Escolha a Catástrofe
Educação
Como medidas preventivas anticoncepcionais existem vários métodos diferentes (cirúrgicos, mecânicos, químicos), todos bem conhecidos e exigindo apenas a precaução de serem usados inteligentemente. E há, além de tudo, variedades de atividades sexuais bem conhecidas que são plenamente apreciadas e praticadas e que não causam nenhum mal perceptível a seus praticantes e a ninguém mais, e que não apresentam a mínima possibilidade de provocar a concepção.
Não há, portanto, nenhuma dificuldade prática no rebaixar o coeficiente de natalidade — somente dificuldades sociais e psicológicas. A sociedade há muito se acostumou com um excesso de crianças (devido ao alto coeficiente de mortalidade entre elas), tanto que, em muitos lugares, a economia e, em quase todos os lugares, a psicologia individual dependem dele. Os anticoncepcionais são ferozmente combatidos por muitos grupos conservadores como sendo imorais e, tradicionalmente, ainda se considera uma bênção a possibilidade de uma família ter vários filhos.
O que acontecerá então? Sendo que a salvação é possível, será que a humanidade se exporá à catástrofe simplesmente por estar habituada a uma forma de pensamento antiquado? É bem capaz que isso seja exatamente o que pode vir a acontecer. E, no entanto, mais e mais pessoas (como eu, inclusive) vêm falando e escrevendo sobre o perigo populacional e sobre a visível destruição do meio ambiente provocada pela crescente humanidade e pelas crescentes demandas da população por mais comida, mais energia e mais conforto. Progressivamente, pois, líderes governamentais começam a reconhecer que nenhum problema pode ser solucionado enquanto o problema populacional não for resolvido e que todas as causas serão causas perdidas enquanto a população continuar a crescer. Resulta que vem surgindo um crescente apelo, sob uma ou outra forma, por um rebaixamento do coeficiente de natalidade. Isso é um sinal extraordinariamente esperançoso, pois nada é mais poderoso que a pressão social.
Aparentemente, à medida em que os anos 70 se encaminhavam para seu fim, o coeficiente de natalidade no mundo estava declinando, e a taxa de crescimento populacional caiu de 2 para 1,8 por cento. É claro que isso não basta, porque no momento atual qualquer aumento trará consigo uma inevitável catástrofe, se esse aumento continuar. De qualquer modo, o decréscimo aviva nossas esperanças.
Pode ser, então, que, embora a população continue a aumentar, o faça em grau decrescente, alcance um máximo de talvez 8 bilhões e então diminua. O processo criará bastantes problemas, mas é possível que a civilização suporte a tempestade e que a humanidade, bastante sofrida, ainda sobreviva, repare os estragos provocados na Terra e seu equilíbrio ecológico, e reconstrua uma cultura mais sábia e mais prática, baseada num número estável de habitantes mantido a um nível tolerável.
EDUCAÇÃO
Podemos, assim, visualizar um tempo — digamos, daqui a cem anos — em que o problema populacional será solucionado, a energia será barata e abundante, e a humanidade reciclará suas riquezas e se manterá em paz e serenidade. Certamente, então, todos os problemas estarão resolvidos e todas as catástrofes, evitadas.
Não necessariamente. Cada solução obtida compulsoriamente traz entremeados com a vitória seus próprios problemas. Um mundo em que a população é controlada é um mundo em que o coeficiente de natalidade é tão baixo quanto o de mortalidade; como, graças à medicina moderna, o coeficiente de mortalidade é hoje bem mais baixo que em qualquer época passada, assim deve ser ,o coeficiente de natalidade. Isso significa que numa base percentual haverá menos bebês e jovens do que antes, e um número superior de adultos e velhos. Na verdade, se imaginarmos que a tecnologia médica continuará a se desenvolver, o tempo de vida médio poderá continuar a aumentar. Isso significaria que o coeficiente de mortalidade continuaria a cair — e o coeficiente de natalidade teria que cair com ele.
O tipo de sociedade que devemos antever, então, se nos estiver reservado constituir uma população estável, é uma sociedade com uma crescente idade mediana. Testemunharemos, digamos assim, o “engrisalhamento da Terra”. Podemos mesmo ver isso acontecendo nas partes do mundo onde o coeficiente de natalidade caiu e a expectativa de vida aumentou — nos Estados Unidos, por exemplo.
Em 1900, quando a expectativa de vida nos Estados Unidos era de apenas quarenta anos, havia 3,1 milhões de pessoas com mais de 65 anos dentre um total de 77 milhões de habitantes (apenas 4 por cento). Em 1940, em uma população de 134 milhões, 9 milhões tinham mais de 65 anos (isso representava 6,7 por cento). Em 1970, dentre 208 milhões de habitantes dos Estados Unidos, contavam-se 20,2 milhões de pessoas com mais de 65 anos (10 por cento). No ano 2000, poder-se-á, talvez, contar 29 milhões de pessoas acima de 65 anos numa população de cerca de 240 milhões (12 por cento). Em cem anos, a população provavelmente terá mais que triplicado, ao passo que o número de seus representantes acima de 65 anos de idade terá quase se multiplicado por dez.
O efeito sobre a política e a economia americana é evidente. Os idosos são uma parte cada vez mais forte do eleitorado, e as instituições políticas e financeiras da nação devem se preocupar cada vez mais com pensões, previdência social, seguros médicos, e assim por diante.
Naturalmente, todos querem ter uma vida longa e todos querem ser bem cuidados quando envelhecerem; do ponto de vista da civilização como um todo, entretanto, poderia haver um problema aí. Se, como resultado da estabilização da população, desenvolvermos uma humanidade idosa, será que o espírito, a aventura e a imaginação dos jovens não minguariam e morreriam sob o conservadorismo fastidioso e a plenitude da idade? Será que o encargo da inovação e audácia não ficaria nas mãos de tão poucos que o peso morto dos velhos acabaria com a civilização? Será que a civilização, tendo escapado à morte pelo ímpeto de uma explosão demográfica, não se veria condenada à morte pela lamúria de uma população em decadência?
Mas será que a idade e o tédio estão necessariamente entrelaçados? A nossa é a primeira sociedade a tomar isso por verdade absoluta, por ser a primeira sociedade em que os idosos se tornaram supérfluos. Em sociedades semi-analfabetas que não mantinham registros escritos, os velhos eram os repositórios e guardiães das tradições, enciclopédias vivas, oráculos.
Atualmente, contudo, prescindimos das memórias dos velhos, pois temos formas bem melhores de manter registros. O resultado é que os idosos perdem sua função e seu poder sobre nós.
Antigamente, nas sociedades em que a tecnologia mudava vagarosamente, era com o velho artesão, rico em experiências e conhecimento, que contávamos: seus olhos experientes, o julgamento perspicaz e o bom serviço. Agora, a tecnologia muda rapidamente e é o formando universitário de olhar sagaz que queremos, esperando que ele ponha em prática as técnicas mais recentes. Para abrir caminho para ele, aposentamos compulsoriamente os velhos e, de novo, a idade perde sua função. E, à medida em que o número dos idosos sem função aumenta, eles realmente vão parecendo um peso morto. Mas tem que ser assim?
Vive-se hoje, em média, duas vezes mais que nossos ancestrais de um século e meio atrás. A longa vida, todavia, não é a única mudança. As pessoas hoje são mais saudáveis e fortes, em média, em qualquer idade, do que foram seus ancestrais na mesma idade.
As pessoas não só morriam jovens nos dias anteriores à medicina moderna; muitos deles também ficavam visivelmente velhos aos trinta anos.
Viver esse tanto, ou mais, significava ter que sobreviver a repetidos acometimentos de doenças infecciosas, que, agora, prevenimos ou curamos facilmente. Significava viver na base de dietas deficientes, quantitativa e qualitativamente. Não havia meios para se combater os males dos dentes ou infecções crônicas, nem modos de melhorar os efeitos de disfunções hormonais ou deficiências vitamínicas, nem modos de agir contra dúzias de outras incapacidades. Para completar o quadro, muitas pessoas tinham que se exaurir com
infindáveis trabalhos pesados hoje executados para nós por máquinas {67}.
Resulta que as pessoas idosas de hoje são vigorosas e jovens, comparadas às de mesma idade dos dias medievais da cavalaria e até dos pioneiros dos Estados Unidos.
Podemos supor que essa tendência para maximizar a saúde do velho continuará a agir no futuro se a civilização sobreviver e a tecnologia médica avançar. Os próprios conceitos de “juventude” e “velhice” poderão se tornar um tanto indistintos para a população estável que vier a se instalar. Mas, mesmo se a diferença física entre jovens e velhos diminuir, que pensar das diferenças mentais? Será que algo pode ser feito a respeito da estagnação da idade e sua incapacidade de aceitar mudanças criativas?
Porém, quanto dessa estagnação é criado pelas tradições de uma sociedade centrada na juventude? Apesar da gradual extensão do período de escolaridade, a educação continua a ser associada com a juventude e a apresentar um tipo de data limite. Persiste a forte crença de que há um tempo em que uma educação é completada e que esse tempo não se coloca tardiamente na vida do indivíduo.
Num certo sentido, isso imprime uma aura de desgraça à educação. A maioria dos jovens que se enfadam sob a disciplina formalizada pela escola e sob o aborrecimento de professores incompetentes não pode deixar de perceber que os adultos não precisam ir à escola. Certamente, deve parecer ao jovem rebelde que uma das recompensas da idade adulta é a de livrar-se dos grilhões educacionais. Para ele, o ideal de sair da infância é alcançar um estado em que nunca mais tenha que aprender qualquer coisa.
A natureza da educação de hoje inevitavelmente faz com que ela seja vista como o castigo da juventude, o que determina seu fracasso. O jovem que abandona a escola prematuramente para pegar qualquer serviço aparece aos olhos de seus colegas como alguém que recebeu um “diploma de adulto”.
Por outro lado, o adulto que tenta aprender alguma coisa nova geralmente é visto por muitos com certa hilaridade por estar como que traindo uma infantilidade íntima.
Ao equacionarmos a educação somente com a juventude e socialmente dificultarmos à pessoa média o acesso ao ensino após passados seus dias de escolaridade formal, asseguramos que a maior parte das pessoas é deixada com nada mais que a informação e as atitudes adquiridas na adolescência, e que são, depois disso, apenas vagamente recordadas — e aí reclamamos do tédio da velhice.
Essa falha da educação com respeito ao indivíduo pode ser obscurecida por outra falha que diz respeito à sociedade como um todo. Pode ser que toda a sociedade venha a ser forçada a parar de aprender. Será possível que o progresso do conhecimento humano seja forçado a parar simplesmente por causa de seu próprio êxito? Aprendemos tanto que ficanos difícil perceber o que necessitamos saber dentre todo o conhecimento possível, e essa informação pode ser crucial para a continuidade de nosso desenvolvimento. E, se a humanidade não mais conseguir continuar sua marcha rumo ao avanço científico e tecnológico, não estaremos impedidos de manter nossa civilização de pé? Será este um outro risco da vitória?
Poderíamos sintetizar o perigo dizendo que à soma total do conhecimento humano falta uma catalogação e que não há um método eficaz de recuperação da memória. Como corrigir isso a não ser por um sistema de memória suprahumano para servir como catálogo e um sistema de recuperação mais rápido que o humano para utilizar esse catálogo?
Em resumo, precisamos de um computador; há quase quarenta anos vimos desenvolvendo computadores melhores, mais rápidos, mais compactos e mais versáteis em ritmo aceleradíssimo. Essa tendência deve persistir se a civilização continuar mentalmente sã e, nesse caso, a computação do conhecimento será imprescindível. Cada vez mais informações serão gravadas em microfilmes e se tornarão mais acessíveis pelo computador.
Haverá uma tendência para centralizar informações, de modo que uma requisição de determinados itens pode usufruir dos recursos de todas as bibliotecas de uma região, ou de uma nação e, quem sabe, do mundo.
Finalmente, haverá o equivalente de uma Biblioteca Computada Global, na qual todo o conhecimento da humanidade será armazenado e de onde qualquer item desse total poderá ser retirado por requisição.
A maneira pela qual essa biblioteca seria utilizada não é mistério nenhum; a técnica para isso já está sendo elaborada. Já temos satélites de comunicação que possibilitam a ligação de quaisquer dois pontos do globo numa fração de segundo.
No entanto, os satélites de comunicação atuais dependem de ondas de rádio para essas interligações, e o número de canais possíveis de que eles dispõem é bastante limitado. Nas gerações futuras desses satélites, utilizar-se-á o laser, fazendo-se uso da luz visível e da radiação ultravioleta para as interconexões. (O primeiro laser foi construído recentemente, em 1960, pelo físico americano Theodore Harold Maiman (1927-).) Os comprimentos de onda de luz visível e radiação ultravioleta são milhões de vezes mais curtos que os das ondas de rádio; assim, os raios laser poderiam propiciar milhões de vezes o número de canais produzidos pelas ondas de rádio.
Chegaria um tempo, pois, em que a cada ser humano caberia um canal de televisão específico, ligado a uma saída de computador, que seria sua conexão com o conhecimento mundial total. O equivalente de um aparelho de televisão mostraria o material desenhado numa tela ou o reproduziria em filme ou papel — cotações do mercado de ações, notícias do dia, oportunidades de compra, um jornal ou partes dele, uma revista ou um livro.
A Biblioteca Computada Global seria essencial para estudiosos e pesquisadores, mas isso representaria uma fração minoritária de seu uso. Ela representaria uma enorme revolução na educação e, pela primeira vez, oferecer-nos-ia um esquema de educação verdadeiramente aberto a todas as pessoas de todas as idades.
No final das contas as pessoas querem aprender. Elas possuem um cérebro que pesa 1,5 quilo e que exige ocupação constante para impedir a dolorosa doença do tédio. Na falta de qualquer coisa melhor ou mais gratificante, ele pode ser preenchido pelas imagens sem propósito de programas de televisão de baixa qualidade ou pelos sons sem sentido de gravações de baixa qualidade.
Até esse material pobre é preferível a escolas tal como se constituem atualmente, onde os alunos são massificadamente obrigados a digerir certos assuntos estereotipados em certas velocidades ditadas, sem qualquer consideração pelo que o indivíduo deseja saber e pela velocidade de sua capacidade de absorção da informação.
Que tal, porém, se existisse um dispositivo na habitação de cada um, dispositivo esse que transmitiria a ele ou a ela exatamente a informação desejada: como fazer uma coleção de selos, como consertar cercas, como fazer pão, como fazer amor, detalhes das vidas privadas dos reis da Inglaterra, as regras do futebol americano, a história do teatro? Que tal se tudo isso fosse apresentado com interminável paciência, com interminável repetição, se necessário, e na hora e lugar escolhidos pelo aprendiz?
E se, tendo assimilado certo assunto, o aprendiz requisitasse algo mais avançado ou diverso? E se algum item da informação recebida despertasse um súbito e novo interesse, desviando completamente a atenção do aprendiz?
E por que não? Certamente cada vez mais pessoas seguiriam esse caminho fácil e natural de satisfazer suas curiosidades e necessidades de saber. E cada pessoa, à medida em que fosse educada segundo seus próprios interesses, poderia então começar a fazer suas contribuições. Aquele que tivesse um novo pensamento ou observação de qualquer tipo sobre qualquer campo, poderia apresentá-lo, e se ele ainda não constasse na biblioteca, seria mantido à espera de confirmação e, possivelmente, acabaria sendo incorporado. Cada pessoa seria simultaneamente um professor e um aprendiz.
Tendo a biblioteca suprema por máquina de ensinar suprema, será que o professor-aprendiz perderia toda a motivação para a interação humana?
Será que a civilização desenvolveria uma enorme comunidade de seres isolados, extinguindo a si própria dessa maneira?
Será? Nenhuma máquina de ensinar poderia substituir o contato humano em todas as áreas. Em atletismo, na oratória, nas artes dramáticas, nas explorações, na dança, na prática do sexo — nenhuma quantidade de material escrito substituiria a prática, embora a teoria pudesse aprimorá-la.
As pessoas ainda interagiriam — e com mais ardor e prazer, pois saberiam o que estariam fazendo.
De fato, podemos confiar em que cada ser humano possui um instinto missionário relacionado a qualquer assunto em que ele ou ela esteja ardentemente interessado(a). O entusiasta por xadrez tenta motivar o interesse dos outros por xadrez; o mesmo pode ser dito, analogamente, sobre pescadores, dançarinos, químicos, historiadores, corredores, antiquários e outros. O indivíduo que, lidando com a máquina de ensinar, descobre, por exemplo, o fascínio de tecer, ou da história do vestuário, ou de moedas romanas, provavelmente faria um esforço obstinado para encontrar outros de interesses afins.
E esse método de educação por computador certamente não se restringiria a determinada faixa etária. Ele poderia ser usado por qualquer um em qualquer idade, com novos interesses sendo despertados, talvez, aos sessenta anos, e outros se desvanecendo. O constante exercício da curiosidade e do pensamento manteria o cérebro tão maleável como o constante exercício físico mantém o corpo em forma. Terse-ia, assim, que o tédio não é condição sine qua non da idade avançada, pelo menos não tão cedo nem com tanta certeza.
O resultado bem poderia ser que, apesar do envelhecimento sem precedentes da população humana e da jamais vista sub-representação da juventude, o mundo da população estável seria um mundo de avanços tecnológicos rápidos e de uma incomparável intensidade de fecundação intelectual.
Mas será que mesmo a nova educação livre não poderia trazer riscos?
Com todo mundo livre para aprender o que ele ou ela deseja, será que quase todos não seguiriam o caminho das trivialidades? Quem aprenderia as coisas chatas e difíceis que são necessárias para dirigir o mundo?
No mundo de computadores do futuro, entretanto, são precisamente as coisas muito chatas que não mais precisariam ser de domínio dos seres humanos. A máquina automática se encarregaria delas. Aos seres humanos tocariam os aspectos criativos da mente, que constituiriam o domínio do prazer daqueles com eles envolvidos.
Sempre haverá quem se deleite com a matemática e a ciência, a política e os negócios, a pesquisa e o desenvolvimento. Estes ajudariam a “dirigir” o mundo, mas estariam fazendo isso com o mesmo prazer e desejo que leva outros a se ocuparem com criações arquitetônicas ou receitas culinárias.
Será que os dirigentes do mundo se enriqueceriam e oprimiriam os demais? Presumivelmente, isso continuaria sendo possível, mas pode-se torcer para que, num mundo adequadamente dotado de computadores, a probabilidade da corrupção seja pelo menos menor, e que se reconheça que o dirigir corretamente o mundo traz mais benefícios às pessoas em geral do que a corrupção e a desordem trazem para poucos.