Enlaçados: Sex and Rock

Anne Krauze · Capítulo 44 de 50

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Enlaçados: Sex and Rock

Capítulo 42

Lilly pegou uma boa dose de base e espalhou-a sobre as marcas proeminentes acima

dos cotovelos. Do banheiro, ouviu quando o camareiro entrou e repôs o gelo. Até pensou em vestir o roupão para entregar-lhe uma gorjeta, mas ainda estava muito chocada com o que vira, para ter qualquer contato humano.

Droga!

Com tanto lugar no mundo... Eles tinham que estar justo aqui?

Chocada era pouco. Tanto tempo querendo saber porque Brian tinha rompido com Kate. Tantas especulações... tanto silêncio. Agora entendia porque Kate e o pai dele eram assuntos dolorosos para o músico...

Desgraçados!

Lilly estava inconformada.

Ela já tinha percebido uma certa insegurança e desconfiança bem disfarçadas em algumas atitudes de Brian. Achava que era ciúme ou até mesmo possessividade, só que agora, estava claro. Tudo culpa daqueles dois! Não era à toa que Penny lhe dissera que Brian passara por momentos bem sombrios. A biscate "polva" o tinha traído com o próprio pai! Inacreditável! Aquilo, na escala de traições de Lilly, era muito pior do que Ava tinha feito com ela.

Deus, isso traumatiza qualquer um! Coitado do meu Maestro.

Perguntando-se como Sarah conseguira relevar uma atitude como aquela, vinda do marido, Lilly terminou de cobrir os roxos no braço. Em seguida, vestiu e amarrou o roupão com a mesma vontade que estava de estrangular aqueles dois.

Lilly apoiou as palmas das mãos no mármore gelado da pia e fechou os olhos. Estava com o coração apertado e numa sinuca de bico.

— Fiquei feliz que tudo tenha corrido bem em Londres. Acho que não suportaria outra bomba. — Lembrou-se das palavras do músico.

Inspirou e soltou o ar bem devagarinho. Por mais que ela o idealizasse como um super-herói, Brian era de carne e osso, não de aço.

Ai, ai... meu grandão, até super-heróis têm lá as suas kriptonitas, né? E a sua, meu amor, atende pelo nome de Ian Pierce.

É, definitivamente, Lilly não falaria nada sobre o que tinha visto. Do fundo do coração, sabia que aquele não era um assunto dela, e ressuscitar velhos traumas só o prejudicaria.

Amar não é isso? Proteger?

Lilly saiu do banheiro e entrou no quarto a tempo de encontrar o camareiro que empurrava um carrinho de buffet, pronto para sair. Ela o chamou pedindo que aguardasse por uma gorjeta. O jovem de uniforme vermelho e chapéu esquisito ficou um tiquinho constrangido ao notar que a bela senhora estava de roupão. Achou-a estonteante e as bochechas magras dele coraram. Com lisura, agradeceu a nota de cem dólares, e apressado, empurrou o trambolho até a porta e saiu.

Ela mal teve tempo de virar para admirar a bela arrumação que haviam feito e ouviu batidas na porta. Decerto, o camareiro havia esquecido algum detalhe. Abriu-a e tentou fechá-la na mesma hora.

Merda!

Seu corpo pequeno e leve não foi páreo para a fúria morena grisalha que empurrou a porta e entrou na base da força.

O coração de Lilly disparou de um jeito ruim, quando ela deu um pulo para trás, na tentativa de se afastar ao máximo, do homem que respirava ruidosamente diante dela.

— Saia já do meu quarto! — gritou indignada e segurou as golas do roupão mantendo-as bem juntas.

— Não sem antes termos uma conversinha — murmurou ele ofegante e Lilly perguntou-se se Ian havia subido até ali pela escada.

— Não temos nada para conversar.

— Quero que esqueça o que viu. Nem uma palavra, entendeu?

As sobrancelhas delicadas dela franziram. Já tinha decidido pelo silêncio, mas, claro, não diria nada ao ordinário. Sem chances de dar aquele prazer a ele. O homem estava em pleno agarramento em um lugar público, certamente outras pessoas o haviam reconhecido.

— Não é comigo que tem que se preocupar. Onde está a sua amante? — Olhou para a porta escancarada.

— Kate foi dar uma volta. Somos eu a você. — Os olhos frios percorreram o corpo de Lilly, deixando-a ainda mais nervosa.

— O Brian já vai chegar, saia daqui.

Um brilho repentino iluminou os olhos dele.

— Que chegue, aquele lá é um frouxo, não vale nada...

O quê?

— Quem não vale uma merda é você! — interrompeu-o e deu-lhe o seu pior. — Deus! Como pôde trair o seu próprio filho? Dar em cima da noiva dele?

— Pera lá... Eu não dei em cima de ninguém! Eu sou o astro! — ele disse e a raiva de Lilly só aumentou. — Ela que veio para cima... Além do mais, pego daquele projeto mal feito de mim mesmo, o que eu quiser. O merdinha me deve o nome, o Oscar, tudo o que é.

— Seu lunático invejoso! O Brian é muito maior que você, que esse seu nome. Ele é um gênio, isso sim! E, se hoje brilha mais do que você, é por mérito dele!

Pego de surpresa pela ira daquele pedaço de carne delicioso, Ian não pôde conter o riso.

— Ninguém brilha mais do que eu, Brinquedinho — gargalhou. — Sei muito bem o que fazer para a estrela dele apagar.

O quê? Ele é seu filho, pelo amor de Deus!

Lilly respirou fundo, desejando ter ouvido errado, mas já tivera oportunidade de julgar o verdadeiro caráter de Ian. Não só pelas conversas com o marido, mas por experiência própria, nas duas míseras vezes que haviam se encontrado. O pai do Brian não prestava.

Narcisista, filho da puta!

Ela perdeu a compostura.

— Você é um monstro!

Ian ignorou-a, girou os olhos ao redor, a atenção dele recaiu sobre o champanhe que descansava no balde de gelo e sorriu com mais desprezo para Lilly.

— Estão se tratando bem, hein? Aproveitem... isso um dia vai acabar. — Ele estalou a língua de um jeito que fez Lilly estremecer.

— A Kate? Fez de propósito, não fez?

— Ele precisava entender quem é a estrela da família. Quem é o preferido do público, só o coloquei no lugar.

— Inacreditável... — Lilly murmurou mais para si mesma.

Ela queria que Ian fosse embora. Ele ali, parado no meio do quarto como se fosse o dono de tudo, era insuportável.

— Não sou homem de passar vontades... — Fixou o olhar onde a ondulação dos seios de Lilly era visível sob o roupão. Nojento! — Já disse, pego o que eu quiser. — Estreitou a distância entre eles.

— Nem se atreva... — Lilly deu um salto para o lado, quase esbarrando na cama. — Respeite ao menos a sua mulher! Ela sabe que está aqui? O que faz?

— Tire o nome dela da boca! — vociferou, deixando claro que Lilly havia passado dos limites. — Sarah é assunto meu... é bom aquele merdinha continuar bem quieto e controlar a sua boca ou... — Os punhos dele fecharam.

Ou o quê? Vai me bater?

Lilly procurou algo para tacar na cabeça de Ian, mas não havia nada ao alcance das mãos dela.

— Você é asqueroso.

Ele gargalhou e os punhos relaxaram.

— Deixa de se fazer de rogada, Brinquedinho... Vejo o jeito que seus olhos brilham quando me olha.

Não brilham! Queimam de nojo!

— Você está louco! Eu amo o Brian.

Ian fez um gesto de puro desdém.

— Ama nada... não dou nem cinco minutos para rastejar atrás de mim, igual a Kate fez. Todas rastejam. Porque não começa agora, e fica de quatro...

O pior lado de Lilly aflorou.

— Seu pervertido fodido do caralho! Saia!

Ian adorou ver a boquinha linda de Lilly proferindo aqueles insultos. Tesuda! O pau dele vibrou, adoraria domar a ferinha.

— É disso que gosta, Brinquedinho? De uma sacanagem bem suja?

Os olhos de Lilly dobraram em choque. Ela abriu a boca e fechou, e nada lhe veio à cabeça. Tudo que pensava era que precisava escapar dali ou o pior poderia acontecer.

— Vem... tira esse roupão, quero esse rabo bem empinado para eu te foder com os dedos, enquanto chupa o meu pau.

— Seu doente! — Ela tentou correr até a porta, mas o braço dele a enlaçou como um ioiô e o corpo de Lilly ricocheteou.

Ian moveu-se com rapidez, jogou-a na cama e debruçou-se sobre ela enfiando o joelho entre as coxas de Lilly, imobilizando-a. Abafou o grito de socorro com a mão.

— Adoraria ouvi-la gritar, mas é melhor evitarmos um escândalo.

As mãos de Lilly voaram para os cabelos dele puxando-os. Ela estava apavorada... morreria, mas não ia se deixar ser estuprada. O cheiro de bebida que ele exalava a deixou enjoada. Debateu-se, o roupão abriu, só aumentando mais o modo voraz com o qual ela a olhava.

— Tetas lindas. — Ian pressionou a virilha entre as pernas dela e um traço de ereção se fez presente.

Não! Não! Não!

Lilly começou a espernear já sem ar, a boca de Ian aproximou-se do mamilo dela, e ela fechou os olhos quando a língua nojenta dele se projetou. O contato asqueroso que ela esperava não aconteceu. Abriu os olhos quando um rugido furioso explodiu no quarto e o corpo de Ian foi arrancado de cima do dela.

— Brian! — ela berrou assim que sua boca ficou livre.

— Seu desgraçado! — a voz de Brian estava irreconhecível pela fúria. — Ela não! Ela não! Ela não! — ele repetia como se estivesse em transe.

Ian gargalhou.

— Já deveria estar acostumado a perder para mim, seu Bostinha.

Desnorteada, Lilly sentou na cama. Os dois estavam frente a frente, corpos retesados, punhos cerrados e com os olhares mortais fixos um no outro.

— Filho da puta! — Brian rosnou.

— Ela é mesmo deliciosa. — Ian molhou os lábios.

Lilly assistiu horrorizada, Brian lançar-se sobre o pai como um tigre voraz e mortal. Os dois homens se chocaram, cambalearam e derrubaram a mesa delicadamente posta. Taças, louças e o balde de champanhe voaram até se espatifarem em mil pedaços no chão de mármore Carrara.

Jesus!

Lilly pulou ficando de joelhos no colchão. Uma onda de socos começou... era como assistir dois lobos de matilha disputando território. Brian era visivelmente o mais forte e o mais furioso. O coração de Lilly quase entrou em colapso de tanto que começou a bater... Deus! O braço forte do músico projetou-se e desferiu um golpe de direita no maxilar do pai.

— Você foi longe demais! — rugiu.

Oh, meu Deus!

— Daniel! Ajuda aqui! Ele vai matá-lo! — ela gritou o mais alto que pôde, quando o corpo de Ian caiu e deslizou por entre os cacos de vidro da garrafa quebrada.

Lilly arrastou-se para fora da cama e agarrou a cintura de Brian, colando o corpo seminu às costas dele. Ambos tremiam e ela podia sentir as batidas enérgicas do coração dele.

— Não, amor.

Tentou acalmá-lo, mas foi em vão. O ódio o tinha deixado irracional.

— Me deixa! — Ele desgrudou as mãos dela de sua cintura, balançou o corpo e Lilly voou para longe, caindo sobre as malas abertas no chão.

Outro mergulho e Brian voltou a se atracar com o pai, que proferia toda espécie de barbaridades.

— A putinha que veio atrás de mim! — Ian berrou antes de tomar outro soco.

— Mentira! — Brian vociferou e socou o rosto do pai novamente.

Lilly queria gritar, mas estava congelada. Nunca tinha visto tanta agressividade e ódio. Os dois se detestavam, não havia nenhum elo de amor entre eles. Aquele monstro já tinha destruído o filho uma vez e queria fazê-lo de novo. Lágrimas começaram a rolar sem controle pelo rosto dela.

Uma gargalhada de deboche reverberou.

— Disse a mesma coisa quando me pegou com a Kate. — Foi a vez de Ian atingir o filho com bem mais do que um soco. O homem parecia ter prazer em humilhá-lo. — Aceita logo, que dói menos... vou comer a putinha, e como sempre, não fará nada.

Brian ergueu o braço para outro golpe, mas congelou segundos antes de Daniel entrar no quarto, imobilizá-lo por trás e arrastá-lo para longe do pai.

— Calma, pensa... respira... ele não vale a pena... se controla... — O segurança recitava com voz firme.

Ian sentou-se com dificuldade e limpou o canto da boca que sangrava. Brian olhou para o pai e depois para Lilly, seminua diante deles.

De novo, não!

Merda!

O cérebro dele desligou, contaminado pelos flashes de memória sobre o que acontecera no passado. As sensações ruins e sufocantes voltaram com tudo envenenando qualquer pensamento racional de Brian. O corpo de Kate sob o do pai... o choque... a briga... a humilhação... o medo de que a mãe atentasse contra a vida dela novamente... o silêncio... a dor... muita dor...

Como um robô, Brian levantou-se e saiu em disparada do quarto. Do jeito que estava, Lilly saiu do meio das malas e correu atrás dele só para ver a porta do elevador fechando, segundos depois de Brian socar as paredes de aço.

— Brian! — tentou gritar em vão ao chegar perto e começar a apertar os botões, desesperada.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

Quatros horas depois...

 

— Lilly é melhor voltarmos. — Daniel segurou o ombro dela. — Já percorremos todos os bares possíveis — disse, imaginando que em algum ponto do caminho, Brian deveria ter tomado um táxi.

Depois de Lilly expulsar Ian sob a ameaça de denunciá-lo por estupro e de contar tudo para Sarah, ela vestiu a primeira camiseta e jeans que encontrou e os dois desceram para procurar o músico. Já estavam há horas perambulando de bar em bar à procura dele.

— Ele tem que estar em algum lugar... o porteiro disse que ele saiu a pé. — Ela parou e olhou em volta, indecisa. As pessoas que andavam apressadas na calçada começaram a desviar deles. Do nada, Lilly abraçou o segurança afundando o rosto no peito imenso dele. — E se ele acreditou no que o pai dele disse? Eu juro... — soluçou.

Lilly estava despedaçada e nada do que Daniel havia lhe dito fora capaz de diminuir o aperto no peito dela.

Entre um bar e outro, seu anjo da guarda explicou que Ian aparecia no Plaza toda vez que a banda estava na cidade, que fazia extravagâncias nos restaurantes e creditava tudo na conta do filho. Tentou convencê-la de que a reação de Brian ia muito além do que acontecera apenas naquela noite. Que o amigo estava com as traições do pai engasgadas na garganta, e que por causa delas, Sarah tinha tentado o suicídio quando Brian era pequeno e só não morreu, porque o filho a tinha encontrado... que o músico não queria que a mãe sofresse mais, mas se culpava por nunca ter contado para Sarah o que acontecera de fato com Kate.

Droga!

O meu Brian está em algum lugar... sofrendo e vulnerável!

— Deus, eu o amo tanto! — Ela recomeçou a chorar. — Eu jamais...

— Shhhh, eu sei... eu sei... — O segurança a envolveu em um abraço protetor. — Conheço o meu amigo. Ele só precisava respirar... Aquele bosta do Ian tem o poder de quebrá-lo — controlou o tom para esconder a raiva. Aquele atorzinho desgraçado aprontava as piores barbaridades e sempre usava a fragilidade de Sarah para chantagear o filho e mantê-lo calado. — Na certa, Brian deve estar por aí enchendo a cara até recobrar a razão. O que aconteceu foi pesado demais. Vamos... — Girou os calcanhares e mudou de rota conduzindo Lilly aninhada sob as asas dele.

Assim que despontaram na esquina, o rosto do porteiro iluminou-se. O homem gesticulou um positivo e apontou para o hotel.

Lilly saiu correndo, passou sorridente pelo porteiro e subiu o lance de escadas como um foguete, quase se chocando com um grupo que saía alegremente do hotel. Ela desviou deles, entrou e atravessou o saguão sem olhar para os lados.

Caralho, que rápida!

Daniel seguiu firme em seu encalço e embarcaram no primeiro elevador que chegou. Ele estava aliviado, tinha cometido um erro. Não deveria ter apoiado o Brian quando ele decidira por ficar em Nova Iorque sem qualquer segurança.

Nunca mais... prometeu-se. Sem essa de "sei me cuidar e preciso de um respiro".

— Vou dar espaço para vocês se acertarem e esperar no corredor, mas aconteça o que acontecer, calma, ok? — Daniel pediu para uma Lilly descabelada e vermelha. As solas dos pequenos All Stars vermelhos batiam com impaciência, enquanto ela olhava fixamente para os números aumentando no visor.

— Estou calma... — ela mentiu baixinho.

Alimente a luz não as trevas...

Lilly começou a mentalizar, porém mal o elevador parou, ela espremeu o corpo por entre as portas semiabertas, correu para o quarto e parou assim que viu o que acontecia lá dentro.

Ah, não... Hoje é o dia! Outra vez, não... De jeito nenhum!

Lilly puxou o ar com fúria. Até quando aquela vaca perseguiria o marido dela? A peito GGG não fazia nada da vida, além de ir de cidade e cidade atrás do Brian? Respirou fundo mais uma vez...

Luz, não as trevas...

Luz, não as trevas...

Vermelho!

— Que se foda a luz! — Lilly berrou e caminhou decidida em direção à cama. Agarrou os cabelos loiros de Diana e puxou-os com tudo. A mulher, que alisava o peito de um Brian totalmente vestido e semi-inconsciente na cama, caiu para trás.

A ira de Lilly estava em grau máximo. Duas tentativas de abuso no mesmo dia eram demais.

— Solta o meu marido, sua vaca! — berrou certa de que a loira planejava despir Brian para forjar um flagrante. — Não vou cair no seu teatro de novo!

Diana tentou se livrar do aperto de aço em seus cabelos.

— Ai, ai... meu aplique, me larga! Estou cuidando dele!

— Quem vai cuidar dele sou eu! — Lilly começou a arrastar a mulher pelo chão do quarto com uma força que nem ela sabia que tinha.

— Seu marido uma merda, sua farsante! — Diana tentou em vão fincar os saltos no chão para brecar a fúria do arraste de Lilly.

— Cale a boca, vaca! Vai aprender de uma vez por todas quem manda aqui!

Diana gargalhou.

— Manda uma ova! Ele estava sozinho e arrasado no clube! Tudo culpa sua! Sorte que apareci por lá para apoiá-lo.

— Já mandei calar a merda da sua boca! — Lilly rugiu como uma leoa. — Nunca mais chegue perto do Brian!

A loira foi gritando mais barbaridades, enquanto era arrastada como um saco de batatas. Tomada pela ira, Lilly não ouvia uma só palavra do que ela dizia.

— Ordinária anã! Eu sabia que tinha alguma coisa esquisita nesse casamento!

Atraído pelos gritos femininos que não eram de Lilly, Daniel entrou no quarto.

Porra!

Fechou os olhos e xingou-se mentalmente.

Que merda! Sou um idiota! Como não me lembrei do clube privado que os caras da banda e a Diana costumavam frequentar?

O segurança abriu os olhos e pensou em intervir, mas parou. A baixinha deles sabia se defender e precisava daquilo: ensinar uma boa lição para aquela vadia.

De prontidão, assistiu Diana ser arrastada até o corredor. Não conteve o riso quando o salto dela quebrou, em outra tentativa de frear o furacão chamado Lilly.

— Daniel! Leve essa vaca até a recepção e certifique-se de que ela nunca mais tenha acesso ao hotel. Avise ao gerente, que mais tarde, eu mesma farei uma queixa formal.

— Me solta, sua psicopata! — A loira estrebuchou no chão, com o vestido vermelho que usava, acumulado na cintura.

Lilly soltou os cabelos de Diana e jogou no chão, um punhado de aplique que ficara preso entre os dedos dela. A loira se levantou e Daniel colocou o corpo entre elas.

— Sou sim... muito psicopata... um demônio... o seu pior pesadelo, a partir de agora — Lilly disse com uma calma assassina e encarou a mulher que tentava se recompor. — Esqueça que nós existimos. Não é páreo pra mim, Diana. Vou defender a minha família a qualquer custo e vou acabar com a sua raça se chegar perto de qualquer um de nós novamente.

— Está me ameaçando? — Os olhos de Diana estreitaram.

— Estou! — Os olhos de Lilly fizeram o mesmo.

Sem dar chance de resposta para Diana, Daniel ergueu-a pela cintura e apressou-se na direção contrária do quarto.

— Quando encerrar com essa aqui, eu volto para te ajudar! — avisou, ignorando os gritos da loira em seu poder.

Quando o elevador fechou levando os dois, Lilly encostou-se na parede e espalmou as mãos na barriga. De olhos bem fechados, puxou o ar uma série de vezes. Ela não sabia dizer o que estava mais acelerado... Se o coração ou a respiração.

— MB, fica direitinho aí dentro, e nem ouse me assustar, está ouvindo? Já chega o maluco do seu pai. Meu amor, a mamãe precisa que seja forte. Somos um time, o papai precisa da gente, promete ser meu guerreiro?

Lilly deixou as lágrimas aflorarem, precisava de um tempo, antes de enfrentar a Fera baqueada no quarto. Estava exausta... e se não fosse pela certeza de que morreria longe de Brian, fugiria dali para nunca mais voltar.

Procurou acalmar-se e limpou as lágrimas, concentrando-se no que era de fato importante: Brian, o amor da vida dela, que estava bêbado com um gambá, vulnerável e ferido na alma. Droga! Se ela pudesse, trocaria de lugar com o marido, e estranhamente, não estava abalada com o ataque de Ian, pois, no fundo, já esperava por algo parecido.

Rezou baixinho, pedindo ajuda e forças para os pais falecidos, e uma onda de determinação e fé percorreu as veias dela.

Voltou para o quarto e não soube se chorava ou ria. Brian estava de pé ao lado da cama, tentando desajeitadamente se manter de pé, todo descabelado e mais vomitado do que a garota do Exorcista versão 3.0. Riu de nervoso quando, em um movimento nada gracioso, ele tentou arrancar a camiseta e caiu sentado na cama.

— Opa, por que o quarto está girando? — Brian perguntou para o nada e com as mãos instáveis, procurou os botões do jeans.

Lilly apressou-se e ficou de pé diante dele.

— Deixa que eu ajudo. — Inclinou-se para tocá-lo.

— Não. — Brian afastou as mãos dela e esforçou-se em uma expressão zangada. — Saia daqui.

Um cheiro forte de álcool subiu.

Droga, isso vai ser difícil.

— De jeito nenhum.

— Saia — ele insistiu, mal equilibrando o corpo no colchão.

Ok...

É assim que vai ser?

Tudo bem.

Depois de ver Diana, Lilly meio que já esperava por uma reação daquelas. Ficou claro que a GGG não perderia a chance de alimentar os demônios de Brian e colocá-lo contra ela.

— Está bem, eu saio, mas só depois que tomar banho.

— Não... se vai me trocar por ele, prefiro ficar sujo — ele disse com voz enrolada.

Hã?

Lilly sentou e tocou no rosto suado e machucado de Brian.

— Eu não vou trocá-lo, nunca.

A expressão dele ficou confusa.

— Não vai? Por quê? Cadê o meu pai? — havia uma certa apreensão no seu tom de voz.

— Caralho, eu o matei?

A sobrancelha dela levantou, quando mirou nos olhos dele e constatou que os violetas e azuis estavam totalmente desfocados e nublados.

Droga! Quanto será que esse homem bebeu?

Brian parecia alternar-se entre a semilucidez e a embriaguez total.

— Calma, ninguém morreu. — Acariciou-o novamente. — O Ian saiu por conta própria, um segundo depois de você. Ele não queria um escândalo. — Ela achou melhor omitir os detalhes sórdidos das ameaças que fizera ao ordinário. E mesmo sob os protestos de Brian, Lilly agarrou a barra da camiseta gosmenta e arrancou-a pela cabeça melada. — Está nojento. — Franziu o nariz arrebitado, jogou o tecido fedorento em um canto e controlou uma onda de enjoo. Se havia uma coisa no mundo, que a fazia querer vomitar, era vômito.

— Está com nojo de mim? Desde quando? Vai... enfia logo a faca em mim! — Ele bateu no peito dramaticamente. — Me abandona logo, porra!

Cristo!

— Será que dá pra fechar essa matraca? — Lilly empurrou o peito estapeado, até que Brian caísse de costas na cama. — Se comporte.

— Hey, eu não sou um maldito bebê!

Maldito?

O coração de Lilly apertou e ela disse a si mesma, que aquelas palavras eram só o efeito da bebida, nada mais. Brian tinha um coração amoroso, não poderia odiar nunca os bebês...

Poderia?

Lilly respirou fundo.

— Então pare de agir como um. — Ela arrancou os tênis dele e, em seguida, desabotoou a calça e puxou-a com tudo. — Sei do que está precisando.

Carinho.

— Sai pra lá... não vai transar comigo por pena — Brian grunhiu em um lamento para em seguida, cobrir o pau mole com as mãos. — Não quero sexo de consolação, não depois de ter transado com o meu pai.

Quem aqui está pensando em transar? Dai-me paciência!

Lilly conferiu a Fera nocauteada e suspirou com certo alívio. Sóbrio, ele jamais a trairia, e bêbado, bom... as evidências físicas eram óbvias. Transar com a Diana não tinha rolado... Era mecanicamente impossível... não com um defunto entre as pernas.

Obrigada, Deus!

Ela olhou com carinho para ele. Mesmo bêbado, machucado e fedendo como um gambá, continuava lindo. Então prendeu o ar e puxou-o pelos braços.

— Vem cá, meu chato. — Brian sentou por inércia e o corpo dele pendeu para um lado. Droga! Ela o sustentou. — Um, prefiro morrer a transar com aquele asqueroso do seu pai... e dois, nada de sexo entre nós, está entendendo?

— Não. — A expressão perdida de Brian indicava claramente, o quanto ele não estava entendendo nada.

— Seu pau morreu! Já era! — ela explicou em uma linguagem fácil de ser entendida.

Apesar de exausta, Lilly segurou o riso quando Brian girou a cabeça para encará-la. Ele estava com um olho aberto e outro fechado.

— Morreu? — Baixou a cabeça e mirou na cena fúnebre em sua virilha.

— Hum-hum... você matou, afogado no álcool.

— É, matei. — Arrotou e sorriu torto. Nossa, que charme! Lilly olhou para os lados à procura de um balde. — Me dá uma faca, que vou cortar essa merda! — Ele agitou-se. Não! Lilly não aguentou e riu. — Não é engraçado, é trágico. Nunca mais vou transar. — Arrotou de novo. — O Ian não desiste e quando ele te roubar de mim, vou virar monge e depois morrer. Sacanagem! Eu te amo, porra! — O rosto dele franziu.

Lilly deu um salto, assim que uma nova onda de vômito tingiu o chão do quarto.

— Isso é vinho?

A voz de Daniel tirou Lilly do estado de paralisia. Ela desviou o olhar da poça roxa e assentiu para o segurança.

— Vinho, entre outras coisas.

— Isso é nojento! Como ele está?

— Poderia estar pior, vai superar.

— Ele vai se odiar amanhã, isso sim. — Ainda impressionado, Daniel apontou para o corpo nu e inerte de costas no colchão. — Só com muito amor, né?

Droga! Tanto trabalho para fazê-lo sentar.

Lilly sorriu desolada.

— É... só com todo o amor do mundo. — O nariz dela enrugou com o mau cheiro que subiu. — E um banho... O meu boxeador precisa de um banho.

— Precisa mesmo, e vocês de outro quarto.

O aposento de Daniel ficava colado ao deles e havia uma porta interna interligando-os. O segurança não teve dificuldade em passar por ela com Brian nos braços. Depois de analisar as possibilidades, ele decidira que era muito arriscado ligar para a recepção e pedir um novo quarto. Já tinha sido um custo calar a boca de Diana e fazê-la sair pela garagem. Conhecia o Plaza, os paparazzi costumavam manter uma rede de informantes espalhados pelo hotel.

Para alívio de ambos, Brian chiou, mas não ofereceu muita resistência quando o colocaram sentado no chuveiro. Daniel ajudou Lilly e em pouco tempo, o Belo Bêbado já estava limpo, vestido e profundamente adormecido.

... ... ... ... ♥♫♥♪♥ ... ... ... ...

 

— Lilly, acorda — uma voz preocupada a arrancou de um sono tenso, no qual Brian tinha composto uma música onde a acusava de traição e depois a cantava para milhares de pessoas. — Lilly. Preciso ir.

Pra onde?

— Lilly.

— Hã? — Ela entreabriu os olhos e a luz vinda de um abajur a incomodou.

— Preciso voltar para Los Angeles. — O rosto cansado de Daniel emergiu por trás das costas de Brian, que dormia agarrado a ela. Lilly levou uns segundos para lembrar por que diabos o segurança estava ali, esticado no colchão.

Ah!

Eu mesma que mandei!

Depois de um pequeno debate sobre o quanto era absurdo Daniel dormir em um sofá apertado, quando a cama era gigante, o guarda-costas cedeu aos argumentos de Lilly e deitou-se com eles.

— Precisa o quê? — ela murmurou.

— Voltar para Los Angeles. O Gabe...

— O que tem? — Lilly tentou sentar, mas o corpo desmaiado de Brian estava pesando uma tonelada. — O Brian.

— Não o Brian, o Gabe.

— Não o Gabe... o Brian... tira ele de cima de mim.

— Ah...

Daniel segurou Brian pelo ombro e cintura, rolando o corpo dele. Assim que ele ficou de barriga para cima começou a roncar. Exausta, Lilly riu.

— Meu príncipe tem um lado bem ogro, né?

— E não temos todos? — O segurança estava impaciente e preocupado.

Ela assentiu.

— É, todos temos. — Sentou e puxou o ar. — Por que essa sangria desatada? Voltar para Los Angeles no meio da madrugada?

— O Gabe ligou... meteu-se em uma enrascada e pediu para eu ir buscá-lo.

— Enrascada? — a voz de Lilly saiu em um quase grito e ela olhou para Brian, que nem se mexeu.

Ela respirou fundo. Outra bomba? Pobre Mark! Não era à toa que o empresário era tão estressado. A cada passo que seus meninos de ouro davam ou era um flash, um casamento ou um soco.

— Vou pedir um táxi e correr para o aeroporto. — Daniel levantou e o colchão subiu com a ausência do peso do corpo dele. — Têm voos de hora em hora.

— Mas e o pessoal?

— Ele não quer que ninguém saiba o que aconteceu. — O segurança foi até uma cadeira, com algumas roupas jogadas, e trocou o shorts e camiseta que usava por elas.

— Mas o que aconteceu? Onde ele está? — Lilly despertou de vez.

— Ele não disse, mas deve ter se metido em algo grande, para não querer envolver os outros caras, e muito menos Mark. — Daniel começou a enfiar as coisas dele de volta na mochila.

— Ele está escondido em um beco em East LA [83], nenhum táxi se arrisca a passar por lá a essa hora e mesmo que ele conseguisse um, está com medo de ser reconhecido.

— Merda! — Por inércia, Lilly também levantou e começou a se arrumar.

— O que está fazendo?

— Eu vou com você. Não tem cabimento pegar um avião, se temos o jatinho lá no hangar. Num voo comum levará mais de sete horas pra chegar. Não dá pra fazer o Gabe esperar tanto. — Ela alcançou o celular na mesinha de cabeceira e começou a tocar a tela, que acendeu iluminando ainda mais o quarto.

— Não pode ir... o Brian. Não está pensando em deixá-lo aqui, está? — Os olhos de Daniel cresceram.

— Claro que não! — Lilly sorriu amorosamente para Brian. — O dorminhoco vai com a gente.

— Mas do jeito que ele está, vai ser uma guerra acordá-lo!

— Eu sei, mas a gente dá um jeito.

— O que está fazendo? — Daniel apontou para o celular na mão dela.

— Ligando para a Mel. Mesmo de jato vamos demorar umas quatro horas e meia. Não vou deixar o Gabe todo esse tempo naquele bairro perigoso. Vou pedir que ela vá até lá com o Max, resgate o Gabe e o leve para a minha casa... — Ela olhou para Brian apagado e roncando alto. — Para a nossa casa... ninguém vai saber que ele estará lá.

— A Mel, a jornalista? Não sei não. — O segurança coçou a cabeça.

— Relaxa, eu confio nela. Não vai contar ou publicar nada. — Lilly olhou para o rosto indeciso de Daniel. — Qual é? Confie em mim... além do mais, você não tem opção. Não vou deixar o Gabe ao deus-dará e muito menos permitir que você passe por esse perrengue sozinho. — Ela apontou para o Brian. — Obrigada por hoje, não sei o que eu faria sem você. — Ela aproximou-se e tocou o braço enorme dele. — Amigos se ajudam. — Piscou.

Passaram a próxima meia hora organizando tudo. Ligaram para o Max e a Mel, que saíram para resgatar Gabe na mesma hora. Daniel avisou ao piloto sobre a viagem de urgência e Lilly ligou para Marie, a fim de orientá-la sobre o hóspede secreto. Em seguida, o segurança desceu para o depósito e pegou dois carrinhos de bagagem sem que o vissem. Quando voltou, Lilly já tinha todas as malas alinhadas ao lado da porta.

— O que está fazendo agora? — Daniel perguntou a ver Lilly sentar ao lado da mesinha de cabeceira e apertar um botão no telefone central do hotel.

— Ligando para o concierge. Vamos precisar de um reforço. Não vai dar pra sair com o Brian desmaiado pelos corredores. As câmeras vão filmar tudo e vou pedir que cobrem no meu cartão o estrago do quarto ao lado. A última coisa da qual precisamos é de um Mark furioso nos interrogando sobre a destruição que foi feita lá.

— Será que esse homem é de confiança?

O nariz de Lilly franziu, indicando que ela achava que não.

— O dinheiro que darei a ele é de muita confiança. Ficaremos bem.

Daniel estava impressionado com o senso prático de Lilly.

Minutos depois, a campainha tocou indicando que o concierge havia chegado. Ela abriu a porta e um muito sonolento senhor estava no corredor ao lado de uma cadeira de rodas vazia.

— Desliguei as câmeras de segurança... Só não entendi por que me pediu para trazer isso?

Lilly abriu um sorriso iluminado, deu um passo para o lado e deixou que o concierge visse o Belo Adormecido Roncador estirado na cama.

— Para isso. — Sorriu mais ainda.

O queixo do homem caiu.

Lilly ignorou a cara de espanto do concierge, virou e sorriu carinhosamente para Daniel.

— Preparado, meu protetor?

— Sim... vamos nessa.

— Pegue o Brian.