Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 39 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 37

Dias depois... em algum lugar a caminho de Washington...

 

Como sempre, Lilly foi a primeira a acordar. Espreguiçou-se e arrastou o corpo para fora da cama. O coração dela chegou a palpitar, quando espiou pela janela e viu que haviam, mais uma vez, desviado da estrada para fazer uma parada estratégica.

Sorriu ao ver a clareira rodeada por árvores, com um lago cristalino bem ao centro, a praia de areia fininha e o deck de madeira avançando bem rente à agua.

Um oásis bem pertinho da cidade de Washington DC.

Dessa vez, o Dilon se superou!

Antes de partirem para a turnê, Brian tinha dito que as coisas iriam mudar. A princípio, ela não tinha botado muita fé naquela promessa. Surpreendeu-se! A pedido do guitarrista, sempre que a agenda permitisse, o QG faria uma pausa em algum lugar, antes de seguir viagem.

Animada, Lilly bem que tentou acordá-lo, mas o coitado estava exausto da maratona de cinco shows. Cada noite em uma cidade diferente, seguida por horas e horas na estrada... Encheu-o de beijos no rosto.

— Brian, você precisa ver isso.

— Não, Pequenininha... — Escondeu o rosto nas cobertas. — Só preciso ver o meu travesseiro e você.

Ele tentou capturá-la, mas ela sorriu e se esquivou.

— Vem cá.

— Não, o dia está lindo.

— Não é justo... não consigo dormir sem você.

— Ah... vai ter que conseguir.

Deixou o resmungão dormir mais um pouco. Vestiu um biquíni, um vestido azul-claro, bem levinho, e saiu.

Com todos dormindo, inclusive Dilon, Lilly passou um bom momento sozinha. Deitou no deck, com os pés tocando a água e ficou meditando e pensando na vida.

Uma brisa bateu, tirou uma mecha de cabelo dos olhos e os abriu. O dia estava azul e agradável. Apreciou o silêncio e balançou os pés imersos na água. A vida na estrada era puxada, mas era segura.

Sabe o que é real?

O pé na bunda e o chifre que vai tomar!

Um fragmento da conversa ácida que tivera com Ava poluiu os pensamentos de Lilly. Droga! Ela esticou os braços sobre a cabeça e espreguiçou o corpo para afastar a sensação ruim. Aqueles dias em Los Angeles só trouxeram aborrecimento.

— Bom dia.

Lilly inclinou a cabeça para trás e deu de cara com os pés descalços de Adan.

— Bom dia. — Subiu o olhar pelo corpo coberto apenas por uma bermuda preta, até encontrar o rosto bonito do vocalista. Os olhos cinzas estavam semicerrados por causa do sol e a juba solta... uma bagunça.

Ele olhou ao redor, coçou a barriga e sorriu.

— Posso? — Apontou para o lugar vazio ao lado dela.

Lilly sentou-se.

— Claro.

O corpão de Adan se ajeitou ao lado dela. Ele dobrou as pernas e apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Essa ideia do Brian foi genial — elogiou ainda rouco de sono. — Muito melhor começar o dia assim na natureza, do que cercado por aquele cimento nos estacionamentos dos estádios.

— Muito melhor. Eu te acordei?

Adan bufou.

— Não... o Gabe, com aquele namorado secreto dele. Os dois passaram a noite toda trocando áudios pelo WhatsApp.

Lilly cobriu os olhos e o encarou.

— O cara da festa depois do Grammy?

— Esse mesmo. O tal tímido que fugiu, quando o Gabe quis nos apresentar.

Lilly riu, mas não muito.

— Nossa, eu não vi nada. Fiquei a noite toda tentando acalmar os instintos assassinos do Brian para cima da minha irmã.

— Aquela coisa revoltou todo mundo — Adan constatou em tom sério.

Lilly assentiu. Foi um parto escoltar Ava para fora. Perderam um tempão, explicando para os policiais o que tinha acontecido, e quando finalmente voltaram, a premiação já tinha acabado. Brian enfureceu-se quando soube de tudo.

 

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Tinha que ter me chamado, porra!

— Como? Com você em cima daquele palco?

— Foda-se! Nenhum prêmio é mais importante que você, nenhum!

— Brian, eu amo que queira me defender, mas eu precisava ter enfrentado a situação sozinha, entende? Ava era o meu monstro escondido embaixo da cama, não o seu.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Brian não aproveitou em nada a festa em homenagem à banda, organizada em uma boate. Revoltou-se quando o Mark avisou que Ava tinha sido liberada, depois de receber um sermão do juiz e pagar fiança.

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— Como assim, já soltaram? E as leis de proteção ao cidadão, onde ficam?

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Passou horas grudado no celular exigindo uma ordem de restrição mais agressiva. Queria a todo custo ir atrás de Ava e dizer pessoalmente que os deixassem em paz.

— Como o Brian está? Largou do seu pé?

A voz forte de Adan a trouxe de volta.

— Que nada! — Lilly abraçou os joelhos. O silêncio da irmã era preocupante. — Anda meio obcecado, achando que a qualquer momento, Ava vai surgir de trás de um poste e lançar uma bomba atômica.

Adan gargalhou de um jeito gostoso.

— É, pelo jeito, perdemos o Brian. Ele foi abatido, está totalmente de quatro por você.

Antes que Lilly pudesse responder, um objeto não identificado passou voando por sobre a cabeça deles e explodiu espalhando água por todos os lados.

— Porra! — Adan gritou todo encharcado.

A cabeça morena e molhada do Brian emergiu no meio do lago. Ele sorriu satisfeito com o xingamento de ambos e veio nadando até o ancoradouro. Apoiou as palmas das mãos na madeira e, em um impulso, subiu no deck e jogou o corpo sobre o de Lilly, soterrando-a.

— Que susto! — ela reclamou gargalhando, quando ele começou a esfregar o rosto molhado no dela. — Para! Tá me molhando, seu idiota!

— Essa é a intenção. — Ele moveu o corpo sobre o dela como uma onda. — Vingança por ter me acordado.

— Eu tentei acordar... não consegui! — Lilly protestou se contorcendo toda sob ele.

— Acordou sim... meu corpo sentiu falta do seu na cama e não consegui mais dormir.

Adan fez um som de desgosto.

— Se não quiserem uma foda a três, é melhor pararem. Estou na seca há uma semana e não respondo por mim.

Brian gargalhou e rolou o corpo, libertando Lilly. Os dois sentaram e ele a puxou para que ficasse aninhada entre suas pernas... abraçou-a apertado.

— Sem foda a três... a gente se basta, cara. — Brian esticou a perna e chutou o amigo. — E aquelas mulheres de ontem?

Adan franziu a boca.

— Até rolaram umas chupadas, mas sei lá... sempre a mesma merda vazia. Culpa de vocês.

Lilly riu.

— Que eu saiba, ninguém aqui te impediu de nada.

Brian concordou e beijou a bochecha corada.

— Os que sempre são interrompidos somos nós.

— Por isso mesmo, passam o dia inteiro se enroscando. É foda... ando com vontade, sei lá... de mais.

O quê?

Os olhos de Brian arregalaram.

— Mais?

Merda!

Adan levantou, ao perceber que tinha falado demais.

— Mais nada... esquece. — Saltou no lago abraçando as pernas. Como Brian, um tsunami atingiu o deck, assim que o corpo imenso se chocou com a água.

Brian levantou com Lilly no colo.

— Não se atreva! Meu cabelo... não quero...

A frase se perdeu quando ele saltou e os dois afundaram perto de Adan.

— Seu idiota! — ela berrou, assim que submergiu.

Brian agarrou-a.

— Sua coisa linda! — Beijou-a exageradamente.

Os três ficaram na água por um bom tempo, conversando sobre amenidades: as mudanças positivas nas rotinas de todos, os pontos turísticos em Washington...

— No fundo, eu gosto dessa vida na estrada — Adan divagou.

Brian deu umas braçadas, aproximando-se de Lilly e abraçou-a por trás.

Ai, Jesus!

A Fera quer brincar!

Lilly suprimiu um gemido, ao ter o traseiro instigado pela euforia dura de Brian.

— Eu estava era de saco cheio — ele confessou. — Bendita hora que a Lilly cruzou o meu caminho. — Beijou-a no ombro.

Lilly esticou o braço para cima e acariciou a barba de Brian.

— Meu Grandão, lindo... Bendita hora mesmo. — O coração dela deu uma miniacelerada. — Aquele negócio sobre o QG ser como uma bolha é verdade, me sinto protegida. Gosto de estar aqui com vocês, estou bem mais feliz.

Brian baixou a cabeça e sugou a parte macia da orelha dela.

— Conheço umas trezentas maneiras de te deixar feliz de verdade — sussurrou e esfregou o pau nela de forma descarada.

— Caralho! Que nojo! — Adan olhou feio para eles.

Brian gargalhou e afrouxou o aperto em Lilly.

— Foi mal... a culpa não é minha se a bunda dela é um ímã.

— Brian! — Lilly tentou soltar-se.

— Desculpa, Pequenininha. — Ele fez cara de arrependido, mas não convenceu. — Prometo me comportar. Qual é a próxima pauta? — Olhou para o Adan.

Fofocaram sobre Gabe e Penne, que andavam fazendo mistério de seus casos amorosos. Lembraram do encontro com fãs, que aconteceria antes do show daquela noite, o que significava tempo livre para Lilly dedicar-se à pintura.

— Partida em cinco minutos! — Dilon os chamou da janela com cara de quem tinha acabado de acordar.

Saíram do lago, vestiram as roupas sobre o corpo molhado e voltaram para o QG. Mark havia ligado. Ele e o pessoal da técnica já tinham chegado ao Robert F. Kennedy Memorial Stadium para começar a montagem do palco.

— Caramba! — Brian exclamou, assim que entraram no Palazzo.

Adan começou a rir... era incomum ver Penne e Gabe na cozinha.

— O que estão fazendo? — Lilly se assustou com a bagunça na bancada da cozinha. Havia farinha e leite derramado por todos os cantos.

— A Penne perdeu uma aposta e vai fazer panquecas para mim. — Gabe abriu um sorriso sonolento.

— Ela não sabe fritar um ovo — Adan constatou e esparramou-se no sofá que contornava a mesa.

Penne lançou um olhar mortal para ele.

— Ah... vá se ferrar. Eu vi a Lilly fazendo, é só misturar as coisas e pronto.

Enquanto Lilly foi para o balcão, Brian sentou-se ao lado de Adan.

— Cadê o Big?

— Está baixando umas fotos e já vai descer — Gabe respondeu em tom chateado e voltou-se para Lilly. — J.J., por que isso aqui está parecendo concreto?

Lilly riu do apelido que ele lhe dera. O baixista era fã incondicional do Jon Jones, o número um do MMA, e depois da briga com Ava ele passou a chamá-la de J.J.

— Lógico que está duro, vocês colocaram uma tonelada de farinha. — Ela apontou para o saco na metade. — Deixa que eu te ensino, assim, quando quiser, não precisa pedir pra ninguém.

— Mas eu gosto que façam para mim — Gabe disse envergonhado.

— Porque é um folgado. — Big surgiu atrás deles, sem que tivessem notado a sua aproximação. — Tem que superar esse trauma. — Ele esparramou-se no outro sofá da cozinha.

Penne fez cara feia.

— Hey, isso não foi legal! Em vez de encher o saco, por que não baixa aquelas fotos que eu pedi?

Big olhou para ela como se não estivesse entendendo.

— O que foi?

— Foi o que você disse... Não são traumas, são lembranças — Brian disse todo protetor com Gabe. — Porra, Big... você tem uma mania de radicalizar. Já te disse que cada um tem sua própria história e reage a ela como quiser. Se não gosta de lembrar da sua mãe, beleza, mas ele gosta. Deixa o cara curtir a onda dele.

Bosta!

As feições de Big contraíram em arrependimento.

— Foi mal, Gabe. — Encolheu-se e concentrou-se no celular. Sabia que estava errado e sempre se comportava como um babaca quando o assunto eram as mães.

Lilly olhou confusa para todos e depois para Brian, que piscou para ela.

— A mãe do Gabe fazia panquecas quando ele era pequeno. Essa é uma das poucas lembranças que ele guarda dela.

— Verdade — o baixista confirmou em um tom melancólico. — Às vezes, sinto o cheiro da massa assando, misturado ao perfume de canela que minha mãe usava.

Santo Deus! Que tipo de amiga eu sou?

Estive tão sufocada com os meus problemas, que esqueci que os outros também têm os seus paraísos-perdidos.

— Não sabia que também era órfão — Lilly sussurrou.

Gabe fez que não com a cabeça.

— E não sou. — Virou-se e abriu o armário tirando uma vasilha limpa. — Sabe como é, J.J.... — Encarou Lilly. — Sou só mais um na estatística do velho clichê da mulher sem a menor vocação para ser mãe, que opta pela carreira e vai embora.

Que horror!

Que mulher desnaturada!

Lilly precisou de alguns segundos para se recompor e controlar a raiva. Então é por isso que Gabe é tão carente emocionalmente! Com o pai em outro continente e a mãe sabe-se lá onde, a saudade deveria ser voraz. Ela mesma, por mais que estivesse cercada de pessoas amorosas, muitas vezes, sentia uma falta danada do colo da mãe e do pai.

Lilly sentiu uma estranha necessidade de proteger Gabe.

— Vamos às panquecas? — Sorriu para ele e esfregou as mãos. — Tem mais leite? — Levantou a garrafa vazia.

Gabe sorriu e foi até a geladeira.

— Parada em cinco minutos! — Dilon gritou atrás do volante. — Os seguranças já estão esperando no Memorial Lincoln.

— Ah, não! — Gabe virou com a garrafa de leite na mão. — E o meu café da manhã? — Ele fechou a geladeira com o pé. — De quem foi a grande ideia?

Penne tentou chamá-lo, mas foi ignorada.

Ele continuou focado em Lilly.

— Foi sua, J.J.? — Gabe largou a garrafa no balcão. — É mais uma daquelas suas paradas culturais, é isso? Ah, não! Quer pintar o Abraham Lincoln gigante? — Ele puxou os cabelos e nem percebeu o... Não quero... que Lilly disse.

— Gabe — Penne repetiu o chamado e continuou a ser ignorada.

O trio que estava no sofá levantou-se e começou uma especulação entre eles. Brian abaixou o corpo para olhar pela janela lateral do Palazzo.

— Maneiro, né!

O baixista ainda olhava para Lilly.

— Que mancada, J.J., aquela estátua é imensa, até terminar já terei morrido de inanição!

Brian olhou sobre os ombros.

— Deixa ela em paz — intrometeu-se.

Hey!

Eu sei me defender sozinha!

Lilly pensou em protestar, mas distraiu-se com a camiseta branca um pouco úmida que marcava os músculos das costas do marido.

— Que foi? — Brian percebeu o olhar perdido e sorriu de um jeito sacana.

O corpo dele a atraía como um ímã, mas não era o momento para devaneios esfomeados. Então, Lilly suprimiu o impulso de se aproximar e tocar a tatuagem aparente.

Droga de homem mais magnético!

— Nada. — ela corou e virou de lado ignorando a tentação.

— Ah, não acredito! — Gabe arregalou os olhos. — Vocês vão ficar aí se comendo por telepatia? Temos uma situação aqui. — Apontou para os ingredientes abandonados na pia e depois para a barriga.

— Gente, foco! — Penne berrou e todos a olharam. — Nossa, muito obrigada. — Sorriu com ironia, antes de quase perder o equilíbrio e apoiar as mãos na bancada da cozinha. — Porra, Dilon, avisa quando for brecar essa merda!

— Foi mal! — o faz-tudo gritou da cabine de comando. Em seguida, começou a manobrar o veículo bem na frente de escadarias intermináveis.

— Fui eu quem pediu para darmos uma paradinha aqui — Penne explicou e sorriu para Lilly.

— Praaaa quêêêê?! — O baixista gritou indignado.

A loirinha ampliou o sorriso.

— Pra tirar foto, pra que mais seria?

Gabe pareceu não acreditar.

— Ah, fala sério! Todo americano que se preze já veio aqui, pelo menos uma vez.

Lilly balançou a cabeça concordando.

— Eu nunca vim — Brian murmurou.

Todos o encararam como se ele fosse um E.T.

— Ué? Qual o problema? Meus pais eram muito ocupados, porra!

— Problema nenhum — Adan tentou acalmar os ânimos.

O vocalista e Big juntaram-se ao amigo e grudaram os olhos na construção que mais parecia um templo clássico. Brian soltou um assovio apreciativo.

— Caralho, esse troço é imenso. Nero teria um puta trabalho para incendiar tudo!

Todos riram, menos Gabe, que continuava emburrado e recusava-se a olhar para o Memorial, que reinava majestoso em cima de uma colina, ostentando uma fachada suntuosa com gigantescas colunas romanas, rodeado por um mar de grama.

Os olhos do baixista ganharam brilho.

— Já sei! A Penne desce, tira a merda da selfie, enquanto eu e a J.J. ficamos aqui cozinhando.

Meleca!

— Por mim tudo bem — Lilly concordou, mesmo querendo sair e passear pelo Memorial.

Penne fez uma careta.

— Não vai dar, meu chapa. Lilly é peça fundamental na foto.

— Sou?

A confusão começou.

Brigaram, chantagearam, xingaram, mas Penne bateu o pé... e com o apoio entusiasmado de Brian, a loirinha ganhou a disputa fácil, fácil. Por sorte, era dia da semana e não havia muitos turistas. A segurança da banda não teve problemas com o esquema de isolamento.

Os curiosos foram mantidos a uma distância segura.

— Achei uma boa ideia tirar uma foto igual à que fizemos na escola. — Penne subia as escadas de dois em dois degraus. O dia continuava ensolarado e com uma brisa agradável. — Lembra, Lilly? — Ela olhou para a amiga que subia mais atrás, abraçada ao Brian. — Eu, você e o Big, naquela excursão da escola, antes de se mudar para Paris. Um frio danado!

Lilly não lembrava muito. Aquela viagem tinha sido uma despedida da escola e da vida que ela tinha depois que os pais morrerem.

— A gente pode fazer um antes e depois — Big sugeriu, uns degraus mais abaixo.

— É, pode ser — Lilly concordou distraída. A atenção dela estava dividida entre as provocações sacanas de Brian em seu ouvido e Gabe, que subia emburrado, enquanto devorava um hot-dog.

Penne animou-se.

— Big, baixou a foto que eu te pedi? — Ela olhou para o Gladiador, que levantou o celular e deu um ok. — Perfeito! É só a gente fazer a mesma pose. — Ela olhou ao redor. — Quedê o Adan?

Big segurou o riso.

— Olhou a escadaria, resmungou alguma coisa sobre não ser pagador de promessas e voltou para o QG.

— Merda!

— Deixa comigo, Penne. — Brian ofereceu-se. Ele podia não ser um maníaco especialista em fotos como o Adan, mas não era uma negação.

Avançaram e chegaram até o átrio coberto, onde estava a estátua descomunal de Abraham Lincoln sentado em um trono.

Penne agarrou na mão de Lilly e a obrigou a sair correndo em direção da estátua.

— Ai, nem acredito! Vem!

Antes de se aproximarem, Big entregou o celular para Brian.

— É a terceira foto no rolo da câmera — disse e correu em direção às meninas.

— Vão logo com isso... Subir essa escada me deu fome de novo! — Gabe apoiou-se em uma coluna.

Brian esperou Big se posicionar entre as meninas, enquanto abria os arquivos de foto.

Penne esticou-se toda para fazer um chifrinho em Big, que fazia em Lilly.

— E aí? Tá parecido? — ela quis saber.

— Pera aí! — Brian voltou a fuçar no celular, achou a foto e congelou.

A mente dele entrou em parafuso e a respiração hiperventilou. Só os olhos se mexiam... Iam do celular para Lilly e de Lilly para o celular.

Não pode ser!

— Anda logo! — Penne insistiu.

Mas Brian se manteve mais imóvel que o ex-presidente talhado na pedra, atrás da amiga... Estava em outra dimensão. A mente dele ocupada, fazendo conexões... O coração batendo como um tambor no peito... Uma onda magnética percorrendo a pele, fazendo-o suar frio.

Aeroporto... Paris... desespero... chapéu vermelho engraçado... óculos fundo de garrafa... o rostinho redondinho de menina... troca de passagens... euforia...

Era como se ele estivesse retornando ao passado.

Lilly começou a ficar agoniada. O homem estava pálido.

— Brian, tudo bem?

Ele se endireitou lentamente, olhou-a profundamente, mas não disse nada. A garganta musculosa engoliu em seco... A boca abriu para fechar em seguida... O corpo forte pendeu para trás e depois para frente...

Droga!

Lilly desgarrou-se do abraço de Big.

— Brian! — Correu.

Escola de artes em Paris...

Claro!

É possível!

O corpo todo dele estremeceu em ondas de emoção.

— Minha garota-bebê — ele murmurou para ninguém ouvir, revirou os olhos e despencou no chão provocando um som oco.

— Caralho! Caiu, bateu a cabeça e morreu! — Gabe berrou e correu, chamando a atenção dos seguranças que os acompanhavam de longe.

— Cale a boca, animal! — Big rugiu.

— Não! — Lilly deu um grito horrorizado, jogando-se de joelhos ao lado de Brian.

— Amor!

— Amor!

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

O QG estava explodindo com tanta gente. Mark abriu caminho entre o pessoal da técnica.

— Merda! Vocês deveriam ter ido para o hospital, não vindo para o estádio! — berrou a plenos pulmões, se espremendo entre os corpos de Adan e Big parados na porta.

O coração dele contraiu ao ver Brian apagado na cama com a cabeça apoiada nas coxas de Lilly. Se tirasse por base o rosto horrorizado da garota, o músico devia estar prestes a bater as botas.

— Como ele está?

— Menos pálido — Penne, que estava ao lado de Lilly na cama, respondeu.

— Por que ele não acorda? — Gabe perguntou, sentado na cômoda do quarto. — E se ele tiver um aneurisma?

Lilly soltou um gritinho abafado e voltou a chorar.

— Porra, Gabe! — Adan e Big berraram juntos.

— O quê? Tô falando sério. Não viram aqueles jogadores que morrem em... — Gabe tentou se explicar, mas foi interrompido pela mão de Big em seu pescoço.

— Mais uma palavra e eu corto a sua língua! — o Gladiador rosnou.

Lilly fechou os olhos e chorou com mais força. Penne pulou da cama na intenção de desgrudar a mão de Big do pescoço do outro. Adan interceptou-a no meio do caminho, impedindo que ela se metesse na briga e Mark... bom, Mark, gritou com todos.

Esqueceram onde estavam e uma pequena confusão se instaurou. Todo mundo gritando ao mesmo tempo.

Os olhos de Brian entreabriram, mas ninguém notou. Aos poucos, os sentidos dele foram voltando... O tato, no calor da pele de Lilly com sua nuca... O olfato, no cheirinho de lima que o atingiu... Depois, a audição... quando contorceu o rosto, irritando-se com gritaria ao lado da cama...

Que merda está acontecendo aqui?

Washington, o lago, a cozinha, o memorial, as fotos e o cérebro dele desligando.

Puta merda!

Paris!

Brian sentou de supetão e olhou para Lilly.

— Deus, é você.

Todos no quarto ficaram calados no ato. Gabe esboçou intenção de falar, mas foi contido por Mark.

Ainda em prantos, Lilly o agarrou afundando o rosto na curva do pescoço musculoso.

— O que aconteceu? Pensei que fosse me deixar — sussurrou e prendeu-se a ele como um coala. — Nunca mais me assuste desse modo.

Ela tremia tanto e Brian se deu conta que ele também. Deus, sou um cego! Todo esse tempo era ela, bem diante dos meus olhos. Abraçou-a apertado, emaranhando os dedos nos cabelos fininhos.

— Shhhhh, Pequenininha... está tudo bem, calma. — Afastou-se, segurou o rosto inchado e examinou-o com adoração. — Eu nunca poderei deixá-la... não depois de hoje, será impossível — achou inexplicavelmente importante dizer aquilo.

— O médico deve chegar em poucos minutos — Mark arriscou avisar.

Brian respirou fundo para conter a vontade de estrangular o empresário.

— Mande ele embora... preciso conversar com a Lilly.

Conversar?

O coração de Lilly acelerou ao ser atingido por uma nova descarga de adrenalina. Havia algo diferente na forma com que Brian a olhava.

Deus!

E se ele estiver mesmo morrendo?

— O que aconteceu não foi brincadeira — Mark insistiu.

Brian desviou o olhar do rosto vermelho e confuso de Lilly e mirou em Mark.

— Não foi... foi muito mais sério do que imagina. Então, se não quiser que eu perca a pouca paciência que me resta, sugiro que me deixe a sós com a Lilly.

Mark arregalou os olhos.

— Vamos. — Adan pegou Penne e Gabe pelo braço e arrastou-os para fora.

Big lançou um olhar para o casal.

— Se precisarem, estarei lá fora — disse e saiu.

— Você também, Mark — Brian grunhiu.

Droga, estiquei a corda demais!

Mark contraiu os lábios.

— Preciso ter certeza de que vai estar bem para os compromissos de mais tarde — o empresário insistiu.

Brian irritou-se e ficou de pé.

Sempre isso! Sempre os compromissos! E eu, porra? E eu?

A diferença de altura entre eles e o olhar furioso de Brian fizeram Mark recuar.

— Cai-fora-daqui — falou lentamente.

— Mas...

— Saia agora! — Brian socou a parede e o corpo de Lilly contraiu de susto.

Sem saída, Mark obedeceu, a porta do quarto fechou, Brian apoiou as duas mãos na cômoda e de olhos fechados respirou fundo para se acalmar. Suas emoções estavam confusas. Não entendia o motivo para Lilly ter escondido algo tão importante.

— Descobri que era você, no aeroporto em Paris — disse de uma vez, ainda de costas para ela.

Ai, meu Deus!

Descobriu? Como?

As pernas dela viraram gelatina e só não caiu, porque estava sentada na cama. Quando Brian virou em busca de uma explicação e depois, sentou-se na cama, Lilly hesitou e não disse nada.

Ficaram em silêncio, estudando-se até que Lilly estendeu o braço para tocá-lo. Os cabelos dele estavam tão bagunçados quanto ela imaginava estarem os seus pensamentos.

— Você está bem? O desmaio.

Brian retraiu-se como se o toque dela fosse machucá-lo.

— Esquece o desmaio. Estou bem.

Lilly ficou chocada pela rejeição, mas aliviada porque todas as cores haviam voltado para o rosto lindo do marido. Tentou tocá-lo mais uma vez.

— Brian.

Ele recuou e ela deixou a mão cair sobre o colo.

A boca larga e macia dele contraiu. — Você sabia quem eu era? — perguntou impaciente.

Lilly mordeu os lábios e olhou para as mãos entrelaçadas em seu colo, os nós dos dedos chegavam a estar brancos de tanto que as apertava.

— Eu te reconheci, assim que entrou naquele quarto de hospital em Miami — era uma confissão, mas também uma acusação.

— E por que não disse nada, caramba? — Ele levantou e começou a andar de um lado para o outro.

Hã?

— No hospital? — Os olhos dela ganharam força. — No meio de pessoas que eu mal conhecia? Chegar para o cara com namorada e que, obviamente, não fazia ideia de quem eu era, e dizer que o tinha visto anos antes e que aquilo tinha sido tão marcante para mim, ao ponto de não esquecer dos olhos e do rosto dele?

Ele a olhou com cara de lógico... Era exatamente o que ele esperava que ela tivesse feito.

Desacreditada, Lilly soltou um suspiro agoniado e esfregou o rosto.

— Qual é, seja sensato... prefere me crucificar a entender? Ponha-se na minha situação. — Riu, mas foi de nervoso.

— Não é engraçado, Lilly! Hoje, eu perdi o controle quando abri aquela merda de foto! Fiquei em choque quando reconheci o rosto rechonchudo e o sorriso encabulado escondidos atrás daqueles óculos e chapéu vermelho esquisito... a minha garota-bebê — Brian pronunciou o apelido com certa idolatria, como se fosse quase sagrado. — Porra, eu te disse o quanto tudo aquilo me marcou e todo o tempo era você!

Lilly respirou fundo ao perceber que não se arrependia de ter mantido segredo. Nas milhares de vezes em que tentara contar, algo dentro dela implorava que não o fizesse... Agora, entendia o porquê.

— Brian... — Ela levantou o queixo para fitá-lo e seus olhares congelaram. — A atitude te marcou, não eu.

Ele balançou a cabeça negando com veemência.

— Claro que não! Eu te procurei!

— Você procurou pelo autor do gesto, não por mim.

— Dá na mesma!

— Não, não dá! Se eu tivesse te marcado, você teria me reconhecido.

— Não reconheci, porque você mudou muito, porra!

— Não mudei tanto assim. — Lilly tentou manter a calma, pois sabia que o rumo daquela conversa, indo para o bem ou para o mal, estava em suas mãos. Respirou fundo para acalmar o coração e secretamente clamou por serenidade. — Brian, venha aqui... — Ela apontou o colchão e ele sentou-se, ficando frente a frente. — Agora, olhe para mim e diga o que vê?

— Uma mulher... linda, engraçada e incrivelmente determinada.

— Isso, uma mulher... a garota de Paris não existe mais. Em Miami, eu quis muito que você tivesse me reconhecido. — Brian fez menção de falar, mas Lilly o impediu. — Passei anos fantasiando o momento e romantizando tudo, acreditei que o seu coração me reconheceria de imediato, mas me enganei. Isso nunca iria acontecer, e sabe por quê?

Brian não entendia onde ela queria chegar.

— Não, não sei, por quê?

— Porque as nossas percepções de Paris foram diferentes... Lembra do que você disse hoje mais cedo para o Big? Que cada um reage diferente? — Brian balançou a cabeça, concordando. — Então, eu me prendi no homem. Já você, se prendeu no gesto.

— É claro, a atitude daquela menina mudou a minha vida. Sem ela, eu não estaria aqui hoje.

Lilly riu, ele se referia ao EU dela no passado, como se fosse outra pessoa.

E era!

— O que eu fiz em Paris pode ter sido legal, mas não foi imprescindível para determinar o rumo da sua vida. Conheço o Big, ele não deixaria um músico do seu gabarito escapar, só por causa de um imprevisto em um voo. Outras chances viriam. Se está na banda é por mérito seu, não meu.

Brian ficou calado... e ela respirou fundo.

— Sabe o que aconteceria se eu te contasse? — Lilly continuou.

Brian balançou a cabeça, negando.

— Nós não estaríamos aqui. — Lilly sorriu gentilmente. — Essa sua gratidão exagerada que tem por mim no passado mudaria o rumo do nosso presente.

Os olhos dele cresceram.

— Que absurdo, só tornaria tudo mais especial, passado e presente juntos. Consegue entender que não existem mais pontas soltas e que tudo está ligado a você? Caralho, se isso não for destino, eu não sei o que é!

Deus, isso foi arrebatador.

Os pelinhos da nuca de Lilly arrepiaram. Brian tinha o poder de dizer coisas que a quebravam, mas controlou-se.

— O passado não me importa. Agora eu entendo porque, no fundo, eu não disse nada. Eu queria que gostasse de mim, não dela... a Eu de Paris! — Sacudiu as mãos nervosamente. — Amo a ideia de você ter se interessado e se apaixonado pelo que sou hoje. Essa mulher de verdade, a quem você não deve nada. Se eu tivesse dito quem era, carregaria para sempre a dúvida de um amor por gratidão.

— Lógico que não!

— Lógico que sim! Eu me interessei pelo moço bonito que me beijou no aeroporto! Tinha dezessete anos, caramba!

— Eu te beijei? — ele a interrompeu com surpresa.

Como eu pude esquecer uma coisa dessas? As sobrancelhas dele contraíram.

Lilly corou.

— Foi mais um selinho rápido de agradecimento. — Sorriu sem jeito. — Poxa... eu nunca tinha sido beijada, então pra mim foi o máximo.

Os olhos de Brian cintilaram.

— O seu primeiro beijo foi meu e foi o máximo? — Os cantos da boca levantaram esboçando um sorriso arrogante. Ele era responsável por todos os primeiros dela? Sorriu de verdade.

— Pode ir tirando esse sorrisinho besta da cara, você nem lembra!

— Dane-se que eu não lembro, fui o primeiro.

Lilly revirou os olhos.

— Está vendo? Esse é o meu ponto!

— Que ponto?

— Não foi dane-se... aquele beijo, que você nem lembra, foi mágico para mim... — ela disse e Brian segurou-lhe a mão na tentativa de desculpar-se. — Por causa dele, alimentei um sentimento irreal por um desconhecido. Era nova demais para saber que amores nascem de momentos como aquele, mas precisam de história para vingar e florescer. E nós nunca tivemos uma história, então, criei um homem imaginário, que ao se tornar real, não me reconheceu, porque, ao contrário de mim, ele foi marcado por um gesto, não por um beijo. O amor é real, Brian... real.

Brian soltou a mão dela e esfregou o rosto, sentindo-se um idiota.

— Tire essa coisa de gratidão da cabeça... Eu me apaixonaria por você, mesmo que tivesse me dado um tiro ou me mandado para a cadeia — disse categórico e Lilly riu com descrença. — Tô falando sério, caramba! O Big me ajudou pra caralho e nem por isso, o meu coração bate forte por ele. Posso não ter caído de amores pela menininha do aeroporto, mas sou louco pela mulher que ela é hoje. Quando botei os olhos em você naquele hospital, eu soube que seria o meu calcanhar de Aquiles. Não me importo que me chamem de louco ou de romântico exagerado, mas acredito mesmo que te amar está no meu destino, independentemente de gestos passados ou atitudes futuras.

Ele acredita?

O coração de Lilly disparou, ela queria tanto que tudo ficasse bem.

— Isso quer dizer que não está com raiva de mim e o casamento ainda está de pé? — tentou parecer descontraída, mas a emoção na voz a traiu. Engoliu o nó que se formava na garganta.

Brian gargalhou, surpreendendo-a.

— Não, isso quer dizer que eu estou com uma puta raiva, mas te amo mais. O casamento não é isto? Discutir... aprender a lidar... e se acertar?

As sobrancelhas dela arquearam.

— Está com tanta raiva assim, é? — Ele confirmou com um aceno e ela mordeu o interior da bochecha. Droga! — Então, acho que prefiro bem mais a versão que diz: discutir... transar... e deixar pra lá.

Brian balançou a cabeça e riu gostoso. Adorava o modo como ela deixava tudo mais leve.

— Lilly, Lilly, Lilly... o que eu faço com você?

— Uma transadinha básica de reconciliação, talvez? — Sorriu apreensiva.