Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 15 de 68

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Escolha a Catástrofe

Catástrofes do Segundo Grau

Parte II

 

CATÁSTROFES DO SEGUNDO GRAU

5 — COLISÕES COM O SOL

 

CONSEQÜÊNCIAS DE CONTATOS IMEDIATOS

 

Ter-se-ia a impressão de que a catástrofe do primeiro grau mais provável e inevitável é o advento do próximo ovo cósmico, dentro de aproximadamente 1 trilhão de anos. Entretanto, a discussão acerca dos buracos negros demonstrou que catástrofes locais poderiam extinguir determinados lugares antes de o período de 1 trilhão de anos se completar.

Portanto, é chegada a hora de se considerar a possibilidade de uma catástrofe local fazer com que o sistema solar se torne inabitável, eliminando, assim, a possibilidade da existência humana, mesmo enquanto o restante do universo permanece intato.

Isso seria uma catástrofe do segundo grau.

Antes de Copérnico, parecia óbvio que a Terra era o centro imóvel do universo, em torno do qual tudo girava. Pensava-se que as estrelas, em especial, eram fixas em um tipo de esfera que demarcava o fim do céu e que, por assim dizer, giravam a um só tempo em torno da Terra durante 24 horas.

Referia-se às estrelas como sendo “estrelas fixas”, para diferenciá-las de outros corpos mais próximos como o Sol, a Lua, os planetas, que giravam independentemente.

Mesmo depois que o sistema copernicano alijou a Terra de sua posição central, a concepção que se tinha das estrelas permaneceu a mesma, por uns tempos. Elas continuavam sendo os mesmos objetos imóveis, brilhantes e fixos em uma esfera externa, enquanto o Sol era o centro da mesma esfera e os vários planetas, inclusive a Terra, o circundavam.

Entretanto, em 1718, o astrônomo inglês Edmund Halley (1656-1742), ao registrar a posição das estrelas, observou que pelo menos três delas — Sírius, Prócion e Arcturo — não se encontravam nos pontos registrados pelos gregos. A diferença era sensível; os gregos não poderiam ter cometido erro tão crasso. Parecia claro para Halley que essas estrelas haviam se movido em relação às outras. Desde então, um crescente número de estrelas tem apresentado esse “movimento próprio”, à medida em que os instrumentos dos astrônomos ficam mais sensíveis à captação desses movimentos.

É claro que, se várias estrelas se movem pelo espaço com a mesma velocidade, a mudança de posição de uma estrela distante parece menor, a nossos olhos, que a mudança de uma estrela próxima. (A experiência nos ensinou que um avião lá no alto parece voar mais devagar que outro avião cá embaixo.) As estrelas estão tão longe que só as mais próximas apresentam um movimento próprio perceptível; a partir daí, parece lógico concluir que todas as estrelas se movem.

Naturalmente, o movimento próprio de uma estrela é simplesmente seu movimento através de nosso campo de visão. Uma estrela também poderia estar se movendo na nossa direção, aproximando-se, ou afastando-se, movimento este que não nos pareceria um movimento próprio. Na verdade, ela poderia estar se movendo totalmente na vertical, de modo que nenhum movimento seria acusado em nosso campo de visão, embora ela até pudesse estar perto de nós.

Felizmente, graças ao efeito Doppler-Fizeau, descrito anteriormente, a velocidade de aproximação ou afastamento pode ser determinada; a “velocidade espacial” tridimensional, pelo menos das estrelas mais próximas, pode ser calculada.

E por que o Sol também não se move?

Em 1783, o astrônomo anglo-germânico William Herschel (1738-1822) estudou os movimentos próprios conhecidos na época. Parecia que as estrelas em um dos hemisférios celestes tendiam a se afastar umas das outras.

No outro hemisfério, tendiam a se aproximar. Herschel decidiu que o modo mais lógico de se explicar o fenômeno era supor que o Sol se movia numa determinada direção rumo à constelação de Hércules. As estrelas de que nos aproximávamos pareciam afastar-se e as que ficavam atrás de nós se aproximavam.

Quando os objetos celestes se movem pelo espaço, é bastante provável que um se mova em torno do outro — se estiverem próximos a ponto de seus campos gravitacionais sofrerem influências mútuas. Desse modo, a Lua gira em torno da Terra, enquanto a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol. Da mesma forma, uma estrela de um sistema binário gira em torno da outra.

Se, no entanto, os objetos estão distanciados uns dos outros e não há um objeto que, por sua enorme massa, predomine sobre todos os outros (como o Sol predomina sobre todos os corpos menores do sistema solar), os movimentos não são uma simples circulação de um objeto ao redor do outro.

Em vez disso, parece que haveria um movimento quase que ao acaso, como o de abelhas num enxame. Durante todo o século XIX, parecia que tal movimento caracterizava as estrelas à nossa volta e, naquele tempo, não parecia ilógico supor-se que, nesses movimentos aleatórios, uma estrela poderia muito bem colidir com outra.

De fato, em 1880, o astrônomo inglês Alexander William Bickerton (1842-1929) sugeriu que essa poderia ter sido a forma como o sistema solar surgiu. Há muito tempo, pensou Bickerton, uma estrela passara pelo Sol e, por efeito gravitacional de um sobre o outro, algum material de ambos foi retirado, mais tarde condensando-se em planetas. As duas estrelas haviam se aproximado como corpos isolados e tinham partido, cada uma, com as origens de um sistema planetário. Esse era um dramático exemplo do que só se poderia descrever como uma violentação cósmica. Esta “teoria catastrófica” da origem do sistema solar foi mais ou menos aceita pelos astrônomos, com algumas modificações, durante mais de meio século.

Fica claro que, ao passo que tal catástrofe poderia assinalar o início do mundo para nós, se repetida, marcaria o fim catastrófico dele. Outra aproximação igual entre uma estrela e o Sol sujeitar-nos-ia, por muito tempo, ao crescente calor de uma segunda luminária próxima, enquanto o Sol se desestabilizaria de um modo ou de outro, pelo crescente efeito gravitacional sobre nós. Esse mesmo efeito produziria distúrbios progressivamente sérios na órbita da Terra. Parece muito improvável que a vida pudesse suportar os enormes efeitos disso, nas condições da superfície terrestre.

Qual a probabilidade, então, de tal colisão acontecer?

Nenhuma. Com efeito, uma das razões por que a teoria catastrófica da origem do sistema solar não vingou é que ela implicava um evento improvável. Nos arredores da galáxia, onde estamos situados, as estrelas estão tão separadas e se movem tão devagar, comparado às imensas distâncias que as separam, que é mesmo difícil imaginar uma colisão.

Consideremos a Alfa de Centauro, a estrela mais próxíma de nós {17}. Ela está a uma distância de 4,4 anos-luz de nós, e está se aproximando mais. A sua trajetória não é em linha reta, pois move-se também de lado. O resultado é que, um dia, ela chegará à distância de 3 anos-luz daqui, ponto em que nos ultrapassará (sem se aproximar a ponto de nos afetar significativamente) e começará a retroceder.

Suponhamos que ela estivesse se aproximando em linha reta. A Alfa de Centauro se desloca pelo espaço com uma velocidade de 37 quilômetros por segundo. Se estivesse rumando diretamente em nossa direção, passaria pelo sistema solar daqui a 35 000 anos.

Por outro lado, suponhamos que a Alfa de Centauro estivesse se dirigindo a um ponto que distasse do Sol um arco de 15 minutos, distância que seria equivalente à metade da largura da Lua, tal como ela nos aparece.

Isso seria o mesmo que supor que estivéssemos tentando alvejar o centro do círculo lunar, mas errássemos e atingíssimos a Lua só de raspão. Se a pontaria da Alfa de Centauro não fosse melhor que isso, ela deixaria de nos atingir por 1/50 de ano-luz ou, aproximadamente, 180 bilhões de quilômetros. Isso seria trinta vezes a distância entre Plutão e o Sol. A Alfa de Centauro seria, então, uma estrela extraordinariamente brilhante, mas seus efeitos na Terra, a essa distância, seriam imperceptíveis.

Vejamos um outro modo de abordar o fenômeno. A distância média entre as estrelas em nossa porção da galáxia é de 7,6 anos-luz. A velocidade média a que elas se movem umas em relação às outras é de aproximadamente 100 quilômetros por segundo.

Vamos reduzir anos-luz a quilômetros e imaginar que as estrelas meçam 1/10 de milímetro de largura (guardadas as proporções reais). Essas minúsculas estrelas, mais parecidas com grânulos apenas visíveis, estariam distribuídas com uma distância média de separação de 7,6 quilômetros. Se vistas em um campo bidimensional, haveria catorze delas espalhadas pela área dos cinco bairros de Nova York.

Cada uma se movimentaria a uma velocidade (proporcionalmente reduzida) de 30 centímetros por ano. Imaginemos só esses catorze granulozinhos espalhados pelos cinco bairros e movendo-se 30 centímetros por ano em direções ao acaso, e perguntemo-nos qual a probabilidade de duas delas colidirem.

Calculou-se, para os arredores da galáxia, que a probabilidade de aproximação de duas estrelas é da ordem de uma em cada 5 milhões, durante os 15 bilhões de anos de vida da galáxia. Isso significa que, mesmo em 1 trilhão de anos antes do próximo ovo cósmico, há apenas uma probabilidade em 80 000 de que uma estrela se aproxime da nossa. Esse tipo de catástrofe do segundo grau é muito menos provável do que qualquer catástrofe do primeiro grau — o que invalida quaisquer motivos de preocupação.