Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 54 de 68

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Escolha a Catástrofe

Guerras

Sob essas condições, levar-se-iam diversos séculos para se atravessar o espaço entre as civilizações (mesmo entre as mais próximas), não parecendo, pois, provável que grandes expedições de conquista seriam enviadas.

Poderíamos argumentar que as civilizações, uma vez suficientemente avançadas poderiam se expandir pelo espaço, construindo comunidades autosuficientes e isoladas — como um dia talvez o façam os seres humanos.

Essas comunidades espaciais podem posteriormente ser equipadas com mecanismos de propulsão, engajando-se em viagens através do espaço. É possível que haja no universo comunidades espaciais desse tipo contendo indivíduos de centenas, ou milhares, ou até milhões de civilizações diferentes.

Tais comunidades errantes, todavia, podem muito bem estar tão aclimatadas no espaço quanto algumas formas de vida emersas dos oceanos terrestres que se aclimataram na terra. Para os organismos das colônias espaciais, pode ser tão difícil aterrar numa superfície planetária quanto seria para o homem atirar-se num abismo. A Terra pode, ocasionalmente, ser observada lá do espaço, e podemos imaginar sondas automáticas sendo enviadas em direção à nossa atmosfera — mas nada mais que isso.

Grosso modo, pois, ao passo que a ficção científica vem freqüente e dramaticamente lidando

com os temas de invasão e conquista por seres extraterrenos, é improvável que isso nos ofereça qualquer possibilidade correta de catástrofe em qualquer época de futuro previsível.

E, obviamente, se continuarmos a sobreviver e se nossa civilização tecnológica continuar a se desenvolver, tornar-nos-emos progressivamente mais capazes de nos defender de intrusos.

 

GUERRAS

 

Isso coloca a humanidade face a face com a única espécie inteligente, se tiver que se preocupar em termos de perigo: a própria humanidade. E isso pode bastar. Se a espécie humana está para ser completamente dizimada numa catástrofe do quarto grau, é a própria humanidade que pode fazê-lo.

Todas as espécies competem entre si por causa de alimento, sexo e segurança; sempre há brigas e lutas quando estas necessidades não são satisfeitas a nível de mais de um indivíduo. Normalmente as brigas não culminam com a morte, porque o indivíduo que leva a pior em geral foge e o vencedor geralmente se satisfaz com a vitória parcial.

Onde não há um alto nível de inteligência, não há consciência de outra coisa além do presente, nem clara presciência do valor de se prevenir uma futura competição, nem memória precisa de afrontas ou prejuízos passados. Inevitavelmente, à medida em que aumenta a inteligência, a previsibilidade e a memória melhoram, e chega um ponto em que o vencedor não mais se satisfaz com a vitória imediata, passando a antecipar a vantagem de dar fim ao perdedor, prevenindo, assim, um futuro desafio. Da mesma forma, chega um ponto em que o perdedor fugitivo começa a buscar a revanche e, se fica claro que um simples combate corpo-a-corpo significará outra derrocada, passa a procurar outros meios de vencer, como a emboscada ou a reunião de aliados.

Em resumo, os seres humanos inevitavelmente chegam até a fazer guerras, não porque nossa espécie seja mais violenta que as outras, mas porque é mais inteligente.

É claro que, enquanto os homens eram compelidos a lutar somente com unhas, punhos, pernas e dentes, pouco se podia esperar na linha de resultados mortais. De modo geral, tudo o que podia ser infligido eram lacerações e contusões, e a luta até podia ser vista como um exercício saudável.

O problema é que, quando os seres humanos se tornaram mais inteligentes para planejar lutas (com o auxílio da memória e da previsibilidade), eles já tinham desenvolvido a capacidade de utilizar instrumentos. Assim que os guerreiros começaram a brandir clavas, empunhar machados de pedra e atirar lanças e flechas com pontas de pedra, as batalhas se tornaram cada vez mais sangrentas. O desenvolvimento da metalurgia tornou as coisas ainda piores, substituindo a pedra pelo duro e rijo bronze, seguindo-se o ainda mais duro e rijo ferro.

Todavia, enquanto a humanidade consistia em bandos nômades de coletores de comida e caçadores, os entrechoques certamente teriam sido breves, com um lado ou outro interrompendo-os e fugindo quando os danos alcançassem um nível inadmissivelmente alto. Nem se cogitava de conquistas permanentes, pois o chão não valia a conquista. Nenhum grupo de seres humanos podia se manter por muito tempo num dado lugar; havia sempre a necessidade de vaguear em busca de novas e relativamente intocadas fontes alimentares.

Uma mudança fundamental veio em pelo menos 7 000 a.C, quando as geleiras da mais recente era glacial estavam recuando uniformemente e os homens ainda usavam a pedra para seus utensílios. Naquela época, em diversos lugares do Oriente Médio (e, por fim, também em todos os outros lugares), os seres humanos estavam aprendendo a armazenar comida para uso futuro e até a providenciar a futura criação de alimento.

Isso era feito por meio da domesticação e do cuidado para com rebanhos de animais como carneiros, cabras, porcos, vacas, bois e galinhas, e da utilização deles para a obtenção de lã, leite, ovos e, naturalmente, carne.

Se apropriadamente manejados, não havia possibilidade de se esgotarem, porque podia-se confiar em que os animais reproduziriam seus próprios substitutos a uma taxa, se necessário, superior à de seu consumo. Dessa maneira, o alimento não-comestível ou inapetecível aos seres humanos podia ser usado para alimentar animais que fossem comida desejável, pelo menos potencialmente.

Ainda mais importante era o desenvolvimento da agricultura, a plantação planejada de cereais, verduras e árvores frutíferas. Isso possibilitou a obtenção de determinadas variedades de alimentos em maiores concentrações do que as encontradas na natureza.

O resultado do desenvolvimento da pecuária e agricultura foi a capacitação dos seres humanos no sustento de uma maior densidade populacional do que fora possível antes. Nas regiões onde esse avanço se deu aconteceram explosões demográficas.

Um segundo resultado foi que a sociedade se tornou sedentária. Não se podiam deslocar os rebanhos tão facilmente quanto as tribos humanas; o problema crucial, porém, era a agricultura. Fazendas não podiam ser transportadas. Os bens materiais e a terra revestiram-se de importância, fazendo aumentar sensivelmente o valor do status social graças à acumulação de posses.

Um terceiro resultado foi a crescente necessidade de cooperação e o desenvolvimento da especialização. Uma tribo de caçadores é autosuficiente e seu grau de especialização é baixo. Uma comunidade de fazendeiros pode ser forçada a construir e manter canais de irrigação e a montar guarda para impedir que os rebanhos se dispersem ou sejam roubados por predadores (humanos ou animais). Um cavador de canais ou um pastor dispõem de pouco tempo para outras atividades, mas podem permutar seu trabalho por comida e outras necessidades.

Infelizmente, a cooperação não necessariamente surge de bom grado, e algumas atividades são mais árduas e menos desejáveis que outras. A forma mais fácil de se lidar com esse problema é um grupo de seres humanos atacar outro e, por matar alguns membros, forçar os demais a executarem todo o trabalho desagradável. E os perdedores não podem fugir facilmente, presos como estão a suas fazendas e rebanhos.

Com a eterna ameaça do ataque a permear suas vidas, fazendeiros e vaqueiros começaram a se reunir e cercar a si mesmos com o intuito de se protegerem. O surgimento dessas cidades muradas marca o início da “civilização” — que vem da palavra latina para “habitante de cidade”.

Por volta de 3500 a.C, as cidades haviam se transformado em organizações sociais complexas contendo várias pessoas que nem trabalhavam na lavoura nem na pecuária, mas que desempenhavam funções necessárias para fazendeiros e vaqueiros, como as de soldados profissionais, artesãos e artistas, ou administradores. Nessa época, o uso de metais estava sendo introduzido, e logo após 3000 a.C. surgia a escrita no Oriente Médio: um sistema organizado de símbolos que registraria as diferentes informações por períodos mais longos e com menor probabilidade de distorção do que os registros mnêmicos. Com isso teve início o período histórico.

Uma vez firmados os estabelecimentos citadinos, cada um deles controlando o território circundante destinado à agricultura e à pecuária (as “cidades-Estado”), as batalhas de conquista se tornaram mais organizadas, mais mortais e inevitáveis.

As primeiras cidades-Estado foram edificadas ao longo de cursos d’água. O rio oferecia um meio fácil de comunicação para as trocas e uma fonte de água para a irrigação, que assegurava o desenvolvimento pleno da agricultura. O fato de diferentes afluentes do rio serem controlados por distintas cidades-Estado, cada uma sempre suspeitando da outra e em geral abertamente hostis, prejudicava seu uso tanto para a comunicação como para a irrigação. Claramente, fazia-se necessário, para o bem-estar comum, que o rio ficasse sob o controle de uma única unidade política.

A questão era: qual a cidade-Estado que deveria exercer esse domínio? Isso porque, pelo que se sabe, a idéia de uma união federativa com todas as partes compartilhando o processo decisório jamais ocorreu a ninguém e, provavelmente, não teria sido uma linha de procedimento praticável na época. A decisão de qual cidade-Estado teria o poder geralmente era deixada aos desígnios da guerra.

O primeiro indivíduo de quem se tem notícia por ter governado uma considerável extensão de rio como conseqüência de uma história anterior do que pode ter sido uma conquista militar foi o monarca egípcio Narmer (conhecido por Menes entre os gregos). Narmer fundou a primeira dinastia em aproximadamente 2850 a.C. e dominou toda a parte baixa do vale do Nilo. Não dispomos, contudo, de registros fidedignos de suas conquistas, sendo bem possível que seu domínio unificado tenha sido o resultado de herança ou diplomacia.

Sem sombra de dúvida, o primeiro conquistador, o primeiro homem a chegar ao poder e, aí, numa sucessão de batalhas, estabelecer seu domínio sobre uma extensa área foi Sargão, da cidade sumeriana de Agade. Ele elevou-se ao poder pelos idos de 2334 a.C, sendo que, antes de sua morte, em 2305 a.C, firmara-se no controle de todo o vale do Tigre-Eufrates. Já que, aparentemente, os seres humanos sempre valorizaram e admiraram a capacidade de vencer batalhas, ele é às vezes conhecido como Sargão, o Grande.

Em 2500 a.C, a civilização estava já bem estabelecida em quatro vales de rios da África e da Ásia: o do Nilo, no Egito; o do Tigre-Eufrates, no Iraque; o do Indo, no Paquistão; e o do Huang-ho, na China.

De lá, por intermédio de conquistas e do comércio, a área ocupada pela civilização foi constantemente se alargando até que, pelo ano 200 d.C, ela se estendia do oceano Atlântico ao oceano Pacífico quase que por inteiro, de oeste a leste, abrangendo os litorais norte e sul do Mediterrâneo e porções do sul e leste asiáticos. Isso representa uma extensão no eixo leste— oeste de algo como 13 000 quilômetros e, no eixo norte—sul, de 800 a 1 600 quilômetros. A área total da civilização deve ter sido, naquele tempo, de 10 milhões de quilômetros quadrados, cerca de 1/12 da área do planeta coberta por terra.

Mais: com o tempo, as unidades políticas tenderam a crescer, à medida em que os seres humanos evoluíram em sua tecnologia e se capacitavam mais em transportar a si mesmos e aos bens materiais para lugares mais distantes. Em 200 d.C, a porção civilizada do mundo foi dividida em quatro unidades principais de tamanhos aproximadamente iguais.

No extremo ocidente, circundando o mar Mediterrâneo, ficava o Império Romano. Ele atingiu sua extensão física máxima em 116 d.C, ficando praticamente intato até o ano 400. A leste dele e se estendendo até a região compreendida atualmente pelo Iraque, o Irã e o Afeganistão, estava o Império Neopersa, que, em 226, fortaleceu-se com a ascensão ao poder de Ardachir I, o fundador da dinastia Sassânida. A Pérsia atingiu o apogeu em termos de prosperidade com Cósroes I, em aproximadamente 550, e teve um brevíssimo tempo máximo de ocupação territorial em 620, com Cósroes II.

A sudeste da Pérsia ficava a Índia, que quase fora unificada sob Asoka, em aproximadamente 250 a.C, e se fortalecera novamente sob a dinastia Gupta, elevada ao poder por volta de 320. Finalmente, a leste da Índia ficava a China, poderosa entre 200 a.C. e 200 d.C, sob a dinastia Han.