Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 43 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 41

A tal clínica ficava a duas quadras do hotel. Uma mulher, muito parecida com a atriz

Queen Latifah numa versão inglesa, os aguardava aos pés da escada de um sobrado de tijolos à vista e janelas brancas imaculadas. Subiram os degraus e uma placa dourada reluzia ao lado da porta:

 

Dra. Moya Jackson - Clínica geral e traumatologia.

 

A amiga de Antoine era jovem e simpática. Ela os fez entrar, enquanto ouvia atentamente os relatos do segurança e do agente.

— E a sua versão, qual é? — A doutora olhou diretamente para Lilly. — Como está? — Ofereceu-lhe o braço.

Lilly agradeceu e gesticulou, indicando que podia seguir por ela mesma.

— Eles estão exagerando. Já disse que estou bem... não foi nada.

— Desmaiar sem motivo não me parece nada. Vamos ter que fazer alguns exames.

Que saco!

Eu só quero me enfiar na cama e esquecer o encontro com o Will!

Lilly assentiu contrariada. Não podia contar o real motivo de tudo aquilo, então permaneceu quieta, mesmo achando um exagero. O quarteto passou por um corredor estreito, branco do piso ao teto, até chegar em uma sala de espera.

— Desculpe tirá-la de casa — Antoine agradeceu a consulta fora de hora.

A mulher, que vestia tênis de corrida lilás e um agasalho cinza sob o jaleco também branco, tinha os cabelos presos em um coque descuidado.

— Emergências não têm hora para acontecer — disse e apontou para uma fileira de poltronas bege confortáveis. — Vocês dois, esperem aqui — ordenou e virou-se para Lilly. — Você, mocinha, vai subir comigo.

No andar de cima, entraram em um consultório pequeno, porém bem equipado. O mesmo branco do andar de baixo predominava em tudo: nas paredes, no piso, nos objetos de decoração e nas cadeiras do doutor, e dos pacientes, dispostas de lados opostos da mesa de trabalho.

A médica tirou um avental esterilizado de uma gaveta, indicou a porta de um banheiro e pediu que Lilly se trocasse. Na hora seguinte, a doutora a submeteu a uma série de exames. Mediu a pressão, a glicemia, tirou sangue e a expressão da doutora fechou ao ver as marcas nas costas e nos braços da paciente.

A mulher sabia que havia algo a mais do que um simples mal-estar e encheu Lilly de perguntas, na tentativa de fazê-la abrir o bico.

— Tem certeza de que estava sozinha? — Os olhos da médica recaíram sobre as marcas avermelhadas que contrastavam com a pele clara. — Como anda o casamento? Alguma coisa que queira me contar?

O couro cabeludo de Lilly pinicou. A doida estava pensando que as marcas tinham sido feitas pelo Brian?

Merda!

— Meu casamento está ótimo e meu marido é gentil e incrível. — Lilly abraçou-se cobrindo os braços. — Tivemos um contratempo ao chegar em Nova York, as fãs exageram, às vezes.

— Compreendo — a médica disse em um tom cético.

Lilly soltou o ar de forma impaciente.

— Doutora Moya, não estou entendendo o porquê dessas perguntas. É óbvio que desmaiei por causa da pancada nas costas. — Olhou duro para a médica sentada do outro lado da mesa.

— Sim, claro, o impacto foi forte, sem dúvida. A linha da sua coluna vai ficar dolorida e roxa por alguns dias. — A mulher sorriu com cautela e, em seguida, tocou o mouse ao lado do teclado e o computador ganhou vida. — O sistema já está carregando os resultados do exame de sangue. Eu te achei um pouco pálida, mas se as taxas estiverem boas, não vejo por que te manter aqui por mais tempo. — Ela digitou uma sequência de números e aguardou. — Qual foi a última vez que fez um check-up?

Lilly estava impaciente, queria ir logo para o hotel.

— Há uns três meses e meio... fiz os exames pré-nupciais.

Um bipe soou e algo fez a tela brilhar. A médica inclinou o corpo e começou a ler os resultados.

— Hum... no geral, as taxas estão boas... só a contagem de glóbulos vermelhos que está um pouco baixa... — A doutora apoiou os cotovelos na mesa e trançou os dedos das mãos sob o queixo. — Anda tendo tonturas? Fraqueza ou cansaço? Alguma dificuldade de concentração?

É claro que Lilly estava cansada! Os últimos meses tinham sido extenuantes.

— Estou com anemia?

A médica assentiu e sorriu.

— Além de grávida, mas isso presumo que já soubesse.

O quê? Não! Impossível!

— Não! Grávida? — Lilly riu e balançou a cabeça negando enfaticamente. — De jeito nenhum... impossível. — Esticou o pescoço para tentar ler o exame.

Essa louca deveria curar os traumas, não criar outros!

A doutora a fitou com estranheza.

— Não é o que mostra a dosagem de Beta HCG... Gravidíssima, eu diria. — A doutora esticou o braço e segurou a mão fria e trêmula de Lilly. — As taxas de acerto deste tipo de exame são elevadíssimas. Está indo para a décima segunda semana.

O quê? Três meses? Impossível!

— Há três meses eu era virgem! — Lilly exaltou-se. — Não pode ser, eu transei pela primeira vez há três meses! Impossível eu estar grávida, tinha começado o tratamento de controle de natalidade. — Ela remexeu-se, não sabia se ficava sentada ou saía correndo.

Mulher louca!

Percebendo o terror no rosto de Lilly, a médica levantou, deu a volta na mesa e sentou-se na cadeira ao lado dela.

— É raro, diria que acontece em 1% dos casos, mas qualquer método pode falhar, se não houver cuidados no primeiro mês de uso. — Tocou o ombro dela para acalentá-la. — Deveria ter feito uso do preservativo, até o seu organismo se adaptar às novas taxas hormonais. Seu médico não sugeriu isso? Camisinha no primeiro mês ou mesmo abstinência?

Hã?

Quem faz abstinência, na lua de mel?

Caramba!

— Não! — Lilly desmoronou e cobriu o rosto com as mãos.

Droga! Droga! Droga!

Acho que o Brian não vai adorar isso!

Há três meses, ela tinha garantido a ele que estava no controle de natalidade, porra! Nada de golpe da barriga. Sem chances de engravidar! Como assim, 1% de erro? Ela já tinha ouvido falar de mulheres que engravidavam de primeira.

Mas logo eu?

Ela soluçou... seus ombros tensionaram e começaram a tremer. Depois chorou e riu... chorou e riu... chorou e riu, deixando a doutora sem saber o que fazer. Lilly sentiu uns tapinhas consoladores nas costas e chorou mais... chorou pra valer.

— Eu sei que está surpresa, mas procure relaxar.

Como? Não dá para relaxar!

Deus!

O que eu vou fazer?

Chocada, lembrou-se da noite em que perdera a virgindade e insistira para não usarem camisinha...

Ai, meu Deus!

Eu tenho andado por aí, todo esse tempo, com uma miniatura do Brian dentro de mim?

Um bebê? O nosso 1%?

Uma onda de ternura a aqueceu, diminuindo um pouco o pavor que estava sentindo. Brian lhe dera o maior de todos os presentes de aniversário e nenhum dos dois fazia ideia, mas... Opa!

— Eu não estou sentindo nada. — Levantou o rosto para encarar a médica. — Uma mulher não deveria sentir que está grávida? Enjoar? Engordar em vez de perder peso? E se o exame estiver 1% errado?

A doutora Moya franziu a testa, já sabendo que não sairiam dali tão cedo.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Daniel, estou falando sério... ela está muito esquisita — Antoine cochichou. — Desde que saímos daquele consultório, não disse mais que meia dúzia de palavras.

O segurança olhou para Lilly encolhida na poltrona do avião e agarrada ao travesseiro travestido de Brian. O Marchand tinha razão, sua protegida estava estranha. Saiu do consultório com os olhos inchados e se a médica não tivesse dito categoricamente “Ela está bem, só precisa de repouso”, poderia jurar que uma doença sem cura havia sido descoberta.

Lilly chegou e foi direto para o quarto. Quando o dia raiou, pediu que Antoine cancelasse os últimos compromissos e não deu as caras até chegar a hora de irem para o aeroporto. Daniel bem que tentou tirá-la da toca, mas não conseguiu. Bateu na porta, sugerindo que saíssem para ver a troca da Guarda da Rainha, que fossem ao museu dos Beatles ou que fizessem mais compras para o Brian, mas nada a animou.

— Aterrissagem em vinte minutos — o piloto informou pelo alto-falante.

Lilly olhou pela janela e um mosaico de luzes piscantes se desenhava na terra, revelando uma Nova York em plena ação. Suspirou e depois mirou nos dois homens, que a observavam com preocupação. O emocional dela estava uma bagunça. Surpresa, medo, amor, ternura, pavor, felicidade, raiva do Will, e um estranho instinto de proteção fervilhavam dentro dela.

Sim, ela estava grávida!

Não que Lilly tivesse duvidado das qualidades profissionais da Doutora Moya, mas em segredo pediu que uma camareira lhe trouxesse alguns exames de farmácia... Todos os quinze deram positivo.

— Senhora, temo que não existam mais marcas disponíveis no mercado.

Caramba!

A sensação era muito louca. Nada havia mudado, mas tudo estava diferente. Sabia que a vida jamais seria a mesma. Havia alguém ali, totalmente dependente e vulnerável, crescendo firme e forte dentro dela. Lilly não fazia ideia do que aconteceria ou de como contaria a novidade para o Brian, só sabia que precisava contar.

Meu Deus!

Será que eu vou ser uma boa mãe? Será que vou saber cuidar do meu bebê?

— Quando chegarmos, quero ir direto para o estúdio — disse. — Tentei falar com o Brian o dia todo e não consegui.

Os dois homens se entreolharam e assentiram. Eram quase dez da noite e estavam exaustos, mas não ousaram dizer nada. Fariam qualquer coisa para fazê-la feliz.

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Por volta das onze, Lilly chegou com Daniel no descolado estúdio Converse Rubber Tracks, no bairro do Brooklyn. Antoine havia se despedido no aeroporto e ido para o hotel com as bagagens.

O lugar era imenso e ocupava todo um galpão antigo de oito andares. A fachada era em madeira de demolição e vidro. Entraram e o grande lounge, que fazia as vias de recepção, parecia deserto. Bem ao fundo, atrás de um balcão feito em concreto, um rapaz de cabelos azuis distraía-se ouvindo música.

Apresentaram-se e surpreenderam-se ao serem informados de que os nomes deles estavam em uma lista VIP de Brian. O jovem os conduziu por um corredor largo, que despontava em um elevador do tipo industrial. Ele forçou as grades para cima e para baixo e os convidou para embarcar... subiram...

Na cobertura, ficava o maior dos estúdios, com espaço suficiente para acomodar uma orquestra inteira. Lilly estava ansiosa, grande parte pela novidade que carregava na barriga, claro, mas... a cada passo, a adrenalina crescia dentro dela como se estivesse prestes a vislumbrar o inimaginável...

Brian, na versão maestro.

Para falar a verdade, antes dele, ela nunca tivera muito interesse em orquestras, e sua experiência com regência não fora além de vídeos rápidos no YouTube e um ou outro documentário na TV.

Depois de passarem por uma pequena recepção vazia, entraram em uma antessala com sofás. O jovem do cabelo azul caminhou até a parede oposta onde havia uma porta pesada e à prova de som, e a empurrou. Daniel foi primeiro e depois Lilly. A explosão de som que ela esperava não veio... o silêncio reinava. A primeira coisa que focalizou foi um trio de operadores de som que trabalhava freneticamente atrás de uma gigantesca mesa repleta de botões, traquitanas, luzinhas e engrenagens...

Os homens com fones de ouvidos estranhos nem notaram a presença do outro trio atrás deles, pois estavam atentos ao que acontecia à frente.

Lilly ergueu os olhos e congelou.

Deus!

Uma parede de vidro separava a técnica, do estúdio, como um aquário. A caixa colossal de madeira acústica estava abarrotada de instrumentistas. Gente pra caramba! Lilly apostou em uns cem homens e mulheres sentados, e alinhados em fileiras divididas entre instrumentos de corda, sopro e percussão.

Apesar de não haver som, ela podia sentir a energia. Com os olhos hipnotizados, observou o fascinante balé de braços e cabeças que se movia em uma engrenagem afinadíssima. Músicos ora tocando, e ora esperando a deixa de entrada, atentos a ele: O maestro Brian, de pé diante da orquestra, no centro da sala, em cima de um pedestal.

Os braços musculosos dele se moviam com uma precisão elegante. Sua postura era dominante e controladora, viril até, e em nada lembrava o músico irreverente dos shows. Na mão direita, uma batuta executava movimentos precisos de uma euforia contida. A imagem diante dela era surreal... e sensual ao extremo. Uma faceta mais madura de Brian e contraditória.

Um homem jovem, em seus jeans desgastados, camiseta branca suada revelando traços do dragão nas costas e pés descalços, era a mais pura tradução do respeito e poder.

O dono da música! Misericórdia, que homem. Meu homem.

Naquele momento, Lilly entendeu o porquê de os maestros ocuparem um posto que parecia inalcançável na trajetória de um músico profissional. Era uma posição singular, invejada e rara para um homem tão jovem quanto Brian. Não era à toa, que os maestros eram considerados figuras quase míticas... doidões recheados de genialidade.

Deus, como ele é maravilhoso. Parece um louco, todo descabelado...

Lilly excitou-se dos pés à cabeça. Queria entrar lá e devorá-lo.

Não!

Queria mesmo, era ser comida por ele.

O corpo de Lilly saltou quando uma explosão de som invadiu a técnica, desviou o foco do aquário e viu o cabelo azul conversando com um dos homens, que sorriu. Ela o cumprimentou e voltou para o espetáculo chamado Brian.

A música orquestrada era dramática e intensa, podia sentir o amor e a revolta em cada nota. Os pelos dos braços dela arrepiaram quando a melodia atingiu o seu ápice... depois parou. Boquiaberta, viu a batuta voar no ar, enquanto Brian esbravejava algo sobre um sopro fora do tom e recomeçar do zero.

— Merda! Lá vamos nós de novo. — Um homem barrigudo e careca, sentado diante da mesa de som, esfregou o rosto.

— Se ele quer repetir, a gente repete! — um loiro respondeu.

— Mas é a sétima vez! — o careca mostrou-se inconformado. — Está mais do que perfeito para mim.

Outro técnico, negro e de aparência descolada, sentado do outro lado do careca, gargalhou.

— Se fecha, James. É por isso que ele está lá, regendo, e você está aqui, apertando os botões. O maestro é um gênio, se ele diz que não está bom e precisa repetir, nós repetiremos.

— Merda! — o careca protestou, esticou o braço e apertou um botão vermelho enorme. — Intervalo! — gritou num microfone diante dele e Brian se voltou para a técnica.

Como que por instinto os olhos azuis-violeta recaíram na única figura feminina da sala e ganharam um brilho imediato.

— Lilly! — O coração dele disparou e ele saiu correndo por uma porta lateral.

Nem cinco segundos depois, o corpo dela já estava sendo soterrado por um abraço apertado e urgente.

— Pequenininha... Caralho, que saudades. — Apertou-a mais.

O cheiro dele a dominou e uma sensação imediata de lar tomou conta dela.

— Senti sua falta — Lilly disse com dificuldade, já que sua bochecha estava esmagada contra o peito forte e suado do músico. As mãos dela se infiltraram por dentro da camiseta e subiram pelas costas de Brian, acariciando o dragão.

Precisava senti-lo.

— Nossa, que bom que veio. — Ele cessou o abraço e segurou o rosto rosado entre as mãos. — Pensei que só fôssemos nos ver só amanhã à noite. — Beijou-a com suavidade, mas bem demorado. — Ficar longe, foi um inferno — murmurou com os lábios atados aos dela. — Já estava enlouquecendo com essa falta de comunicação.

Tudo que Lilly conseguiu foi olhar bem fundo nos olhos dele.

Deus do céu, que amor é esse que estou sentindo?

Agarrou-o e voltou a abraçá-lo. Ele não era mais só o Brian... era mais, muito mais. Em poucas horas, tudo tinha se elevado à potência máxima e a ligação que já existia, agora beirava a dependência. Como uma fêmea que precisa de seu macho para sobreviver.

MB[80], esse é o papai. Lilly suspirou.

— Brian... — ela murmurou sem saber por onde começar. — Eu preciso...

— Eu sei... eu também — interrompeu-a. — Já voltamos — Brian avisou para todos. Precisava desesperadamente ficar a sós com a esposa. Finalmente, avistou e cumprimentou Daniel, soltando um "muito obrigado", para em seguida, arrastar Lilly até o camarim.

Fechou a porta, imprensando sua Pequenininha contra ela. Ai... ai... ai... os ossinhos da coluna dela tocaram o aço frio e uma onda de dor fez seu rosto franzir.

— O que foi? — Brian perguntou ao sentir o corpo de Lilly tensionar.

— Nada, só um mau jeito. — Ela desgrudou as costas da porta e passou os braços pelo pescoço dele. — Pronto. — Endireitou a coluna. — Já estiquei, já estou melhor. — Ficou nas pontas dos pés e deu um selinho nele. — Você que parece cansado. Dormiu?

— Não... estou destruído e ainda tenho a madrugada toda. Preciso terminar a trilha até amanhã.

Lilly olhou sobre os ombros de Brian e viu um sofá. As bolsas embaixo dos olhos dele denunciavam o quanto estava exausto. Ela pegou na mão dele.

— Vem cá... — Arrastou-o até o sofá, acomodando-o de costas para ela.

Embora estivesse louca por um contato mais íntimo, e desesperada para contar sobre a gravidez, Brian precisava relaxar. Soltar a bomba “Você vai ser papai! ”, não lhe pareceu uma boa ideia naquele momento. Fora que as marcas acima de seus cotovelos, que ela escondera com um casaquinho azul leve, estavam começando a ficar roxas. Ia ter que rebolar para escondê-las.

Droga!

Ela ficou de joelhos atrás dele.

— Eu pensei que você quisesse... — ele disse assim que sentiu as mãos dela começarem a apertar os ombros dele. — Reger me deixa cheio de tesão.

— O que dá tesão é te ver reger, aquilo mexeu com as minhas estruturas. — Lilly inclinou a cabeça e beijou a nuca de Brian que sentiu os pelos arrepiarem. — Vinte minutos de intervalo não vão dar pra nada, então prefiro que relaxe. Amanhã a gente mata as saudades como se deve — ela disse e começou a massageá-lo de ombro a ombro.

Será que uma boa base resolve os hematomas?

A cabeça de Brian caiu para frente e os olhos fecharam. Um suspiro profundo escapou dos pulmões dele.

— Fiquei feliz que tudo tenha corrido bem em Londres. Acho que não suportaria outra bomba — ele murmurou entregando-se às mãos dela.

O estômago de Lilly apertou.

Ai, caramba!

Bomba? Do tipo, o Will foi me ver?

Ou...

Do tipo, sabe um filho? Então... você vai ter um.

— Foi tranquilo, melhor do que eu esperava — ela mentiu. — Trouxe uma mala cheia de coisas pra você. — Partiu para massagear os braços tensos dele.

— Pra mim? — Ele a olhou sobre os ombros claramente surpreso e contente.

— Hum-hum... um monte coisas, mas é surpresa, vai ter que esperar. — Ela o beijou na bochecha. — Como foi que disse mesmo? Primeiro o trabalho, depois o prazer?

— Hey... eu nunca disse isso. — Brian girou o corpo e a puxou para o colo. — Quero as minhas surpresas... já gosto delas. — Apertou a cintura fininha dela.

Lilly sorriu da cara de pau dele e deixou que a colocasse de costas e a beijasse, torcendo muito que Brian realmente apreciasse todas as surpresas que estavam por vir. Ela não soube dizer se foi por conta da saudade, mas a necessidade, ansiedade e paixão com as quais Brian a beijava eram novas. Ele pousou o corpo sobre o dela, enquanto suas línguas batiam uma na outra e, entre um suspiro ofegante e outro, ondulou instigando-a de forma indecente.

Safado!

De repente, o que era para ser um beijo morno, esquentou. Os dedos de Lilly emaranharam-se nos cabelos rebeldes dele e o fogo se espalhou por suas veias. Brian estava jogando sujo e ela precisando de mais contato. A dor que sentia na linha da coluna perdeu a guerra para o desejo. Lilly abriu as pernas para aninhá-lo e esfregar-se contra a Fera.

Um vai e vem de quadris começou. O vestido de malha azul que Lilly vestia subiu revelando a calcinha. O jeans roçou no tecido delicado que protegia seu sexo e um dolorido pulsar continuou a se construir entre as coxas dela e só havia uma coisa que pudesse aliviar aquilo. Ah... que se dane!

— Me come, Brian.

Como um robô, ele saltou para fora do sofá, ostentando um sorriso de campeão, e apressado tirou o jeans, libertando uma Fera pra lá de pronta. Como ela estava vestida, ele nem se preocupou em tirar a camiseta, não tinham tempo.

— Eu sabia que você não iria resistir. — Mordeu o lábio, quando Lilly sorriu rendida e balançou os quadris para retirar a calcinha, e chutá-la para longe.

— Vem, Maestro. — Abriu languidamente as pernas revelando suas necessidades urgentes.

Os violetas e azuis brilharam.

— Estou com tanto tesão, que não sei se vou durar muito tempo. — Deitou-se sobre ela e penetrou-a com tudo, as pélvis se chocaram e Lilly ofegou. — Caralho! Isso foi direto na minha alma. — Ele afundou a cabeça na curvatura do pescoço dela e um grunhido de satisfação quase selvagem aqueceu a pele de Lilly.

Antes de começar o ataque, Brian respirou fundo tentando se controlar. Lilly precisava se ajustar. A Bela sempre seria apertada em relação à Fera e ele também não queria gozar tão rapidamente... Merda, que gostosa! Quentinha e úmida! Foda-se. A carência do pau dele falou mais alto.

— Desculpe, não posso esperar — sussurrou, deslizou para fora, quase até a ponta, e, em seguida, empurrou lentamente.

— Oh... oh... oh... oh... isso — ela choramingou, deliciando-se com cada polegada daquele pau que a invadia novamente. Gemeu uma outra sequência de: — Oh...oh... oh... oh... — esquecendo onde estava e deixou-se levar. — Leve-me, Brian... eu preciso de você bem fundo.

O pedido de Lilly acendeu a necessidade primordial que Brian tinha de possuí-la até a alma. Ele a segurou pela nuca e capturando-lhe a boca beijou-a com fúria, e entrou num mete e tira, e mete de novo, delicioso.

Alheia a tudo, ela gemeu contra os lábios que a devoravam. Era disso que precisava: ser fodida... ter a mente e o corpo roubados por ele, para não sentir nada além da presença possessiva daquele corpo pesado a conduzindo para um universo paralelo de paz e luxúria.

Ele meteu, ela gemeu baixinho, ele foi duro, ela mordeu-lhe o ombro, ele equilibrou-se em um dos cotovelos e infiltrou a mão livre entre eles para dedilhar o clitóris. As costas de Lilly arquearam embaixo dele. Sua respiração pesada o estava levando à loucura.

Tão sensível... Tão... porra...

A mão enorme parou a investida entre as pernas dela, deixando Lilly a segundos de explodir em um orgasmo.

— Eu... eu... — Os quadris de Brian perderam o ritmo e, como o previsto, ele gozou rápido e duro.

— Estúdio em cinco minutos! — Batidas firmes soaram na porta.

Lilly encolheu-se, saiu do clima e começou a rir.

— Esses cinco minutos nos perseguem.

Merda!

— Em cinco o caralho, dez minutos! — Brian berrou para quem quer que fosse atrás da porta, deixando Lilly quase surda.

— Tá, mas não demorem, os caras estão impacientes lá no estúdio! — a voz gritou e afastou-se.

Quando Brian respirou fundo e tentou recomeçar os movimentos no quadril, Lilly segurou o rosto dele.

— Não... precisamos ir. Primeiro o trabalho, lembra?

— Desculpa. — Brian encostou as testas deles de forma dramática, como se o que acabara de acontecer fosse o fim do mundo. Ele estava com calor, um pouco suado e totalmente descomposto. — Você nem...

— Hey... — Lilly interrompeu-o e empurrou o corpo dele para que os dois se desgrudassem e ela pudesse sentar. E daí que ela não tivesse chegado lá? O mais importante era que os dois estavam juntos, e nem tudo, às vezes, era sobre ela. Estava feliz por Brian parecer mais relaxado. — Foi maravilhoso como sempre — não mentiu. — Só que eu prefiro continuar isso outra hora. Tem mais de cem pessoas lá fora dependendo de você, Maestro — pronunciou o título com certa pompa e levantou-se ajeitando o vestido de malha azul e o casaquinho.

Brian sentou e a observou caminhar pelo camarim até um frigobar. Lilly abriu-o e alcançou duas garrafinhas d’água, já ele esticou o corpo e alcançou a calça jeans.

Lilly entregou a água, segurando-se para não rir. Desolado, só de camiseta e nu da cintura para baixo, Brian estava engraçado.

— Por que não toma uma ducha rápida? Vai se sentir melhor para aguentar a madrugada de trabalho. — Ela abriu a garrafinha e deu um gole.

Indeciso, Brian olhou para o jeans que segurava e depois para uma porta que Lilly deduziu ser de um banheiro.

— Vai comigo?

— Não. Precisa estar naquele estúdio em cinco minutos. Não acho uma boa ideia entrarmos juntos no chuveiro. — E nem que você veja as marcas no meu corpo. Sorriu apreensiva.

— Tudo bem. — Ele levantou-se contrariado. — Vou pedir para o Daniel te levar para o hotel. — Puxou a camiseta suada por trás do pescoço e tirou.

A pele do tórax dele brilhava, coberta de suor.

Divino.

Lilly deliciou-se com a imagem daquele corpo masculino perfeito.

— Nem pensar... Eu quero ficar aqui. O sofá lá na técnica me pareceu bem confortável.

— Não — negou enfaticamente.

As mãos femininas foram parar na cintura.

— Ah... sim. E acho melhor dispensar o Daniel, ele sim, precisa descansar.

— Você precisa descansar.

Teimoso!

Lilly rogou por paciência.

— Preciso mais ficar com você.

— Mas vou passar a madrugada trabalhando. — Ele passou a mão pelos cabelos desgrenhados. — É melhor ir para o hotel e descansar em uma cama decente. Eu me viro por aqui, vai dar tudo certo.

O quê?

Como poderia deixá-lo sozinho? Se foi justo ele que lhe ensinara que o valor de um: “Eu vou estar aqui... ao seu lado”, às vezes, transcendia o do: “ vai dar tudo certo”.

Lilly o encarou com seriedade para mostrar que não estava para brincadeiras.

— Quem sabe o que é melhor para mim, sou eu — ela disse firme e a sobrancelha dele levantou de surpresa. — Juntos, lembra? Quando eu precisei, você passou as madrugadas em um sofá, mesmo exausto dos shows, só para me apoiar. Agora é a minha vez. Amanhã cedo, eu volto para o hotel. À tarde, eu tenho uma reunião no Ballet de Nova York, e à noite, continuaremos de onde paramos.

— Tem certeza? — Ele olhou de canto de olho.

— Sim, e nem ouse me convencer do contrário. Agora, entre embaixo daquele chuveiro e depois vá reger aquela bendita orquestra. — Ela apontou para a porta. — Anda logo, também preciso de um banho e não quero perder um segundo do espetáculo. Planejo ficar com os olhos pregados naquele aquário pra você, Senhor Maestro Sexy, se exibir bastante, rebolar esse traseiro lindo e arrasar ainda mais com a minha libido.

Os lábios de Brian insinuaram um sorriso.

— Ter me casado com você foi a melhor coisa que eu fiz, sabia?

— Sabia. — Lilly piscou e o coração dela sorriu. — Agora seja um homem obediente, pare de me enrolar e já para o chuveiro.

— Ok, tudo o que a minha dona chefa ordenar. — Com um certo charme bem-humorado, Brian curvou-se em uma reverência, fazendo Lilly derreter-se. Em seguida, antes de enfiar-se no banheiro, foi rindo até uma cadeira e apanhou uma mochila com roupas.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

No táxi, Lilly deu uma última olhada nos rascunhos que havia feito no Teatro de Nova York. Depois de, a contragosto, deixar Brian no estúdio, passou no hotel para trocar de roupa e partiu para uma reunião de horas com os diretores e coreógrafos. Lilly ficara boa parte da tarde acompanhando o ensaio para captar a essência do balé que seria apresentado naquela temporada. A lenda do pássaro azul.

Suspirou, olhou para Daniel entretido com algum joguinho no celular, e voltou a examinar os traços de um azul profundo que fizera. Precisava captar a essência daquela história que dizia que o pássaro azul era o símbolo de uma felicidade inatingível, onde a razão do pensamento consciente cedia lugar à fantasia e aos sonhos que emergiam dos abismos mais profundos da nossa psique. O azul tinha o poder de atingir o portal do inconsciente.

Será?

Lilly guardou os desenhos em uma pasta e passou a observar a agitação da cidade que corria desenfreada lá fora... Cores, pessoas e carros indo e vindo apressados.

Será que a felicidade total não existe mesmo?

Será que sempre haverá um ponto negro para manchar a pureza do azul?

— Mesmo o Azul é composto de luz e trevas, Lilly. Todos nós somos... — Ela lembrou-se das palavras do diretor artístico. — Ele não seria o que é, se não fossem o preto perfeito e o branco tão puro quanto o ar. Entretanto, o pássaro era um tolo sonhador e não aceitava a sua essência, na ânsia da libertação das trevas, e desprovido de ardileza mundana, se perdeu. Voou e partiu para uma busca sem fim pela pureza total, mas essa, minha querida, não existe. Somos luz e trevas... O segredo? Sapiência, minha doce Lilly. Saber qual lado iremos alimentar... as trevas ou a luz?

Ela sorriu, sentindo-se o próprio pássaro. Desejava uma felicidade total e inatingível, e como o Azul, ela tinha a sua luz perfeita e etérea... Não! Suas duas luzes perfeitas! Brian, e agora, MB, mas as trevas sempre os rondariam e nada poderia fazer em relação a aquilo... a não ser, não alimentar o obscuro.

O táxi parou em frente ao Plaza sem chamar a atenção. A tática de Daniel de evitar o SUV da banda, e a presença sabida de Brian no estúdio, estavam mantendo as fãs afastadas por um tempo.

O porteiro, vestido em um elegante uniforme negro e quepe, veio recebê-los com um sorriso estampado no rosto. O elegante senhor ofereceu-se para carregar as várias sacolas que Lilly segurava. Gentilmente ela recusou a oferta e como se fossem ouro, preferiu entregar as compras que havia feito, para Daniel.

Subiram o curto lance de escadas, coberto por um tapete vermelho, e entraram no hotel.

— Dani, será que pode deixar as coisas que comprei para o afilhado de Marie no meu quarto? — pediu.

— Claro. — Ele levantou as várias sacolas e sorriu. — Não vai subir?

Lilly quase corou, odiava mentir.

— Só depois de me encontrar com o concierge. Eu pedi que ele preparasse algumas coisas. O Brian deve voltar a qualquer momento.

— E se precisar de mim?

Lilly girou os olhos ao redor e sorriu.

— Não sou feita de louça, Dani, não pode me seguir por aí, vinte e quatro horas. Qual é? Estamos no hotel mais seguro de Nova York... relaxe.

Mesmo não gostando muito, Dani assentiu e atravessou o saguão do hotel em direção aos elevadores, enquanto Lilly percorria o elegante lugar em direção à escada. No subsolo do Plaza havia diversos restaurantes, lanchonetes e cafeterias. Entrou no Tood English, um lugar pequeno, discreto e com poucas mesas que era mais utilizado para refeições rápidas e encontros.

Sabia que o concierge estaria ali e não teve dificuldade para encontrá-lo ao lado do bar. O homem alto, com uma espessa cabeleira ruiva acenou assim que a viu. Prestativo, explicou-lhe que tudo que Lilly havia pedido mais cedo, estava pronto... as flores da suíte... a refeição leve à

base de sushis e uma garrafa de Taste of Diamonds[81]. Uma extravagância bem cara, ela sabia, mas a garrafa daquele champanhe tinha um quê especial que combinava com a ocasião. Ela era adornada por um cristal afixado dentro de um emblema que lembrava muito o símbolo do Super-Homem.

Depois de quebrar a cabeça, Lilly achou que um pouco de humor a ajudaria na difícil missão de contar sobre a gravidez.

Ela queria brincar com o fato de Brian tê-la engravidado logo de primeira. Coisa que só alguém com superpoderes de fecundação poderia fazer. Já o cristal, era o bem mais precioso dela... Seu MB, a sementinha que em poucas horas tinha trazido um brilho especial para a vida dela.

Passado o susto, Lilly estava muito animada e otimista. Com certeza, Brian adoraria a novidade!

E talvez, ela fosse precisar mesmo de dois aviões para voltar para casa. Lilly divertia-se com os pequenos mimos para Brian, mas, agora, outra pessoinha tinha entrado na brincadeira. Antes da reunião, ela não resistira ao seu novo vício e também comprara “algumas muitas” coisinhas para o filhotinho dela.

— Obrigada, Paolo — Lilly agradeceu ao concierge. Ela ainda precisava tomar um banho e conferir se a base que tinha comprado era mesmo tão milagrosa quanto a vendedora da

M.A.C [82] lhe dissera. Segundo ela, foi a mesma que certa cantora famosa usou para esconder as marcas no rosto provocadas pelo namorado mais famoso ainda.

— Daqui a pouco enviarei alguém para reabastecer o balde com gelo — o concierge disse.

— Vou estar no banho, mas deixarei a porta entreaberta — avisou, sabendo que os quartos da cobertura, por segurança, não tinham chaves mestras para uso dos funcionários.

Despediram-se e ao se virar, Lilly não pôde deixar de reparar na animação de um casal que se agarrava em uma mesa discreta, mas não tão escondida, ao ponto de acobertá-los por completo.

O rosto dela endureceu quando o homem parou o beijo que dava na loira estonteante e a encarou surpreso.

Merda de espelho!

Lilly olhou para o rosto da mulher refletido na parede atrás deles.

Puta que pariu! Não pode ser!

Desgraçados!

De repente, tudo fez sentido e uma onda de indignação tomou conta das veias dela. Desgraçados! Sem saber o que fazer e nem um pouco disposta a enfrentá-los, Lilly saiu apressada. Para a sua sorte, avistou um grupo que embarcava em um dos elevadores aos fundos da galeria. Gritou pedindo que a esperassem e correu.

Entrou com eles e antes que as portas se fechassem totalmente, um rosto tão parecido com os que ela amava, a escrutinou da porta do restaurante. Respirou aliviada quando o aço cortou o contato entre eles e o elevador subiu.