos uma questão urgente aqui! Já disse que não aceito a separação e muito menos ser pai solteiro. Podem rasgar essa merda de papel!

— Sinto muito, não posso fazer nada — a Meritíssima disse, tocada com o desespero aparente do casal.

— Brian... — Lilly tentou chamá-lo, mas foi ignorada.

— Precisa reconsiderar, dona juíza... — insistiu o guitarrista. — São os hormônios, os pequenos devem estar bagunçando a mente dela.

— Desiste, Roqueiro. — Ava aproximou-se do grupo. — Eu ganhei, falei que iria acabar com a alegria de vocês.

— Desgraçada!

Lilly lançou-se sobre a irmã, mas foi capturada no ar pelo marido.

— Amor, não! Os bebês!

Ela debateu-se e foi solta. Os pulsos de Brian fecharam.

Droga!

Antes que alguém fizesse uma loucura, Penne partiu para cima de Ava e acertou um soco de direita no rosto dela.

— Mal-amada, filha da puta!

— Não, Penne! — Big segurou a loirinha pela cintura.

— Ignorantes! — Ava berrou esfregando o rosto.

Uma gritaria generalizada recomeçou, Lilly aproveitou a proximidade, agarrou-se ao Brian e mirou nos azuis-violeta.

— Amor, tem que me escutar! — implorou ela.

— Escutar para quê? Você me dispensou! — ele retrucou com mágoa.

— Pelo amor de Deus, eu juro que vai entender. A coisa fugiu do controle. — Ela puxou o músico.

Brian estava confuso e magoado pra caramba, mas seu coração implorava por uma explicação. Não era possível, que Lilly tivesse desistido tão fácil assim.

Lilly puxou-o mais e o músico se deixou levar. Necessitava entender o que tinha dado de tão errado e seguiu a ex, que começou a se espremer entre os curiosos. Com a atenção de todos dirigida para o tumulto no tribunal, os dois ganharam o corredor, sem chamar muita atenção.

Ofegante e com o coração a mil, Lilly abriu a primeira porta que encontrou e puxou Brian para dentro.

Quando ele se deu conta de que estavam em um banheiro, girou o trinco.

— Porra, você acabou comigo! Por quê? — ele disparou, assim que ficaram frente a frente.

Com as mãos trêmulas, Lilly abriu a bolsa e alcançou o envelope.

— Por isso. — Estendeu o braço.

Tomado pela raiva, Brian retirou o conteúdo e todas as cores do rosto dele foram embora quando leu o bilhete e viu as primeiras fotos.

— Cacete! — Os azuis-violetas quintuplicaram de tamanho. — Você não está achando que eu...? — Encarou-a estupefato.

Em um gesto defensivo, Lilly abraçou o corpo.

Por alguns segundos, ambos permaneceram em silêncio em uma troca de olhares, profunda e dolorosa.

— Você tinha que ter ido falar comigo! — cobrou-a como se fosse fácil.

— E acha que eu não tentei? Não deixaram — ela murmurou, por fim.

— Lilly... eu... você não podia... — Ele começou a tremer.

— O que eu não podia era arriscar te perder! — ela berrou, tremendo igual a ele. Não era possível que tudo fosse terminar em um banheiro. — Por que escondeu algo tão grave de mim?

— Pra te proteger, porra! Eu não o matei! — Brian berrou entre a vergonha e a indignação. — Aquele bosta que foi atrás de mim! Não nego que dei umas porradas nele, mas estava bem vivo quando o deixei na estradinha de Dreams Beach.

O rostinho delicado de Lilly se encheu de dúvidas.

— Não matou? Mas, e o Gabe?

— Claro que não! E quanto ao Gabe, nem sei que porra é essa! Não tem nada a ver com a briga que o Will e eu tivemos. — Ele olhou mais uma vez as fotos. — Mas é fodido.

— Muito fodido — ela murmurou e olhou desolada para a mão que ostentava as alianças.

— Pera aí... — Brian levou as mãos aos cabelos. — Abriu mão de tudo só para nos proteger de um escândalo?

— Essas fotos acabariam com a carreira de vocês, mas não abri mão de nós. — Lágrimas começaram a rolar pelo rosto devastado dela. — Aconteça o que acontecer... nada muda — lembrou-o com um fiapo de voz.

Caralho!

Brian cambaleou e esfregou o rosto em um ato de inconformismo. Lilly tinha aberto mão de tudo por ele? Só porque algum babaca a chantageara? Nunca seria capaz de retribuir a ela um gesto de tanta generosidade.

— Porra, Lilly! Não deveria ter feito isso por mim.

— Claro que deveria! Eu abriria mão de qualquer coisa. Eu te amo!

Brian deu um passo e envolveu o corpo miúdo em um abraço. Lágrimas também rolaram pelo rosto barbado, ao imaginar os momentos difíceis passados por Lilly no tribunal. A consciência do drama vivido por ela, era devastadora. Que moral ele tinha para cobrar alguma coisa? No fundo, o grande causador de toda aquela situação fora ele. Ele que enchera a cara e abrira o bico! Ele que tinha batido no Wil.

Merda!

A Pequenininha pensou que eu era um assassino... Porra!

E mesmo assim, abriu mão de tudo para protegê-lo. A atitude dela não tinha sido um fim, mas a maior prova de amor do mundo.

Um felizes como desse. De qualquer jeito.

— Eu te amo tanto, Pequenininha. Desculpe... desculpe... desculpe. — Encheu o rosto úmido de beijos. — Que merda! A Ava tomou tudo de você!

— Nem tudo, eu tenho umas coisinhas guardadas. — Lilly desejava tranquilizá-lo, mas não queria entrar em detalhes sobre as joias, naquele momento. — Só acredite que ficaremos bem.

Ele assentiu e apertou-a com mais força. Os dois corações batiam como loucos e em sincronia.

— Foram os piores minutos da minha vida. Fiquei perdido e com medo de te perder. — Beijou o topo da cabeça moreninha.

— Isso nunca vai acontecer — ela murmurou nos braços dele.

— Então, mesmo eu tendo cagado tudo... mesmo legalmente separados, estamos juntos?

— Claro que estamos. — Lilly desgrudou-se dele e tomou o rosto lindo entre as mãos. — Juntos para sempre! Brian Theodore Lincoln Pierce, esqueceu que tem duas metades de você dentro de mim? Nunca terá sossego — ela afirmou um pouco mais animada.

Ele gargalhou, mas continuava inconformado.

Aquela filha da puta da Ava tinha conseguido o que queria: ficar com todo o dinheiro e destruir a felicidade da irmã.

— Não esqueci. Quem precisa de sossego, não é mesmo? — Ele sorriu com desânimo ao cutucar a ponta do nariz arrebitado e algo urgente lhe vir à mente.

Nós precisamos de sossego, porra! Meus filhos precisam!

O coração de Brian disparou de um modo ruim.

— Pera aí! Aquelas fotos? Você acha que a Ava...

Brian deixou a pergunta no ar.

— Eu não sei. — Lilly balançou a cabeça; — Foi um moço que me entregou, disse que eram do meu tio, mas é óbvio que não eram. Sei lá, acho que sim.

Brian rompeu o contato, precipitou-se para a porta e abriu o trinco.

Lilly não entendeu para quê tanta sangria desatada.

— Onde vai? — indagou confusa.

— Precisamos falar com ela.

Lilly negou com veemência.

Não!

A última coisa que desejava era falar com a irmã.

— Não quero. — Deu um passo para trás. — Estamos bem, Ava sairá do país.

— Mesmo assim, aquelas fotos... certamente existem cópias. — Brian sobressaltou-se.

Bastava um celular com internet e tudo iria pelos ares.

Lilly espalmou as bochechas.

— Ai, caramba, eu não tinha pensado nisso.

Os dois saíram em disparada.

— Caramba! Onde estavam? Tá todo mundo louco atrás de vocês!

Penne veio correndo na direção deles, assim que despontaram no corredor.

Brian esticou o pescoço, olhou para a sala de audiência e estava vazia.

Merda!

— Cadê a Ava? — ele disparou na lata. Não tinha tempo para explicações.

— Levaram — a voz de Big surgiu ansiosa ao lado deles.

— Droga! — Lilly bateu o pé do chão. — Aqueles advogados dela nunca nos deixarão chegar perto.

— Não. — Penne começou a saltitar e chacoalhar as mãos. — Não foram eles que a levaram, foi a polícia.

— Polícia? — Brian e Lilly gritaram ao mesmo tempo.

— Vamos, tá todo mundo lá na porta do fórum. — Big pegou o casal pelo braço e começou a arrastá-los. — A coisa está sórdida.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Quando puseram os pés da alameda de palmeiras, em frente ao fórum, tanto Brian, quanto Lilly não conseguiram acreditar, e muito menos entender, o que estava acontecendo.

Mel, Adam e Antoine estavam ao lado do Inspetor aloprado, que os interrogara sobre o incêndio. Gabe tentava chutar uma viatura de polícia, mas era impedido por Mark e Daniel, e Ava... bom, ela esperneava e negava-se a entrar em outra viatura. Gritava debaixo de centenas de flashes que tudo era um mal-entendido e que foi sem querer.

Será que ela tinha ofendido alguém da família da juíza?

Batido em alguém?

Mil hipóteses passaram pela cabeça desconcertada de Lilly, que segurou firme na mão de Brian. Juntos, aproximaram-se do grupo do Inspetor.

— Ah... os pombinhos. — O homem abriu um sorriso assim que os viu. — Eu não disse que eu acharia os culpados?!

— Que culpados? — Brian perguntou ressabiado e olhou para a esposa.

O músico sabia que os amigos tinham ido atrás do filho da puta que aprontara para o Gabe e pelo estado endemoniado do baixista, tentando esmurrar a pessoa dentro da viatura, deduziu que só poderia ser aquele o culpado.

— Opa! Foi a Mel que descobriu tudo! — Adan rosnou para o policial gordinho, que se encolheu todo.

Mel olhou para o vocalista e depois para os quatro amigos, que tinham acabado de chegar, e revirou os olhos.

— O Adan me ajudou, tá bom! Também não posso ser sacana e levar todo o mérito sozinha.

— Que mérito? — Lilly perguntou ainda sem entender o que a irmã tinha a ver com tudo aquilo.

— Cê tá brincando! — Adan levantou as mãos para o céu. — É um milagre, não acredito! Vai dar crédito pra mim na sua matéria? — Os olhos cinza do vocalista reluziram mais que diamante.

— Ôôôôô, os dois! Dá para explicarem o que tá rolando aqui?! Como acharam o babaca? — Brian exigiu e Big o apoiou, rosnando:

— É, como?

— No apartamento antigo do Will, encontramos fotos do Bertran. Gabe o reconheceu, seguimos a trilha dele e achamos o cretino numa boate — Mel foi evasiva.

— Boate? — Brian, Big e Penne perguntaram ao mesmo tempo.

— Num desses inferninhos de sexo e dominação. — Adan quase sorriu.

— Adan! — Mel o fuzilou. — Detalhes são desnecessários, seu cretino!

Todos se entreolharam.

Merda!

O vocalista mordeu os lábios, certas coisas deveriam ficar só entre eles.

— Você está certa. — Ele ficou constrangido. — A boate é outra história. O que importa é que o babaca caiu na nossa, dopamos o otário, ele abriu o bico e foi preso.

Antoine deu um passo à frente, ficando cara a cara com Lilly.

— A culpa é toda minha. Lembra do Bertran? — o Marchand mordeu os lábios, claramente desolado.

Lilly balançou a cabeça em um não efusivo.

Antoine soltou um suspiro impaciente.

— Aquele outro Marchand que era meu sócio — explicou-lhe melhor.

— O que cuidava das minhas coisas e foi preso por falsificação? — ela murmurou confusa. — O que ele tem a ver com a gente?

— Tudo! Descobrimos que Bertran era o tal amigo secreto que Gabe conheceu no Grammy. O médico encontrou vestígios de Boa Noite, Cinderela no sangue do garoto. — As feições de Adan ficaram tensas. — O cara aproximou-se dele e o dopou para obter informações sobre vocês, como não conseguiu, resolveu sacaneá-lo, com umas fotos armadas.

— O quê? — Brian exaltou-se. — Foi esse Bertran que tirou aquelas fotos do Gabe?

Adan assentiu.

— Pelo jeito, estava de olho em todos. Também encontramos umas fotos suas batendo no Will, no apartamento dele. Só de imaginar o que o bastardo pretendia com aquilo... — Os olhos cinza pegaram fogo. — Sorte que o Max se livrou daquela merda.

Na mesma hora, Brian olhou apavorado para o policial, que franziu o rosto indicando que tudo estava bem.

— O senhor Max já me explicou o ocorrido. Não vou te prender por defender a honra da sua mulher e bater num homem que o provocou, relaxa. — O inspetor sorriu.

Graças a Deus!

Mil toneladas saíram dos ombros do músico, que procurou Lilly, esboçando um claro: Está vendo? Não fui eu!

Envergonhada, ela desviou o olhar.

— Pera aí... — Adan arqueou a sobrancelha loira e cruzou os braços. — Como sabia das fotos?

— Lilly recebeu cópias, antes da audiência. Pensou o pior de mim e eu virei um maldito de um pai solteiro por causa delas!

— Te chantagearam? — Big arregalou os olhos para a Bonequinha dele.

— Então foi por isso? Aquele show de horrores no tribunal? — Penne alvoroçou-se e Lilly assentiu constrangida. — Perdeu o marido e o dinheiro, para evitar um desastre?

A pintora assentiu novamente.

— Ela não me perdeu! — Brian rosnou e grudou-se na ex-esposa. — Foda-se aquela porra de papel de casamento. O importante é que continuamos juntos — disse, só para amenizar as coisas. No fundo, não era foda-se, porra nenhuma. Estava puto e inconformado. Amava estar oficialmente casado.

— Pobrezinha! — Mel infiltrou-se entre o casal e abraçou Lilly de forma inesperada. — Meu Anjo, eu sinto muito. — A morena lançou um olhar pesaroso para Brian. — Se tivéssemos chegado meio hora antes. Sinto muito, mesmo.

Os repórteres alvoroçaram-se quando as sirenes começaram a tocar. Lilly desvencilhou-se da jornalista e, horrorizada, assistiu Ava ser enfiada à força, em uma viatura, que logo em seguida, partiu em comboio. Ela lembrou vagamente de Bertran, já que não chegou a trabalhar com ele nem três meses. Logo, ele foi preso por falsificar obras de arte e Antoine assumiu sozinho a assessoria.

Sobressaltou-se.

Por todos aqueles anos, havia um louco à espreita, arquitetando coisas terríveis contra ela?

— Alguém, por favor, pode me explicar? — implorou. — Não fiz nada para aquele homem!

Antoine suspirou, chamando a atenção de todos.

— O Bertran nos culpa por sua miséria. Eu, por assumir a assessoria; e você, por ele acreditar que todo o seu sucesso foi mérito dele. O casamento, o incêndio, os drones, o Gabe, tudo fez parte de um plano para tomar de volta o dinheiro, que acha que lhe devemos. O cara é um maluco obcecado por nós.

— Pera aí, tudo bem que o Bertran arquitetou a maioria das coisas, mas tem muito dedo da Ava nisso também — Mel emendou aborrecida.

Adan concordou.

— Descobrimos que os dois se conheceram quando ele foi trabalhar com você. Quando Ava desenterrou aquela cláusula sobre o casamento, ele tinha acabado de ser solto. Só juntaram os interesses.

— Deus o céu! — Lilly girou o corpo dando uma panorâmica em todos. Ela estava realmente chocada.

— E o Will? — Brian perguntou o que mais lhe interessava.

— O Will foi só uma marionete. Ele já curtia um lance bissexual e conhecia o Bertran de Londres. Quando chegou a Los Angeles, foi apresentado a Ava e caiu de amores por ela. Viraram um trio e foi convencido por eles a passar a perna em Lilly. O primeiro encontro, a antipatia entre eles, as denúncias contra o noivado foi tudo teatro. No final, ele até tentou pular fora e casar-se de fato, pretendia tomar conta do dinheiro sozinho, mas a Ava descobriu aquela procuração e horas antes do casamento o seduziu a seguir do lado dela. Depois, livrou-se dele.

— Livrou-se como? — Lilly estava perplexa com o plano criado pela irmã. — Não me diga que Ava matou o Will? — sussurrou.

— Ah, não... O Bertran gabou-se que ela se livrou dele com um belo pé na bunda. Will perdeu a serventia, entende? Aí se matou mesmo. Um fraco, não aguentou a pressão e... — O policial fez um gesto explosivo com as mãos. — Ploft! Pulou da ponte!

— Que horror!

Lilly arregalou os olhos.

— Pois é, um horror. Povinho barra pesada, esse seu. — O inspetor fez uma careta de repulsa. — Preciso que vá à delegacia.

— De jeito nenhum! — Lilly recuou.

— Anjo, tem que reaver os seus quadros — Mel assumiu um tom profissional. — Aquela coisinha que colocamos na bebida do Bertran, o fez cantar como um passarinho. Ele abriu o bico e disse que retirou as suas aquarelas antes de pôr fogo em tudo. Trocou-os por molduras vazias e escondeu os originais na casa da sua irmã. Ava acaba de negar tudo, claro. — A jornalista gargalhou. — O fato é que aproveitamos a presença dela no tribunal, chamamos o seu tio, fomos até lá e encontramos as obras, prontas para serem despachadas.

Filhos da mãe! Ah... então foi por isso!

Lilly assentiu, compreendendo o motivo da ausência do tio. Sabia que só uma urgência o faria deixá-la na mão. Como irmão, ele era o único que também tinha acesso à casa dos pais dela.

— Que canalhas! — Lilly reagiu tardiamente.

— Canalhas é pouco! O Bertran vangloriou-se, na boate, que os dois fariam uma fortuna no mercado negro da Europa — Adan mostrou-se irritado. — Só não viajaram antes, porque a Diana vazou o vídeo do Brian e a ganância falou mais alto. Ava não quis perder a oportunidade de abocanhar também a herança.

— Meu Deus! — Lilly queria socar a imã.

— Bom, pelo menos, você se livrou daquela vaca. — Penne tentou ver o lado bom. — Ava que vá ser rica, lá na cadeia.

— Na cadeia, bem provável, mas rica, eu duvido — Antoine intrometeu-se. — As obras da Lilly foram poupadas, mas todo o resto virou cinzas e te garanto, não vai sobrar nada para a Ava, depois que o seguro for para cima dela.

Deus, Ava vai ficar sem nada? Sem dinheiro, sem país e sem liberdade.

Lilly soltou um suspiro profundo.

As mentiras estavam todas expostas, incluindo as dela. Não era o desfecho que gostaria, mas era o justo. Embora amasse estar casada com Brian, sabia que começaram errado e Vegas manchava a história bonita que os dois vinham construindo. A anulação os deixou zerados e prontos para um recomeço. Quanto à irmã, sentiu-se vingada, a herança dos pais diminuiria o prejuízo das demais vítimas.

— Senhorita, encontramos isso aqui nos pertences do Will. — O inspetor retirou um envelope amassado, do bolso interno do uniforme. — Tem o seu nome nele. — Entregou a ela.

Lilly abriu e leu:

 

Do meu modo torto, eu gostava de você...

Não se culpe pelos meus erros.

O amor e a ganância me cegaram

Fui um tolo e egoísta.

Nunca enxerguei a mulher incrível que é.

Perdão.

Will

 

Ela amassou o bilhete.

— Pois é, nunca saberemos quem são os nossos inimigos mais ocultos — concluiu e sorriu para Brian.

O coração dela dizia que tudo, finalmente, ficaria bem.

Estavam livres.