Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 29 de 68

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Escolha a Catástrofe

8 - Redução do Movimento Terrestre

8 — REDUÇÃO DO MOVIMENTO

 

TERRESTRE

 

MARÉS

 

Como já disse, a possibilidade de uma catástrofe do terceiro grau — a destruição da Terra como um reduto para a vida por algum processo que não envolva o Sol — através de invasões do espaço além da órbita da Lua não é algo com que devamos nos preocupar. Isso é ou muito improvável ou não verdadeiramente catastrófico ou, em alguns casos, chega a ponto de se tornar evitável. Devemos então nos perguntar se existe qualquer coisa que possa produzir uma catástrofe do terceiro grau que não envolva objetos vindos de além do sistema Terra-Lua. Para começar, pois, devemos considerar a própria Lua.

Dentre todos os corpos celestes de bom tamanho, a Lua é, certamente, o mais próximo da Terra. A distância da Lua à Terra, de centro a centro, é de 384 404 quilômetros. Se a órbita lunar à volta da Terra fosse perfeitamente circular, essa seria sempre sua distância. No entanto, a órbita é levemente elíptica, de modo que a Lua pode chegar a distar apenas 354 394 quilômetros e retroceder até 406 678 quilômetros.

A Lua está a apenas um centésimo da distância de Vênus, quando este planeta está mais próximo da Terra; a só 1/140 da distância de Marte, quando mais próximo, e 1/390 da distância do Sol, também quando mais próximo daqui. Nenhum objeto maior que o asteróide Hermes (visto apenas uma vez), que com certeza não terá mais de 1 quilômetro de extensão, jamais chegou tão perto da Terra quanto a Lua.

Exemplificando a proximidade da Lua de outra maneira: ela é o único corpo celeste (até agora) próximo o suficiente para ser alcançado pelos seres humanos, de modo que podemos dizer que ela está a três dias de distância de nós. Chegar à Lua de foguete demora tanto quanto atravessar os Estados Unidos de trem.

Será que a extraordinária proximidade da Lua é em si um perigo? Será que ela pode, por alguma razão, cair e chocar-se contra a Terra? Se tal acontecesse, configurar-se-ia um quadro de calamidade muito mais grave do que qualquer colisão com um asteróide, pois a Lua é um corpo bastante grande. Ela tem um diâmetro de 3 476 quilômetros, um pouco mais de um quarto do da Terra. Sua massa corresponde a 1/81 da terrestre e a cinqüenta vezes a do maior asteróide conhecido.

Se a Lua caísse sobre a Terra, as conseqüências da colisão seriam com certeza fatais a toda a vida sobre nosso planeta. Ambos os astros se esmagariam no processo. Felizmente, como já disse de passagem no capítulo anterior, não há a mais remota possibilidade de isso ocorrer, exceto como parte de uma catástrofe ainda maior. O momento angular da Lua não pode ser anulado repentina e completamente de modo que ela caia, no sentido habitual da palavra, a não ser pela transferência para algum terceiro corpo relativamente grande aproximando-se bastante e vindo exatamente na direção certa e com a velocidade adequada. A probabilidade de isso acontecer é totalmente negligenciável; podemos, assim, afastar quaisquer receios de a Lua não permanecer em sua órbita.

Nem precisamos temer que algo aconteça à Lua envolvendo somente a ela mesma e, conseqüentemente, contendo os germes da catástrofe terrestre. Não há, por exemplo, a mínima possibilidade de a Lua explodir e sermos banhados com seus fragmentos. Geologicamente, a Lua está quase morta, e seu calor interno não basta para produzir quaisquer efeitos que modifiquem perceptivelmente sua estrutura ou mesmo sua superfície.

De fato, podemos seguramente admitir que a Lua permanecerá como é hoje, excetuando-se mudanças excessivamente vagarosas, e que seu corpo físico não nos oferecerá perigo até que o Sol se expanda e se transforme em gigante vermelha, quando tanto a Lua como a Terra serão destruídas.

Todavia, não é preciso que a Lua nos atinja por inteiro ou só com parte dela, para nos afetar. Ela exerce uma influência gravitacional através do espaço, e essa influência gravitacional é forte. Na verdade, essa força é apenas sobrepujada pela do Sol.

A influência gravitacional de qualquer objeto celeste sobre a Terra depende da massa desse objeto, e o Sol tem uma massa 27 milhões de vezes maior que a da Lua. Entretanto, a influência gravitacional também decresce proporcionalmente ao quadrado da distância. A distância do Sol à Terra é 390 vezes a da Lua (à Terra), e 390 X 390 =152 100. Se dividirmos 27.000.000 por isso, concluiremos que a atração gravitacional do Sol sobre a Terra é 178 vezes maior que a atração gravitacional da Lua sobre nós.

Embora a atração da Lua sobre a Terra seja apenas 0,56 por cento da solar, é ainda muito maior que qualquer outra força gravitacional sobre nós.

Comparando-se as forças de diferentes astros sobre o nosso planeta, a da Lua é 106 vezes maior que a de Júpiter, quando este se encontra no ponto mais próximo daqui, e 167 vezes a de Vênus, na mesma situação. A força gravitacional de outros objetos celestes sobre a Terra é ainda menor.

Será que a atração gravitacional da Lua sobre nós pode, então, ser o germe da catástrofe, já que é tão grande em comparação com as de todos os outros astros, à exceção do Sol? A resposta poderia, à primeira vista, parecer negativa, na medida em que a força gravitacional do Sol é muito maior que a da Lua. Já que o primeiro não causa problemas, por que a última deveria causá-los?

Isto seria verdadeiro se os objetos celestes reagissem a forças gravitacionais igualmente em todos os pontos — mas não é assim. Voltemos à análise dos efeitos das marés, mencionados anteriormente, e consideremos esse assunto em detalhe com respeito à Lua.

A superfície terrestre voltada para a Lua está a uma distância média de 378 026 quilômetros do centro da Lua. Quanto à superfície oposta, devido à espessura da Terra, ela dista do centro da Lua 390 782 quilômetros.

A força da atração gravitacional da Lua diminui proporcionalmente ao quadrado da distância. Assim, se se chamar 1 à distância do centro da Terra ao da Lua, então a distância da superfície terrestre diretamente voltada para a Lua será 0,983, e a distância da superfície exatamente oposta à Lua será 1,017.