Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 42 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 40

Lilly se remexeu, sentindo o corpo de Brian sob o dela... Quentinho... Aconchegou-se mais

e inalou o perfume natural e calmante, o cheiro dele era como estar em casa, não importava onde. De algum modo que ela não sabia explicar, tinham trocado o sofá do estúdio pelo colchão confortável da suíte no andar de baixo. Adorava aquele quarto. Uma caixinha de fósforos se comparado à suíte de Los Angeles, mas era tão deles, tão íntimo e carregado de lembranças.

Ela afundou o rosto na curva do pescoço de Brian. Não eram um casal de conchinhas, gostava mesmo era de dormir aninhada sobre o peito dele, abraçando-o instintivamente com as pernas e braços como um travesseiro gigante. Era gostoso, era tranquilo, era seguro e o ronronar suave que emitia, enquanto dormia, a embalava como uma cantiga de ninar.

Mantenha os olhos bem fechados...

Mantenha os olhos bem fechados...

Suspirou.

Não queria acordar, pois sabia que ao final daquele dia, não estariam juntos. A viagem a Londres representava, de certa forma, o fim da lua de mel e um mergulho na realidade. Por mais que fosse um desejo de ambos ficarem eternamente grudados, eles não poderiam. Tinham carreiras independentes e encaixar agendas nem sempre seria possível.

Ela, com a exposição e diversos compromissos na Terra da Rainha[75], e ele, começando

com dois shows disputadíssimos no Madison Square Garden[76] , para depois, mergulhar em uma maratona de três dias trancafiado em um estúdio, a fim de compor e gravar em tempo recorde, uma trilha sonora que poderia lhe render mais um Oscar.

Lilly afagou o peito musculoso que subia e descia em uma respiração relaxada. Coitadinho. Que Brian amava o trabalho era inegável, mas também era visível o quanto aquela rotina maluca o deixava extenuado.

Sorte do restante da banda, que depois dos shows ganharia uma semana de folga em Los Angeles, por conta dos compromissos pessoais do amigo.

— Chegada no Plaza em dez minutos — a voz cansada de Dilon explodiu no alto-falante.

Ai, caramba!

O corpo de Brian deu um salto, jogando Lilly quase fora da cama.

Opa!

— Desembarque pela porta principal e a coisa está fervendo por lá! — o faz-tudo acrescentou nada contente.

— Será que dá pra baixar o volume dessa merda?! — Brian sentou desnorteado, berrando para o sistema de som. Em seguida, soltou: — Cacete! — Quando percebeu Lilly tentando endireitar o corpo, ele questionou: — Te machuquei? — Ele esticou o corpo e alcançou-a em um abraço. — Desculpa, Pequenininha.

Lilly riu, o marido definitivamente não era um bom madrugador. Os cabelos apontando para todos os lados e a expressão dura o faziam parecer um Neandertal. Riu mais... já tinha aprendido que ele precisava de um tempo, até funcionar como um humano civilizado.

— Nem foi nada. — Levantou a cabeça e deu um beijo no queixo barbudo dele. — Só vai dar tempo de vestirmos alguma coisa.

Ela tentou se soltar, mas ele a apertou mais.

— E o meu beijo de bom dia?

— Nem pensar! Está com bafo de intimidades! — Ela fez cara de nojo.

— As suas intimidades. — Ele gargalhou. — E só para te informar, eu escovei os dentes antes de dormir. — Lambeu-a na bochecha.

Lilly passou a mão no rosto babado.

— Que nojo! Que mania de me lamber! — Ela tentou soltar-se, novamente em vão. — Brian Theodore Lincoln Pierce... Eu te amo, mas se fizer isso outra vez, eu te capo!

— Se capar, a maior prejudicada será você. — Ele empurrou-a na cama e começou a enchê-la de beijos no rosto.

Droga, é mesmo!

— Ai, que saco! Para! — Ela debateu-se. — Me solta! Se não, nunca mais vai falar com a Bela!

A Bela?

Nem fodendo!

Ele parou o ataque e rolou para o lado, libertando-a.

— Golpe baixo — grunhiu contrariado. — A Bela é minha. — Apontou para o baixo ventre dela, manchado de tinta.

Ah...

Lilly olhou para o coração no peito dele e depois para a Fera a meio-mastro apontando para o MEU. Belo trabalho! Um sorrisinho de satisfação fez com que os cantinhos dos lábios dela levantassem. Aquela tinta iria levar um tempão para sair.

— Não vai poder exibir o dragão no show. — Ela tocou a linha do coração dele.

A cabeça de Brian baixou em autoavaliação.

— Não sei por quê? Tenho orgulho das minhas novas tattoos, quero mais que todo mundo veja — disse e arqueou a sobrancelha morena. — Pera aí... fez isso de propósito, né? Odeia que eu tire a camisa no palco, que eu sei.

Lilly fez biquinho. Ela odiava mesmo. Detestava a reação alucinada das fãs babando no corpão dele.

Por que esses caras do rock tinham que ser tão desinibidos?

Droga!

Lilly aproveitou que estava livre e saltou para fora da cama.

— Não gosto mesmo! — gritou já a caminho do banheiro. — Vou começar a exibir o meu peito por aí, pra você ver o que é bom... — disse sobre os ombros.

— Ah, mas não vai mesmo. — Brian correu atrás dela. — Essas belezinhas são exclusividade minha! — Agarrou-a por trás.

Os dez minutos viraram meia hora. Depois que escovou os dentes, Brian conseguiu bem mais que um beijo de bom dia.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Satisfeitos? — Mark olhou de um para o outro e depois apontou para a multidão de fãs se espremendo ao redor do Palazzo. Ele tinha sido obrigado a invadir o QG e bater energicamente na porta do quarto.

— Vou cobrar de vocês a multa que recebi! Cinco mil dólares por desobedecer uma regra simples de desembarcar a todos, assim que chegássemos!

Lilly encolheu-se, mais por medo de enfrentar as loucas que aguardavam a descida de Brian, do que pela cara feia de Mark.

— Desculpa, pode me mandar a conta que eu pago.

— Paga o caralho! Tivemos um imprevisto, General. — Brian abraçou a esposa de forma protetora. — Eu pago, a culpa foi minha.

E foi mesmo!

Lilly corou. Se ele não tivesse insistido naquela rapidinha em cima da pia do banheiro, nada daquilo estaria acontecendo.

Mark passou as mãos no cabelo arrumadinho.

— Inacreditável, uma suíte presidencial esperando por vocês e não conseguiram esperar? Estou pensando seriamente em chamar uma psicóloga, foder desse jeito não é normal! — O empresário suspirou. — Basta eu virar as costas e já ficam de assanhamento!

— A gente não estava se assanhando — Brian disse sem convencer. — Dois banhos demoram. Deveriam ter avisado antes, isso sim!

— Banhos? Hum-hum... sei. — Mark olhou-os com cara de me-enganem-que-eu-gosto. — Preparados? O reforço na segurança já está posicionado. — Apertou um botão acionando o comando de abertura da porta. — Vamos.

Uma explosão de gritos histéricos fez as pernas de Lilly tremerem, e foi com o coração na boca que ela desceu as escadas abraçada firmemente por Brian. Mesmo com o reforço na segurança, os cordões de isolamento iam e vinham como ondas revoltas. Flashes pipocavam cegando os dois. Braços e mais braços invadiam o espaço pessoal deles tentando tocá-los.

Os fãs-clubes de Nova Iorque eram os mais radicais que a banda tinha... Se autodenominavam Xiitas. Mulheres possessivas que nutriam um relacionamento fantasioso com os integrantes da banda e não aceitavam nada bem as traições imaginárias.

— Briannnn...

— Autógrafo!

— Lindoooo...

— Solta dessa vaca!

Lilly sentiu um puxão de cabelo e quase perdeu o equilíbrio. Abaixou a cabeça na tentativa de se autopreservar.

Os gritos ofensivos aumentaram.

— Você nunca mais apareceu nos bastidores!

— Puta!

— Tudo culpa dela!

— Meu Deus... — Lilly disse baixinho e quase ofegante.

Merda!

Todos os músculos de Brian ficaram tensos. Lilly sentiu a mão quente dele pousar suavemente em seu rosto protegendo-o.

— Porra! Respeitem a minha mulher! — berrou e tentou acelerar o passo, mas era impossível. Os cinquenta metros até a porta giratória do hotel viraram quilômetros.

Depois do que pareceu uma eternidade, conseguiram vencer a multidão e entrar no hall do luxuoso hotel. Assim que se viu segura, Lilly afastou-se de Brian e puxou o ar na tentativa de recobrar o controle. Havia uma tempestade de adrenalina correndo nas veias dela.

— Uau! — murmurou com voz trêmula.

Brian piscou algumas vezes e balançou a cabeça. Estava zangado consigo mesmo. Se não tivesse sido tão impulsivo no banheiro, eles teriam desembarcado com o restante da banda e dividido as atenções.

— Sinto muito — disse cabisbaixo.

— Pelo quê? Por ser amado? — Lilly virou e segurou o rosto dele com as duas mãos. — Amor, eu estou bem. — Ficou na ponta dos pés e beijou-o nos lábios com ternura. — Não quero que se preocupe comigo. Estou ficando craque nessa coisa de chegadas tumultuadas. No fundo, até me divirto. — Riu como se não fosse nada, mas estava apavorada.

Brian abraçou-a apertado sentindo o corpo delicado tremer.

— Te amo tanto. Obrigado por querer suavizar as coisas pra mim — disse sabendo que ela havia mentido.

Mark os chamou e atravessaram o saguão do prédio de vinte andares, projetado para parecer um castelo renascentista francês. Lilly sentiu-se uma formiguinha, diante de tamanho luxo e refinamento. Era tanta pompa traduzida na forma de pisos de mármore, tapetes persas enormes e lustres de cristais gigantescos, que chegava a ser sufocante.

Foram direto para a cobertura no vigésimo andar, e embora Brian estive louco para curtir a sós as últimas horas com a esposa, entraram na suíte onde os outros integrantes estavam reunidos na varanda tomando o café da manhã.

O primeiro a notá-los foi Big, que parecia não sofrer dos mesmos efeitos terríveis de ressaca que acometia os outros.

— Que bagunça lá embaixo, hein?

— É, hoje, elas estavam terríveis. — Com um ar aborrecido, Brian cumprimentou a todos, puxou uma cadeira e sentou-se, trazendo Lilly para o colo dele.

Depois de também dizer um bom-dia generalizado, Lilly esticou o pescoço para ver sobre a grade de proteção. Estava maravilhada com a vista. A ampla varanda decorada com móveis clássicos, estofados com motivos renascentistas, vasos gigantescos de flores e um guarda-sol capaz de proteger um time de futebol inteiro, ficava de frente para o Central Park. Um mar verde abria-se diante de olhos dela a perder-se de vista. Não era à toa que a Quinta Avenida era considerada uns dos endereços mais caros de Nova Iorque. Um oásis em meio ao caos.

— Amor, precisa comer. Ontem não jantou quase nada — Brian chamou a atenção de Lilly e apontou para a mesa.

A barriga dela roncou instintivamente. Havia um baquete capaz de alimentar não só um rei e sua rainha, mas o palácio inteiro.

— Os morangos com chantilly — disse baixinho.

Sem cerimônia, Brian esticou o braço e alcançou ambas as tigelas, monopolizando-as para a sua Pequenininha. Pegou o maior morango, afundou no creme e ofereceu a ela. Lilly lambeu primeiro o docinho do chantilly e depois mordeu a fruta vermelhinha e suculenta.

— Nossa, que delícia... — gemeu de forma quase erótica.

Sem poder resistir, Brian lambeu os lábios de Lilly capturando as sobras de creme que lhe tingiam a boca.

— Delícia mesmo... — Ele sorriu torto para ela.

Droga!

Como vou sentir falta dele!

— Que nojo... — A cabeça descabelada de Gabe desgrudou da mesa e havia cereal grudado na bochecha dele. — Eu estou carente, me respeitem! Vão ficar se alisando assim para o resto das nossas vidas? Não sei se vou suportar cem anos nessa tortura açucarada de vocês.

Brian gargalhou e afundou outro morango no creme só para provocar. Os olhos verdes de ressaca de Gabe dobraram de tamanho. O guitarrista sorriu satisfeito.

— Daqui a cem anos, espero já estar aposentado e desfrutando da minha esposa sem um bando de gente ao redor.

— Sonho teu, amigo... sem chance de ficarem velhos, sozinhos e na paz. — Penne riu e colocou um copo de soda com rodelas de limão sobre a mesa. — Do jeito que trepam, daqui a cem anos vão ter descendentes suficientes para fundar uma nação... “Petersons e Lincolns S/A”. — A loirinha abriu os braços de modo cinematográfico. — Uma geração inteira de filhos, netos, bisnetos e tetranetos infernizando o casal de velhinhos trepadores.

Adan não se aguentou e cuspiu o café em uma nuvem marrom, quase engasgou ao rir.

— Podemos transformar a mansão de Los Angeles em asilo e infernizá-los. Bater na porta deles todos os dias atrás de mingau.

— Do jeito que vai a nossa vida sem relacionamentos é bem capaz de terem que adotar a gente — Big disse e mordeu um sanduíche enorme de bacon, tomate e alface.

— Petersons, Lincolns e Agregados S/A — Penne emendou, aprovando a ideia do melhor amigo. — Vai ser muito legal... todo mundo enrugado, tomando o sol da manhã e deixando as dentaduras de molho no mesmo copo.

— Eu amo que queiram ficar juntos para o resto da vida — Lilly disse de boca cheia. — Mas não quero que acabem sozinhos... é tão incrível ter alguém...

— Opa! Ter alguém não. — Brian segurou o queixo de Lilly. — É incrível me ter, Pequenininha. Eu, só o Brian! — Beijou-a sem pudores na frente de todos.

Gabe disse, gemendo:

— Parem com isso... eu disse que estou carente! — E bateu a testa na mesa. — Ai... ai... ressaca de merda!

Ficaram ali rindo, comendo e jogando conversa fora por horas, até serem interrompidos por Mark e sua lista de compromissos para o dia. Brian ouviu a tudo calado, sabia que não adiantaria voltar a brigar com o empresário. Os dois já haviam discutido feio no dia anterior. Ele queria levar Lilly para o aeroporto e Mark o proibiu categoricamente... na mesma hora, centenas de jornalistas fariam uma coletiva de imprensa na sala de conferências do hotel.

Merda!

— Ah, Lilly. — Mark olhou para ela e depois cuidadosamente para Brian. — Seus quadros já estão embalados. O Daniel está organizando tudo e o Antoine acabou de chegar. Espero que não se importem, mas eu mandei o homem te esperar na suíte. Ele chegou carregado de malas com as roupas que você pediu para a Marie separar.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Acho que está tudo pronto. — Antoine esfregou as mãos e apontou para o carrinho de bagagens onde estavam os cinco quadros de Lilly e as bagagens dela, dele e de Daniel. Sua pequena Picasso havia reduzido a montanha de roupas enviadas por Marie a uma mala. — Brian, obrigado pelo jatinho.

Lilly observou o Marchand e sorriu. Desde o hospital ela havia notado a mudança de postura entre ambos, como se tivessem estabelecido uma trégua ou feito um acordo de cavalheiros. A distância ainda existia, claro, mas não pareciam mais tão incomodados um com o outro. O que era bom. Percebera que os dois não tinham se bicado naquele primeiro encontro em Los Angeles e tudo o que ela não precisava, era de uma guerrinha pessoal entre eles.

Abençoa, Senhor.

— Não tem o que agradecer, se é meu, é da Lilly. — Brian ensaiou um meio sorriso. — Será que podem nos deixar as sós? — ele disse com certa impaciência. Toda aquela arrumação havia lhes roubado momentos preciosos.

— Claro — Antoine assentiu com pompa e fitou Lilly. — Precisamos sair em dez minutos, vamos te esperar no lobby.

O coração de Lilly apertou... tinha chegado a hora da despedida. Deus! Por que dói tanto? Por favor, não permita que nada de ruim aconteça. Ela odiava despedidas, causavam-lhe pânico. Acostumara-se a ter Brian por perto, e em menos de três meses tinham criado elos de afeto tão fortes, que rompê-los, mesmo que por poucos dias, era dilacerante.

Lembrou- se das últimas palavras que ouvira da mãe: “Querida, é só um fim de semana, calma. O amor resiste às distâncias... voltaremos logo, comporte-se.”

Droga!

Respirou fundo e observou Brian acompanhar Antoine e Daniel até a porta, enquanto o camareiro empurrava o carrinho com as bagagens. Ela sabia que o que estava sentindo era um medo irracional provocado pela morte dos pais, mas, mesmo assim, era doído. Fechou os olhos e esfregou o rosto para afastar os maus pensamentos.

— Que foi? — Os braços fortes de Brian a envolveram. Mãos firmes acariciaram as costas dela, apalpando, para depois descerem e traçarem as curvas dos quadris femininos.

— Saudades antecipadas — ela murmurou com o rosto imprensado no peito rijo. Inspirou. — Vou sentir falta do seu cheiro.

O peito dele vibrou em uma risada carinhosa. O som profundo ecoou suavemente pelo quarto.

— Ah, é... só do cheiro? — Brian desfez o abraço e segurou o rostinho agoniado entre as mãos. — Pensei que sentiria falta de tudo. — Beijou-lhe a ponta do nariz arrebitado.

— De tudo. — Lilly sorriu, mesmo que uma lágrima fujona denunciasse sua agonia. — Seu cheiro me acalma e me traz segurança. Acostumei a dormir agarrada a você sentindo o seu perfume — sussurrou.

Lilly, Lilly... minha vida...

Brian também estava tenso. Lilly tinha entrado tão profundamente em sua alma que se sentia amputado.

— Meu cheiro... acho que posso dar um jeito nisso. Não quero que tenha pesadelos sem que eu esteja por perto para confortá-la. — Sorriu com ternura e soltou-a. Caminhou pelo quarto luxuoso, decorado em tons pastéis e foi até a cama repleta de almofadas. Escavou-as até encontrar o que procurava, em seguida, tirou a camiseta e vestiu-a no travesseiro enorme e fofo.

— Resolvido. — Voltou para perto de Lilly e posicionou cabeça, de modo que sua boca ficasse logo abaixo da orelha dela. — Embrulhado para a viagem — sussurrou.

Lilly sentiu o hálito quente em seu pescoço, e boquiaberta com a doçura da atitude, apanhou o travesseiro e afundou o rosto nele.

Hummm... tão bom.

— Eu sei que direto da fonte é melhor, mas... — riu baixinho — isso deve quebrar o galho por esses dias. — O tom dele era quase paternal. Pegou o travesseiro e jogou-o em uma poltrona ao lado da mesa para refeições adornada com um arranjo de gardênias enorme.

— Meu travesseiro! — ela protestou.

— Esquece a imitação. — Rindo, Brian a puxou para um beijo longo e profundo. Ficaram ali, alimentando-se um do outro, perdidos nas sensações dos toques e carícias. Assim que as bocas se largaram, Brian suspirou profundamente e encostou a testa dele na dela. — Volta logo pra mim...

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

O voo de sete horas de Nova Iorque a Londres foi tranquilo. Não havia diferença de fuso horário entre os países e aterrissaram de madrugada. O show já tinha acabado há muito tempo. Assim que desembarcou, Lilly ouviu os recados de Brian e respondeu. Não quis ligar e acordá-lo. Queria que ele aproveitasse o quarto confortável do Plaza, para descansar.

Sem trânsito, o trajeto do aeroporto ao elegante bairro de Mayfair, no centro de Londres, foi um espetáculo à parte. No caminho, Lilly pôde apreciar a elegância discreta da cidade. A cada metro que o carro avançava, sentia-se transportada para outra dimensão.

Havia tanta história impressa naquelas ruas adormecidas e prédios milenares... O antigo e

novo se misturando. A London Eye[77] iluminando as águas tranquilas do rio Tâmisa, o Parlamento, o Palácio de Buckingham e o Hyde Park traziam uma paz monótona. Ela gostou da calmaria cinza da cidade, que hora ou outra, recebia pinceladas de cor de toldos elegantes e jardins deslumbrantes.

Ao chegar no Hotel Connaught, subiu direto para o quarto. Pequeno, se comparado ao luxo exacerbado do Plaza, mas apreciou bem mais o ambiente de elegância sem frescuras e perfeitamente elaborado.

Tudo tão inglês!

Jogou a bolsa sobre o sofá clássico aos pés da cama com dossel. Nem se preocupou em trocar de roupa... estava exausta. Agarrou-se à versão travesseiro de Brian e jogou-se no colchão de várias gerações. O teto de vigas aparentes, pintado em um tom claro de pátina, fez Lilly pensar nos cenários dos filmes de Jane Austen, em trilhas sonoras... em Brian...

Ai... meu amor lindo...

Tocou os lábios buscando pela lembrança dos beijos dele e adormeceu.

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Mal abriu os olhos pela manhã e Lilly foi engolida por uma sequência de compromissos, reuniões, entrevistas, um chá inglês com um renomado Marchand local. Visitou galerias, fechou novas exposições, foi de um local para outro quase sem tempo de respirar ou comer. Falou com Brian em todas as brechas... precisava da voz dele.

O primeiro dia passou, o segundo também. Depois de um banho de banheira, com direito a sais aromatizados com extrato de lima, e torneiras revestidas em ouro, Lilly vestiu-se para a grande noite: sua estreia na galeria White Cube, referência número um na descoberta de novos talentos da arte.

Olhou-se no espelho e o coque discreto completava o vestido preto no estilo anos cinquenta. Queria que suas obras brilhassem, não ela. A gola canoa, as mangas três-quartos, e a cinturinha marcada por um cinto vermelho delicado, rente à saia rodada, a faziam parecer mais boneca do que já era.

Lilly franziu o rosto para o discreto salto preto jogado aos pés da cama.

Hum... menina demais.

Sorriu para o nada, abriu uma sacola e retirou um par de [78] Louboutins vermelhos... altos, elegantes e carregados de sensualidade.

Brian surtaria quando a visse vestindo nada além do que a sua única aquisição na cidade. Quer dizer... única para ela... Antoine e Daniel já não aguentavam mais ouvir as frases:

— Viram aquilo?

— Será que podemos voltar?

— Só uma paradinha.

— O Brian vai adorar!

A mala dela estava abarrotada de tudo que encontrava sobre os Beatles, Sex Pistols e Amy Winehouse, sabia que Brian os admirava.

O telefone tocou: era o concierge informando que Antoine e Daniel a esperavam na recepção.

Pegou a bolsinha de mão e foi à luta.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Por favor, me diga que é brincadeira. — Antoine olhou de soslaio para Lilly, que sorria para uma escultura. — Onde vai colocar esse trambolho?

— Em casa... O Brian vai adorar! — Lilly estendeu a mão e seus dedos acariciaram a escultura como se fosse o Santo Graal. — Por favor...

Deus!

Desse jeito vamos precisar de dois aviões!

— Tem certeza? Olha o tamanho disso e o preço! — Antoine coçou a cabeça.

Lilly deu um tapinha no ombro do empresário.

— Esqueça o preço, ganhamos milhões hoje. Além do mais, vai ficar incrível no estúdio que farei no quarto extra.

Antoine estava num mato sem cachorro. Os olhos brilhantes de Lilly diziam que ela não iria desistir da ideia de arrematar aquela engenhoca maluca de arame. Uma espécie de casulo distorcido que protegia a guitarra mais simbólica utilizada por Jimi Hendrix.

— É tão incrível... — Lilly esticou os braços para a guitarra. — Sabe a importância histórica que essa guitarra tem?

Antoine assentiu. É claro que ele sabia, mas dez milhões? Merda!

— Tudo bem, não saia daqui.

Daniel riu. O empresário saiu se arrastando, como se estivesse prestes a subir na forca.

— O Brian vai ficar alucinado — disse, ao se posicionar diante de sua protegida.

— Vai, né? — Os olhos dela brilharam mais e depois congelaram. — Deus... — sussurrou baixinho para o segurança. — Aquele é o Elton John? — Apontou sobre os ombros de Daniel. — O Antoine disse que ele estava interessado nas minhas aquarelas, mas pensei que fosse brincadeira. Acha demais se eu for até lá me apresentar? O Brian iria adorar ter um autógrafo dele.

— Vai fundo, garota. — Daniel piscou e deu um passo para o lado abrindo caminho para ela.

E ela foi... andou decidida pelo ambiente imaculadamente branco, até se prostrar-se sorridente diante do astro, que outrora, fora um dos melhores amigos e confidentes da princesa Diana.

— Olá, senhor Elton. Meu nome é Lilly, o meu marido...

O segurança cruzou os braços e apoiou as costas em uma coluna. De longe, assistiu Lilly interagir alegremente com o homem que sorria encantado e não acreditou quando ela sacou um caderninho e a caneta da bolsa e pediu o tal autógrafo.

Riu, era impossível resistir ao sorriso doce dela.

Lilly era uma figura e não estava nem aí em ser a grande estrela da noite. Foi fotografada, assediada, abraçada e consagrada, sem perder a simplicidade. Ela era definitivamente a versão feminina do artista Brian. Ambos pé no chão e nada deslumbrados. Passou a noite sorrindo e cumprimentando a todos. Foi generosa, elogiou os demais artistas, e viu as aquarelas dela serem arrematadas, com a inocência de uma criança que acabara de tirar um A na exposição da escola.

Lilly fez questão de agradecer aos colecionadores. Era notável o amor que ela sentia por cada pincelada que dera. Dizia aos novos donos para cuidar das aquarelas com carinho, já que eram as mais especiais... o marido estivera com ela em todo o processo.

O peito de Daniel encheu-se de orgulho quando Lilly se despediu de Elton e virou-se para ele, mal se contendo de felicidade ao chacoalhar o caderninho que tinha na mão. É... o segurança também estava encantado pela menina dos olhos de Brian.

— Acredita que ele é amigo pessoal da Sarah? Disse que acompanha o trabalho do Brian! — foi a primeira coisa que ela disse assim que voltou a se juntar com Daniel. — Me pediu para fazer a capa do novo CD e falou que vai a Los Angeles conhecer o meu estúdio. — Lilly cutucou o bração do segurança, sem conter a excitação.

— É isso aí, garota!

— Lilly, aí está você, minha diva! — o Marchand inglês que conheceram no dia anterior, interrompeu-os. — Quero que conheça uns colecionadores amigos meus. — Arrastou-a pelo braço sem dar chance de fuga.

Antoine voltou e pediu que Daniel fosse resolver o embarque da escultura que comprara para Lilly. Cheio de cuidados e promessas feitas ao Brian, o segurança relutou, mas foi convencido, depois da garantia de que o empresário não desgrudaria os olhos dela.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Que delícia...

Lilly puxou o ar. Precisava daquela fugidinha, então aproveitou que Antoine engatara uma conversa animada com o Marchand londrino e disse que precisava ir à toalete.

Na volta, desviou e foi para o jardim atrás da galeria, onde uma sequência de esculturas em aço escovado tinha chamado sua atenção. Eram enormes e retratavam casais enlaçados nos mais diversos abraços.

Lindo.

Uma brisa fresquinha soprou fazendo a pele de Lilly arrepiar... a folhagem remexeu atrás dela emanando um aroma agradável de Dama-da-noite. Ai, que delícia! Apreciou os momentos de paz. Adorava Daniel, mas ser vigiada vinte e quatro horas era horrível. Puxou novamente o ar. Sentia-se um pouco tonta e fraca, sua última refeição havia sido o chá da tarde.

Atraída pela escultura de um homem que abraçava uma mulher de forma protetora segurando-lhe o ventre, caminhou até o fundo do jardim. Algo naquela imagem lhe tocou a alma. Podia sentir a cumplicidade no olhar estático de ambos. Tocou o metal frio, imaginando como ficariam em seu jardim. Havia tanto espaço em Los Angeles, e o aço certamente suportaria a maresia. Inclinou o corpo para ler a plaquinha de identificação da obra.

 

Almas gêmeas

Entrega e redenção

Obra de Alan Patikan[79]

Deus! Eu preciso dela!

— É esse tipo de amor que procura? Uma fantasia?

Lilly ficou reta como uma tábua ao reconhecer a voz atrás dela. Merda, não pode ser! Fechou os olhos tentando controlar o tremor que varreu o corpo. Respira! Ela precisou de alguns segundos, antes de reagir ao pânico, mexer-se e virar. Os olhos dela custaram a assimilar a aparência malcuidada do homem à sua frente.

— Will, é você? — murmurou.

Seu ex-noivo ergueu os olhos e sorriu, um pouco amargamente.

— Fui tão insignificante, que já esqueceu o meu rosto?

Adoraria esquecê-lo, mas não consigo, pensou, mas manteve-se calada.

Um instinto de proteção a fez recuar, até que seus pés tocassem a grama. Mesmo sabendo que ele era inglês, a presença dele ali era inacreditável. Nos dois anos em que estiveram juntos, ele jamais esboçara qualquer desejo de retornar à sua terra natal.

Lilly olhou para os lados buscando uma saída e praguejou baixinho ao constatar que todas as rotas de fuga exigiam que ela passasse por Will primeiro.

Mantenha-se calma.

Mantenha-se calma.

Ela respirou fundo, sentindo o coração explodindo no peito.

— Veio visitar os seus pais? Há quanto tempo está na cidade? — Encarou o homem de pé, que a fitava a três passos de distância. O rosto dele estava mais magro e tomado por uma barba espessa e os olhos... havia um quê de insanidade neles.

Merda!

— Viagem rápida, volto hoje para Los Angeles no voo da meia-noite. — Os lábios finos contraíram. Nem morto diria a ela que veio até Londres em busca da ajuda financeira dos pais. Sentia-se enganado, humilhado e destruído. — Tem que parar com essa loucura de casamento. — Ele olhou para os lados certificando-se de que estavam a sós. — A coisa não vai parar até que entregue o que é de Ava.

— Nada é de Ava.

Ele balançou a cabeça com impaciência.

— Por mais bonito que queiram fazer parecer, sabe que é mentira. Enganaram todo mundo.

— Você não sabe de nada, Will. Não tem o direito de me dizer nada.

— Pode não acreditar, mas não quero que algo de ruim lhe aconteça. Quando vi no jornal que estaria na cidade... — Ele inclinou a cabeça examinando-a. — Vim para te alertar e proteger. Colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça de vento.

Lilly respirou fundo. Odiava quando ele falava daquele jeito com ela.

— Estou segura, dispenso a sua preocupação.

Will soltou uma risada nervosa.

— Tão segura que queimaram as suas obras...

— Will, você e a Ava estão metidos nisso? — Lilly o confrontou, mas recebeu em troca o silêncio. Por mais odioso que ele tivesse se mostrado, era difícil acreditar que ele pudesse fazer algo tão vil. Mesmo Ava. Um mês havia se passado desde o incidente na galeria, e nada tinha sido encontrado que ligasse a irmã a tudo aquilo. Uma luzinha acendeu na cabeça dela. — Ah... — Ela revirou os olhos. — Está aqui por vingança? Tomou um pé na bunda, não foi? Agora que Ava conseguiu o que queria, te enxotou como um vira-lata, não é mesmo? — disparou antes que pudesse conter as palavras.

Will olhou para o próprio peito como se tivesse sido atingido em cheio. Era exatamente aquilo que tinha acontecido, não só Ava, mas todos o tinham abandonado.

— Aquela vaca não presta. — Esfregou o rosto e respirou tentando se acalmar. Precisava de Lilly... ela era a sua última chance. — Escuta, eu dei um passo errado, ok? Me deixei levar... entendo que ainda esteja com raiva de mim, mas se ao menos me desse um voto de confiança e me deixasse administrar os seus bens... as coisas poderiam voltar ao que eram antes... meus sócios...

Ah! Claro! O dinheiro! Sempre essa droga de dinheiro!

— Chega, Will. Está maluco? Não existe mais confiança. Eu vi a procuração, você queria me roubar!

— Já disse que errei, não estava pensando direito. A Ava...

Lilly levantou a mão interrompendo-o.

— Ah, pelo amor de Deus! Você sabia muito bem o que estava fazendo! Não jogue seus erros na conta da minha irmã... esquece.

— Não posso, estou arruinado. — Ele esfregou o rosto barbudo. — Aqueles babacas me tiraram da firma — disse com os olhos fixos aos dela. — Eu perdi tudo e a culpa é sua! — rosnou.

— Minha? — Lilly gargalhou de nervoso. — O canalha foi você, não eu! Desde quando estava mancomunado com a minha irmã? Alguma parte do que vivemos foi verdadeira? — fez as perguntas que a estavam consumindo desde o dia do casamento.

Ele olhou para o nada.

— Isso importa? Esquece o passado — disse sem conseguir encará-la, e Lilly teve a resposta: ele a usara desde o início. — É igualzinha à Ava! Vai se vingar até quando? Desgraçada, olha o que fez a mim! — Em um movimento, avançou segurando-a nos braços.

Droga!

O corpo de Lilly saltou, e reagindo à agressividade de Will, puxou os braços tentando se libertar, mas ele a apertou mais.

— Me solta! Está me machucando! — gritou.

— Poupe os seus esforços... ninguém vai ouvir a gente aqui atrás. Precisa me perdoar! — O aperto aumentou e Lilly sentiu a pele formigar. — Você me amava... íamos nos casar, porra!

Uma nova onda de pânico a deixou nauseada.

— Eu nunca te amei — murmurou sentindo as pernas vacilarem. — Só me deixe em paz. Eu amo o meu marido.

Will gargalhou.

— Aquele roqueiro? Ah... qual é! Caia na real... ele não é homem pra você!

O quê?

— Quem é você pra me falar sobre hombridade? O Will que eu conheci nunca existiu. Brian é mil vezes mais real e mais homem que você. Já disse pra me soltar! — Debateu-se e uma vertigem fez tudo girar. — Tenho nojo do seu toque! — Ela acertou a virilha dele com o joelho e Will a soltou em choque.

— Filha da puta! — Ele inclinou-se e grunhiu desacreditado.

Levada pela inércia, Lilly cambaleou, e o salto do sapato afundou na grama. Ela perdeu o equilíbrio e bateu as costas com tudo, na estrutura de aço atrás dela. O ar escapou de seus pulmões e tudo virou breu.

— Merda! — Will saiu correndo, espremeu o corpo alto entre as folhagens que compunham uma cerca viva e sumiu da escuridão da rua.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

— Lilly... Lilly...

— É melhor chamarmos uma ambulância.

— Preciso de água!

— Não! — Lilly entreabriu os olhos, e com a ajuda de Daniel sentou-se na grama. Ainda atordoada, olhou ao redor em busca do Will. — Estou bem — ofegou em uma respiração lenta.

— Você sumiu e eu te encontrei caída aqui. — Daniel estava desesperado. — O Brian não vai me perdoar.

Lilly tentou levantar, mas uma dor aguda nas costas a impediu.

— Brian está trabalhando, precisa de paz. Por favor, não diga nada para ele.

— Mas, e se for grave? — O rosto do segurança reverteu-se em angústia. — O que aconteceu?

— Não é grave, vim ver a escultura e tropecei — mentiu, sabendo que se mencionasse o encontro com o Will, Daniel ligaria na mesma hora para o Brian.

— Lilly, graças a Deus! — Antoine ajoelhou ao lado deles e entregou a ela um copo de água. — O que está sentindo? Como foi cair desse jeito?

— Senti uma vertigem — em parte não mentiu. — Deve ter sido fraqueza, mal comi hoje. Quero voltar para o hotel.

— Não sem antes passarmos na clínica de uma amiga — Antoine disse com firmeza e Lilly abriu a boca para protestar. — Nem adianta querer me contrariar, mocinha. Prometi ao seu marido que cuidaria de você. Minha amiga ou a ligação para o Brian, você escolhe. — Ele sacou o celular do bolso.

Droga!

Sem saída Lilly concordou;

— Sua amiga.