Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 48 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 46

Brian mal pregou os olhos naquela noite e passou boa parte da mesma, velando o sono

de Lilly. Antes dela adormecer profundamente, os dois conversaram por longas horas. Enroscados na cama, falaram sobre tudo: os bebês, a família, o dali por diante, o Will, a audiência e a necessidade de se preservarem. Afinal, duas pessoinhas iriam chegar e não mereciam ser engolidas pela loucura que era a vida dos pais.

Com cuidado, o músico desenroscou-se da esposa adormecida e arrastou-se para fora da cama. Nem precisou se preocupar em vestir algo, já que ambos dormiram com as mesmas roupas do dia anterior.

A luz passava pelas frestas da veneziana, indicando que já era dia. Do jeito amarrotado em que estava, saiu do quarto. Gabe tinha voltado para a mansão da banda e o silêncio que Brian encontrou nos corredores foi bem-vindo. Desceu as escadas e foi direto para a cozinha.

— Bom dia, Marie. — Sorriu, assim que viu a governanta a postos no fogão.

Havia um delicioso aroma de café fresco e panquecas no ar.

— Bom dia, café?

— Aceito.

Brian esfregou a barba e passou a mão na camiseta branca amassada.

Marie deu uma boa olhada nele, enquanto enchia uma xícara com café.

— Noite difícil? Como está a nossa Pequena? — Entregou-lhe a bebida.

Brian deu um impulso e sentou-se no balcão da ilha na cozinha, onde ficava o fogão.

— Apagada... dormindo como uma rocha. Quero que ela descanse o máximo que der. — Segurou a xícara com as duas mãos para aquecê-las e bebeu. — Fico impressionado com a capacidade de superação daquela Pequenininha. As coisas não têm sido fáceis, mas de alguma forma, ela sempre consegue enxergar um lado bom em tudo.

A governanta sorriu com carinho para o patrãozinho. Gostava realmente dele, era um bom moço.

— A Lilly sempre foi assim, desde pequena; recuperava-se rápido dos tombos. Deve ter puxado a fibra da mãe. Que loucura... — Maria parou por uns instantes indecisa se deveria ou não tocar no assunto. A curiosidade venceu, então decidiu que deveria. — Não me surpreendeu a morte do Will. Como ela está encarando?

— Aparentemente bem. Não sei se a ficha não caiu ainda ou se as revelações foram tão surreais, que a Lilly meio que desconectou.

— Sinto pelo final trágico, mas sempre soube que tinha algo esquisito naquele Will. — O rosto de Marie esboçou reprovação. — Perfeitinho demais.

— Pelo que ela me disse, sim... o cara perfeito, né? — Brian terminou de beber o café e colocou a xícara no balcão. — Conversamos muito ontem. Deixei que se abrisse. Ela contou como se conheceram, a história toda. Não sei, espero que não desabe mais pra frente. Tenho que dar um jeito de protegê-la de tudo isso.

Marie assentiu, tomada pelo mesmo desejo de proteger Lilly, e indicou o prato com panquecas.

Brian recusou.

— Como depois... Quero levar o café da manhã na cama. — Sorriu torto.

— Vou preparar... — A governanta deu um meio sorriso e voltou a ficar séria. — Os meninos passaram por aqui agorinha mesmo, querem falar com você longe da Lilly. Eu sugeri que esperassem no estúdio. Por que não vai até lá conversar com eles e na volta, eu te entrego uma bandeja caprichada com tudo que a minha menina gosta?

A sobrancelha morena arqueou. Estranhou a visita dos amigos e sem nenhuma vontade de sair dali, Brian assentiu e pulou do balcão. Passou pela porta da cozinha e descalço, caminhou em direção aos fundos da propriedade.

— E aí? — disse, assim que entrou e encontrou mais gente do que o esperado.

Pelo jeito Marie tinha garantido um bom café para todos, a ajudante dela estava recolhendo os restos do que parecia ter sido um banquete.

— Bom dia — Mel o saudou com expressão cansada. — Como está a Lilly?

— Bem. Que complô é esse? — Brian deu uma panorâmica nos amigos.

— Complô nenhum. Só achamos melhor não sobrecarregar mais a Boneca. — Penne entregou uma latinha vazia de soda para a empregada. — Será que pode nos deixar a sós, por favor? — pediu com educação.

A mocinha, vestida em um impecável uniforme preto e branco, recolheu o restante das coisas e saiu.

Brian gostou do “não sobrecarregar a Boneca”, foi até o sofá amarelo e sentou entre Gabe e Big.

— Como está? — Socou a coxa do baixista.

— Vou superar... valeu para aprender a parar de ser trouxa — Gabe respondeu em um tom sério, bem atípico para ele.

Merda!

Brian não queria Gabe perdendo o brilho, então passou o braço pelo ombro do amigo e abraçou-o como um urso. O baixista era coração puro, chegando a ser ingênuo.

— Não se culpe, ok? Gente ruim existe em todo o canto. Também fui trouxa com a Kate e o meu pai. Sem falar naquela gravação patética da Diana. Merdas acontecem... não perca a fé em você.

O baixista sorriu agradecido e embora fosse difícil confiar em alguém novamente, sabia que Brian tinha razão.

— Ontem, depois que vocês subiram, conversamos bastante com o tio Ed e decidimos não avisar à polícia — Adan voltou a falar.

Brian assentiu ao lembrar-se do Inspetor que veio conversar com eles. Outro cara como aquele só iria tumultuar as coisas, e provavelmente não chegaria a lugar nenhum. O incêndio e a invasão dos drones eram fatos sem solução até aquele momento.

— O Mark não quer o nome da banda envolvido em nada suspeito. Pediu que ficássemos de boa essa semana, até recomeçarmos a turnê nas cidades do Oeste. — Penne encolheu as pernas apoiando os pés no assento da cadeira.

Ficar de boa... isso eu também quero.

Brian soltou um longo suspiro.

— Apesar do Gabe insistir para deixarmos a história como está... — Adan olhou para o baixista e depois para a Mel, que acenou incentivando-o a falar: — O que fode é não sabermos nada sobre o tal Bertran. O homem apareceu e sumiu do nada. O Ed está preocupado, achou coincidência demais o Will ter ligação com ele.

Isso Brian também achava.

— Sabia que logo que Lilly começou o namoro, o tio Ed mandou puxar a ficha do cara? — Penne informou.

Uau!

Será que também havia uma ficha dele?

— E? — Brian coçou a testa com impaciência.

— E nada. Ficha limpa — foi a vez de Big se manifestar.

Brian bufou e olhou para o teto.

— Eu passei o nome do Will para um jornalista amigo meu. — Mel sentou na mesinha de centro ficando cara a cara com Brian. — O Peter me deve alguns favores e tem ligações com todo mundo. Rapidinho ele conseguiu um monte de coisas, mas a principal delas foi o endereço do tal muquifo em LA East.

— Era do Will?

— Desde que veio de Londres. Foi o primeiro endereço dele na cidade e manteve o desde então, mesmo alugando o outro apartamento. A polícia não descobriu o lugar ainda — Adan respondeu.

Brian riu com ironia. Claro que a polícia não tinha descoberto. Provavelmente, porque o Will não tinha postado nada sobre o tal muquifo nas redes sociais.

— O Max e o Daniel foram até lá — Gabe murmurou.

Hã?

— Agora? — Brian sobressaltou-se.

— Na madrugada. — Adan sentou ao lado de Mel, que afastou o corpo. — Foram limpar o lugar, tirar os rastros do Gabe de lá e fazer uma varredura. Ninguém quer um escândalo ligando um baixista famoso com um suicida gay.

— Ele podia ser como eu — Gabe disse envergonhado.

— Um provocador indefinido? — Big ironizou.

O baterista nunca tinha entendido a sexualidade de Gabe. O amigo gostava da amizade masculina e até de um xaveco, mas ele nunca tinha ido às vias de fato. Na hora da transa, eram as mulheres que atraíam Gabe.

— Parou! Indefinido, hétero, gay ou bi não importa. Não é a orientação sexual que está em julgamento aqui. Cada um faz o que bem entender. — Brian irritou-se. Odiou ver o rastro de vergonha em Gabe. — A questão é o caráter e isso independe da sexualidade, está entendendo? — Ele olhou com convicção para o amigo.

— Meu anjo, o Brian tem razão. Tire essas caraminholas da cabeça. — Mel estendeu a mão e tocou o joelho do baixista. — Os caras maus são eles, não você.

Pouco convencido, Gabe assentiu.

Brian levantou-se, tinha medo que Lilly acordasse sem ele por perto.

— Agradeço terem me colocado a par das coisas e concordo com tudo. Se acham que é importante ir a fundo nessa história, vão. Também quero pegar esse Bert pelo que ele fez com o Gabe. Só não quero mais a Lilly metralhada com problemas, ok? Pra mim não muda nada... o Will já era, acabou. A audiência será depois de amanhã e até lá, ela precisa de tranquilidade.

Todos concordaram.

— O que está planejando fazer? — O rosto de Adan tensionou. — A coisa ainda está fervendo lá fora e a internet não fala de outro assunto.

Afastá-la dessa merda, óbvio!

— Esperar a Lilly acordar, enfiá-la em um helicóptero e ir visitar os meus avós no rancho,

no Vale do Sacramento[89].

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Quando Lilly acordou e deu de cara com o marido sorridente, segurando uma bandeja de café da manhã, nem imaginava a proposta indecente que receberia.

Sim! Sim! Sim!

Uma lua de mel fora de hora? Claro que sim!

Ela adoraria deixar toda aquela loucura para trás e dar uma fugidinha com ele para o paraíso.

Duas horas depois, lá estava ela, bem longe do furacão de Los Angeles, em um rancho charmoso, cercada pela natureza e por um casal de velhinhos encantadores. Os pais divos de sua diva Sarah.

Antes do helicóptero pousar, Brian tinha pedido que o piloto sobrevoasse a propriedade

que ficava às margens do American River[90]. Os avós dele cultivavam girassóis e os campos estavam florescendo em um mar de amarelo e verde.

Para o casal de idosos era um acontecimento ter Brian ali, ainda mais, trazendo uma esposa grávida a tiracolo.

Receberam o neto com festa.

Primeiro, uma conversa animada na varanda com direito a limonada gelada, depois um tour pela casinha aconchegante de dois andares. O astral era alegre... janelas enormes com cortinas esvoaçantes deixavam tudo arejado e claro... flores por todos os lados. A decoração era em tons suaves de amarelo, repleta de móveis antigos, toalhinhas sobres as mesas e lembranças familiares.

Na parede da escada, que levava aos quartos, uma surpresa. Quadrinhos bem alinhados mostravam a evolução dos bebês de Sarah.

— Deus! Esse é você? — Lilly empacou diante de um retrato.

Um garotinho, rechonchudo, de imensos olhos azuis-violeta e óculos fundo de garrafa, vestia uma jardineira jeans amarrotada, camisetinha branca e tênis amarelos. Os braços rabiscados de canetinha e os cabelos bagunçados já denunciavam a personalidade criativa do roqueiro. Todo sorridente e abraçado ao irmão, ele ostentava um senhor esfolado no joelho.

No ato, Lilly desejou que o filho saísse exatamente daquele jeitinho, igual ao pai.

— Nas férias, a Sarah mandava as crianças pra cá... Esses dois não se desgrudavam. — A avó sorriu com doçura, parada dois degraus abaixo. — O Bret vivia fazendo o Brian de gato e sapato e o boboca adorava.

Brian estendeu a mão e tocou a fotografia com nostalgia.

— Bons tempos. Sinto falta do meu irmão por perto.

— Não gosto do Bret metido naquele antro. Só tem vagabunda... Seu irmão precisa de uma Lilly.

— Impossível, vó. Lilly só tem uma, e já é minha. Nessa eu me dei melhor que o Bret, e ele não vive metido em um antro. — Brian divertiu-se com a fisionomia contrariada da avó. — Aquilo lá é um clube, o Bret trabalha pra cacete e é bom pra caralho no que faz.

— Olha a boca, moleque. Respeite as damas! — o avô, que vinha mais abaixo e segurava as bagagens, o repreendeu. — Quer que seus filhos já nasçam uns bocas-sujas?

Brian caiu na gargalhada.

Aquilo seria inevitável... Os MM's cresceriam rodeados por roqueiros. Não seria surpreendente se a primeira palavra que aprendessem fosse: merda.

— Desculpa, vô. Não está mais aqui quem falou.

— Acho bom... Vamos, subam — o senhor metido em uma larga jardineira jeans ordenou. — Estas merdas estão pesadas!

— Joseph Ernest Lincoln! Bem se vê a quem o garoto puxou! — A avó, em seu delicado vestido florido, deu um tapa no braço forte do marido. — É assim que pretende dar o exemplo? Seus bisnetos estão ouvindo!

— Desculpe, meu bem. — Sorriu torto para a esposa. — Vamos! O quarto de vocês é o segundo à esquerda.

Lilly adorou o quarto. Nem grande, nem pequeno... só perfeito. Branco, com uma varanda que dava vista para o pomar e uma enorme cama de ferro, ladeada por criados-mudos de madeira amarelinha. O banheiro antigo ostentava uma banheira bem no centro. Com os convidados acomodados, era hora de terminar o almoço de boas-vindas, então os avós pediram ao neto que fizesse as honras e mostrasse o lugar.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Sempre que quiser, pode ter essas ideias geniais. — Lilly afagou o abdômen trincado de Brian. — Que lugar lindo! E seus avós? Posso roubá-los para mim?

— São seus. — Brian beijou o topo da cabeça moreninha. Estava aliviado, pois não esperava tanta receptividade ao plano de fuga e muito menos, aquela empolgação.

Lilly se desvencilhou dos braços do marido e correu até uma cerca branca que mantinha alguns cavalos presos. Apoiou um pé e dependurou-se. Riu quando um potro ensaiou um galope desengonçado. O frescor do vale era completamente diferente da brisa a beira-mar... remetia a uma monotonia segura.

Graças a Deus!

Paz!

Enquanto Brian organizava a viagem, Lilly tinha ligado para o tio, que passara um bom tempo inteirando a sobrinha sobre a situação financeira das empresas, os possíveis desdobramentos da audiência e as últimas extravagâncias de Ava.

Bendito Brian e aquela ideia brilhante!

Ter ficado ilhada em casa, fugindo dos repórteres e fãs, e remoendo a morte do Will seria extenuante. Ela sabia que todos os amigos estavam apoiando Gabe e não havia mais nada que pudesse fazer pelo ex-noivo. O final que ele escolhera para si era triste, mas Lilly precisava esquecê-lo e seguir em frente. Duas pessoinhas que não tinham nada a ver com aquela loucura precisavam da mãe, bem e calma.

Pelos meus filhos!

No vale, ela poderia respirar sem medo e teria tempo para pensar e tomar decisões cruciais para o futuro deles.

Braços fortes a abraçaram pela cintura, quando Brian grudou-se às costas dela.

— Um dólar pelos seus pensamentos.

Lilly riu, aquilo lhe soou tão familiar. O pai vivia à espreita para surpreendê-la com perguntas sem cabimento.

— O que teria acontecido se não tivéssemos nos casado aquele dia em Vegas? — perguntou de súbito, resumindo os pensamentos anteriores.

— Com casamento ou sem casamento, teríamos ficado juntos. Maktub, lembra? Eu e você éramos pra ser.

Aquela resposta era tudo que Lilly precisava ouvir. Ela sorriu sem que ele visse. No fundo, pensava da mesma maneira. Quando o cavalinho bebê foi correr até a mãe e levou um tombo, ela caiu em uma gargalhada solta. Incansável, o bichinho levantou segundos depois, todo coberto de grama e capim.

— Ai, caramba, será que os nossos serão assim?

Lilly girou o rosto para encará-lo.

— Assim como? Sujos? — provocou-o.

— Destemidos.

— Como serão, eu não sei... — Ela cutucou a ponta do nariz dele. — Mas já são muito amados.

— Turma, o almoço está pronto! — A avó, que se chamava Judy, tocou um sino que havia na varanda rodeada por vasos repletos com amores-perfeitos.

Uma risada abafada explodiu entre os lábios carnudos dele.

— Minha avó quer ser moderna — disse baixinho em tom de fofoca.

— Pare de tirar sarro! A dona Judy é uma graça! — Lilly ralhou, enquanto ele a ajudava a se desgrudar da cerca.

Em seguida, Brian ofereceu carona em suas costas. Era bom pra cacete tê-la enlaçada como um coala.

— Você já é muito puxa-saco da minha mãe, agora vai ser da minha avó também?

— Vou, e se reclamar, serei mais ainda. As mulheres Lincoln são incríveis! — Lilly impulsionou os quadris e bateu os pés nas coxas dele incentivando-o a ir mais rápido. — Vai, pangaré!

— Convencidinha você, hein, senhora Lilly Lincoln? — Uma mão grande foi para trás e bateu atrevidamente no traseiro redondinho da passageira. — Pangaré, o cacete! Sou o puro-sangue do rock.

Sim, ele era.

Ela gargalhou satisfeita.

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Os olhos de Lilly brilharam e a barriga roncou, quando ela viu a mesa farta. Costeletas assadas, purê, salada e espigas de milho. Almoçaram até se empanturrar.

O almoço acabou, o avô saiu para vistoriar a plantação de girassóis e quando quiseram ajudar com os pratos, dona Judy os expulsou, sugerindo um outro passeio.

— Tem carpas novas no laguinho. Faça alguma coisa útil, Brian. Leve a sua esposa para vê-las! Admirar os peixes traz muita paz, a energia de lá é ótima.

A velha senhora sabia bem o que estava fazendo. Esses dois precisam de carinho e sossego! Sarah havia ligado e contado em detalhes os últimos acontecimentos, incluindo o bem-vindo e tão esperado divórcio.

Incentivados pela avó de Brian, os dois partiram para o lago. Admiraram os peixes, namoraram, apoiados nas grades da velha ponte, caminharam até a plantação, ajudaram Joseph a separar umas mudas que seriam replantadas e passearam na margem do rio. Voltaram ao entardecer e encontraram um delicado café da tarde esperando por eles embaixo de um

caramanchão [91] que havia na parte dos fundos da casa.

 

Fui à igreja.

O Ernest tem bingo com os amigos.

Aproveitem o lanche.

Com todo o amor do mundo.

Vó Judy

 

Depois de ler em voz alta o bilhete que encontrou, Brian afastou a cadeira de ferro da mesa típica de jardim, para que Lilly sentasse.

— Por que eu acho que os seus avós armaram para nos deixar sozinhos? — Lilly alcançou um cookie de maçã caramelizada e mordeu.

Brian puxou outra cadeira e sentou bem grudado na Pequenininha.

— Porque foi exatamente o que fizeram.

Lilly riu e escondeu a boca cheia de biscoito com a mão.

— Adorei o dia, obrigada. A vida seria tão mais fácil se fosse assim — divagou.

— Está preocupada com depois de amanhã? — Brian estendeu a mão e enlaçou a dela. Tinha prometido não tocar no assunto, mas o rastro de preocupação que nublou os olhos castanhos o incomodou.

— Não muito. — Ela inclinou-se e beijou de leve os lábios dele. — Vai ser chato encontrar a Ava, mas era verdade quando falei que foi melhor assim. Começar carregando uma mentira, nunca dá certo. Talvez seja por isso que nos ataquem tanto... Vai ver, simplesmente não botem fé na gente. — Os ombros delicados encolheram.

— Quando entramos naquela capela em Vegas... — Brian suspirou e olhou os castanho-esverdeados com profundidade. — Juro... a única coisa que passava na minha cabeça era o quanto eu queria me casar com você. A Ava, o Will, a herança... — Ele revirou os olhos com desdém. — Nada importava e nada do que vivemos lá foi mentira. A escrotice da sua irmã, não me motivou, só deixou o caminho livre para eu fazer o que de fato queria. Eu te amo, Pequenininha. Pra cacete.

— Eu te amo mais. — Lilly afagou o rosto barbudo. — Também só pensei em você, mas chegou a hora de termos paz. Preciso que nos deixem curtir a chegada dos pequenos, sem medo e sem dramas.

— Lembra de tudo o que o seu tio disse? Não existe a menor chance de perdemos a audiência.

— Eu sei. — Temerosa, ela mordeu os lábios. — É justamente isso que me preocupa. Perdendo, a Ava vai sentir ainda mais raiva e a perseguição nunca acabará.

— Foda-se. Aquela megera que aprenda a lidar com as decepções. O que é certo é certo, Pequenininha. — Com a ponta do dedo, Brian tirou uma mecha de cabelo do rosto preocupado. — Confia em mim... Lutarei como um tigre para proteger vocês três. A vida vai seguir tranquila, eu prometo.

Não querendo mais aprofundar aquela conversa, Lilly estendeu os braços e o abraçou. Com o rosto escondido no pescoço do marido, inspirou o cheiro de mate verde dele e deixou que aquele contato varresse as preocupações.

Terminaram de tomar o lanche, que valia por um jantar e subiram. Depois de um banho rápido, ficaram horas sentados na varanda do quarto imaginando como seriam os gêmeos.

— Não, pelo amor de Deus, Lilly. Esse nome não. A coitada vai ser humilhada na escola. Já aceitei que o Mini Brian chame Brian, eu deveria escolher o nome da baixinha.

— Não.

— Como assim, não, sua egoísta? — Ele cutucou as costelas dela. — Onde estão os direitos iguais. Eu não sou apenas um espermatozoide.

Lilly gargalhou e ajeitou-se melhor no colo dele.

— Theodora é um nome lindo e forte.

— Emanuelle é bem mais.

— É bem sexy, isso sim, e ótimo para se receber cantadas obscenas. Nossa, ouvia cada uma no colégio. — Ela sorriu ao sentir o corpo musculoso tensionar. — Sabia que tem um clássico do cinema erótico que a personagem se chama Emanuelle? Nossa, precisa ver... os caras piravam. Sabe como é... ficavam imaginando que eu era como ela, capaz de...

Brian sabia como era. Ele já tinha visto o filme milhares de vezes escondido da mãe e imaginado...

Bosta!

Brian não queria ninguém imaginando coisas sacanas com a anjinha dele.

— Tá bom! Parou! Theodora! Theo! Mas se a menina precisar de psicólogo, vou jogar na sua cara para o resto da vida.

Brian e Theo.

Lilly sentiu-se uma vitoriosa. Amava os nomes do marido.

— Já te disse que eu te amo?

Brian segurou o rosto feliz entre as mãos.

— Chantagista.

— Lindo. — Ergueu o queixo, oferecendo a boca.

Beijaram-se até a coisa esquentar e Brian pegá-la nos braços e correr para a cama. Jogou-a sobre o colchão de molas e o corpo de Lilly ondulou, fazendo com que o vestidinho rosa rodado subisse. Gostosa! Excitado, Brian livrou-se da camiseta e cobriu o corpo delicado com o dele. Foi fazer um movimento mais brusco para uma sinfonia de molas rangentes começarem a tocar.

Lilly riu e Brian praguejou.

E agora?

Ele tinha ouvido os avós chegando em casa e a porra do quarto deles ficava ao lado.

— Pera aí... — murmurou com a boca grudada no pescoço dela. — Fica em cima.

Foi ele girar o corpo de Lilly, para a orquestra de molas recomeçar.

Congelaram como estátuas.

Merda!

Aquilo só podia ser de propósito! Pegadinha do puritano do Joseph! O colchão era uma artilharia antissexo.

Somos casados, porra!

Brian quis gritar, mas conteve-se.

— E se formos para o chão? — Lilly disse no meio de outra risada.

— Está maluca? Não vou te comer no chão. É a porra da nossa lua de mel. Tem que ser romântico.

A cara dele beirava o desespero.

— O chão é romântico para mim. — Excitada, Lilly roçou as intimidades, protegidas pela calcinha de renda branca, no volume extra evidente de Brian e as molas comemoraram o movimento.

Inferno!

Brian saiu da cama trazendo Lilly agarrada a ele.

— O banheiro — ela sugeriu em um sussurro.

— Não dá, as paredes são muito finas e os meus avós têm ouvidos biônicos.

Que saudades do Palazzo.

Lilly suspirou, desagarrou de Brian e pôs-se de pé. Frustrada acompanhou, sem entender, a movimentação frenética que ele tinha começado a fazer recolhendo cobertas, lençóis e travesseiros.

— Pensei que o chão não fosse opção — ela sussurrou como uma criminosa.

— E não é — Brian respondeu na mesma medida, piscou e sorriu grandão. — Vamos...

Cuidado com a terceira tábua da escada, está solta. — Ele abriu a porta, camuflado pela montanha de roupas de cama.

Muito animada por estarem fazendo algo totalmente fora das regras, Lilly o seguiu com passos ninja, até saírem pela porta da cozinha e ganharem o jardim dos fundos da casa. Quando ela ameaçou comentar alguma coisa, Brian fez sinal pedindo silêncio e continuou a andar.

Entraram no pomar e depois seguiram por um caminho estreito de pedras, ladeado por árvores. Estava escuro, parecia um pouco longe e Lilly começou a ofegar, porém nem ousou reclamar. Aquela pequena aventura estava legal demais.

Brian tropeçou.

— Merda! Deveria ter trazido uma lanterna ou colocado os sapatos — praguejou baixinho.

Ownnn...

Coitado.

Uma gargalhada nervosa e animada escapou de Lilly, ela também estava sem sapatos, mas a adrenalina correndo nas veias não a deixava sentir nada.

— Está longe?

— Não — ele continuou a sussurrar, mesmo sabendo que não poderiam mais ser ouvidos. — Ali, à sua direita.

Lilly cerrou os olhos para ajustá-los à escuridão e avistou a silhueta de um celeiro.

Ai, caramba!

— Tem cabras ali? — Ela parou de andar.

As cabras não eram gentis. De jeito nenhum! Uma vez, os pais de Lilly a levaram a uma fazendinha e só por causa de uma puxadinha no rabo, ela havia tomado um baita coice.

Brian olhou sobre os ombros.

— Está vazio. Só um monte de feno. Vem.

Ressabiada, Lilly entrou logo depois de Brian e ficou estática. O lugar tinha cheiro de terra e mato fresco. Uma luz fraquinha despontou em um canto. Com olhar vitorioso, o músico ergueu um lampião.

— Eu lembrei que estaria aqui. Só temos que tomar cuidado. Essa porra, como todo o resto, é inflamável pra cacete.

Nossa, que animador saber disso.

Lilly sorriu, mas ficou nervosa.

As roupas de cama haviam sido deixadas em cima de um monte de palha seca. Ela escrutinou o lugar... Estava cheio de cestas de vime, equipamentos de arado e sacos repletos sementes de girassóis. Uma escada levava a um mezanino. Brian pediu que Lilly esperasse, pegou as coisas e subiu sem dificuldades, deixando-a novamente no breu.

Algo que pareciam roldanas rangeu... O luar invadiu o celeiro trazendo acalanto para a visão prejudicada dela. Segundos depois, Brian gritou para que subisse.

Uma certa insegurança a tomou quando um grilo cantou... Então, num ato puramente de fobia, esfregou os pés descalços. Que ela amava a natureza, era um fato. O problema era que nem todos que nela habitavam, nutriam por Lilly o mesmo sentimento, insetos, por exemplo. Também não eram lá muito seus amigos. Quando criança, adorava tocá-los ou comê-los, mas eles sempre a mordiam. Não queria ter o rosto inchado como um cogumelo.

Meu Deus, o que a gente não faz por uma trepada? Músicos não deveriam ser urbanos?

Vamos, Lilly! Coragem. Não é qualquer trepada, é o Brian... a Fera.

— Tem aranha aí em cima, cowboy? — perguntou tentando parecer divertida, mas olhou para cima, claramente indecisa sobre o que fazer.

— Claro que não. Sobe, vai amar.

Suspirando e com relutância, ela aproximou-se da escada, subiu e amou no ato, o que viu. O minúsculo mezanino tinha um teto retrátil, que havia sido aberto para revelar um céu com bilhões de estrelas. No centro, um emaranhado de feno estava sendo amassado e meticulosamente coberto por Brian.

Não disse nada. Boquiaberta com a desenvoltura rural do roqueiro, ficou só admirando aqueles braços e peito musculosos em ação.

Muito obrigada, meu Deus, pelo marido que o Senhor me deu.

De verdade! Amém!

Agradeceu, cheia de desejo.

— Pronto! Nossa cama. — Ele bateu as mãos no jeans, depois de terminar o trabalho. — Acha romântico? — Sorriu torto ao lado de sua obra de arte.

— Amor... o chão já era romântico. — Ela abriu os braços e um sorriso. — Isso aqui é um conto de fadas.

Envaidecido de sua engenhoca, Brian aproximou-se, agarrou-a e com agilidade, lançou-a sobre a cama rústica. Lilly deixou um grito escapar quando seu corpo leve afundou na nuvem de palha.

— Está vendo? E não range! — Ela riu e espalmou as mãos, confirmando a maciez do leito.

Sem pudor algum Brian arrancou o jeans, fazendo seu corpo nu parecer mais grandioso e mágico sob o luar. A Fera despontou em toda a sua glória agressiva apontando para o abdômen trincado.

Excitada com a visão de tirar o fôlego, Lilly ficou de joelhos e arrancou como deu, o vestidinho delicado, pela cabeça.

— Impressão minha ou o ar do campo aumentou você? — disse, só de calcinha e sutiã.

Brian divertiu-se com o estado desajustado dos cabelos dela, após a manobra de striptease pouco graciosa.

— Sei lá, só me tocando para saber.

Opa, só se for pra já.

Lilly sorriu.

— Vem logo, então. — Esticou os braços, cheia de ansiedade.

Ele não se mexeu, perdido na felicidade que era vê-la despreocupada. O jeito com o qual ela o devorava com os olhos, trazia uma rara e maravilhosa sensação de que as coisas, enfim, poderiam melhorar.

Hã?

Estranhando a falta de ação, Lilly franziu a testa e espiou a ereção monstro. Ausência de desejo que não era.

— Sabia que desse ângulo, os seus peitos também parecem maiores? — Ele cruzou os braços, não querendo que o momento descontraído acabasse.

O quê?

O bandido estava jogando com o desejo dela?

— Sério? — Lilly fitou o próprio colo e elevou as mãos para o fecho frontal do sutiã. Com sensualidade, abriu-o e deixou que as alças escorregassem sobre os ombros e depois pelos braços. Exibindo-se, inclinou languidamente a cabeça. — Só me tocando para saber. — Mordeu os lábios e devolveu na mesma moeda.

Atrevida!

Os violetas incendiaram-se e como um predador, Brian embrenhou-se sobre a cama de feno. Com gentileza, usou o próprio corpo para fazê-la perder o equilíbrio e deitar-se de costas. Pairando sobre ela, sorriu ao tomar consciência do contato do corpo delicado contra o dele, então inclinou-se para beijá-la.

Lilly retribuiu o beijo com avidez. Quando ele parou e deslizou seus corpos, ajeitando-os na cama improvisada, a pele nua dele pareceu irradiar uma eletricidade trepidante. As bocas voltaram a se tocar e Lilly sentiu o piercing lhe instigar a língua, enquanto suas mãos agarravam os cabelos morenos de Brian.

Os beijos se tornaram febris e os toques ousados. As respirações ofegantes misturavam-se ao roçar da palha embaixo deles. Com habilidade e sem romper o beijo, Brian arrebentou as laterais delicadas da calcinha de Lilly, descartando a peça sabe-se lá onde.

As pernas torneadas abriram e os joelhos delicados se elevaram para acomodar os quadris de Brian, que sem precisar das mãos, encaixou a cabeça da Fera na entrada do sexo úmido de Lilly. Bastou um empurrão e o universo de ambos se fez completo.

Ela gemeu, saboreando a sensação daquele pau de respeito alargando suas entranhas. Nossa, como ela amava a sensação de ser fodida por ele, e com um gesto sutil, projetou a pélvis incentivando-o a agir.

A Fera recuou e voltou cheia de fúria. Devorou a Bela com investidas firmes e profundas. Ambos gemeram, começaram a suar e entraram em um êxtase sexual. Não havia uma regra ou uma ordem... Apenas a sensação de consumirem e serem consumidos. Ele meteu, tirou... investiu com força, recuou... meteu e meteu de novo... Ela arranhou o dragão, que ganhava vida toda vez que os músculos das costas eram exigidos, mordeu o ombro forte, o mamilo arrepiado e chupou aquela língua adornada, com vontade.

Fizeram amor até caírem satisfeitos e exaustos. Soterrada pelo corpo viril de Brian, Lilly o sentiu inspirar profundamente e depois soltar o ar bem devagar até cair em uma respiração cadenciada. E o único pensamento dela era que aquele era o modo como as coisas deveriam ser, juntos para sempre.

Uma hora depois, Brian acordou e fizeram amor novamente e depois, uma outra vez, assim que os primeiros raios de sol entraram iluminando o celeiro.

Era mágico... era o certo... era o Brian.

Saíram do celeiro e voltaram para o quarto, sem serem notados...

Passaram o dia namorando, focados um no outro e alheios a tudo que acontecia fora dali.

Ocuparam-se com passeios, brincadeiras, almoços e jantares animados. Ao anoitecer, repetiram a fuga para o celeiro e as horas intermináveis de amor...

No dia seguinte, a contragosto, despediram-se de Judy e Joseph, voaram para Los Angeles

e foram tragados pela realidade do inevitável embate com Ava.