Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 16 de 68

Páginas do PDF

Escolha a Catástrofe

Rotação em Torno do Núcleo Galáctico

De qualquer modo, graças ao nosso atual conhecimento astronômico (sem contar com avanços futuros) seríamos avisados com antecedência caso houvesse uma possível colisão. As catástrofes, quando ocorrem, são muito mais perigosas quando surgem repentina e inesperadamente, sem nos permitir contra-atacar. Embora uma colisão estelar nos pegasse de surpresa agora, mesmo que tivéssemos sido notificados há milhares de anos, o mesmo pode não ocorrer no futuro (conforme explicarei adiante); de hoje em diante, podemos esperar que o aviso chegue com bastante tempo hábil para nos prepararmos a fim de evitar ou superar a ocorrência.

Por essas razões — a pouca probabilidade de que venha a ocorrer e o aviso com grande antecedência —, não tem sentido preocuparmo-nos com esta catástrofe em especial.

Note-se, de passagem, que não interessa que essa estrela invasora seja um buraco negro ou não. A destruição causada por um buraco negro não seria nem mais nem menos eficaz que a provocada por uma estrela comum.

Apesar disso, um buraco negro cuja massa fosse cem vezes maior que a do Sol poderia executar essa tarefa a uma distância dez vezes maior que a de uma estrela comum; assim, a precisão com que viesse a nos arrebatar não precisaria ser tão aguçada.

Entretanto, os buracos negros de grandes dimensões são tão raros que a probabilidade de sofrermos uma catástrofe causada por eles é milhões de vezes menor que a mínima probabilidade de o mesmo ocorrer por causa de uma estrela comum.

Com certeza, há outros objetos, além de estrelas, com possibilidades de uma aproximação catastrófica; tais objetos, em alguns casos, podem chegar sem mandar avisos. Voltaremos a esses casos no momento próprio.

 

ROTAÇÃO EM TORNO DO NÚCLEO GALÁCTICO

 

A improbabilidade de um encontro catastrófico do Sol com outra estrela tem uma de suas bases no fato de que as estrelas em nossa vizinhanças não se movem ao acaso como abelhas em um enxame. Talvez encontremos esse movimento aleatório no centro da galáxia ou no centro de uma aglomerado globular, mas não aqui.

Nos arredores da galáxia, a situação mais se parece com a do sistema solar. O núcleo galáctico, que cobre uma pequena área central da galáxia, tem uma massa dezenas de bilhões de vezes maior que a do Sol. Parte dela, logicamente, poderia ser o buraco negro central, desde que ele exista. Seu núcleo, agindo como um todo, funciona como o “sol” da galáxia.

Os bilhões de estrelas que compõem os arredores galácticos circundam o núcleo galáctico em órbita tal como os planetas circundam o Sol. O Sol, por exemplo, situado a 32 000 anos-luz do centro galáctico, circunda esse centro numa órbita aproximadamente circular, com velocidade de 250 quilômetros por segundo; uma translação completa dura aproximadamente 200 milhões de anos. Como o Sol se formou há mais ou menos 5 bilhões de anos, isso significa que ele já completou 24 ou 25 voltas em torno do centro galáctico, caso sua órbita tenha permanecido a mesma o tempo todo.

Naturalmente, as estrelas mais próximas ao centro galáctico movem-se mais rapidamente e completam a translação em menos tempo. Elas chegam a se aproximar de nós, mas passam, presumivelmente, a uma distância segura, para então retrocederem. Da mesma forma, as estrelas mais distantes do centro movem-se mais devagar e demoram mais tempo para completar a volta. Ao passarmos por elas, parecem aproximar-se, mas quando as ultrapassamos (presumivelmente a uma distância segura), elas retrocedem.

Se todas as estrelas se movessem em órbitas mais ou menos circulares, aproximadamente no mesmo plano, e com diferentes distâncias do eixo de translação (como ocorre com os planetas do sistema solar), jamais haveria uma colisão, ou mesmo uma quase-colisão. Aliás, no curso histórico de 15 bilhões de anos, as estrelas parecem ter-se organizado desse jeito, de modo que os arredores galácticos formam um anel chato (dentro do qual as estrelas estão distribuídas em um conjunto de estruturas espiraladas), cujo plano passa pelo centro do núcleo galáctico. A eficácia desse arranjo é demonstrada pelo fato de que o Sol completou 25 circuitos orbitários sem que indícios de desastres tenham sido registrados nos anais geológicos da Terra.

No entanto, há apenas nove grandes planetas no sistema solar, enquanto os arredores da galáxia se compõem de bilhões de grandes estrelas.

Apesar de a maioria das estrelas apresentar um comportamento orbitário regular, uma pequena porcentagem de dissidentes indica um bom número de estrelas cujas órbitas são problemáticas.

Algumas estrelas têm órbitas elípticas. Talvez a órbita de uma dessas estrelas se aproxime da nossa e, em determinado ponto, encontre-se pouco distante dela; pode ser, também, que toda vez que o Sol se encontre no ponto de tangência, a outra estrela esteja longe, e vice-versa. Mais cedo ou mais tarde, seria inevitável que o Sol e a outra estrela atingissem o ponto de tangência ao mesmo tempo e sofressem um encontro — mas isso só poderia acontecer daqui a muito tempo.

O pior é que as órbitas não permanecem constantes.

Quando duas estrelas se aproximam um pouco, aproximação esta insuficiente para desvirtuar o sistema planetário delas, o efeito gravitacional mútuo pode alterar um pouco a órbita de uma e de outra. Mesmo que o Sol não esteja envolvido nessa aproximação, ele pode ser afetado. Duas outras estrelas podem estar sofrendo o mesmo processo do outro lado da galáxia, por exemplo, e uma delas pode ter sua órbita alterada (ou “perturbada”) de tal modo que seu potencial de aproximação do sistema solar aumente.

O inverso também é verdadeiro, naturalmente. Uma estrela que se aproxime demais do sistema solar pode desviar sua órbita e distanciar-se de nós.

As órbitas elípticas apresentam outro problema interessante. Uma estrela, cuja órbita seja elíptica, pode se encontrar em nossa parte da galáxia agora. Pode ser, porém, que, dentro de centenas de milhões de anos, ela tenha se locomovido para a outra ponta de sua órbita, a uma distância muito maior do núcleo galáctico. Esta órbita elíptica, na qual a presente posição da estrela em nossa vizinhança é a mais próxima do núcleo galáctico, não é perigosa. Pouco ou nada vai acontecer com ela ali.

Por outro lado, uma órbita elíptica pode colocar uma estrela, nossa vizinha, em seu ponto mais distante. Daqui a 100 milhões de anos, ela pode mergulhar mais fundo na galáxia e aproximar-se mais ainda do núcleo galáctico. Isso seria um problema sério.

À medida em que as estrelas se aproximam do núcleo, o que implica órbitas menos regulares e estáveis, a distribuição estelar fica mais compacta.

O movimento para dentro aumenta a probabilidade de uma perturbação. A colisão na área central permanece como uma probabilidade remota, mas é sensivelmente maior que nos arredores. A probabilidade de uma aproximação que permita um deslocamento orbitário aumenta e torna-se gradualmente perceptível.

Pode acontecer que todas as estrelas periféricas, cujas órbitas elípticas aproximem-nas do núcleo, apareçam com sua órbita alterada. Essa nova órbita, se não era perigosa antes, pode sê-lo agora (ou vice-versa, é lógico).

Na verdade, uma perturbação dessas poderia nos afetar diretamente.

Já apresentei o caso de uma estrela passando por nós a uma distância equivalente a trinta vezes a distância entre o Sol e Plutão, o planeta mais longínquo. Disse que seu efeito sobre nós seria imperceptível. Não nos afetaria, no sentido de que as interferências do Sol ou as condições ambientais, sobre a Terra, não sofreriam conseqüências sérias. O oposto seria verdadeiro, caso ela passasse a uma distância de 1 ano-luz.

Apesar disso, uma estrela que passa pode não estar próxima de nós a ponto de causar problemas em razào do excesso de calor; ao mesmo tempo, pode ser que ela retarde ligeiramente o deslocamento do Sol em torno do centro galáctico. Neste caso, a órbita quase circular do Sol pode se tornar mais elíptica e avançar mais que nunca rumo ao núcleo galáctico, o que jamais ocorreu em suas últimas 24 translações.

Aproximando-se do núcleo galáctico, aumenta a probabilidade de uma irregularidade mais séria, o que pode levar a mudanças mais radicais. Por um infeliz acaso, pode acontecer que a órbita solar nos leve à região mais interna da galáxia, dentro de 1 bilhão de anos, digamos. Se isso ocorrer, o campo de radiação pode se fortalecer e eliminar toda forma de vida. Contudo, tal probabilidade é mínima — é o caso de uma possibilidade em 80 000, o que vale para o próximo trilhão de anos.

Essa probabilidade de um em 80 000 durante 1 trilhão de anos refere-se a estrelas vistas isoladamente. O que dizer dos aglomerados globulares?

Estes não se situam no plano galáctico, mas distribuem-se em torno do núcleo galáctico, formando uma esfera. Todo aglomerado globular translada em torno do núcleo galáctico, mas seu plano de translação, em relação ao plano galáctico, apresenta uma grande inclinação. Se um aglomerado globular encontra-se bem acima do plano galáctico, ao percorrer sua órbita, descerá inclinado, ultrapassará o plano galáctico, chegará até mais abaixo, e então subirá inclinado até atravessar novamente o plano galáctico e colocar-se onde se encontra agora.

Se a distância de um aglomerado globular até o núcleo galáctico é idêntica à nossa, isso quer dizer que uma vez em 100 milhões de anos ele atravessará o plano galáctico. Caso a distância seja menor ou maior, o intervalo também será respectivamente menor ou maior. Como há cerca de duzentos aglomerados, espera-se que um aglomerado qualquer atravesse o plano galáctico uma vez a cada 500 000 anos em média, caso a distância entre o núcleo galáctico e os aglomerados globulares seja a mesma do sistema solar.