Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 4 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 2

Dois anos depois do encontro em Paris.

Los Angeles - EUA

Um barulho incessante despertou Lilly, que demorou uns bons segundos para entender do

que se tratava. Guiada pela luz vibrante do celular, revirou-se na cama e esticou o braço apalpando a mesinha de cabeceira.

02:58 Ethan

Deus! O Big a esta hora?

Só pode estar bêbado em uma daquelas festas pós-show da banda!, pensou ela, ignorando a ligação e voltando a se ajeitar na cama.

Na terceira vez em que o telefone tocou, resolveu atender. Não conseguiria voltar a dormir mesmo. Pelo menos, não com o último hit da Ultimate Bet bombando em seus ouvidos. Seu melhor amigo era um cara insistente.

— Eu te mato, Ethan — grunhiu.

— Desculpe, mas é a Penne! — A urgência e a tensão na voz grossa fizeram seu sangue congelar. Sentou-se na cama ligando o abajur.

Lilly respirou fundo.

— O que foi? Onde vocês estão?

Ouviu um longo suspiro do outro lado da linha.

— Mesma história de Nova Iorque. — Outro suspiro. — Miami, estamos em Miami.

Merda! Aquilo tinha que parar.

— Estou indo para o aeroporto. Passe os detalhes por texto, ok?

— Obrigado. Eu... ela, conhece ela.

— Eu sei... eu sei, mas... Ethan, preciso de você calmo. Já, já estarei aí.

Lilly nem se preocupou em pegar nada. Apenas vestiu um jeans, uma camiseta básica branca e uma jaqueta de couro que estavam jogados sobre uma cadeira em seu quarto. Enquanto pulava, lutando para vestir um par de All Stars verde-exército, mandou um texto para o seu agente.

Bertran,

Surgiu uma emergência.

Vou para Miami e não sei quando voltarei.

As telas para a galeria de Paris estão em meu ateliê.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

A viagem foi cansativa. Da casa dos pais de Lilly, em Los Angeles, até a recepção do Jackson Memorial Hospital, em Miami, foram seis horas e dezenove minutos.

Apoiada no balcão da recepção, pegou o celular e checou o nome falso que usaram para internar a Penne.

— Olá, procuro pela paciente Ruby Taylor.

A enfermeira olhou para Lilly de cima a baixo e, em seguida, focou a atenção em um aglomerado de fotógrafos e jornalistas. Franziu a sobrancelha e voltou a olhar para o computador, ignorando-a.

— Hey! Não sou repórter — disse firme. Fuçou na bolsa e entregou o cartão do seguro social. — Lilly Emanuelle Peterson, amiga de infância.

— Que seja. — A mulher deu uma olhada rápida no documento, bufou e voltou a teclar no computador. — Quarto 315 — informou de má vontade. — Mas saiba que existem dois cães de guarda na porta. Não vão te deixar passar se for da imprensa.

Lilly controlou o impulso de revirar os olhos e, reprimindo a raiva, grudou uma etiqueta VISITANTE em sua jaqueta.

— Obrigada. — Dirigiu-se para o elevador.

No terceiro andar, achou o quarto de primeira. Não foi difícil já que dois homens enormes, sentados em cadeiras colocadas ao lado de uma porta, chamaram a sua atenção.

— Oi, sou amiga da Penne, o Big me chamou. Posso entrar?

— Lilly, né?

— Eu mesma.

O cara maior, de cabelos pretos em estilo militar e que se apresentou como Dilon, abriu a porta e ela entrou devagarinho.

A luz do começo da manhã passava pela persiana iluminando o quarto. Um bipe suave e uma linha verde, em movimento no monitor, mostravam que a loira de mechas rosadas estava viva e dormindo. O coração apertado de Lilly aliviou um pouco. Fora alguns eletrodos, presos sob a

bata verde do hospital e um I.V. [11] perfurando a veia da mão delicada, sua amiga parecia bem e tranquila.

— Oi, sou a Lilly, a amiga — sussurrou para um cara magro, sentado em um sofá.

— Hey, Mark, o empresário.

— Como ela está?

Completamente esgotado, Mark balançou a cabeça.

— Estável. O pior já passou. Fizeram uma lavagem com carvão ativo no estômago dela.

Lilly assentiu e foi até Ethan. O homem enorme dormia em uma poltrona, ao lado da cama, e parecia exausto. Estava com a cabeça jogada para trás e a boca aberta, ele nem se moveu quando a amiga lhe deu um beijinho carinhoso na testa.

Em seguida, Lilly contornou a cama e repetiu o mesmo gesto em Penne.

— Estou aqui, coisa linda — sussurrou, mas a amiga continuou em seu sono profundo.

— Preciso de um café. — O empresário aproximou-se da cama. — Odeio comer sozinho, será que poderia me acompanhar?

Como a situação parecia sob controle, pelo menos naquele momento, Lilly deixou seus dois melhores amigos descansando e foi até a lanchonete com Mark. No caminho, ele repetiu o que Ethan havia lhe falado por mensagem.

Mistura de anfetaminas e álcool, associadas a um regime eterno de Penne. O corpo pifou e ela caiu dura no meio da festa de encerramento da turnê do segundo álbum da banda.

— Lilly, né? Pelo jeito os conhece da vida toda.

— Sim.

Sentaram em uma mesa da lanchonete com as bebidas e alguns sanduíches. Mark alcançou o adoçante e colocou no café.

— Por que nunca te vi nos shows ou nas festas?

— Estava estudando na Europa. Cheguei faz pouco tempo, mas, mesmo de longe, tenho acompanhado a banda. Achei o último videoclipe incrível.

— Gostou, foi? — O empresário abocanhou o sanduíche.

— Hum-hum... muito, apesar de só mostrarem o vocalista. Sabe... foi meio frustrante não ver a Penne nem o Ethan. — Ela franziu o rosto em sinal de reprovação.

— Eu sei... Estamos fazendo umas mudanças. — O empresário gargalhou, tapando a boca. — O Adan sempre foi o exibido do grupo, mas agora, todos terão a mesma exposição em tudo. — Os olhos dele ganharam uma seriedade repentina. — Isso tem que parar!

— O exibicionismo do vocalista? — Lilly perguntou confusa.

— Não. — Impaciente, Mark agitou a mão. — A Penne está obcecada com a coisa da aparência. Já que é a melhor amiga dela, bem que poderia me ajudar.

Lilly assentiu e reparou em como o sujeito era agitado. O celular dele não parava de vibrar e, depois de verificar as mensagens, disse que era o baixista, informando que já estavam no quarto com Penne.

— Os meninos estão morrendo de preocupação. — Sorriu carinhosamente e foi

interrompido pelo toque estridente do aparelho. — Só mais um minuto. É o nosso RP [12] na linha. — Levantou o dedo e depois de uma conversa rápida, Mark pediu que fosse emitido um comunicado esclarecendo que o incidente na festa fora consequência de um estresse pós-turnê. Fato que, em

parte, Lilly também acreditava. Afinal, desde que estouraram com o single, [13] No Rules, a vida dos amigos tinha enlouquecido.

Quando conseguiu um pouquinho da atenção do empresário, Lilly aproveitou.

— Vou conversar com ela. Acho que uma terapia poderia ajudá-la. A Penne é linda, só não consegue ver.

— Faça isso, me ajude. Eu imploro. — Mais aliviado, ele esticou os braços, segurando as mãos de Lilly do outro lado da mesa — Aliás, você também é muito bonita. Já te disseram que parece uma boneca? Seu rosto é perfeito! É modelo?

— Com esta minha altura, Mark? Está brincando? Só pode! — Lilly fez uma careta de pura descrença. Qual é? Ela tinha um metro e sessenta e cinco. — Sou artista plástica.

— Nossa, que glamorosa! Eu coleciono arte. O que faz? Escultura, pintura?

Lilly sorriu com a empolgação dele.

— Bochechas sujas de tinta e carvão não são glamorosas. — Ela piscou, mas não era uma cantada. Estava escrito gay na testa dele. — Aquarelas e desenhos em carvão, às vezes misturo as duas técnicas. Consegui a minha primeira galeria internacional e volto para Paris em um mês.

— Oh! Deus! Assim tão nova? — Ele pôs a mão no coração. — Tem o quê? A mesma idade da Penne? 20?

— Quase. — Corou.

Quando suas pinturas começaram a ser reconhecidas, as pessoas ficavam em choque ao ver a artista por trás da obra. Como se o fato dela ser jovem, a tornasse menos capaz. Mozart começou aos quatro anos! Pintar não tinha nada a ver com idade. Era vocação.

— Pinto desde nova, acabo de me formar pelo Instituto Beaux[14] – Artes em Paris e meu professor me indicou para uma galeria de lá.

— Deus! Seus pais devem estar orgulhosos e nos odiando! Fazer você vir assim, de madrugada, e enfrentar um voo, sozinha. — Mark pegou o celular sobre a mesa. — Melhor eu ligar pra eles. Dizer que me responsabilizo e que vou garantir que chegue bem em casa.

O coração de Lilly apertou.

— Não precisa se incomodar, meus pais estão viajando. O celular não pega onde estão — desconversou, pois não queria entrar no mérito da morte dos pais e do irmão mais velho. Não era o momento. Então, perdoou-se pela omissão. — Além do mais, fui emancipada aos dezessete e não moro com eles desde então.

— Sério? Impressionante. — Olhou-a meio desconfiado e Lilly mudou de assunto falando sobre Paris.

Ficaram mais alguns minutos na cafeteria, discutindo sobre o mercado de arte. Mark pegou algumas frutas para levar para o Big. Depois, a caminho do quarto, ele não parou de tagarelar um minuto sequer sobre a banda. O homem tinha um amor verdadeiro por seus meninos de ouro.

Não era para menos, Lilly também achava o som deles fenomenal. Um rock cheio de nuances instrumentais, com um vocal rouco e sexy de Adan, ex-namorado de Penne.

Mark contou que junto com a fama, veio a fortuna. Milhões e milhões de dólares que possibilitaram a compra de uma mansão, de ônibus novos para turnê, além de: equipamentos e a contratação de profissionais de apoio excelentes. Sem falar nos prêmios e na legião de fãs um tanto quanto fanáticos. Por isso, ele acreditava que a Penne era tão ligada na aparência.

Já os caras não davam a mínima para estética, eram supertranquilos. Desfrutavam da fama e da boa vida com as mulheres.

— São uns prostitutos os meus astros do rock. Só a Penne que se salva.

Ele contou também que os shows e as turnês pela Europa iriam começar e eram obrigatórios para que se mantivessem no topo. As entrevistas, participações em programas, festivais e premiações nunca tinham fim. Mesmo quando estavam parados na mansão de Malibu, em Los Angeles, o ritmo era agitado por eternas festas e criação de novos álbuns.

Assim que entraram no quarto, depararam-se com uma Penne emburrada e cercada por três grandalhões a obrigando a tomar todo o café da manhã.

Lilly reconheceu na hora o vocalista Adan ao lado do amigo Big. O homem era rústico, quase selvagem: cabelos loiros na altura dos ombros, olhos cinza claros inconfundíveis, dono de um rosto bonito e braços tatuados. Ele parecia ser do tipo que pisoteava corações e do qual era melhor manter distância.

O cara parecia um viking.

— Penne, come a salada de frutas, porra! Essa merda é diet! — Adan forçou a colher na boca que a loirinha mantinha bem fechada por pura birra. — É isso o que quer? Virar uma bunda murcha? — O cantor fez cara de repulsa e a psicologia reversa dele funcionou. Em um segundo, Penne começou a devorar as frutas e assim que viu Lilly atrás de Mark, abriu um sorriso arrebatador, marca registrada da loirinha.

— Lilly! — gritou de boca cheia e, em seguida, olhou feio para Ethan. — Big! Não acredito que ligou pra ela! Traidor de uma figa!

Big encolheu os ombros e rosnou, para, em seguida, ir até Lilly e abraçá-la. Ela pareceu um pigmeu no meio do amigo de dois metros e dez.

— Hey, Bonequinha. Obrigado por vir.

E, de repente, ali entre eles, Lilly ficou tímida. Talvez, tenha sido toda aquela conversa com Mark que os fizera parecer seres sobrenaturais. Ou talvez, fosse o outro loiro lindo que a olhava com curiosidade.

— Oi, já que ninguém nos apresenta, sou o Gabriel... Gabe pra você. — O jovem atraente, com cara de anjo pecador de cabelos loiros cacheados, sorriu.

Que espetáculo!, pensou Lilly. Os olhos dele eram verdes-folha e destacavam-se sob as sobrancelhas mais escuras. Parecia aquele cara que fez a Fera, no cinema.

É, definitivamente a produtora deveria explorar mais os outros integrantes. É um pecado manter um rosto desse escondido.

As cordas vocais de Lilly congelaram e ela apenas conseguiu expelir timidamente um: “Oi. Sou a Lilly” para o jovem, e depois foi direto abraçar Penne.

Jesus!

Penne tinha que ter escolhido esse Gabe, não o grandalhão viking!

Sem que percebessem, Gabe sussurrou animadamente para Adan:

— Reparou na bundinha empinada? Cara, ela é toda boa, né? E o narizinho arrebitado, então? Como a Penne pôde esconder uma amiga dessas da gente? — gemeu, fazendo cara de sofrimento ao colocar as mãos no coração.

— Oi, coisa linda. — Indiferente à conversa atrás dela, Lilly acariciou o rosto da amiga. — Está proibida de me assustar novamente, entendeu? Tem que se cuidar, mocinha, sabe que não funciono sem vocês. — Ela aproveitou para arrumar os travesseiros da guitarrista e ajeitar a coberta verde do hospital.

— Não precisava ter tido todo esse trabalho. Foi só o estresse. Os garotos são uns exagerados.

Lilly piscou para Big do outro lado da cama. Em seguida, sentou-se em um cantinho do colchão na cabeceira, ao lado de Penne. Sorriu com carinho, pois seus amigos poderiam estar até na China, que ela daria um jeito de ir socorrê-los.

— Trabalho nenhum, coisa linda. Estava de bobeira pela redondeza.

— Redondeza? Hã... hã... em Miami? — desdenhou Penne, aconchegando-se nela. — Não deveria estar enfurnada em seu ateliê ou algo assim?

Adan e Gabe se aboletaram aos pés da cama e Ethan preferiu voltar para a cadeira ao lado da cabeceira. Apoiou seus pés quarenta e cinco na estrutura da cama.

Big era grande demais para caber em um cantinho. Ele parecia um cruzamento de lenhador com gladiador do futuro. Extra forte, de barbas castanhas generosas, cabelos descoloridos, com as laterais raspadas, tatuagens a perder de vista e olhos cor de mel reluzentes. Os piercings nas sobrancelhas e no lábio inferior conferiam a ele um ar transgressor e meio hipnótico.

— Não, nada disso. — Sorriu Lilly. — Precisava respirar um pouco, antes de voltar para Paris. Além do mais, eu tive alguns meses bem inspirados e produzi bastante. — Descalçou os velhos All Star e encolheu as pernas sobre a cama. — Quero chegar lá de cabeça vazia.

— Inspiração? — Adan levantou uma sobrancelha. — Não me diga que é compositora.

— Não... nada de música. Estou fora dessa coisa. — Lilly fez uma careta pensando em toda a sua falta de talento. A mãe dela tinha insistido para que aprendesse piano. Entretanto, só conseguia reproduzir notas musicais através da aquarela. Podia traduzir em cores e pinceladas, as sensações que alguns sons provocavam nela. A sequência abstrata inspirada em Mozart ficara incrível.

— Coisa? Acabou de chamar a música de coisa? — Adan pareceu ofendido.

A boca de Lilly abriu ao perceber como suas palavras soaram.

— Não! Deus do céu, me desculpe! Quis dizer que não tenho talento para compor ou para tocar, mas amo música. Ela me inspira, vocês, então! São fenomenais! — Revirou os olhos em um êxtase exagerado, tentando fazer uma média. — Só que os meus instrumentos são os pincéis. Toco a minha música através deles. Acho que a ponta dos meus dedos tem ligação direta com meus ouvidos e coração.

— Porra, gata! Isto foi sexy. — Gabe se ajeitou e ofereceu um sorriso malicioso para Lilly. Big rosnou. — Imagino as sensações que esses dedos sensíveis podem dar. Fico todo dur... emocionado, só de pensar.

— Vá à merda, Gabe! É bom manter essa sua imaginação pervertida longe dela! — Big abriu uma carranca que dizia: “Com-ela-você-não-vai-foder”.

— Não estou fazendo nada. — Uma expressão inocente se formou no belo rosto do baixista. — Aprecio a arte e suas formas. Diga-me, Lilly. A natureza selvagem e nua da Austrália te inspira?

Foi a gota d’água para Big, que levantou derrubando a cadeira e socando o braço do amigo que não perdoava nada.

— Mantenha esse pau nas calças ou vai acordar sem.

— Ôôôô! Isso aqui é um hospital, lembram? Dá para deixarem as demonstrações de afeto para quando estivermos no ônibus, voltando para casa? — Mark tentou acalmar os ânimos, sem sair do sofá ou largar do celular que o mantivera entretido até então.

— O Gabe é australiano — sussurrou Penne de modo conspiratório.

Ah! Por isso o visual praiano!

Um miniesquentamento brotou no estômago de Lilly.

É, talvez a Austrália a inspirasse um pouquinho.

— O que vai fazer no verão, Boneca? — Adan tentou um tema mais ameno, buscando acalmar os ânimos de Big, que continuava emburrado.

O assunto rendeu e passaram os próximos minutos falando sobre as férias.

Adan iria visitar a família no Canadá. Gabe aproveitaria a folga para surfar com o pai na Austrália e Lilly convenceu Penne e Big a ficarem com ela. Seriam apenas três jovens normais e desconhecidos curtindo um pouco. Uma ótima oportunidade para relembrarem o tempo de adolescência quando eram inseparáveis.

Secretamente, Lilly pretendia aproveitar a pausa dos palcos para ajudar a amiga, fazendo-a entender que as anfetaminas eram um caminho de merda e sem sentido. Penne era linda e desde que o corpo dela florescera e ganhara curvas, nunca engordou um grama sequer.

Ela era simplesmente magnífica, dona de um rosto exótico de dar inveja a muitas modelos e curvas que enlouqueciam os homens. Um metro e setenta de pura energia e sensualidade. Assim como Gabe, Penne era a típica garota da praia: bronzeada e com algo selvagem em seu jeito.

Uma mulher rock-and-roll!

Aos poucos, a timidez de Lilly dissipou-se. Ela não tinha um bom momento como aquele, há muito tempo. O dia a dia dela era sempre tão tenso e aborrecido por conta da convivência com a irmã mais velha, que achou a escapada para Miami providencial; os novos amigos de Penne eram ótimos.

Um som de batidas na porta interrompeu as risadas.

— Entre! — Mark gritou.

Uma cabeça surgiu pela fresta da porta e escaneou o quarto. Com ela, surgiram os cabelos castanhos, bagunçados e selvagens e as sobrancelhas escuras destacando os olhos... azuis-escuros!

O coração de Lilly deu um salto e um ataque de tremedeira, inesperado, a imobilizou.

Theo?

Ela meio que se lembrava, às vezes, quase sempre, daquela paixonite ridícula e ofegante pelo cara que encontrara por quinze minutos e que havia lhe roubado o primeiro beijo, há dois anos. Ficou semanas sonhando com ele, até que Adam Levine voltasse a assumir o topo das paradas.

Ops! Desculpe, Adam, mudanças de posições novamente!

Theo ofereceu um sorriso torto para Penne... entrou... tropeçou... derrubou o café que segurava e foi cercado pelos caras.

Lilly continuou congelada.

Será que é ele mesmo? Pode ser ilusão... Ele já tinha esse maxilar incrível?

Uau!

E este sorriso cinematográfico com dentes brancos e perfeitos?

Lilly passou as mãos nos cabelos castanhos compridos, em um tique nervoso de quando não sabia o que fazer. Não se lembrava de ele ser tão... tão... estonteante.

Tudo bem que aqueles quinze minutos, em uma fila, não deram para pegar muita coisa, mas... aquela sensualidade misturada com... com um... eu-sou-feito-para-derreter-a-mente-de-qualquer-coisa-que-enxergue-ou-respire, ela reconheceria.

Reconheceria, não?

— Me larguem, idiotas! Vim ver a Penne, não vocês!

A temperatura do corpo de Lilly entrou em combustão quando as sinapses dela reconheceram a voz brava, rouca e aveludada. Ele estava mais velho e com uma barba por fazer, mas era ele.

Era ele, sim!

Lilly ficou boquiaberta por mais uns...

Tique-taque... tique-taque... Tique-taque...

Ela esqueceu onde estava... Não reparou nos caras rindo ao limpar o chão sujo de café. Não percebeu que precisava fechar a boca... ou que respirar, talvez, a mantivesse viva e que seria recomendável levantar-se e ir dizer um: oi.

Mas, como que se levanta mesmo?

Brian gostou de ser recebido aos tapas e socos pelos caras, mesmo que os tivesse visto há menos de seis horas. Só assim para se recompor da reação mais estranha que tivera na vida. Quando pôs os olhos na coisinha ao lado de Penne, o corpo dele estremeceu e ficou em alerta... o coração bombeou forte... as faculdades mentais do músico falharam e ele engasgou com a própria saliva.

Pequena, feminina e moreninha com fios longos e meio desgrenhados. O rosto mais perfeito que ele já tinha visto! Muito mais perfeito do que os rostos que inventava ao imaginar como seria a gata perfeita. A jovem ruborizada à sua frente era linda. Sobrancelha arqueada perfeita, cílios longos perfeitos, olhos avelã-esverdeados perfeitos, enormes, como os de uma gata assustada, narizinho arrebitado perfeito em cima dos lábios carnudos rosados mais perfeitos que já vira.

— Vem aqui, Brian! Larguem ele, seus otários! — Penne esticou os braços abrindo e fechando as mãos. — Vem aqui, guitarrista lindo.

Brian?

O músico obedeceu, mesmo que as pernas dele estivessem pesadas e meio que não quisessem se mexer. Lilly teve uma súbita necessidade, urgente, de se enfiar embaixo da cama para alcançar os tênis que estavam lá. Afinal, não poderia andar pelo quarto só de meias.

— Como está se sentindo, Penne?

— Bem melhor, o médico passou aqui, pouco antes de chegar e já estou liberada.

Penne reparou que Brian pouco olhava para ela e, pelo canto de olho, ele estava bastante interessado na movimentação frenética que acontecia abaixo deles ao lado da cama.

— Essa aqui embaixo é a Lilly, a minha melhor amiga. Aquela da qual sempre te falo.

O guitarrista lembrava vagamente sobre uma melhor amiga da sua parceira de banda. Uma que ela tinha agitado para sair com o primo dela. O novo atacante estrelar dos Lakers. O cara, que segundo Penne, deixava todas as mulheres de quatro e loucamente apaixonadas. Um idiota, na opinião do músico, mas que Penne dizia que tinha um talento para levar todas para a cama.

Lógico. Que merda!

Quais as chances de ele cruzar com a garota perfeita e ela estar disponível?

Zero!

Lilly suspirou e levantou. Não podia ficar enrolando mais e fingindo que não conseguia achar os tênis. Ele não a reconheceu... nem poderia... o encontro deles fora tão rápido e fazia tanto tempo.

— Lilly, esse é o Brian. O guitarrista sexy que sempre detona nos shows — Penne disse animada.

As bochechas de Lilly pegaram fogo e ela rezou para que não percebessem o quanto estava abalada.

— Ah! Então é mesmo instrumentista? Seu nome artístico é Brian?

Brian estava fora do ar... alternando o olhar entre o rosto delicado e as mãos pequenas segurando os All Stars minúsculos. Perdeu-se viajando nos detalhes daquele rosto bonito.

Tão linda! Perfeita!

Esses olhos... Esses olhos...

Ele teve a sensação de já tê-los visto, mas... onde? Não... ele lembraria daqueles olhos... daquele rosto.

— Brian! O que deu em você? Ainda está dormindo? — Penne o tirou do nirvana.

— O quê? Não... isso, instrumentista... guitarra... Brian. Quanto calça? — falou sem pensar. Adorava pés pequenos e delicados. Eram quase um fetiche. Xingou-se mentalmente por comportar-se como um adolescente babaca.

— Hã? — Lilly olhou para os tênis. — Ah! Desculpe. — Segurou-os em apenas uma das mãos, limpou a outra na calça e estendeu-a para cumprimentá-lo. — O-olá... o-oi, Lilly — gaguejou pensando que, talvez, ele a estivesse achando uma idiota ou pior, que fosse uma daquelas fãs fanáticas.

Brian estendeu a mão e achou incrível a sensação do toque.

— Oi, Lilly. Amiga da Penne. — Mãos tão delicadas e suaves, meio trêmulas. Deliciou-se.

Esses olhos?

Lilly sentiu o corpo estremecer e um calor irradiar através daquela pele calejada. E os cabelos, uau! Deus! É claro que ele não se lembraria da menina desgrenhada, de óculos, aparelho nos dentes e com um chapéu vermelho ridículo, que beijou por impulso no aeroporto.

— Seus olhos são incríveis... A gente já se encontrou antes?

— Eu... a... é...

— BRIAN! Eu disse para me esperar! Aquela velha chata me parou para pedir um autógrafo. — Uma voz feminina estridente o fez romper o contato e se virar.

Quem é essa mesmo? Ele sabia que a conhecia.

Ah, merda! Merda! Merda!

Tinha esquecido que trouxera a namorada com ele.

— Kate! Que bom que disse Oi para a gente ao entrar, tão delicadamente, em um quarto de hospital — Gabe ironizou e foi abraçar a mulher que era o oposto de Lilly. Loira, alta, e com seios quase pulando do vestido vermelho, justo e decotado.

— Ah! Olá, rapazes. — A mulher acenou sem ânimo, porém, eles nem se deram ao trabalho de interromper a conversa com Mark no sofá... Ignorada, cumprimentou Penne, nem notou a presença de Lilly e foi logo agarrando a cintura do namorado.

— Acabou por aqui, amor?

Amor?

— Acabamos de chegar — resmungou Brian, tentando diminuir o aperto. Ele odiava quando Kate fingia que estava tudo bem entre eles.

Os dois tinham vindo o caminho inteiro discutindo. O que fizeram soar todos os alertas vermelhos dele.

Estavam juntos há quase dois anos, desde que foram apresentados em um set de filmagem. Kate quase foi a Bond Girl do pai dele... o que mexeu com os hormônios do músico. Fisicamente ela não era o Top Perfeição de Brian, mas era linda, cheia de curvas naturais e costumava ser superdivertida, e ótima companhia quando queria.

— Kate, minha linda — Penne disse, em um tom de voz sarcástico. — Não vai ser educada e dizer oi para a minha amiga, Lilly?

— Amiga? Desculpe, achei que fosse só uma atendente do hospital. — Kate lançou um cumprimento desinteressado para Lilly. — Não pensei que fosse do tipo que as pessoas quisessem ser amigas, Penne.

— E eu não sabia que era do tipo que pensava! — Penne retrucou.

— Caralho, Key! Dá para ser um pouco mais agradável? — rosnou Brian, puxando-a.

Key?

Lilly observou a cena e recuou, até grudar o corpo na parede. O homem dos seus sonhos estava ali e não era miragem... Realmente era ele... Theo... Brian... Lindo e abraçado a outra. Filha da mãe de peituda mais idiota! Bem que a irmã dela sempre dizia que os homens preferiam as loiras.

— Que namorado mais chato você é, me deixa viver. — A peituda deu de ombros — Sabe que eu e a Penne não fazemos o tipo amigas, amor. Pelo menos, sou honesta.

A mulher tinha feito um ponto, mas mesmo assim...

Que vaca! Não, que polvo! Toda pegajosa e emaranhada nele.

Lilly a tinha reconhecido. A Barbie sempre estampava as revistas de fofoca, mas era uma idiota e nem atuava tão bem assim...

— Kéti, fique sabendo que a Penne é uma ótima amiga — disse num impulso.

— É Kate Breie. — A mulher revirou os olhos petulantes para Lilly. — Impossível não ter ouvido falar de mim.

— Nunca ouvi. — Lilly devolveu a gentileza e Brian segurou o riso, a loira ficou sem reação e os meninos caíram na gargalhada.

— Lilly só assiste aos filmes de artistas premiados — zombou Penne.

— Pois saibam que quase fui indicada ao Oscar uma vez! Briaaan, eu te disse que vir aqui seria um erro! Seus amigos são um horror! Vamos embora, já! — Bateu os pés em uma saída dramática.

Caralho!

Por que mesmo que ele insistia naquele namoro?

— Ignorem o drama, ela está atacada. Perdeu um papel para Jessica Palmer. Espero te encontrar mais vezes, Lilly. — Brian não queria ir embora.

— Claro — respondeu ela não querendo que ele fosse.

— BRIAAAANNNN! — o chamado histérico de Kate ecoou no corredor.

— Mas será possível? Dá pra avisar para a louca da sua namorada que estamos em um hospital! — Mark levantou-se irritado. — Estou com paciência zero para os escândalos dela hoje.

— Foi mal, cara. — Brian ergueu os ombros e voltou-se para Lilly. — Preciso ir amansar o bicho. A gente se vê por aí.

— Claro, a gente se vê por aí. — Lilly sentiu o coração apertar ao vê-lo sair correndo atrás de outra mulher.